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03 janeiro 2016

Não faça perguntas


Desde pequena meu avô dizia que eu seria uma ótima jogadora de basquete ou de vôlei, porque sou alta. Não sei de onde ele tirou uma ideia tão cretina, porque eu nunca tive o menor talento para esportes, nem a agilidade nem a rapidez que se exige.

Já meu tio dizia que eu seria a primeira cientista da família, eu adorava ler, perguntava sobre tudo e vivia interessada nas coisas. Mas meu tio nunca reparou que a ciência me matava de tédio, tudo que era exato e tinha resposta me parecia resolvido, então não me despertava o interesse. Sofri horrores na escola com todas as matérias ligadas a exatas, minha cabeça nunca entendeu como era possível que alguma coisa tivesse resposta exata neste mundo.
Eu gostava de história porque podia ler em outros livros diferentes versões e de geografia que me mostrava os lugares que existem no mundo.

Desde pequena pergunto muito, tanto que minha mãe me chamava de Mafaldita, uma referência ao personagem do Quino, a Mafalda. Minha mãe desenhou a Mafalda na parede do meu quarto, comprou boneca e livros. 

Levei pouco tempo para entender que perguntas não são bem vindas neste mundo. Sempre lembro de minha mãe e tias me dizendo ''a gente não pergunta isso''. Minha infância inteira foi assim, eu perguntava e alguém me mandava calar a boca.

Na escola isso me custou diversas idas a diretoria e suspensões, eu levantava e perguntava e os professores achavam que eu estava de brincadeira e querendo ''zoar'' as aulas.

Em uma aula de história o professor falava sobre a escravidão e eu quis saber porque as pessoas na África, sabendo que os barcos europeus chegavam para levar todo mundo, por que eles não jogavam uma bomba antes? Era uma pergunta simples, na época eu não sabia do esquema de tráfico e que muitos escravos eram capturados por tribos diferentes e vendidos. Mas o professor não gostou e me marcou, trabalhou duro para que eu fosse expulsa da escola, até que conseguiu.

Tive um momento de tranquilidade quando entrei no teatro, tudo ali tinha que ser questionado e eu parecia no lugar certo, qualquer pergunta era bem vinda. Mesmo assim continuei levando isso para minha vida pessoal, eu pergunto muito mesmo, nem sei o porquê.

Meu pai me incentivava a perguntar, dizia que seria bom para mim e depois que entrei em uma emissora de televisão comecei a perguntar mais ainda.

Mas nos últimos tempos venho percebendo que muitas perguntas minha não revelavam curiosidade, mas sim falta de fé e confiança na vida. 

É uma teoria simples, nós não sabemos o que acontece nas nossas vidas, mas talvez exista uma força superior que sabe e isso vai direcionando algumas coisas.

Minha mãe diz que a vida é como fazer café, tem um filtro ali, mas nós não o vemos, apenas colocamos o pó, jogamos a água e esperamos descer o líquido, confiando que o filtro faça sua parte.

Levei um tapa estes dias em relação ao tempo, fé e confiança.

Eu me apaixonei por um Romeu há uns vinte anos, perdemos o contato e ele apareceu agora, começamos a conversar e ele sumiu.

Mas durante esses vinte anos ele foi presença constante na minha cabeça, eu me perguntava sempre o porquê da nossa separação, o porquê disso ou daquilo. Enchi meu travesseiro de perguntas, poxa, como é que pode tanto amor acabar assim? 
Foram duas décadas de perguntas, mesmo namorando outros ele sempre esteve presente de um jeito ou de outro, talvez por ter sido meu primeiro amor.

E havia muito barulho entre nós, nos conhecemos em uma escola e acabamos em uma peça de teatro, mas tinha muita fofoca ali e coisas fora do lugar. Na minha cabeça acabei jogando a culpa nas circunstâncias, havia muito movimento ao nosso redor.

Foi decisão da vida tirá-lo de meu caminho, as forças se moveram para o outro lado e ele sumiu, e eu não confiei nesse movimento, achei que se o amava era injusto não estar com ele, fui míope em relação a tudo que me envolvia, não pensei que era uma força maior limpando meus caminhos e me levando ao meu lugar certo e ele, sabe Deus porque, não pertencia a minha história.

E agora percebo a energia que joguei fora. Na última vez que falei com Romeu eu tinha bebido e dito que o amava, depois ele sumiu. E isso respondeu todas as minhas perguntas de duas décadas. Sim, não deu certo antes porque pensei que era o excesso de bagunça ao nosso redor, mas tenho que admitir, não deu certo porque ele deve ter sido naquela época fraco e babaca como tem sido agora.

Joguei a culpa nos outros e em mim, mas talvez ele já era assim. Sumir depois de uma confissão não é coisa de homem, é coisa de moleque. Eu ainda sou apaixonada por ele, pelos seus olhos, pelo seu jeito, mas não posso negar que ele não tem sido legal, que sumir não é uma atitude certa. Minha confissão merecia pelo menos uma réplica dele, nem que fosse para me dizer que tem namorada e não está interessado em mim, mas sumir é aquele truque barato masculino, rezando para que a mulher entenda a ''mensagem'' e desapareça.

Já chutei muito a vida por causa dele, já perguntei demais a Deus porque nos separou, mas sou obrigada a reconhecer que talvez Deus estava certo, não sou mulher de aguentar homem fraco.

Ficou a lição aprendida, preciso ter mais fé na vida e nas decisões que vão além da minha vontade, eu posso ter amado esse Romeu e ainda gostar, mas não é a pessoa certa, nem poderia ter sido. Ver o comportamento dele vinte anos depois me dá a certeza de que ninguém se meteu muito, foi ele que foi débil e eu fui confusa na hora de agir.

Gastei tempo, saliva e energia com mil perguntas a respeito dele, eu quis que os anjos me contassem porque Romeu não tinha ficado na minha vida. E parece que ele voltou apenas para reforçar minha teoria de que preciso ter mais fé e fazer menos perguntas. Se ele sumiu ou foi ''sumido'' da minha vida isso tem uma razão e eu não preciso conhecê-la para poder confiar que foi a melhor coisa. Deus tem seu filtro e se ele não o usasse nossa vida seria mais caótica do que já é.

A minha amiga suspira e diz:

-Você está sendo muito dura com Romeu, ainda está em tempo dele voltar e te dizer alguma coisa.

Pois será no tempo dele, não no meu. No meu relógio já se esgotou o limite de tolerância.

Uma vez fui visitar uma benzedeira. No jardim de sua casa tinha um monte de plantas que eu nunca tinha visto, então comecei a perguntar para o marido dela para que serviam. Ele começou a me explicar, mas em algum momento me disse:

-Você pergunta demais.

Confirmei e disse que eu adorava plantas, por isso queria saber mais sobre elas e ele respondeu:

-Não te aconselho a ser assim, a perguntar sobre tudo. Porque tua pergunta é uma dúvida, mas a resposta pode ser uma certeza que você não vai querer escutar e viver com isso. Pense antes de perguntar, se eu não perguntar, posso viver com a incerteza? E se eu perguntar, posso viver com a resposta?

No fundo acho que foi isso, sempre me perguntei em alguma parte da minha alma porque esse Romeu nunca ficou comigo, eu batia a cabeça na parede me perguntando como era possível que fofocas destruíssem o que sentíamos um pelo outro. E de tanto carregar essa pergunta, de ter ela tatuada no universo, movi forças que não deveria ter sido mexidas e minha resposta chegou: você não ficou com o Romeu porque ele é um babaca e você é maravilhosa demais para ele. Assinado: o universo.

É isso, daqui pra frente menos perguntas, fé na vida e nas suas misteriosas decisões, no filtro de Deus e a começar a economizar energia, perguntas gastam muita pilha e os tempos são outros. E minha avó dizia, Deus pode levar uma eternidade para responder tu pergunta, mas um dia ele vai responder. E pode ser que você não goste da resposta, então é melhor não perguntar, é melhor ter fé na vida. 


Iara De Dupont

2 comentários:

C.Belo disse...

Adorei sua conclusão: VC é maravilhosa demais para ele! Com certeza!

Cris disse...

É, a vida responde e às vezes dói. Passei por um momento tão ruim que não desejaria ao meu pior inimigo e gritei várias vezes perguntando por que. A resposta foi um tapa: porque eu era medrosa e covarde, e nunca tomaria as rédeas da minha vida e iria à luta se não tivesse sofrido tanto que a dor da prisão-segurança se tornou maior que o medo da liberdade. Doeu tanto que questionei o universo "Mas precisava ser tanto assim? Não podia ter sido menos ruim?". E a resposta é NÃO, tinha que ser assim ou eu não faria nada. As respostas realmente doem e você acaba tendo eu confiar. Sua conclusão está completamente certa, Iara. Alguém tão incrível como você não merece aturar um homem tão débil ao seu lado.

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