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26 fevereiro 2016

É para agora!


Estava conversando com uma amiga quando comentei alguma coisa do Romeu e ela me perguntou como eu sabia.

Ah, ele me disse semana passada!

-E você falou com ele semana passada? 

Falei.

-E cadê a promessa de dar gelo e nunca mais falar com ele?

Com a idade estou negociando e parcelando minhas promessas. Me deu um negócio semana passada, uma angústia, uma vontade louca de falar com ele e resolvi ligar.

-E como foi?

Como sempre! Ele naquele tom de voz super cálido, sempre farreando, fala comigo como se tivéssemos nos visto ontem. Não tem clima ruim, ficou claro que somos amigos e ele reage assim.

-E pra você tudo bem?

Não, mas se precisar falar com ele, sei lá, se me der um desespero, me parece melhor manter essa harmonia, no fundo estamos bem, ele sabe seu lado e eu sei o meu. E quando penso em ligar, percebo como as coisas são rápidas e frágeis e eu vou mudando, há um ano era outro Romeu que me fazia suspirar e eu ficava pensando se ligava ou não e hoje não faz a menor diferença. 
E olha como a vida é estranha, não sei porque, mas nos últimos dias tenho lembrado muito do Rodrigo, lembra da história dele?

-Não acredito. Mas você não teve nada a ver com o que aconteceu.

Não tive diretamente, mas estava na sala e de vez em quando penso porque não me meti naquele dia, não sei o que aconteceu, mas lembro daquele outro, o Eduardo, ele era tão agressivo e eu entrei naquela discussão e me isolei do que estava acontecendo, acho que meu dever como amiga era ter dito ''liga já, liga já''.

Foi uma noite estranha. Minha amiga mais próxima, como uma irmã, deu um jantar e convidou uns amigos, entre eles esse Eduardo. Nunca tive nada contra ele, mas desde o primeiro segundo nossa energia não bateu e ele era grosseiro comigo, procurava me provocar o tempo inteiro, eu era boba e jovem e reagia, não tive a inteligência de ignorar.

Minha amiga namorava o Marcos, mas era um namoro infeliz e complicado, ele não gostava tanto dela, e ela morria por ele. Ele terminava todos os meses e depois ela corria atrás e voltavam.
No meio dessa confusão ela entrou na faculdade e conheceu o Rodrigo. Os dois se deram bem desde o começo, era uma faculdade cara e elitista e eles eram os únicos que tinham bolsa, isso os aproximou. Rodrigo também tinha um namoro complicado e parece que minha amiga e ele choravam pitangas juntos sobre seus relacionamentos. 
Em pouco tempo ficaram inseparáveis, sempre estavam juntos, mas viviam com o discurso de ''somos apenas amigos'' na ponta da língua.

A amizade durou os quatro anos da faculdade e o mestrado dos dois. Seis anos ou sete anos depois ele se mudou para Espanha, para fazer seu doutorado. Minha amiga tinha terminado o namoro e decidiu passar as férias na Espanha. Ficou lá uns dois meses e voltou contando uma história mágica. Disse que um dia eles saíram para beber e conversar, estavam caminhando pelas ruas de Madri e que de repente ela olhou para ele e teve uma sensação, algo que lhe disse ''é ele''.

E acabaram na cama e descobriram o que todos nós já sabíamos, que eram almas gêmeas. 
Minha amiga nunca acreditou no que eu dizia porque ela sabia que eu não gostava do seu namorado, então pensou que era uma estratégia minha dizer que preferia Rodrigo, mas era claro que eles tinham tudo a ver, vinham do mesmo lugar e os dois tinham uma história familiar dolorosa e sofrida, cheia de ausências, os dois eram órfãos, seguiam a mesma profissão com a mesma entrega e eram até parecidos fisicamente. Além disso Rodrigo tinha um respeito por ela quase divino, ao contrário do namorado que a maltratava.

Depois da noite em Madri minha amiga teve que voltar a casa, Rodrigo a pediu em casamento antes, mas ela disse que iria pensar.

No dia que ela chegou fez o jantar e fomos alguns amigos, a conversa girou a noite inteira ao redor disso, eu disse que casar não era uma boa ideia, mas namorar Rodrigo me parecia a melhor coisa.

Lembro de uns amigos dela argumentando que era uma crise de carência, que pessoas transam quando estão viajando e assim que seu ex-namorado batesse à porta ela esqueceria Rodrigo.

Ela foi a cozinha e eu a segui, ali a abracei e disse ''quero o Rodrigo de irmão'' e ela me respondeu:

-Sabe o que é estranho? Sinto algo tão forte por ele, mesmo assim não disse ''te amo''.

Com o tempo vai dizer! Acho que seria precipitado dizer ''te amo'' na primeira noite.

-Mas o conheço há sete anos! E tem sido a melhor e mais forte parceria que já tive na vida, ele sempre esteve presente em todos os momentos. E sinto que tenho que dizer ''eu te amo''.

E naquela época não tinha internet, nem Facebook, e os celulares não eram cheios de aplicativos.

Ela voltou a mesa e comentou que naquela noite pensava ligar para Rodrigo e dizer que o amava, os amigos resistiram, disseram que ela estava carente e não tinha pé nem cabeça essa fantasia de um dia acordar apaixonada pelo melhor amigo.

Eu fui a favor de ligar, não estava certa se dizer ''eu te amo'' era o melhor, mas a ligação me parecia uma ótima ideia.

Acompanhei essa história até esse ponto, depois me envolvi na energia ruim de Eduardo e suas provocações e não lembro de mais nada.

Antes de ir embora perguntei se ela iria ligar e me respondeu:

-Vou dar um jeito na cozinha e depois ligo, para conversar com calma.

No dia seguinte liguei para minha amiga para saber como tinha sido a ligação, ela me disse que ele não atendeu o telefone e ligaria mais tarde.

Minha amiga sumiu por dois dias, liguei de novo e ela me pediu que fosse a sua casa, chegando lá me disse:

-O Rodrigo morreu.

Morreu como? 

-Não sei, ele passou mal, parece que foi o coração, ninguém sabia que ele tinha um problema, a irmã dele foi buscar o corpo.
Sabia que eu quase fui para a Espanha? A ideia era deixar tudo aqui e me mudar com ele, mas pedi um ano, não poderia largar tudo assim, de repente. Ainda bem que foi antes né?

É.

-Acho que assim vou sofrer menos.

É.

-Mas acho que vou morrer com essa ligação engasgada, desde que cheguei quis ligar e dizer ''te amo'', mas fiquei enrolando, com vergonha. Minha mãe dizia que quem diz ''eu te amo'' antes, perde.

É, minha abuelita diz o mesmo, se a gente disser ao homem que o ama, ele foge.
Mas acho que ele sabia que você o amava.

-E quem nessa vida sabe de alguma coisa? A gente quer escutar quando é amado, não ficar imaginando que é aquilo. O Rodrigo merecia escutar isso e eu não tinha nenhum motivo para não ter dito. No dia do jantar, ele ligou antes, assim que cheguei em casa, eu quase disse ''te amo'', mas segurei a língua, pensei ''tenha dignidade moça'', não quis me jogar de cara, me preocupava que ele pensasse que era carência minha ou que fiquei com ele porque o meu ex-namorado me deu um chute. Eu queria que ele soubesse o quanto tudo me surpreendeu, cansei de viajar com ele e não senti nada, mas naquele dia em Madri, quando olhei para o rosto dele, seu sorriso, pensei ''é ele'', não consigo te explicar, como é possível se apaixonar em um segundo por uma pessoa que estava a teu lado há sete anos?

Talvez você estava cega pelo teu ex-namorado......

-Não sei se vou me perdoar por nunca ter percebido que o Rodrigo era quem eu realmente amava. Você tem ideia de como teria sido importante para ele escutar que eu o amava? O Rodrigo era como eu, uma peça solta na vida, sem pais, sem referências, não sobrava amor na sua vida, para muitos não teria feito diferença escutar que era amado, mas sei que para ele teria sido a melhor coisa de sua vida.

Você, eu, todo mundo achou que vocês teriam todo o tempo do mundo para se dizer essas coisas, como poderíamos imaginar que ali tinha tudo, menos tempo?

-Eu já devia saber disso, há anos perdi meus pais, sei que tempo não é definido pelas nossas vontades, a gente nunca sabe. E não é só o tempo, é o que dizemos, não sabemos se vamos amar a pessoa para o resto da vida, então para que enrolar? É melhor dizer! Eu poderia ter pensado isso, caramba, descobri agora que amo o Rodrigo, então vou e falo isso, amanhã não sei como vai ser, se vou amar outro, a gente guarda os ''te amo'' como se fossem diamantes, uma coisa eterna e que devem ser distribuídos com cuidado. Não é assim! Ama agora? Fala agora! Amanhã isso pode ter mudado! Amor é agora! É já!
Eu tive mil chances com ele, desde que percebi isso quando estávamos na cama até o dia seguinte no aeroporto, eu tinha o ''te amo'' na boca, mas quis segurar, esperar uma melhor ocasião, não parecer carente, nem louca. E olha onde deu!

Ficamos um tempo ali, olhando o jardim de sua casa, sem dizer mais nada. E foi a última vez que escutei ela dizer ''Rodrigo'', nunca mais mencionou o nome dele, nem nada relacionado a sua vida.

Muitos anos depois fiquei sabendo que ela foi ao enterro e pediu para colocar a placa do túmulo, mandou escrever o nome dele, a data de nascimento e morte e a frase embaixo ''eu te amo''.

Ela nunca me disse nada e eu não perguntei mais, não consigo falar de assuntos assim se a pessoa não começa primeiro.

E Rodrigo e seu jeito relaxado tem aparecido muito na minha mente, não sei o motivo. Nunca foi próxima dele, mas a gente se dava bem, eu tinha respeito por ele e pela maneira elegante de tratar minha amiga, sei que no meio de milhões de cafajestices que o ex-namorado fez com ela, foi Rodrigo que a ajudou.

A parte dos amigos apaixonados por sete anos sem saberem disso, foge a minha compreensão. Da parte dele, mesmo com namorada, sempre foi visível o amor que sentia, tanto que o ex-namorado da minha amiga percebeu e exigiu que ela se afastasse dele. 
Mas a parte da minha amiga eu nunca entendi, como é possível estar ao lado de um homem durante anos e não perceber que está apaixonada?

Durante um tempo guardei essa história como a trágica história de amor, mas só depois da morte do meu pai percebi como a nossa noção de tempo é vaga e desnorteada, contamos com ele como se estivesse no nosso controle.

Hoje entendo o peso de um ''te amo'' e sei que amanhã pode não existir mais, amo hoje, amanhã não sei, então para quê guardar como se fosse dinheiro? É melhor dizer logo e deixar o barco correr.

E tudo que é ruim sai da boca mais rápido, o bom a gente segura.
Desde pequena tenho problemas com uma prima, ela sabe tudo o que penso sobre sua presença no planeta, nunca escondi, nunca usei meias palavras.
Mas tenho um primo menor, temos dez anos de diferença, que sempre me deu muito apoio. 
Durante uma época minhas primas resolveram me dar um ''gelo'' e eu ficava isolada, mas como sou de temperamento quieto não me causava grandes problemas, eu ficava lendo e assistindo televisão. E meu primo chegava e ficava do meu lado, jogando conversa fora. Todas as vezes que me viu sozinha se aproximou.
Uma vez fomos a uma feira de coisas antigas e eu gostei de uma pulseira, mas não tinha o dinheiro, ele se ofereceu para comprar e me deu de presente.
E quando eu viajei me deu um cd do meu cantor favorito, sempre foi de gestos silenciosos, nunca me disse  nada, apenas se aproximava e ficava ali. E eu jamais disse a ele como seu apoio era importante para mim e como me dava conforto sua presença, saber que estava ali porque queria estar perto. Nunca falei nada, nem agradeci todo o amor que me deu. 
E espero ter tempo para fazer isso.

E há dois anos terminei com um Romeu que mexeu muito comigo, então resolvi colocar uma data, decidi que ligaria e diria coisas que não tinha dito, inclusive que ainda gostava dele. Mas a data chegou e eu não tive vontade de ligar, percebi que não sentia mais nada e não faria sentido sair dizendo coisas que já não significavam nada para mim.

Cada pessoa tem seu tempo, mas o meu é assim, volúvel e sempre se transformando, amo por um período longo, posso até amar para sempre, mas não garanto mais nada, digo que Deus me fez assim, nem eu conheço os tempos do meu amor, por isso se amo é melhor dizer já, porque amanhã posso amar outro.

E foi assim com meu ''manteiga'', apelido dado a Romeu há vinte anos, pela mania quase nojenta, de jogar manteiga em tudo. Me deu uma vontade louca de escutar a voz e liguei, não disse que o amo porque ele já sabe e eu já sei sua resposta, a gente só falou amenidades, mas para mim foi suficiente.

Não quero mais guardar ''eu te amo'' nas gavetas e engolir tudo na maior dignidade, nem deixar de ligar porque o certo é um ''gelo e foda-se''. E amo agora, amanhã não sei.

Da minha amiga ficou a lição, prefiro exagerar, errar, tropeçar, ligar, chorar, berrar, dizer, falar, do que ir a uma loja de placas de túmulo e pedir que escrevam no mármore ''eu te amo''. É um lugar frio demais para uma frase tão quente. Te amo tem que ser dito na hora que sai da boca, não escrito em um túmulo.


Iara De Dupont

3 comentários:

Sheila disse...

Iara, sua amiga se refez dessa tristeza?
:( essa estória me tocou, espero que ela esteja bem.

Iara De Dupont disse...

Oi, Sheila, olha, eu vou ser sincera, não sei até que ponto alguém consegue se refazer de uma história dessas, até porque eles eram muito grudados e tinham uma vida familiar muito triste, acho que por isso se identificaram tanto. Mas o tempo passou e a vida segue, ela conseguiu largar aquele ex-namorado que fazia sua vida um inferno, conheceu outro (também não é dos melhores), casou, teve filhos e parece bem, mas eu nunca mais toquei no assunto do Rodrigo, não sei o que ela pensa ou deixa de pensar sobre isso......

Patricia Gabriel disse...

tenso....

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