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01 fevereiro 2016

Sem explicações


Quando era criança minha mãe tinha mania de me explicar tudo e minha abuelita não gostava e quando escutava minha mãe falando, já ia reclamar.
Um dia escutei quando minha mãe discutiu com minha abuelita e disse que era importante explicar as coisas, que criança precisa entender o que acontece ao seu redor e minha abuelita disse:

-Se você explicar tudo para esse menina ela vai crescer com a ideia de que as coisas têm explicação e como vai ser a vida dela, se o mundo não é assim? A gente tem que aprender a se posiciona sabendo que nem tudo que sentimos ou queremos têm explicação.

Mas minha mãe não quis nem saber e continuou me explicando e minha abuelita tinha razão, eu cresci com essa mania de querer explicar até o que eu sentia e isso me prejudicou demais, até em relação as pessoas.

Só hoje entendo o que minha abuelita dizia, não podemos explicar como vemos o mundo porque nem nós entendemos isso. E ela também dizia que ao falar alguma coisa que não podemos explicar arranjamos inimigos de graça, era melhor a certeza do que sentimos do que a dúvida da explicação.

E ela sempre contava uma história sobre isso, o irmão do meu avô, seu cunhado. Ele era um rapaz tímido que estudava medicina e se apaixonou por uma moça. Minha abuelita não gostou dela e cometeu o erro de dizer isso à família, que então pegou bronca com minha abuelita, ora, não gostava da moça por quê? Minha abuelita não soube o que dizer, apenas confirmou o dito, não gostava.

A família inteira ficou revoltada e virou a cara para minha abuelita, diziam que ela estava com ciúmes porque o cunhado era um rapaz muito prestativo e ajudava o irmão em muitas coisas, fazia muitos favores, ia ao supermercado, as lojas, então todos pensaram que minha abuelita no fundo estava reclamando da ausência do cunhado, que com namorada não estava mais tão disponível.

Minha abuelita diz que ficou remoendo a situação durante meses, não gostava da moça mas não sabia explicar o motivo, a moça ficou sabendo e também fechou a cara. A situação se arrastou por dez anos, foi o tempo que durou o namoro com o rapaz.

E durante todo esse tempo minha abuelita se culpava pelo o que sentia, se perguntava se não tinha sido dura demais com a moça, mas continuava sem gostar dela.

Um dia durante um jantar de Natal aconteceu uma coisa que definiu a situação, ou pelo menos minha abuelita dizia isso. Ela conta que a moça se ofereceu para tirar o peru do forno, estavam todos na casa da minha abuelita e falaram que tudo bem, ela poderia ir na cozinha e trazer à mesa. Mas depois que ela se levantou minha abuelita lembrou de alguma coisa e achou chato pedir à moça que trouxesse da cozinha, então ela se aproximou e viu quando a moça tirou a travessa com o peru do forno sem usar luvas. Minha abuelita se afastou em silêncio, mas entendeu o que tinha acontecido.

No México dizem que existem centenas de bruxas, de diferentes crenças e lugares, cada grupo é distinto do outro, mas existe um que é considerado perigoso, são ''bruxas más'', pessoas ligadas a rituais com o capiroto e que prejudicam a vida dos outros. E dizem que essas bruxas não sentem o calor, nem o fogo, são blindadas, por isso elas podem pegar uma travessa do forno com as mãos sem se queimarem. E minha abuelita dizia que tínhamos que prestar atenção a pessoas que resistem mais ao fogo do que o normal, gente que consegue pegar pratos ou objetos quentes, que ninguém mais aguentaria pegar, então esses são os bruxos ou bruxas ligadas ao capiroto.

A moça não percebeu minha abuelita na cozinha, ou pelo menos deu essa impressão, mas meses depois acabou o namoro. E minha abuelita disse que tinha certeza que tinha acabado porque ela deveria ter levado alguma coisa dele, esses bruxos quando se aproximam de uma pessoa sempre conseguem levar alguma parte deles.

E todos disseram novamente que minha abuelita dizia coisas que nem ela sabia o que eram, não tinha explicações para nada, até a sogra disse que ela ''cismava com tudo, parecia doida''.

Depois que a namorada foi embora o rapaz caiu em profunda depressão, nunca mais se levantou, largou a faculdade de medicina, começou a viver de uma mísera ajuda que uma irmã dava e não se recuperou. Todos disseram que foi depressão pelo fim do namoro, mas minha abuelita disse que a bruxa tinha roubado o ponto das orelhas e por isso ele estava assim. Ele ficou fechado em seu mundo, até o último dia, com o tempo foi desenvolvendo cada vez mais um comportamento errático, isolado, paranoico e só não morreu de fome e abandonado porque a família sempre o cuidou, mas ele nunca mais voltou a faculdade, nem trabalhou, não teve mais amigos nem amores, parecia que sua alma tinha sido levada para algum outro lugar.

E tudo porque parece que a bruxa mexeu no ponto da orelha dele.
O ponto da orelha fica próximo ao local onde as mulheres colocam os brincos. Eu nunca fui atrás dessa história, mas a minha abuelita dizia que por isso era importante furar as orelhas e colocar os brincos, porque quando alguém vê uma bebê com brincos não mexe nas orelhas dela, porque pode machucar, mas se a bebê não tem brincos as pessoas se aproximam e mexem nas orelhas, assim podem roubar ''a vontade'' da pessoa, que fica ali nessa altura de onde deveria estar o brinco.

Minha abuelita era muito dura com essa crença, sempre tentava nos pentear usando o cabelo para proteger as orelhas, dizia para não deixar ninguém estranho se aproximar e quando namorássemos não deixar Romeu morder nossa orelha.

E eu lembro ter ido a sessões de acupuntura para combater uma depressão e o acupunturista sempre colocava a agulha na altura que minha abuelita dizia, sempre me perguntei no fundo se tinha alguma coisa a ver, mas nunca corri atrás disso e não tenho mais vontade porque já entendi tudo o que minha abuelita dizia, nem tudo tem explicação e não temos que explicar tudo, vale o que estamos sentindo e ponto, se não gostamos de alguém, não gostamos, não adianta querer fazer uma tese de doutorado dissertando sobre isso.

As coisas são simples e não ter explicação não é sinal de nada, nem garantia, é apenas uma sensação.

Minha abuelita não gostava da namorada do cunhado, teve sorte que um dia percebeu que estava certa, mas isso custou dez anos de convivência e uma família inteira chamando ela de ''maluca que cisma com todos''.

Eu já não digo mais nada quando não gosto de alguém, não gosto e não gosto, pronto, não fico mais respondendo aquelas perguntas chatas ''mas não gosta por quê, te fez alguma coisa?'', ''você esta julgando sem conhecer, quer ser julgada assim também?''..........

Perdi uma grande amiga porque disse à ela que não gostava do seu namorado, não sabia o motivo, mas não gostava. Ela estava naquela fase de ''puro amor'' e cortou a amizade, mas com o tempo ele se revelou um babaca, controlador e possessivo, mesmo assim ela nunca mais me procurou.

E hoje me perguntaram sobre uma pessoa e eu disse ''ah, parece legal'', mas eu estava pensando ''não gostei e ponto''. Mas não falo nada para não me enrolar com a falta de explicação, até porque todos parecem amar essa pessoa. E também não me explico porque adoro mordidas de Romeu na minha orelha, mas eu gosto, Deus me livre da minha abuelita ficar sabendo disso. Mas mantenho meus olhos abertos com pessoas que podem segurar objetos quentes e sempre uso o cabelo cobrindo as orelhas e de resto não me explico mais, nem procuro explicações para o que estou sentindo, sempre lembro da minha abuelita dizendo '' tudo o que sentimos têm suas razões, mesmo que a gente não as conheça''.



Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Sabe, Iara. Tem um namorado de uma prima minha que também não fui com a cara...e pensei, caramba tem que ter uma explicação... foi um alivio ler seu post e mais uma vez sua abuelita é uma sábia...realmente tem coisas que não tem explicação (pelo menos aparente)...minha tia fica "tecendo" vários elogios ao rapaz, mas não gostei dele mesmo, estranho pois não sou assim...fazer o que, né? Só quero distância...pois minha intuição nunca falhou...Nota 10 para você e sua abuelita linda. Mônica

C.Belo disse...

Passo por isso direto.... Não vou dizer q nunca falhei nos meus julgamentos, mas na maioria das vezes sempre tem algo ali. É como diz o ditado, onde há fumaça, há fogo.

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