ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

17 fevereiro 2016

Se arrependeu de ser mãe? No Brasil até eu!


Quando a pessoa me diz  ''dinheiro não é tudo na vida'', não digo mais nada. Antes eu ficava revoltada, mas entendi que cada um tem sua leitura de dinheiro e nem sempre segue a lógica e ainda pesa a visão religiosa de cada um em relação ao dinheiro.

No meu caso digo sem vergonha, dinheiro é tudo porque ele faz ''tudo'' girar, sem ele não tem saúde nem amor. Se precisa de dinheiro para comprar boa comida e manter a saúde, se precisa de dinheiro para estar bem, viver bem, se sentir bem e poder amar. 
Muito lindo quem consegue viver o amor no meio dos perrengues, mas para mim nunca foi confortável, a falta de dinheiro causa um estres que acaba corroendo todo o relacionamento.

E hoje vi uma polêmica sobre um perfil no Facebook (link), de uma moça que dizia amar seu filho, mas estar cansada de ser mãe.

Maternidade é um assunto delicado, parecido a minas terrestres, é bom só passar por ali quem é mãe, caso contrário o chão explode. 

Tenho uma vizinha que tem um bebê de três meses e o outro dia a vi colocando água de coco na mamadeira, perguntei se podia, porque eu achava que o bebê nessa idade só podia beber leite materno e a moça me respondeu:

-Ah, Iara, você ainda não tem filho, vai saber o que é certo ou não?

Ora e precisa ter bebê para ler? Já vi em centenas de sites essa informação, que o melhor é manter o bebê no leite materno até os seis meses, depois é que podem começar a dar sucos e frutas.

Mesmo sem ainda ter filho tenho minhas teorias e uma delas é relacionada ao dinheiro. Imagino o cansaço das mães e o estres que é ter filhos, crianças cansam e no seu crescimento são chatas, acontece com todo mundo e isso deve levar os pais à loucura.

Mas de longe me pergunto se tanto estres pode estar ligado ao fator econômico. Aceito a parte que diz que crianças são cansativas e exigem muito dos pais, com ou sem dinheiro, mas tenho observado uma diferença enorme em criar os filhos com dinheiro e sem dinheiro.

Morei uma época nos Estados Unidos e trabalhei como babá em duas casas, duas realidades diferentes. A primeira casa era de um casal classe média, que compraram a casa, guardaram dinheiro e resolveram ter dois filhos. Tudo ali era calculado economicamente, a mulher ficava em casa e me contratou porque precisava fazer um curso de atualização para voltar ao mercado de trabalho. Ela ficava o dia inteiro com as crianças, uma de dois anos e a outra de um ano, ia ao banco, farmácia, supermercado e limpava a casa. Vivia estressada e irritada, sonhando em voltar ao trabalho e poder lidar com menos tensão. Mesmo assim era boa mãe, mas vivia no limite.

Na outra casa que trabalhei o casal tinha muito dinheiro, também eram duas crianças e a mulher não trabalhava e tinha empregadas, dividia seu tempo entre academia, massagens e terapia, ela me dizia que teve depressão pós-parto e desde essa época fazia terapia. Nada ali relacionado ao dinheiro era problema, tudo estava resolvido. Como essa mãe era rica e tinha suas necessidades cobertas me parecia mais tranquila e se divertia mais com as crianças, quase todos os dias se jogava na piscina com os meninos e o seu casamento parecia ter menos pontos de irritação do que o do casal classe média.

O casal classe média vivia no meio de discussões sobre o fim do mês, sobre guardar dinheiro e como apertar para poder fechar as contas. Não tenho queixas deles porque sempre me pagaram bem, mas era um porre estar naquela casa no meio das discussões.

Já o casal rico nunca escutei nada além do natural, o desgaste da convivência, de resto tudo estava resolvido.

Lembro de uma história com eles, o menino precisava de um uniforme para a escola e uns sapatos, então a mãe mandou que eu fosse comprar. Levei o garoto comigo para sair um pouco, mas foi tudo bem rápido, chegamos a loja, ele experimentou, eu passei o cartão de crédito da mãe e fomos embora.

Dias depois acompanhei a mãe classe média no mesmo processo e levou mais tempo, porque ela quis ir a diferentes lugares, procurando preços menores e queria parcelar os uniformes e os sapatos, tudo isso dirigindo debaixo do sol, com as crianças irritadas no carro e a mãe subindo paredes. 

Imagina o estres então de uma mãe com uma situação menos privilegiada, que depende dos uniformes da prefeitura. É muita tensão em cima de uma só pessoa.

Conclui então que parte desse estres louco de ter filhos está mais ligado mais ao dinheiro do que aos sentimentos que se têm por eles. Quando o futuro deles está garantido os pais se sentem mais tranquilos e podem aproveitar mais seus filhos.

Eu vejo isso por vizinhas e amigas, se eu estivesse no lugar delas, nas condições delas, também estaria pensando horrores da maternidade, porque elas estão dentro de uma máquina de carne moída, divididas entre a casa e o trabalho. E cercadas por todos os lados, as que usam o serviço público de saúde precisam esperar horas para que atendam seus filhos e as que têm convênio sempre estão enroladas em reclamações sobre o que o convênio cobre o não. As que usam o transporte público sofrem com a espera e a lotação, as que usam o carro sofrem para manter o carro e lidar com o trânsito.

Não conheço a Noruega, mas o que sei do Brasil é o seguinte: o sistema é desenhado para levar todas as mães à loucura. Não existe um bom serviço público de saúde nem próximo as residências, o trânsito é caótico, para enlouquecer qualquer mãe que leve uma criança a algum lugar, o ensino é fraco e muitas vezes distantes, os trabalhos exigem demais, pagam pouco e muitos ignoram os direitos das mães. Não existem opções no mercado de consumo mais baratas nem acessíveis, ou seja, ser mãe no Brasil me parece algo mais ligado a um calvário do que a um ''momento divino'' e nada disso tem a ver com a criança, tem a ver como sistema.

Isso sem contar a falta de parques e lugares para levar as crianças, nem a falta de centros culturais e ficar em casa o dia inteiro com uma criança? Quem já passou por isso sabe a tortura que pode ser para todos, tanto para a criança que fica sufocada, como para a mãe que não tem sossego.

Vivemos em um país onde, em pleno 2016 as mulheres lutam para poder amamentar em público sem que isso provoque a ira dos conservadores, como uma mulher pode relevar tanto estres?

Acredito em todas as mulheres que dizem amar os filhos, mas odiar a maternidade, eu também odiaria se me visse presa a um sistema que  faz de tudo para me levar à loucura.

E as mulheres ainda lidam com outro ponto sinistro na maternidade, a descoberta do parceiro. Porque é nesse momento que vamos saber quem está do nosso lado. E tudo isso com um bebê no colo! Sim, nessa hora é que vamos saber se o homem presta ou não, tudo ali, no mesmo momento.

Minha surpresa é ver que as mulheres ainda não saíram as ruas matando ninguém! Como elas aguentam tanta pressão?

Ah, porque a maternidade é linda! É, deve ser mesmo, com dinheiro, muito dinheiro e no esquema da moça que conheci, com assistência psicológica e a vida garantida, porque podem dizer o que quiserem, mas mães precisam de todo tipo de ajuda, desde alguém que fique com o bebê para que ela possa ter um tempo só seu, até apoio psicológico para poder passar por tantas transformações em tão pouco tempo.

Todas as minhas conhecidas e amigas que são mães parecem zumbis, não me transmitem essa alegria toda, sei que amam os filhos, mas estão no meio de um massacre social, dentro de um sistema que não colabora em nada e ainda aperta mais.

O outro dia uma amiga me ligou e disse que tinha um tempo para conversar, achei estranho porque ela tem um bebê de quatro meses, perguntei o que tinha acontecido e ela respondeu:

-Ah, eu saí do meu trabalho as cinco da tarde e vim ao supermercado porque as fraldas estão em oferta, mas não sou a única que lembrou disso! Tenho uma hora na fila e parece que ainda vou estar mais uma hora aqui!

Meu Deus! E iria chegar em casa as nove da noite correndo para alimentar o bebê e jantar. O marido dela é um homem decente, faz a sua parte, mas como é possível dizer a uma mulher dessas ''ame a maternidade?''.

Uma mulher que é mãe se parte em quatro pedaços, tem que ser mãe, continuar trabalhando e produzindo dinheiro, ser esposa ou namorada e ainda lembrar que é ela, que precisa do seu espaço. 

E isso não leva ninguém a surtar? E olha que nem mencionei o que minhas amigas me contam, sobre passar a noite inteira acordada com o bebê chorando e no dia seguinte ter que ir trabalhar.

Se eu não como e não durmo me transformo em outra pessoa, imagina quem não come direito, não dorme direito e vive vigiando o sono de um bebê?

E aposto um milhão como vai ter gente me dizendo que ser mãe não tem nada a ver com o dinheiro, que é sobre amor, não sobre dinheiro.

Então tá! Não acho, mas tudo bem, cada um que sabe. Só digo uma coisa, cuidado com esse ''amor'', porque é apenas condicionamento cultural, fomos ensinadas que nada é mais importante do que amor e nós somos fontes dele, então só precisamos de um príncipe e um bebê para que tudo funcione.

Mentira! Se precisa de dinheiro, muito dinheiro, para poder viver uma maternidade mais tranquila e sem ser massacrada.

É claro que o dinheiro não resolve os desafios que a maternidade implica, isso continua existindo, criar um ser humano é a tarefa mais difícil que existe no planeta, nunca vai ser simples nem fácil, mas o dinheiro resolve todas as outras questões que envolvem a maternidade.

Antes de criticarem as mulheres que estão exaustas e muitas arrependidas de terem se tornado mães, nós deveríamos analisar que tipo de sociedade temos e que apoio essas mães recebem, porque ter cadeira preferencial em um ônibus não significa nada. Mães precisam de apoio do Estado, estão gerando e criando cidadãos, não estão brincando de roda. Ninguém cria filho sozinha, ninguém mora em uma ilha, se depende do sistema para poder criar essa criança, desde vacinas até escolas.

E vamos ser realistas, não sei na Suécia, mas aqui no Brasil qualquer mãe tem o direito de estar arrependida. Ora, ter um filho em um país no meio de uma crise, usando água contaminada de volume morto, sem creches, hospitais, escolas, uma inflação terrível, todos os tipos de epidemias, salários baixos, machismo, um país violento e de homens frouxos, poucos assumem seu papel de pai e ainda querem que a mulher passe por tudo isso rindo e dizendo que ''ama ser mãe?''.

E nada disso tem a ver com o filho, acredito que não. Não conheço nenhuma mulher que tenha se arrependido de ter um filho, a criança não tem culpa, o difícil é o que acontece ao redor da mãe e a maneira como o sistema aperta as mulheres.

E agora uma parte dessas mulheres vem e diz que está cansada, que a maternidade não é tão linda como dizem e o que acontece? Todos caem matando! Como é que pode uma mulher não se sentir plena depois de ser mãe?

Ora! Vamos nos perguntar melhor como é que pode uma mulher ser mãe em um sistema tão desigual e injusto? É normal pedir a uma mãe que deixe seu bebê de três meses na creche para não perder o emprego? É justo pagar pouco, deixar a mulher enrolada no meio de contas e pedir a ela que se realize como mãe?
Para se realizar como mãe a mulher precisa de espaço e isso inclui sua vida, ser mãe não é a realização para muitas, algumas sim, outras não.

Não estamos diante de um problema pessoal, é um problema social, o sistema exige que a mulher se anule, viva com migalhas e se realize cuidando um bebê sem nenhuma estrutura, é lógico que muitas não aguentam mais.

Como criar um filho com um sistema que vai em contra da mãe e de uma sociedade que exige que ela se anule? Isso é desumano com a mulher, violento e cruel, me pergunto como tantas conseguiram e conseguem aguentar tudo isso em silêncio. 

O ideal para o mundo é o sistema sueco, que mantém os impostos altos, mas garante a estrutura e a vida profissional da mulher, ninguém precisa de anular para criar um filho nem depender de umas moedas de homens.

E o pessoal do ''amor é tudo'', por favor, não me mandem emails, não aguento mais ler sobre essas teorias de amor materno e tal. Não acredito em nada disso, sou a favor da teoria que todos nós precisamos de estrutura para grandes mudanças e a maternidade é uma delas.

E quando vejo minhas amigas se queixando sobre a maternidade é como se eu escutasse elas dizerem que não aguentam mais, estão exaustas de tanto massacre.

Me parece isso, mas como ainda não tive filhos minhas teorias podem estar erradas.

E mães não são as únicas, todas nós, mulheres, estamos exaustas de tanto massacre, de viver em uma máquina de carne moída, onde tudo vem na nossa direção sem piedade. Não é sobre ter filhos ou não, sobre as crianças, sobre a maternidade, é sobre um fato: não aguentamos mais o sistema como ele é, onde somos vistas e tratadas como escravas, que não tem nem o direito de dizer ''chega'', nem de reclamar e ainda esperam que continuemos engolindo as pílulas rosas, aquelas usadas para doutrinar, que dizem que príncipes existem, a maternidade é maravilhosa, e que nós somos um mar de amor que mantém o mundo rodando. 
Chega dessa merda, as escravas acordaram.


Iara De Dupont

6 comentários:

Cristina disse...

Acho que desde antes de conhecer o feminismo e entender o sistema eu não queria ser mãe, agora é que eu corro da maternidade com tudo e ainda jogo pedras pra que ela não me alcance. E depois de conhecer o feminismo eu entendi uma coisa: não tem NADA nesse mundo mais eficaz pra colocar uma mulher no seu "devido lugar" que a maternidade. Que outra situação autoriza socialmente os outros a controlarem até o que você pensa e sente? Coloca tanto peso nas costas de uma única mulher? Que dá a patrões desculpa pra não conceder direitos ou contratar, desculpa pra homem sumir no mundo sem assumir responsabilidades? Ao mesmo tempo em que garante que a mulher vai ficar presa no esquema, sem poder fazer nada - afinal não dá pra devolver filho se não gostar de ser mãe, né? - até o fim da vida. Obrigar a mulher a ser mãe é a maneira mais rápida e fácil de botar cabresto e tirar dela as oportunidades de lutar pelos seus direitos.

Carolina disse...

Não entendo quem não percebe a importância vital do dinheiro no bem estar. Dinheiro dá liberdade e possibilidade de escolha. Além de tranquilidade. Jamais conseguiria viver se não soubesse que terei dinheiro pra pagar as contas do mês seguinte. Tem muita gente que vive assim, mas elas não estão tranquilas. Podem estar acostumadas a viver assim, mas costume não é tranquilidade.
Agora viver sem dinheiro e sendo mãe, seria um desespero profundo na minha vida. Viver como um zumbi exausto e desolado, sem paciência pra ser a mãe que eu gostaria de ser. Além de viver em limitação, ainda condenaria outro ser a viver da mesma forma.

Patricia Gabriel disse...

bem vinda ao mundo de horror,Iara!Quem te disse que ser mãe não é foda!è simplesmente fodástico!Eu que sei...com dinheiro agora,quanta coisa não faria...

...mas tem uma coisa,estou aprendendo a pensar em mim antes de pensar neles,viu,a gente não tem porque se anular,não,mesmo neste meio deste inferno,que é a falta de grana,de perspectivas...mas eu concordo e assino embaixo,maternidade nunca foi romance,sem dinheiro,pior ainda!

Suzana Neves disse...

Conquistar muito dinheiro dentro do capitalismo é quase igual achar que o amor vence tudo.
Para ter paz precisa de sempre mais dinheiro e conquistar esse dinheiro costuma estressar também .
Mas no demais esta corretíssima eu nao sabia aonde estava me metendo mas dou meu sangue tentando ser boa mãe.....

C.Belo disse...

Bem, eu sou mãe e afirmo, dinheiro é TUDO!

Eu tenho certeza absoluta de que não posso ter outro filho apenas por causa de dinheiro. Portanto é verdade, a maternidade só é boa quando se tem dinheiro, de preferência MUITO. Do contrário, é um inferno SIM e isso nada tem a ver com o amor que sentimos pelo nosso filho.

Anônimo disse...

quem seriam os conservadores que reclamam sobre as mulheres q amamentam em público? antigamente isso era comum.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...