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27 fevereiro 2016

A ''fábrica''


Há uns anos um jornalista descobriu uma história e a escreveu. A protagonista não tinha nome, naquele momento estava escondida e não poderia relevar sua identidade.

Quase ninguém acreditou no que foi escrito, eram linhas e linhas que pareciam exageradas e obscenamente mentirosas.

Era a história de uma jovem que caminhava com sua irmã, na Cidade de Juarez, na fronteira do México com Estados Unidos. Elas voltavam de seu trabalho à noite, quando foram sequestradas pela polícia e levadas a um galpão. Dali para frente era impossível ler uma frase e acreditar naquilo, nada fazia sentido. 
Ela contou sobre a ''fábrica'' e a ''triagem'', mulheres são sequestradas e levadas a esse lugar, onde se decide o que pode ser feito com elas, se vão usar seus os órgãos, vender como escravas para filmes pornôs, jogar nas ruas para trabalhar como prostitutas ou vão ser mortas.

Por algum motivo que nunca se explica no texto, essa moça é levada a todos os lugares da ''fábrica'', conhece cada canto e vê mulheres sendo queimadas vivas, que já não serviam para nenhum propósito.

Ela passou dias ali dentro, sendo torturada e estuprada, sua irmã é morta logo no início. Depois de uma semana ela percebe que as mulheres que vão ser mortas têm a cabeça raspada e os dentes arrancados, para complicar qualquer tentativa de identificação.

Depois de muita tortura acreditaram que ela estava morta e a jogaram em uma pilha de mulheres, também mortas, no que ela escutou chamar de ''migalha''. Migalha é o termo que ela entendeu ser usado para designar mulheres mortas que seriam jogadas nas ruas, assim os corpos seriam encontrados, elas saíram da lista de desaparecidas. Isso distrai a polícia e a imprensa, uma mulher encontrada sempre dá a ideia de que a polícia procurou bastante, mesmo que a mulher seja encontrada morta.

Ela passou a noite inteira na pilha com as mortas, até que percebeu uma oportunidade de fugir e o fez.

Não sei em que momento encontrou o jornalista, nem para onde foi, mas sua história parecia mal contada porque ela implicava a polícia diretamente, deu nomes, a localização da ''fábrica'' e levantou um assunto que os mexicanos têm anos negando, a participação da polícia nos crimes de Cidade Juarez.

Logo a história foi abafada, mas o jornalista conseguiu ir atrás e reuniu alguns elementos que provavam que a moça estava certa, mas tudo teve que ser deixado no ar, por medo das ameaças.

Pelo tempo que passou no cativeiro a moça conseguiu informações precisas, podia dizer quantas moças tinham que ser sequestradas por dia, quantas eram mortas e quantas ''vendidas'', revelando assim um mercado que funciona perfeitamente, como relógio suíço e pior ainda, funciona em diferentes cidades e estados do México, Juarez não é o único lugar que ''fornece'' mulheres para esse mercado.

Essa seria a razão do silêncio das autoridades, no México o tráfico de mulheres gera tanto dinheiro como o de drogas e armas e precisa da cumplicidade do sistema para acontecer, por isso ninguém diz nada, a imprensa está ameaçada e o governo é omisso.

A última vez que li sobre prisoneiras que tinham seu cabelo raspado foi uma daquelas histórias de terror em campo de concentração, durante a segunda guerra mundial.

E nada se perde em Juarez, as mulheres de lá tem aqueles cabelos lindos, pretos, longos, que são cortados e vendidos ao mercado de apliques. 

É impossível como mulher se aproximar, nem que seja mentalmente, de um horror desses. Não dá para entender como alguém pode ser sequestrado e levado para uma ''fábrica'' e tem seus cabelos cortados, sinal de que vai morrer.

E a moça dizia que eram centenas de mulheres e dezenas de homens ali, torturando, estuprando, queimando, separando os corpos.

E por quê eu falo sobre isso? Porque teve uma polêmica está semana no Facebook, uma moça foi e colocou um post dizendo algo assim ''não sou racista, mas aceitem, cabelo liso é mais bonito''.

Entendo que cada país tem seus traumas e erros, mas o Brasil não está acima do México em direitos da mulher. Aqui não somem tantas como no México, mas estamos nos primeiros lugares de escravidão sexual e venda de escravas para a Europa, temos bordéis infantis, prostituição em todos os lugares e as mulheres também morrem à toa. E nem sabemos se existe alguma ligação entre o comércio de mulheres no México e no Brasil, ainda ninguém mexeu nisso, não sabemos se existem ''fábricas'' de mulheres aqui.

E enquanto tudo isso acontece algumas mulheres conseguem perder seu tempo sendo racistas, discutindo porque cabelo liso é mais bonito.

Bonito é mulher viva, o resto é superficial e miserável.

Ainda fico sem acreditar no racismo que existe no Brasil e como as mulheres se envolvem nisso, sem perceber que todas são ''carne'' em um mercado e não faz diferença nenhuma se o cabelo está alisado ou não.

Discutir racismo é uma perda de tempo, foge da minha compreensão como alguém pode ser tão limitado, mas quando eu vejo mulheres sendo racistas fico deprimida, espero qualquer comentário de um homem, mas não de uma mulher, que conhece os horrores do mundo.

E não temos mais espaço para ser idiotas desse jeito, não dá para perder tempo falando sobre as vantagens de alisar o cabelo.

Não temos ainda esse direito nem espaço no planeta, talvez as suecas possam passar o dia discutindo o que acham melhor para seus cabelos, mas nós, no Brasil, temos sérios problemas para lidar e ser racista é um empecilho que nos impede de ver o que realmente está acontecendo.

Canso de dizer aqui, não existe ''imunidade'' para nenhuma mulher, seja branca ou seja negra. Mulheres são consideradas produtos no mundo, tanto assim que já existem ''fábricas'' e triagem, para tirar o melhor proveito.

E uma das grandes tragédias de Cidade Juarez é a falsa ideia de que está longe, fronteira de países desconhecidos, a quilômetros de nós. Sim, as norueguesas podem pensar isso, nós não. Não tem distância nenhuma porque no Brasil também existe tráfico de menores e de mulheres. São conhecidos muitos casos de ''olheiros de família'', homens que vão ao interior do Brasil procurando meninas para trabalhar em casas de família nas cidades grandes, mas na verdade vão pelas meninas para jogá-las em redes de prostituição. 
Um dos melhores filmes sobre o assunto é ''Anjos do sol'', que mostra essa realidade.


Racismo é uma coisa estúpida e um luxo idiota que nenhuma mulher pode se dar no momento, não dá para perder tempo nessa babaquice enquanto mulheres somem todos os dias no mundo inteiro.

A moça falou da ''fábrica'' em Juarez, mas já aconteceram alguns relatos em outros países e existe certa lógica nessa ideia, mesmo que o México sequestrasse todas as mulheres de lá, ainda assim precisaria de muitas para abastecer os mercados do tráfico.

E digo, não espero compreensão dos homens nem empatia, mas espero sim que as mulheres percebam que estão todas em um fila, que este mundo não é amigável, que as autoridades trabalham do lado que gera a ganância e que não temos tempo para sermos estúpidas e ignorantes, discutindo as maravilhas do cabelo liso e como é ruim não ter nascido com o cabelo liso.

E outro motivo que me leva a ter certeza de que estamos sozinhas é o fato que são os homens que conseguem os ''produtos'', são eles que sequestram, estupram, vendem e matam, compram os filmes pornôs e frequentam bordéis ilegais. É o homem que gera esse mercado e o consome, por tanto fica claro que eles nunca vão entender nem estar do lado das mulheres, isso é um fato.

Não temos mais tempo para discussões tão ofensivas, pequenas e infelizes, ser racista é assinar um papel que comprova a estupidez da pessoa e seus limites mentais.

E qual o problema de ter cabelo liso ou querer alisar? Não entendo qual a diferença entre uma coisa e outra e porque isso incomoda tantas mulheres.
Essa questão mostra como o Brasil é míope em relação a própia violência, centenas de mulheres sumindo, sendo vendidas e tem mulher no Facebook preocupada em explicar porque o cabelo liso é melhor!

Melhor? Melhor é ficar viva. O resto é resto. Cabelo bom é o que a mulher tem, o problema é quando ele é cortado antes dela ser morta. 
Sim, porque algumas brasileiras estão esquecendo esse ponto, o cabelo não é nosso problema, o nosso problema é o mundo e suas ''fábricas'', onde todas nós somos carne moída. E lá dentro não faz diferença se o cabelo é liso ou não, vai morrer do mesmo jeito.



Iara De Dupont

3 comentários:

Alexandra disse...

Iara...infelizmente ainda há mulheres que acham que a beleza (padrão bem relativo e mantido por um sistema) é uma bênção que vai livrá-las de todo e qualquer aborrecimento. Pelo contrário, vai conduzi-las ao Portal das Maravilhas.
No Brasil, com metade de população negra mas a TV reflete um povoado europeu; a coisa piora. E muito. Vejo mulheres que fazem "amizade" por padrão estético, tipo aqueles filmes adolescentes ambientados em escolas americanas. Não percebem que a mulher no geral é vista como inferior. Essas que indiretamente dizem amém a esse pensamento, incapazes de desenvolver habilidades que não sejam sexuais, são as primeiras a estampar as páginas policiais.

(P. S. : pq a pessoa responde quase com outro postal, hein???������)

Anônimo disse...

Oi, Iara! Você foi ótima mais uma vez! Difícil lidar com a ignorância alheia e racismo indica uma ignorância sem limites...Poxa, a gente tendo que lutar por tanta coisa e algumas perdendo tempo com idiotices... Mônica

Cristina disse...

Eu li a descrição da fábrica e nem por um minuto duvidei da veracidade do relato. Como eu poderia duvidar, porra, se sei muito bem o que gente sem escrúpulos faz por dinheiro? Sabendo que mulher em pleno século 21 ainda é vista como coisa, produto, objeto a ser vendido ou jogado fora pelo lucro? Não, nem por um momento duvidei que fosse verdade porque a verdade, pras mulheres, é feia e brutal. O mundo não saiu da idade das trevas quando se trata de mulheres.

Bom, alisar o cabelo só é um problema se, como acontece no Brasil, se trata de uma imposição feita por uma sociedade racista que só valoriza traços étnicos típicos de brancos e associa traços étnicos negros a coisas ruins. É o racismo velado, entranhado, que todos dizem que não existe porque não temos escolas pra negros e escolas pra brancos, como se racismo fosse só isso. Mas é mesmo especialmente triste ver mulheres sendo racistas umas com as outras quando a loira branquinha do cabelo liso e a negra de cabelo cacheado são vistas do mesmo jeito: objetos usados e descartados de acordo com a conveniência dos machos.

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