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06 fevereiro 2016

Nós, mulheres, também temos nossa parcela de culpa


Um ex-Romeu me mostrou as fotos do casamento de sua irmã, achei bem diferente e perguntei quais eram as flores da igreja e ele me disse:

-Não são de verdade, minha irmã queria um casamento ecológico, sustentável e barato. E lembra da irmã da Flávia? Foi ela que fez, são rosas de sabonete vegetal, foram colocadas na igreja e na recepção e todo mundo levou de lembrança, assim não tivemos que cortar flores nem pagar fortunas por elas.

A Flávia! Séculos que não sei dela, nem de sua irmã!

-Estão lá as duas, mas agora a Flávia ajuda muito a irmã com esse negócio do sabonete.

E o marido da irmã?

-Continua o mesmo babaca de sempre, nem dá bola para o negócio do sabonete.

O negócio do sabonete! 
Precisamos apenas de uns anos para mudar nossa perspectiva em relação a uma situação.

Não tenho vergonha de dizer que na época tive uma leitura míope e pequena em relação a situação, minha única defesa era minha ignorância, principalmente em relação aos direitos da mulher e o respeito que tudo isso envolve.

Conheci Flávia em uma peça de teatro, uma garota classe média, muito simpática, que tinha uma irmã, a Joaquina. Flávia era muito agitada, fazia figurino, pintava cenografia, parecia não dormir e sua irmã a ajudava. Eu sempre via a Joaquina pelos bastidores, muito doce, irmã mais velha, tímida e ficava por ali nos ajudando. 
Depois de um tempo de conviver comecei a ver uma história que eu não entendia. Flávia se desdobrava para estar no teatro e fazer uma faculdade, Joaquina tinha terminado o ensino médio e não sabia o que fazer da vida, apesar de ser a irmã mais velha. O pai tinha um negócio de vendas de peças de carro e Joaquina trabalhava com ele na loja.

Em algum momento conversei com Joaquina, mas eu não entendia com existia alguém no mundo que não soubesse o que fazer, parecia que nada a interessava.
Eu nunca comentei sobre isso, porque não tinha essa intimidade e a moça era muito gentil comigo, mas eu ficava abismada de ver como ela não parecia ter vontade de fazer nada. Me parecia incrível como alguém poderia ter condições de pagar uma boa faculdade e não aproveitasse essa chance.

Pouco tempo depois ela avisou que iria se casar com o namorado de infância, um exemplo de bom rapaz, família classe média, garoto estudioso, fez faculdade de administração, uma especialização, e conseguiu um ótimo emprego em uma multinacional.

Fui no casamento e a festa foi maravilhosa, mas minha alma gritava, como assim ela iria ficar cuidando da casa? Eu não acreditava naquilo e Flávia argumentava dizendo que nem todo mundo gosta da ''rua'' e Joaquina seria uma ótima dona de casa, voltada para o lar e algumas pessoas são assim.
Nunca tive nada contra, mas desde cedo percebi a exploração que ser dona de casa envolve e a falta de apoio e reconhecimento que vem junto.

Joaquina se casou e não lembro o lugar, mas no hotel onde foi passar sua lua de mel havia um curso de como fazer rosas de sabonetes e ela resolveu fazer.

Quando voltou entrou de cabeça nisso, fazia centenas de rosas e dava de presente para todo mundo, cada vez mais ficavam melhores e ela ia descobrindo novos jeitos.

Eu estava com Flávia fazendo uma peça de dia dos mortos, no Halloween, e pensamos que seria legal fazer umas caveiras de sabonete, Joaquina fez, ficaram maravilhosas, as colocamos pelo teatro e antes mesmo da peça terminar o pessoal já tinha sumido com todas, não consegui salvar uma. O diretor tinha assumido o custo das caveiras e eu fui encarregada de dar o cheque a Joaquina, que ficou radiante, era o primeiro dinheiro que ganhava na sua vida.

Depois alguém veio e encomendou rosas de sabonete para um chá de bebê, casamento, batizado, enfim, ela foi pegando encomendas.

Uns meses depois teve um almoço na casa dela, não lembro quem estava, mas alguém perguntou a Joaquina se ela fazia alguma coisa da vida, ela disse que era dona de casa e fazia........
Antes dela acabar a frase o marido interrompeu e disse:

-Meu bem, ele perguntou pela profissão, o que você faz é hobby.

Escutei aquilo e para o horror dos horrores me pareceu normal,  ele tinha razão, ela não tinha uma profissão e fazia rosas de sabonete para não morrer de tédio, até porque o marido viajava muito.

Lembro que ela ficou um pouco envergonhada, mas deu um leve sorriso

Essa é a história que sei e lembro, apesar da minha profunda vergonha achei a frase do marido comum, não disse nada de extraordinário.

Mas hoje, dez anos depois, mudei minha visão sobre esse incidente, que eu lembro com todos os detalhes. O marido dela adorava dar uma de ''galo'', falava sem vergonha do seu alto salário, de como sustentava a mulher com luxos e como era bom marido, ótimo, trabalhador e correto, tanto que podia proporcionar uma vida mansa a sua esposa.

Bom, primeiro me parece que sair dizendo isso é deselegante, coloca a mulher em uma posição de objeto caro que requer manutenção, não vê a esposa como um ser humano.

E a história tem falhas, é verdade que ele tinha um ótimo emprego, mas a casa linda e com jardim, tinha sido presente do avô dela, a mãe deu o carro e o marido apenas tinha contas regulares para pagar, ou seja, ele não era tão fodão assim.

O encontrei na rua há uns oito anos e perguntei como estava Joaquina, e ele me respondeu:

-Está bem, continua naquela bobagem de sempre.

Qual?

-O negócio dos sabonetes!

Hoje na minha perspectiva feminista digo: a única bobagem que Joaquina fez e continua fazendo é o seu casamento.

Na época que ela começou com os sabonetes me contaram um episódio que não dei importância. Uma conhecida foi a casa de Joaquina encomendar uns sabonetes e dar uma olhada nos modelos, elas estavam lá quando Joaquina escutou o marido chegando, então pegou tudo o que estava na sala e saiu correndo para o quarto dos fundos. Ao voltar se desculpou com a cliente, disse que o marido era alérgico ao cheiro dos sabonetes e por isso ela tinha que trabalhar nos fundos da casa. Mas a cliente comentou com alguém que tinha percebido que Joaquina estava mentindo porque a apresentou ao marido com o sendo uma amiga, não uma cliente, então ela desconfiou, achou que tinha alguma coisa errada e resolveu não encomendar nada.

Alguém contou a Flávia sobre isso, ela defendeu a irmã dizendo que o marido de Joaquina tinha um trato com ela, podia brincar à vontade com os sabonetes, mas assim que ele entrasse em casa, não podia mais. 

Parece que com o tempo o negócio de Joaquina cresceu, apesar do marido colocar o pé, Romeu me contou que ele continua desdenhando o negócio e que não reconhece o esforço da mulher, nesses dez anos já perdeu o emprego duas vezes e foi ela e seus sabonetes que pagaram as contas, mesmo assim ele continua se referindo ao negócio como hobby.

Ela faz os sabonetes e decorações, entrou nessa onda de sustentabilidade, de pessoas que querem enfeites que possam ser aproveitados depois das festas e deu muito certo.

Mas quem reconhece isso? Ninguém, muito menos o marido, que achou que um diploma de administração o fazia superior a esposa.

Um vez um professor de administração me disse o seguinte ''tudo é um pirâmide, você precisa ter a ideia, executar a ideia e saber vender a ideia''.

Justo o que Joaquina fez, ela teve a ideia dos sabonetes, soube executar e vender. É uma artista, porque depende de sua criatividade, e também é uma empreendedora, mas em um mundo machista passa batido, é vista como uma dona de casa entediada fazendo rosas de sabonete e casada com um homem aparentemente bem sucedido. Ela sofre com o manto da invisibilidade social e emocional, nada ali parece extraordinário.

E não tenho dó dela, as mulheres permitem muitas situações e eu entendo que isso aconteça no começo, mas depois não temos mais desculpa, ninguém nos obriga a ficar com um marido que vê nosso empenho e trabalho como se fosse um ''hobby''.

Não lembro de nenhum registro de seu marido ser agressivo, sua família é ótima e tenho certeza que caso ela se divorciasse teria o apoio deles.

Mas quando crescemos no machismo não vemos como somos massacradas pelos namorados e maridos. Ora, no mundo misógino, tem algo mais estúpido e feminino do que fazer rosas de sabonete? Para esse mundo Joaquina não vale nada, é apenas uma dona de casa que se distrai com seus sabonetes coloridos.

E por que uma mulher continua permitindo isso? Não sei e me assusta pensar. Fico me perguntando como é possível amar alguém que nos maltrata e despreza o que fazemos? E ainda por cima chama de bobagem, essa bobagem que em épocas de crise colocou o pão na mesa.

Nunca vou entender mulheres que vivem uma situação assim e não saem correndo. Tenho uma tia professora e ela trabalhava em uma escola, quando meu tio faliu ela começou a fazer chocolates e vender. E o que ele dizia? 

-Ah, tua tia está na cozinha fazendo aquelas besteiras.

É, besteira que pagava a conta de internet que o vagabundo do meu tio dizia usar para procurar emprego!

E a mulher diante de um companheiro assim fica frágil e não consegue ver seu tamanho real. Caramba, Joaquina é uma artista, não é para qualquer um o que ela faz e não são todos que conseguem viver do que gostam de fazer, além disso achou sozinha seu rumo na vida. 

E pode parecer fácil, mas ter que fazer 200, 300 rosas de sabonete não é tão simples como parece, além disso se precisa o talento para vender.

E vai tudo contra, vivemos em um mundo onde as pessoas pensam que se precisa de um diploma para tudo, quando na verdade se precisa de talento para fazer as coisas, não de diploma. E artesanato é visto como ''hobby'' pelas pessoas, como se fosse apenas algo que dá prazer, não um sustento.

E mulheres são educadas para sempre serem inferiores aos homens, eles sim têm que ser bem sucedidos e com diplomas, elas podem ser menos, até para que não fique chato para o marido ter uma esposa melhor do que ele.

Mas a verdade me parece uma só: nós, mulheres, somos muitos melhores do que eles. E não digo isso jogando lenha na guerra dos sexos, mas é o que eu tenho visto diante da crise que o país atravessa. Vejo minhas amigas se virando nos trinta, improvisando enquanto os Romeus se jogam no chão para chorar a desgraça de terem perdido o emprego e ainda se divertem com as tentativas da mulher de melhorar a situação.

E continuo sem entender, porra, por que uma mulher fica com um homem assim? O homem não dá apoio, despreza os esforços dela, diminui suas tentativas de melhorar a vida e o que fazem as mulheres ao lado desses homens?

Lembro de uma conhecida que morava perto da minha casa, em um prédio pequeno ao lado de uma casa grande, usada como cortiço. A conheci porque ela distribuía catálogos de produtos de beleza, um dia liguei e fui ver umas coisas que vendia, então ela me contou sua história, era uma senhora de cinquenta anos que nunca tinha trabalhado, se casou e o marido sustentava a casa, mas ganhava mal. Eles tiveram dois filhos e as crianças começaram a crescer e ela queria comprar coisas para eles e não tinha condições, mas era semi-analfabeta e não conhecia ninguém em São Paulo. Um dia uma vizinha se mudou de cidade e deu a ela os catálogos de uma marca de maquiagem e disse para que ela tentasse vender. Ela saiu as ruas e não sabia o que fazer, então teve a ideia de bater na porta do cortiço onde moravam muitas moças e a maioria eram prostitutas. Ela ficou amiga delas e viraram suas clientes, depois com o tempo começaram a dar dicas de onde poderia vender mais, falaram para sempre ter um pequeno estoque em casa para o cliente não ter que esperar e fazer panfletos com seu telefone e distribuir pelas ruas. Desse jeito ela começou a ganhar dinheiro, comprou sua máquina de lavar roupas, os brinquedos para os filhos e não parou mais. E o que o marido dizia? Ele cansou de dizer que só aceitava o dinheiro porque eles precisavam, mas era uma vergonha ela ser vendedora de maquiagem para putas!

O marido está certo? Sim! A besta é ela que ficou ao seu lado! Ninguém tem que ficar ao lado de um marido que olha o esforço da esposa como se fosse uma idiotice.

E além de tudo existe um acréscimo, fazer sabonetes, bolos, chocolates, ou vender perfumes, nada disso tira a mulher do seu trabalho escravo na casa, conheço muitas que fazem suas coisas, saem para vender, correm para voltar as suas casas para preparar o jantar e o uniforme dos filhos para o dia seguinte. E ainda aguentam um marido egoísta e idiota ao seu lado!

Por quê isso Deus? Por quê? Não é possível que essas mulheres ignorem seu potencial, talento, criatividade e dedicação dessa maneira e se neutralizem diante da marido.

Nenhuma mulher é o marido, nenhuma de nós se constrói na sombra deles, não precisamos ser o eco de ninguém e lamento dizer, ser esposa não garante um pedaço no céu a ninguém. E ser dona de casa é uma das piores tarefas que alguém pode assumir no mundo, é ingrata e cansativa, e nenhuma mulher merece ter um Romeu que ignore todo o trabalho envolvido e ache que é uma vida ''mansa'' ficar em casa! Ora, se é tão bom assim eles que fiquem em casa!

E já vi muitos homens ralando o que as mulheres vestem, falam, pensam e sentem. E também vejo homens ralando o empenho delas em crescer na vida e pagar as contas. Tudo vira piada, já vi homem desprezando a esposa que fazia bolachas, assim como já vi homem dizendo que sua esposa, super executiva, só tinha pego o emprego porque a empresa estava quase falida.

Já vi tudo isso e não me surpreende, o que me espanta é que elas continuem em silêncio ao lado deles.

Uma amiga me disse que era questão de honra provar ao marido que vender bolsas dava mais dinheiro do que o emprego dele. Sério, vale a pena? Porque eu não conseguiria nem beijar um homem que diminui o que eu faço e sei bem como é, de todos os Romeus que tive nenhum deles foi legal em relação ao meu blog, sempre olharam com descaso e indiferença, coisa que hoje não tolero.

E nunca, nunca, nunca, tive um Romeu que me dissesse ''você gosta de escrever? Então continue''!
Isso jamais aconteceu, pelo contrário, o que mais escutei foi ''você gosta de escrever? Então arranje um homem rico que possa sustentar esse teu luxo!''

Nesse ponto defendo os homens, eles não têm culpa de serem tão tolos, culpa tem a mulher que se permite conviver com um imbecil desses.

Não importa o que fazemos, se somos donas de casa, se vendemos bolsas, chocolates, sabonetes, se somos médicas ou engenheiras, temos que exigir o respeito, mas ele só começa com nós, não depende dos homens, somos nós que temos que nos olhar no espelho e dizer ''eu sou uma grande mulher e tudo o que faço é extraordinário, eu mereço o melhor e não vou mais aceitar ser tratada como uma criança que só faz bobagem, eu sou incrível e tudo o que eu faço reflete meu talento, força, vontade e amor pela vida''.


Iara De Dupont

4 comentários:

Anônimo disse...

Adorei.
O gatilho do fim do meu casamento foi por perceber que nunca seria valorizada.
Ao voltar das compras cheia de materiais pra fazer meus bolos e doces, e dividir as alegrias por estar vendendo muito, fui friamente acusada de que tudo era desculpa para a cativa sair do calabouço e pasmem, encontrar amantes.
Foi uma facada.Sabe, quando te acusam de algo que vc totalmente não é, já é doloroso, mais a dor do desmerecimento?
Fui embora.Me livrei de uma pessoa doentia.
Fer

Cristina disse...

Homem desse tipo é como lixo, ou serve pra reciclar e tem que ficar no lixão. Claro que muitas mulheres ainda não sabem que merecem ter o seu esforço e trabalho respeitados, mas as que sabem, ouvem isso todo dia e mesmo assim continuam nessa situação, putz! Aí é que eu queimo meu figo de raiva mesmo. Quem fica onde é desvalorizado sabendo disso merece mesmo apanhar.

Anônimo disse...

Adorei, Iara! Como me identifico nas suas palavras! Nós somos permissivas demais e com tudo! As pessoas (não só os homens) nos trata como a gente se trata. A gente muda, o mundo muda também!!! Você está mais do que certa!! Mônica

Patricia Gabriel disse...

nem sempre dá para se livrar de um babaca assim,o buraco é mais embaixo;há a questão dos medos e inseguranças,das ameaças,da vida social que se perde,enfim,a vida é feita de escolhas,mas elas devem ser maduras...ás vezes,a mulher ainda tem o que perder saindo do relacionamento,então,escolhe se anular,por bens maiores(acabar de criar os filhos,estar sendo ameaçada,uma vida social regalada,etc)não sei,mas são inúmeros os motivos...meu marido está há muito tempo desempregado(sem registro em carteira),já me falaram indiretamente para largar,mas eu sei dos meus motivos,e dizer"porque o amo"seria banal,senão até desrespeitoso para com a minha inteligencia,Iara,mas a verdade é que cria-se laços,e,com tudo nessa vida,existem escolhas que custam bem mais do que permanecer aonde se está.Mas,no meu caso,o mais importante é conhecer a pessoa com a qual se lia,e saber lidar com suas verdades...

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