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25 fevereiro 2016

Romeus: não peçam macarrão!


Tenho um amigo que entrou recente para o fantástico mundo dos ''elevados espiritualmente'', essas criaturas cheias de amor, que se dedicam a espalhar paz e luz por este mundo de trevas.

Gosto muito dele, mas já avisei que estamos em diferentes páginas e sua constante observação da minha posição no blog me cansa. Ele alega que sou revoltada e que espalho revolta energeticamente no mundo com meu blog, estou contribuindo para piorar o planeta.

No começo reagi, mas hoje concordo, sou revoltada sim, assumo na maior tranquilidade.
Semana passada uma ativista dos direitos da mulher foi assassinada no México, eu leio isso todos os dias e me revolta.
Estava assistindo um programa no domingo quando mostraram um médico que estuprou trinta pacientes, também fiquei revoltada. Uma mulher não pode nem ir ao médico sem correr o risco de ser estuprada! Fico revoltada sim! E cada vez mais! As pessoas tentam justificar os crimes e ninguém entende que o estupro não se justifica? Não tem desculpa nem nada que justifique, e é apenas outro crime cometido contra a mulher e fica impune!

Também gostaria de escrever sobre as coisas lindas do planeta e espalhar luz, mas a vida é assim, tem gente que escreve porque gosta, eu escrevo porque é uma necessidade orgânica e só consigo escrever quando estou indignada, quando estou feliz prefiro dançar e cantar.

Mas meu amigo insiste, ainda estou a tempo de mudar a direção do meu blog e começar a plantar coisas boas, que deixem todos felizes.

E ele me disse:

-Sabe? Nem sempre é bom pontuar nesse assunto de machismo. Vejo pela minha mulher, ela fica lendo, está mudando e eu dou meu apoio, mas acho que vocês estão começando a tratar todos iguais, existe uma essência na mulher e vocês a estão atropelando.

É?

-É. Eu trabalho e minha mulher também, quem chega primeiro em casa faz o jantar, mas sempre chego primeiro, então eu faço. E um dia desses resolvi não fazer, fiquei com vontade de que ela fizesse um macarrão ao sugo que é incrível, então esperei ela chegar e pedi. Nossa! Parece que explodi o mundo! Ouvi durante horas que sou um egoísta, macho recalcado, infeliz e abusador!

E a que horas é para chorar? Porque essa história é a mais triste que já escutei na minha vida.

-É, imagino que sim. Se você olhar em uma perspectiva de gênero, então eu sou o macho opressor que quer a mulher cozinhando, mas se você pensar no amor, é disso que falo, eu não quero macarrão, quero o macarrão feito por ela, com o amor que ela coloca, o carinho. São séculos que vocês, mulheres, estão colocando suas energias na comida, na casa, e agora sentimos falta disso, falo de amor e você fala de opressão. Eu só queria um pouco de atenção dela, do amor, mas vocês levaram a coisa a um grau que agora parece que qualquer gesto de amor, por mais simples que seja, é agradar ao opressor e desmoraliza as companheiras. E te digo, quando se perde a noção de amor, se perde tudo.

Mas a que horas eu tenho que chorar?

-Entendeu?

Entendi, mas meus ouvidos só escutam ''macho chorando, macho reclamando, macho quer de volta seus privilégios, macho que não está gostando das mudanças e blá, blá, blá.......

-Tudo bem, já te conheço, imaginei que ia dar nisso.

Sempre dá, porque eu não falo de amor, nem de gestos românticos, isso é outro setor, mas me pergunto, quer saber o outro lado do macarrão?

-Quero.

Tua mulher está lendo sobre feminismo e mudando, você perguntou a ela se é uma mudança fácil? Como ela se sente?

-Não deve ser ruim, porque ela não diz nada.

Esse é o ponto, ninguém nos pergunta nada, mas o macarrão tem outro lado.

Qualquer ideia política que leve a pessoa a questionar o mundo, sua vida, suas escolhas, envolve dor e confusão.
Eu sou grata ao feminismo, porque me salvou a vida, me tirou de uma existência onde a louca era eu e os outros eram inocentes. Deixei de me ver como ''exagerada'', agora sei que minhas reclamações têm seus motivos.
Mas tem muita dor nesse processo de evolução pessoal, me dei conta do ódio que me cerca, dos perigos que corro e da fragilidade da vida de uma mulher neste mundo, percebi que a vida de uma mulher não vale nada. Não sabia que mulheres podem ser estupradas por maridos, médicos e amigos. Ah, eu era ingênua. Jamais pensei que um Romeu poderia me machucar. Não sabia dos números tão elevados de sequestro e escravidão sexual. Não sabia que tudo o que vivi de ruim até hoje foi fruto do machismo do mundo. Não sabia que ganhava menos, que trabalhava mais e que Romeu me explorava.
Achei que seria sempre próxima a minha família, mas tive que me afastar pelas minhas novas ideias, porque em uma família machista já não havia espaço para mim. Perdi amigos, amigas e comecei a desconfiar de Romeu e seus discursos açucarados.

Tudo isso dói e a dor é mais intensa porque você sabe que consciência do que está acontecendo é tua única salvação, eu não tive escolha, me tornava feminista ou morria no machismo. E é uma ótima escolha, o feminismo trouxe luz para minha vida, mas demorei para superar a solidão do começo.

E sabe quando o feminismo me deu uma boa notícia? Ainda não tive, os números de mulheres estupradas, exploradas e assassinas cresce todos os dias. Meu coração só esquenta quando vejo meninas de doze anos falando sobre feminismo, então penso que temos uma boa chance de mudar o mundo.

Depois que eu acordei do meu sono opressor e profundo tudo mudou, tudo me incomoda, me sinto como aquela pessoa que dormiu no sol e acorda com o corpo ardendo. Os filmes que eu adorava hoje me provocam naúseas, porque percebo o machismo. A perseguição da midía e seu padrão de beleza me machuca, sinto que é pessoal. As piadas, músicas, novelas, tudo que espalha misoginia me irrita cada vez mais.

A sensação de que não pertenço a este mundo é cada dia mais forte, a certeza de que uma alma como a minha jamais poderia estar tranquila em um mundo de tanto ódio aparece a cada minuto.

E no começo passei por tudo isso sozinha, nenhum Romeu queria escutar, na minha casa diziam ''lá vem a Iara com seu discurso de oprimida'', meus amigos me pediam para por favor dar uma trégua e minhas amigas me lembravam que meus pontos de vista afastavam os homens.
Ninguém pegou na minha mão e se o fez foi para me lembrar que eu nunca mudaria o mundo e as coisas são assim.

Mergulhei sozinha no mar de solidão e dúvidas, cercada pelo ódio que cerca todas as mulheres.
Em um momento minha sobrinha de doze anos foi a casa de uma amiga e a mãe não sabia onde ela estava, ficou desesperada e foi para o Facebook procurar a menina. Elas moram na Cidade do México, uma das mais perigosas do mundo, um dos lugares onde mais se matam mulheres no planeta. Se fosse antes de conhecer a realidade, graças ao feminismo, eu teria lido o apelo da mãe e teria pensado ''ah, tudo bem, daqui a pouco a menina aparece'', mas como foi depois fiquei tão desesperada quanto a mãe, me peguei rezando, fazendo promessas, acendendo velas para a Virgem de Guadalupe, implorando para que essa menina não tivesse sumido, com tantas somem naquela cidade, com o mesmo destino.

E dói saber que tua sobrinha pode ser vitíma de um crime apenas porque é mulher. A menina apareceu, mas nada disso muda a realidade da cidade, do país, até agora no México, são mais de seis mil mães chorando pelas suas filhas desaparecidas, em apenas uma cidade, se for contar todas as desaparecidas no México, passam de vinte mil.

Tudo isso arde, dói, mulheres somem e são vendidas, escravizadas, apenas porque são mulheres.

E tua mulher começa a ler sobre feminismo e vai mudando, como todas nós, ao sair até a rua é diferente, a gente começa a perceber os perigos de maneira mais clara, as intenções mais diretas. Ela vai perceber coisas que nunca percebeu, sentir o que nunca sentiu.

Sempre gostei de caminhar em parques, mas só hoje percebo homens adultos ao redor de meninas brincando, nunca tinha reparado. Só hoje fico de olho e procuro as mães, aviso para ficarem espertas, tem homem estranho no parque. E já me disseram que é paranoia minha, que homens podem frequentar um parque, têm esse direito. Concordo, mas se os vejo perto de meninas eu procuro os pais e aviso.

Se abre esse mundo novo diante de nós, como um jogo de videogame, mas nós somos as figuras caçadas.

E Romeu pode ser maravilhoso, mas teve uma educação machista e vai respirar nessa frequência e isso vai refletir na relação. E percebemos que somos amadas por Romeu, mas jamais compreendidas. Isso dói, saber que Romeu nunca vai entender o tamanho da nossa luta e do nosso esforço para sobreviver em um mundo que odeia mulheres.

Consegui amenizar minha solidão me aproximando de mulheres que estão na mesma frequência do que eu, mas de resto continuo nas mesmas, longe da família e evitando o assunto com Romeu.

É uma transição necessária, mas tem seu período de dor, ninguém quer acordar e perceber como o mundo te odeia e tua vida não vale nada. Nenhuma mulher se sente bem ao perceber como sempre foi violentada, de uma maneira ou de outra.

E para o amor é fundamental a ideia, mesmo que seja fantasia, de que Romeu nos entende, nem que seja um pouco, mas o feminismo nos mostra que isso ainda não é possível, eles lutam, nem que seja de maneira inconsiente, para manter seus privilégios.

E essa nova realidade traz mais medos. Há pouco tempo uma amiga ficou grávida e estava pensando sobre a violência obstétrica que as mulheres sofrem ao parir, por parte dos médicos e dos enfermeiros.
É uma coisa que acontece há séculos, mas só agora está vindo à tona, a mulher hoje não tem medo apenas do parto, mas de ser agredida enquanto está parindo.

É muita coisa, muita informação e com um grande pesar, tudo está acontecendo, não é passado, é presente.

Não existe nenhuma ideia política que liberte o ser humano sem causar dor, é parte do processo.
O feminismo é a melhor coisa que poderia ter acontecido as mulheres, mas vem envolvido em muita dor, ter consciência de como somos humilhadas e vistas como seres humanos inferiores é uma agressão dolorosa.

Precisamos de mais oxigênio, o mundo exige que a gente pare e respire fundo o dia inteiro e pense ''tudo bem, eu posso lidar com isso''.

O feminismo nos libertou, mas o nosso chão ainda é cheio de minas terrestres que podem explodir a qualquer momento. E nossa única saída é continuar caminhando e lutando por uma sociedade melhor, mesmo que nos avisem que isso só irá acontecer em cem anos.

A grande maioria de nós, mulheres, estamos no meio desse período de consciência, é um processo lento, vagaroso de ser assimilado, porque é violência demais. E por mais que tenhamos conquistado alguns direitos, sabemos que os homens desprezam isso e continuam violentos.
O feminismo é um ato político pacifíco, nada a ver com a loucura do patriarcado e sua obsessão com a violência.

A melhor coisa que uma mulher diante de tanta opressão pode fazer, é se libertar e só o feminismo pode fazer isso, nos traz a consciência de quem somos, mas mente quem diz que é uma libertação sem dor, que acordar e ver como o mundo trata e tem tratado as mulheres não é uma coisa dolorosa.

E já me disseram ''não era melhor ter ficado nas mesmas, jamais ter tido consciência, nem ter se tornado feminista?''.
Não, não. O lugar onde minha mente estava antes do feminismo era sinistro, assustador, cada vez mais sendo convencida de que era uma maluca e caminhando, mesmo resistindo, a uma vida de profunda dor. O feminismo me libertou e qualquer dor que eu possa sentir nessa transição não se compara a dor anterior, de ser considerada maluca apenas porque reclamei de três atores que tentaram me estuprar durante um ensaio. Se eu fosse feminista naquele dia eles não estariam soltos nas ruas.
A vida anterior ao feminismo era para mim o limbo, a escuridão, o medo. Agora pelo menos sei o que está acontecendo e como posso mudar isso. Hoje sei que apesar da solidão do começo, não estou sozinha, sou eu e mais milhões de mulheres que vivem e sentem da mesma forma.

E não é o momento certo para nos pedir amor e um prato de macarrão. Na verdade é o momento para que vocês, Romeus, não peçam mais nada e cozinhem esse prato de macarrão. Agora somos nós que precisamos desse amor e desse carinho, somos nós que voltamos de uma rua que é uma zona de guerra, que circulamos no meio de uma batalha todos os dias.
Parem de pedir, exigir, fazer dengo, parem com tudo isso, não temos mais energia para tanto amor, melhor não digam nada e cozinhem o macarrão.


Iara De Dupont

6 comentários:

Alessandra Tofoli disse...

Saber que foi você quem pegou na minha mão nessa caminhada rumo ao feminismo na minha vida, faz com que nunca eu tenha palavras pra te agradecer por tudo que mudou em minha nela e por tudo que sei que ainda vai mudar. Apesar da vida ficar mais crua, parecendo até mais cruel, tudo fica mais transparente e isso nos faz sentir mais inteiras e prontas pra enfrentar o que for preciso.

Iara De Dupont disse...

Ale, nem sei o que te dizer, fiquei muito comovida com teu comentário.....o meu lado é igual ao seu, se não fossem vocês para segurar minha mão deste lado, eu nem sei se continuaria escrevendo.....Bigaduuuuuuuuu!

Cristina disse...

Eu também te agradeço por ter pegado a minha mão enquanto eu fazia a mudança mais dolorosa, Iara, e ofereço a minha quando você quiser. Obrigada por ter me aberto os caminhos pro feminismo e pras verdades incômodas. Se ninguém te disse antes, eu vou te dizer agora: você é o máximo Iara! :D

Patricia Gabriel disse...

homem tem que trabalhar o dia inteiro e arrumar a casa toda e ainda fazer comida,sim,...sem essa de mulher fazer tudo isso por eles,não somos suas mães,e já temos que parir os filhos deles,então que se manquem!

Ah,tem mais,fácil mamãe criar filho machista e depois ficar de briga com a nora...tem que rever o conceito de criação destes meninos mimados,se querem macarrão,vão e virem-se!desde solteiros,vão se acostumando!

Sim,é uma mudança muito dolorosa,tenho sentido na pele também,mas uma conscientização extremamente necessária!

Hoje em dia,não aguento provocações que há tempos eu aguentava,e ainda ficava tentando me justificar perante machos agressivos e sarristas,hoje,eu os deixo falando sozinhos,e quero mais que se explodam...conquanto ao companheiro,se tentar me calar,é a pior coisa que me faz...sim,tem sido difícil,muito...mas a gente chega lá!Nunca pare novamente,Iara,sem essa de energia negativa,isso é mentira de macho encostado,a gente precisa ler mais textos destes,e eles precisam sentir na pele as mudanças das esposas!

que amor o c...rlh!o cara com esse discursinho barato,querendo que a esposa ,cansada,vá para a cozinha,ah,me dá nos nervos

Iara De Dupont disse...

Cris, muito obrigado! Você não imagina o quanto é importante para mim ler essas coisas lindas e doces que me mandam, sou muito grata e posso te garantir que tem sido um dos motivos pelos quais tento resistir, se não fosse pelos emails e mensagens, não teria durado muito por aqui....muito obrigado mesmo! Beijo!

Iara De Dupont disse...

Tá fogo né Pati? Mas eles vão resistir, para o macho latino são privilégios demais, não vão entrar na dança, só se a mulher apertar, então pode ser que ele mude, mas por livre e espontânea vontade eles não vão nem no supermercado!

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