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23 fevereiro 2016

Homens são mais espertos (vamos aprender com eles)


O espaço público sempre foi claro: nós, mulheres, não somos bem vindas.

Não podemos sair às ruas sem sermos agredidas com palavras e gestos, acossadas, assediadas e violentadas. Temos que pensar em nossos trajetos levando em conta os lugares e horários, sempre conscientes de que somos a caça no meio de uma selva. Colocamos os olhos nas costas e apressamos o passo e não existe um só lugar neste planeta que seja seguro para uma mulher.

É recente nossa presença no espaço público, em alguns países ainda não se permite uma mulher caminhando sozinha na rua e em outros é permitido, mas dentro dos horários seguros, tarde da noite é sempre uma péssima ideia.

E talvez por isso, porque temos pouco tempo saindo as ruas sozinhas e decidindo nosso caminho, talvez seja o motivo de uma certa insegurança e timidez que carregamos diante dos nossos direitos.

Hoje aconteceu uma coisa que me fez ferver o sangue e perceber como estamos lentas em relação aos direitos conquistados.

Entendo a reserva de muitas mulheres, também tive uma educação machista e me disseram desde pequena que mulheres que reclamam, principalmente em lugares públicos, são todas umas loucas desvairadas. Cresci escutando histórias sobre uma tia, uma mulher que reclamava e batia o pé quando alguma coisa parecia errada, dela diziam que era doida, descontrolada e casada com um ''banana'', um homem frágil incapaz de controlar a mulher.
E quando eu era pequena algumas vezes vi coisas erradas, dizia isso a minha mãe, ela me beliscava e dizia ''nem pense em abrir a boca e dar show''.

O problema é que tenho um temperamento forte e nem sempre escutei essa indicação, mas tenho que ser honesta: todas as vezes que me posicionei me disseram que eu era surtada e estava fora de controle.
Isso é uma certeza até hoje na família, se eu digo algo que vai contra tudo o que foi dito, vou escutar ''tinha que ser a Iara e o gênio de merda dela''.

Na escola passei pelas mesmas coisas, levei broncas, suspensão e passei por muitas, muitas humilhações, apenas porque disse algo que me parecia.

Ficou claro para mim, mulher que abre a boca dentro ou fora de casa é louca, barraqueira e Deus me livre disso!

E não se esperava de mim que fosse barraqueira, pelo contrário. Meus pais gastaram uma fortuna em um colégio na Europa, onde era período integral e todos os dias tinha o café da manhã e almoço na escola e nos ensinavam a comer e usar os garfos certos, coisa de mocinha mesmo. Aprendi durante um bom tempo onde se coloca cada coisa em uma mesa, os pratos, talheres e copos. Imagina a menina ser educada dessa maneira e sair doida, fazendo barraco? Não tem como, mas para o azar dos meus pais, teve. Não conseguiram domar meu espírito livre e de uma certa maneira me aceitaram porque são piores do que eu, meus pais também são de gênio forte, também batiam o pé quando viam alguma injustiça.

Cansei de ver meus pais comprando brigas, mas sei que não esperavam isso de mim.

Mas fui assim até que topei com o feminismo e vi a quantidade de vezes que me arrisquei à toa, ignorava a força física dos homens, sua loucura e violência e partia para a briga mesmo. Só Deus sabe das situações que escapei, inclusive em uma briga com um namorado ele me segurou pelo pescoço e me empurrou para a parede, tentei me livrar, mas ele era muito mais forte do que eu, e não sou uma mulher pequena, mas naquele momento entendi que as coisas eram piores do que eu tinha imaginado.

E eu estava hoje em um supermercado, no pior horário possível, sete da noite, lotado. Entrei em uma fila cheia, são seis caixas, mas apenas duas funcionando e nenhuma tem a placa dizendo ser preferencial. Na fila que eu estava tinha idosas e mães, todas ali, esperando sua vez.

E de repente apareceu um Romeu moderninho, segurando um lindo bebê de colo, passando na minha frente alegando ser preferencial.

A lei é bem clara, qualquer pessoa com um bebê de colo é preferencial e pode passar na frente, no caso de não existir um caixa preferencial é obrigação do estabelecimento passar a pessoa na frente.

Na hora fechei a cara, fiquei revoltada por diversos motivos. O primeiro é que não escondo minha constante e eterna má vontade com esses Romeus moderninhos, típicos machistas usando fantasia de vanguardistas. Não gosto deles, não me comovem e cada vez que vejo um carregando um bebê no colo, penso ''nossa, o que um homem não faz para agradar a mulher e ter sexo oral à noite''.
Essa recente paternidade fofa ainda não me convence, ainda tenho a impressão que é um método novo de continuar explorando a mulher sem que ela perceba.

E sei, já sei, existem milhões de pais legais, que cumprem sua função e não tem nada demais ir ao supermercado com um bebê de seis meses, pelo contrário, mega fofo o homem fazer isso, é o que nós, mulheres, tanto pedimos, a paternidade responsável e a divisão de tarefas. Mesmo assim que me perdoem as românticas e os Romeus decentes, alguma coisa para mim ainda não fecha, continuo vendo os homens usando e abusando dos seus privilégios e mulheres aceitando a pílula rosa, aquela que eles nos dão quando querem nos convencer de que são maravilhosos e companheiros.

Me irritei com o tom de voz do rapaz, apesar do seu aspecto meigo e de Romeu moderninho. Também não gostei do jeito ''galo'' dele, fez o supermercado inteiro saber que ele era preferencial e podia passar na frente. Fechei a cara, mas deixei passar, ele estava certo, até o caixa do supermercado confirmou. Mas como ele estava na minha frente percebeu que eu não gostei e me disse ''tenho meus direitos'' e eu respondi ''né? Tem sim, está na lei, qualquer pessoa carregando um bebê tem preferencial, então use e abuse de seus direitos''.
Reconheço que meu tom foi cínico, o rapaz me irritou desde o começo, então ele começou me encarando, afirmando seus direitos e eu fiquei quieta. Não disse nada porque ele tinha um bebê no colo e bebês sentem a energia, por isso fiquei quieta, mas escutei quando uma senhora atrás de mim disse ''frouxo, carrega um bebê como se fosse o primeiro a fazer isso''.

Me virei e percebi que na fila que eu estava tinha três idosas e duas mulheres com crianças, inclusive uma delas tinha um bebê em um carrinho e tentava segurar um menino de três anos. E essa mãe que segurava duas crianças usava um uniforme de um hospital e o filho estava com uniforme, ou seja, com certeza ela saiu do emprego, buscou o bebê na creche, o maior na escola e passou no supermercado para comprar o jantar, depois chegaria em casa, daria banho nas crianças, faria o jantar e só depois teria a alegria da cama.

O rapaz não se conformou com minha cara de cínica e ficou dizendo ''eu não vim aqui brincar'' e blá, blá, blá....

Eu fiz cara de choro, tirei barato mesmo sem dizer nada, fui cachorra, porque já estava subindo paredes com ele e não tenho vergonha disso, já cansei de falar, para me irritar é só colocar um Romeu moderninho na minha frente que eu fico louca de ódio.

E um senhor na fila, sim, um senhor, disse ''vamos colaborar, o rapaz pode ser viúvo'' e Romeu moderninho respondeu ''não sou, minha mulher está me esperando e ao bebê também''.

Lindo! Saiu ao supermercado para dar uma folga a mulher!

E  podem dizer que sou misândrica, que eu tiro barato desses Romeus moderninhos, mas não gosto mesmo.

Depois do incidente fiquei pensando porque eu tinha me irritado tanto com uma situação simples, sou uma pessoa correta e sei que o Romeu estava certo, sim, ele tinha o direito de passar na frente. É verdade que sua postura e tom de voz me irritaram, mas então entendi o que tinha acontecido.

É o domínio do espaço público que os homens têm que me ferve o sangue. A certeza de que podem falar e fazer o que quiserem, jamais serão chamados de loucos, eles têm a plena consciência dos seus direitos e sua tranquilidade em exerce-los.

Foi isso que me deixou revoltada, a calma do Romeu diante do que sabia que era seu direito.
Por quê as senhoras idosas na fila não reclamaram a mesma coisa antes dele? Ou depois? E por que as mães, inclusive com dois meninos, não disseram nada? Elas tinham o mesmo direito do rapaz e não abriram a boca.
E eu vi isso semana passada, uma idosa reclamou o direito de passar na frente, as pessoas deixaram, mas não gostaram e disseram isso, um rapaz acabou comprando a briga com a senhora, dizendo que o país não andava para frente porque as pessoas sempre queriam se aproveitar da idade e que idosos têm mais tempo para perder em filas.

Nós, mulheres, ainda estamos receosas de ocupar o espaço público e bater o pé pelos nossos direitos, ainda temos medo da reação dos outros e de sermos julgadas como loucas.

Mesmo depois do posicionamento daquele Romeu estúpido, ainda assim nenhuma mulher disse nada. Eu percebi depois meu erro, deveria ter dito que já que a fila tinha se transformado em preferencial, então que passassem todos a minha frente, mas na hora não pensei.

O rapaz estava certo, não fez nada de errado, as erradas somos nós que não reagimos e exigimos nossos direitos. Quem errou naquela fila foram as idosas e mães, que não obrigaram o lugar a cumprir a lei.

É assim, os homens dominam o espaço público e sabem seus direitos e agora nenhum deles vai ficar um minuto em uma fila segurando um bebê, imagina, tem preferencial.

Temos que acordar e ter a mesma atitude agressiva que eles, porque o rapaz ao reclamar conseguiu cortar o tempo no supermercado, entrou, pegou umas coisas e foi direto a fila, tudo em menos de quinze minutos. Já as mães agonizaram pelo menos meia hora na fila, tentando acalmar os filhos.

E não me comove em nada esse Romeu, porque sei que ao chegar em casa vai largar o bebê nos braços da mãe e vai cantar durante semanas ''que foi ao supermercado''. Conheço bem os homens, nem percam tempo me mandando emails para dizer que seus Romeus não são assim, tá bom, ótimo, vendam eles a um laboratório, para que sejam pesquisados e escaneados, vamos ver o que tem de tão diferente neles, mas o resto eu sei bem como é, largam o bebê e trocam uma ida ao supermercado por sexo.
Quer meu respeito? Quero ver chegar em casa, dar banho no bebê, fazer a mamadeira, colocar para dormir e organizar a casa para o dia seguinte. 
Aí fica foda! Não dá! Eles têm outras coisas para fazer!

E já me falaram ''nossa, você é cruel com os homens!''.
Fica ao critério de cada um, para mim cruel é uma mãe que trabalha o dia inteiro ir a um supermercado com duas crianças pequenas e ninguém dar preferencial a ela.
Foda-se, quem mandou nascer mulher!

A vida é de quem vai lá e faz, não podemos como mulheres seguir ocupando os espaços públicos de maneira tímida e pedindo desculpas por ter nascido.

Daqui pra frente a coisa vai piorar, cada vez mais vão existir esses novos pais, que vão ao supermercado e eles vão passar na frente de todas as mulheres, mesmo que elas carreguem mil bebês e eles apenas um, porque eles sabem dos seus direitos e estão serenos no exercício deles. Nós somos as burras, lentas, que não nos mexemos nem dominamos a área.

Homens sempre foram mais espertos, conhecem há séculos a arte de explorar e dominar, são mestres em ocupar espaços. E agora com esse papel recente, o homem-fofo, as coisas vão ficar mais complicadas.

E nada contra o Romeu-fofo que carrega o bebê no colo e pede preferencial, tudo bem, não vou nem comentar que meu primeiro pensamento foi ''que homem mole, não aguentou carregar um bebê e as compras ao mesmo tempo, otário''.

Ah, mas eu pensei isso mesmo, não sou meiga e esses Romeus não me enganam, conheço bem esse novo tipo, o neo-machista-disfarçado.

Mas não importa o tipo, o problema não é deles, é nosso, somos nós, mulheres, que temos que deixar de ser medrosas, cuidadosas e invadir a área.
Os espaços públicos são nossos também, pagamos impostos e temos os mesmos direitos que os homens. E em espaços privados temos nossos direitos e podemos exerce-los.

E sim, vão nos chamar de loucas, vão fechar a cara, podem ser agressivos e violentos, mas paciência, não podemos recuar e deixar eles serem os únicos a usufruir os direitos de todos.

Não é possível que uma mãe de uma criança de três anos não saiba que tem preferencial e um Romeu com um bebê de seis meses saiba! Que mundo é esse?

Mas é a esperteza masculina, eles estão diante de um novo papel de pais e vão procurar amenizar a responsabilidade de qualquer maneira e encontrar meios de não se foderem como nós, mulheres, nos fodemos. Na cabeça de uma mulher grávida ou com filhos, meia hora na fila de um supermercado é uma coisa normal, mas na cabeça de um homem perder mais de dez minutos no supermercado segurando um bebê é impensável.

E fiquei com uma curiosidade biológica, quanto será que pesam as bolas deles? Porque Romeu pareceu incomodado de carregar o bebê e suas bolas ao mesmo tempo, acho que foi demais para ele. E ele deveria morar ali perto, porque não carregava a bolsa das fraldas.

E o mundo pode dar mil voltas, esses Romeus não me arrancam uma lágrima.
O que me faz chorar é a nossa passividade diante do espaço público e como caminhamos pelas ruas como se fossem de cristal, com todo o cuidado. É nosso silêncio como mulheres diante dos nossos direitos que me faz chorar. Não lamento pelo Romeu palhaço que passou na frente, mas pelo silêncio das mães que estavam na mesma fila.
Eles estão certos, continuam moldando o mundo a sua maneira, mesmo que seja com essa nova paternidade e nós continuamos tímidas, dois passos atrás deles, esperando sua benção para existir.

Sim, os certos são eles, exercendo seus direitos, as erradas somos nós, calando tudo.


Iara De Dupont

5 comentários:

Cristina disse...

Esses machinhos que fazem o mínimo do mínimo e ainda querem aplauso por isso...

Nós precisamos urgentemente desapegar dessa criação que nos faz ter medo de passar por loucas quando abrimos a boca. É difícil, dói às vezes, é um exercício diário como qualquer desconstrução do machismo mas a gente tem que fazer. É fundamental pra nossa sobrevivência nesse mundo masculino.

Patricia Gabriel disse...

rindo muito aqui,com o peso das bolas...

Tadeu Diniz disse...

Eu brigo direto no meu trabalho, eu olho sempre a fila e atendo os prioritários aí os outros sempre reclamam comigo. Uma vez atendi uma moça com recém nascido, no dia seguinte ela foi sem a criança e passei ela na frente aí me perguntaram porque e eu respondi que ela era lactante, começaram achar ruim e perguntar a moça se ela podia provar que era lactante, minha reposta causou revolta, disse que ela não precisava provar pois eu já tinha visto na minha bola de cristal. Kkk

Cristina disse...

Essa foi boa Tadeu! xD E pode apostar que esse pessoal que reclama de atendimento prioritário pros outros vão ser os primeiros a se jogar na fila prioritária quando tiver um gesso no pé ou qualquer outra condição que os coloque como prioritários.

C.Belo disse...

Olha, se te serve de consolo, aqui onde moro não tem essa de mulher, seja mãe de bebê, seja idosa de 50 quilos cheia de botox e salto alto, que se cala e não reivindica seus direitos. Chega a ser até um inferno.... Elas brotam.... De todo lado. Quando VC acha q vai chegar sua vez.... PIMBA! Idosa! Ah, agora sim é minha vez.... PIMBA! Prenha! Kkkkkkkkkkkkkkk

Bem, eu no seu lugar teria chamado essa mulher com o bebê e mais a criança de 3 anos para ir na frente do rapaz e ainda diria "já q estamos falando de prioridade..."

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