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28 fevereiro 2016

Arrancando a pele de mulher


Tenho uma amiga que defende muito um ex-Romeu que tive. São amigos há anos e entendo o lado dela.
É uma história simples, mas o que acontece entre duas pessoas fica ali, não dá para ficar explicando.

Ela queria saber qual era o motivo real da minha bronca com ele, o fato de que eu não querer nem a amizade dele.

O ponto é que eu não sei ainda se quero ser sua amiga ou não, porque tropecei em uma pedra recente, não é um dilema antigo e ainda não sei como lidar com ele.

Há pouco tempo, muito pouco tempo, percebi que os homens, os Romeus, não se importam com suas Julietas.

Parece absurdo, como é possível um homem se casar com uma mulher e não se importar com ela? Se importa sim, com ela, não com o que é importante para ela.

A única explicação que encontrei é que há pouco tempo, nós, mulheres começamos a perceber que somos seres humanos, antes éramos definidas como se fôssemos um triângulo, éramos mulheres, mães e pessoas que trabalham ou não fora de casa. Não tínhamos interesses, nem nada que nos despertasse a vontade longe desse triângulo.

Nesse pequeno e sufocante mundo no qual fomos confinadas aprendemos que nada do que nos importe deve ser levado a sério.

Só hoje ao analisar meus namoros passados percebo como eu me neutralizava e nunca namorei ninguém que me perguntasse o que era importante para mim.

Quando eu reclamava que meus namorados não me escutavam, as pessoas diziam ''homens são assim, impacientes, não tem saco para escutar lenga-lenga de mulher''.

A frase que mais escutei na vida foi ''homem é assim''.

E namorei atores e diretores, trabalhavam nas mesmas peças e projetos que eu, mesmo assim nenhum deles me perguntou o que era importante para mim ou porque eu estava naquele projeto.

E não posso jogar a culpa neles, hoje ao fazer um recorrido por esses porões da minha existência percebo o quanto eu cobri esse comportamento masculino, eu achava que homens eram assim mesmo, não perguntavam nada porque tinham mais o que fazer.

E como mulher não me fazia falta ser escutada, eu queria apenas ser amada, então se eles não me perguntassem nada, não me afetava.

Mas tudo mudou quando comecei a me perceber como ser humano, neutralizando o fato de ser mulher, mas como um indivíduo, uma pessoa, me dei conta que tenho vontades e coisas são importantes para mim e nenhum delas envolve casamento, fraldas e licença maternidade. Nesse momento comecei a me sentir mal por não ser escutada, por Romeu não me perguntar o que é importante para mim.

Me identificar como mulher em um relacionamento não é mais suficiente para mim, não fechas as feridas e não me deixa satisfeita. Coisas são importantes para mim e me incomoda que Romeu se mostre impaciente ou cortante quando começo a falar. Ser mulher em um relacionamento implica o que chamo da ''síndrome da porta'', a quantidade enorme de vezes que batem a porta na nossa cara, de maneira simbólica e aquilo quebra nosso coração. Quem mulher não conhece a sensação de chegar em casa, com vontade de contar alguma coisa, falar sobre isso e escuta um lacônico ''ahã'' do Romeu? Que mulher nunca quis se prolongar em uma conversa, contar os detalhes, esperou ansiosa as perguntas e Romeu responde ''tá, entendi''.

E foram anos assim, aguentei quieta porque não sabia o que era, mas agora que tenho os olhos abertos vejo amigas e pessoas da minha família que ainda enfrentam esse dilema, tem que fingir que Romeu se importa com o que elas pensam.

Mulheres fazemos isso, temos uma capacidade de dizer que desvendamos o misterioso comportamento masculino e sabemos que eles se importam, mas no fundo sabemos que nem somos escutadas. Fingimos que Romeu é diferente e considerado, ignoramos que é outro egoísta como todos, porque foi educado para ser assim.

E não tem nada a ver com dar apoio, alguns Romeus apoiam suas Julietas e são prestativos, tem a ver com olhar nos olhos e perguntar ''o que é importante para você?''.

Eles não fazem isso, porque ainda não nos veem como seres humanos, com desejos e vontades, ainda circulamos em suas iris como mulheres, não como indivíduos. E nós solapamos esse comportamento, tiramos a importância do que pensamos, sentimos e sorrimos dizendo ''ele é assim, mas é ótima pessoa".

Para nós tudo ainda é muito novo, não é  fácil arrancar a pele de mãe, mulher, esposa, e trabalhadora e assumir que somos uma pessoa, sem importar o gênero e temos centenas de sonhos e vontades e nem todas ligadas a bebês e casa própia.

Em uma conversa de bar me exaltei e disse que todos os abusadores de menores mereciam a pena de morte, na hora um amigo disse ''tá de tpm (tensão-pré-menstrual)?
Essa era minha opinião como indivíduo, mas entrou para a categoria ''mulheres falando merda'' e foi catalogada como um ataque de tpm, neutralizando meu direito a me expressar e dizer o que penso.

Em teoria talvez não seja possível separar o gênero do ser humano, se sou mulher e educada como mulher, então vou agir como mulher. O problema é que alguma coisa mudou e não me vejo mais como mulher o tempo inteiro, nem tenho vontade de me posicionar assim sempre, me vejo como uma pessoa neste mundo, um ser humano que quer os mesmos direitos que todos.

Não me sinto bem quando Romeu passa por cima e não pergunta o que é importante para mim. E não é uma questão profissional, envolve tudo.

Durante anos não percebi o que estava acontecendo, era Romeu que falava as coisas que ele acreditava ser importantes e eu escutava.

Lembro que um dia perguntei a Romeu se ele acreditava em Deus, então ele se estendeu e falou durante horas sobre o assunto, mas nunca me perguntou se eu acreditava, mais uma vez o carimbo de ''não é importante o que você acha''.

Presa ao gênero os relacionamentos homem-mulher me deixam insatisfeita e cansada, o que existe ali além do sexo e de umas conversas jogadas fora? O resto não me interessa, tratar Romeu como se fosse Deus, fazer de conta que não percebo que ele não se importa com o que me parece importante, enfim, relacionamentos me parecem cada vez mais limitados, quando presos no gênero.

E mulheres fomos educadas para fingir que não percebemos como somos ignoradas. Conheço casais que têm um ótimo relacionamento, conversam muito, mas a grande maioria ainda tem essa pedra pela frente, eles não se importam com o que a mulher pensa ou diz. Mas nós somos boas em esconder isso e saímos dizendo que Romeu escuta nossas conversas e presta atenção.

No começo da paixão ficamos cegas, não perdemos tempo pensando se Romeu mudou a conversa porque não tinha vontade de escutar nosso lado, isso passa batido, mas como o tempo aparece no mar com se fosse um iceberg, a sensação de solidão é imensa quando percebemos que no fundo somos tratadas como bonecas sexuais, com um mínimo de conversam e se batemos o pé começam a nos tratar como crianças birrentas e mimadas.

Não tenho a menor ideia de onde vem essa recente necessidade de algumas mulheres, e me incluo nela, de ser vista e ouvida como indivíduo, não apenas como mulher. Talvez o gênero ficou pequeno para muitas de nós e cada vez mais nos cansamos de sermos tratadas como carne de segunda. A pele ficou pequena diante de tantas necessidades que apareceram.

Já me peguei pensando em coisas que quero e não estão ligadas ao fato de ser mulher, quero elas como pessoa, como qualquer ser humano pode querer.

Dizer que falo muito porque sou mulher, ou Romeu é calado porque é homem não dá mais.

Ah, mas é tão lindo ser mulher!

Deve ser em Marte, aqui na Terra é castrador, sufocante e apertado, quem quer ser mulher em um mundo que nos odeia?

Bom mesmo deve ser um indivíduo e visto dessa maneira, como outro ser humano circulando no planeta, correndo atrás do que querer. E que isso possa se refletir nos relacionamentos, quando o fascinante é estar com alguém que não conhecemos e se importa como nosso mundo.

Não sou um triângulo e não me defino como ser humano por casamento, bebês e trabalho fixo. E minhas vontades não estão ligadas a Romeu nem as fraldas, tenho sonhos e interesses, como qualquer um tem. Não sou a segunda voz em um relacionamento nem o eco de consciência do Romeu. E se Romeu não tem paciência para escutar, problema é dele.

Determinei meus relacionamentos como mulher a vida inteira e não gosto mais desse papel para mim, já não me serve, não quero mais saber de homens que não se importam com o que me interessa nem me perguntam sobre o que é importante. E não adianta me dizer que escolho errado, porque eu observo muito as pessoas e os casais, essa síndrome da porta que batem na nossa cara é mais comum do que parece, é raro encontrar uma mulher que se sinta escutada no relacionamento, que Romeu realmente tenha interesse no que ela diz.

Fomos educadas como sombras e eles educados para se verem gigantes no espelho, difícil fazer uma ponte entre essas duas visões de vida.
E fica mais explosivo quando arrancamos a pele de mulher e encontramos debaixo dela uma pele mais ampla, diversificada e interessante. A pele de indivíduo, de ser humano, de pessoa, uma pele ilimitada e cheias de possibilidades. Fica difícil querer voltar para a pele anterior, tão justa e sufocante.


Iara De Dupont





Um comentário:

Cristina disse...

Suponho que seja mais da velha história, homens folgados querendo que a mulher se reduza a uma boneca inflável de carne e osso, um brinquedo, já que lidar com outro ser humano é complicado demais e esses machochos só querem chegar na casa arrumada, ter a comida pronta, as roupas lavadas e um buraco onde esvaziar o saco. Ninguém deve se reduzir a brinquedo pros outros, e é ótimo que cada vez mais mulheres não aceitem mais esses papéis ridiculamente limitados que querem pregar nelas e estejam atrás de mostrar pro mundo que são seres humanos. Uma dia a gente chega lá.

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