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21 janeiro 2016

É só uma frase (mas define a situação)


Sou a favor de entrar em qualquer jogo, desde que seja um movimento consciente. No momento me encontro em um e não reclamo, a decisão foi minha e estou bem acordada, não fico dizendo que ''as coisas agora serão diferentes'', porque sei que não serão e se forem eu não confiaria na sorte.

E fico chateada quando vejo alguém em uma situação igual tentando caramelizar o que está acontecendo. Tenho uma amiga que está em um momento similar ao meu, mas a grande diferença é que meu crédito acabou, eu não tenho mais como financiar atitudes masculinas, enquanto minha amiga ainda dá crédito para algumas coisas.

De novo quem resolveu meu dilema foi o feminismo, sem ele eu nunca teria percebido o horror que me cercava e como tudo era limitado.

Fui educada para ''escutar'' nos relacionamentos e dar apoio incondicional aos homens. Namoradas ''legais'' fazem isso. E quanto aos homens? Ah, sabe, eles não têm paciência para conversas de mulher, porque eles têm mais o que fazer.

Ah, então tudo bem, só eu escuto.
É, só eu.

E lembro de um namorado que se jogava no sofá e não parava de falar, coisa bem estranha, porque me disseram que homens não gostam de falar nem são expressivos. Mas esse era e passava horas falando e falando, e eu escutava tudo, às vezes tentava dar opinião, mas isso sempre desatava a fúria do rapaz.

E tenho uma amiga que namorou durante anos meu primo, era apaixonada por ele, não tinha nada no mundo que pudesse tirar ela dali.

Um dia ela conversava com sua madrasta, que odiava meu primo, e ela disse a minha amiga:

-Você sabe se está em um bom relacionamento pelo número de vezes que teu namorado te pergunta se você está bem.

Minha amiga veio me contar isso com os olhos arregalados, dizendo:

-Teu primo nunca me perguntou se estou bem!

O que eu fiz? Fiquei quieta. Na época não sabia nada de feminismo e meus relacionamentos eram iguais aos da minha amiga, eu tinha sido educada para ser ''invisível'' nos namoros e me comportava assim, nenhum namorado me perguntava se eu estava ''bem''.

Por alguma estranha razão gravei na mente essa situação e de alguma maneira ou outra começou a me incomodar, mas eu não conseguia decifrar a origem do meu desconforto.

Na época eu namorava um Romeu e perguntei a ele porque nunca me perguntava se eu estava bem e ele respondeu ''porque tô te vendo e você está bem''.
Ah, sim, por fora né!

Não pensei mais no assunto, até uns anos atrás que assisti uma palestra chata pra caramba sobre relacionamentos e o psicólogo disse que a frase mais importante para um casal era ''como foi seu dia?''. Ele dizia que isso salvava casamentos.

Nesses dias eu namorava um Romeu incrivelmente absorvente, também com mania de falar muito. Se eu estava com ele, não parava de falar, se eu não estivesse ele me alugava no telefone. 
E foi nessa época que comecei a me aproximar ao feminismo e estudar um pouco sobre como todo o machismo aparece nos relacionamentos, temos uma ideia utópica de que o amor ''neutraliza'' as besteiras ou ''limpa'' os comportamentos errados, mas a verdade é que tudo ali é apenas o exercício do machismo, não existe relacionamento imune de lixo cultural.

Eu percebia que esse Romeu jamais me perguntava sobre minha vida, minhas coisas, se eu estava bem, ou se queria conversar sobre alguma coisa.

Fiquei tão cismada que procurei um amigo, que é terapeuta e ele me respondeu:

-Teu problema é querer controlar tudo. Romeu está com você e juntos levam uma vida de casal, as conversas saem naturalmente, não precisa ficar com essas marcações de psicólogo, de frases feitas, as coisas acontecem normalmente, talvez você não perceba, mas do jeito dele te pergunta se você está bem.

A explicação não me convenceu, eu continuava atenta e percebia que minha vida era ignorada e por que não haveria de ser? Sou mulher e os homens foram educados para não prestarem atenção a nada relacionado a nós, mulheres, porque nosso mundo é muito chato para os fofos.

Desde pequena me disseram que mulheres falam muito, mas precisei analisar meus relacionamentos para perceber que são eles que falam demais, tanto que falam sozinhos, não precisam nunca incluir o outro, não conhecem o diálogo, apenas o monólogo.

E ao mesmo tempo que somos educadas para escutar esses monólogos eternos somos convencidas que não temos nada de importante para dizer e que tudo que sai de nossas bocas é ''bobagem'', ''exagero''ou ''drama''.

E minha amiga sofre com seu Romeu, eu insisto em perguntar quantas vezes ele perguntou como ela está, mas ela responde que é egoismo, não machismo! 
Mas uma coisa leva a outra, o egoísmo é fruto de um comportamento machista, os homens são convencidos que não valemos nada, que não somos importantes e estamos ali apenas para prestar apoio.

Perguntei a muitas amigas sobre esse assunto que tanto me incomoda, quantas vezes ele te perguntou se você está bem? E não é o ''bem'' no sentido paternalista da palavra, quando perguntamos a uma criança, é aquela pergunta clássica que fazemos e esperamos a resposta: ''tudo bem com você?''.

Eu escuto isso de minhas amigas, mas não de Romeus. A única vez que um Romeu me perguntou isso fiquei sem saber o que dizer, nossa, então eu não era invisível!

Parece simples, uma coisa boba, mas muitas mulheres, me incluo nelas, demoramos para perceber como essa frase define tudo o que estamos vivendo.

Uma vez fiz um exercício que li em algum lugar, comecei a anotar os diálogos que eu tinha com Romeu e cheguei a uma triste conclusão: eu contava as coisas para ele, porque era meu namorado, mas ele não me perguntava nada.

Comentei que tinha trocado de médico e iria a uma consulta, na volta contei a ele sobre o meu dia, mas ele não me perguntou nada. Eu me sentia amada, porque ele estava ali, mas o fato dele não perguntar indicava que eu era apenas um tanque de oxigênio para seu ego, estava ali para manter seu ego vivo.

E recentemente aconteceu a mesma coisa, em conversas com um antigo Romeu comecei a dar print e analisar elas de noite, com calma. E percebi isso, Romeu não me pergunta nada, apenas escuta o que eu digo e demostra um tédio total, tanto que não aprofunda no assunto. E não tenho ali nenhuma frase dele que diga ''como você está?'', em geral ele já chega pisando forte, dizendo um monte de coisas, mas não me pergunta sobre meu dia nem como estou.

Ah, eu deveria estar acostumada, são décadas que passei vivendo isso e fui educada para não reclamar, apenas escutar!

Mas como já identifiquei o problema ele me incomoda profundamente, me parece o maior sinal de solidão que pode existir, alguém que não nos pergunta como estamos.

É uma frase que define tudo, que mostra o interesse, que revela os sentimentos. E pela falta dela tenho eliminado tantos Romeus que já perdi a conta, mas é que essa frase resume tudo o que eu não quero mais viver. 

Minha amiga diz que estou confundindo machismo com egoísmo, como se não fosse a mesma merda, mas eu digo que não, ela insiste que seu Romeu pergunta a ela sobre sua vida de outra maneira, existem milhões de jeitos para perguntar a uma pessoa se ela está bem. Mas sinceramente? Não acredito nisso, como mulher não acredito que existam tantas possibilidades, nós sabemos quando o homem é um machista, egoísta e está condicionado no monologo. O problema é que somos doutrinadas para ignorar isso e continuar fingindo que somos amadas, nos convencem de que os homens não falam muito e se nos dão o privilégio da conversa é porque nos amam.

Do Romeu que ainda aparece e desaparece da minha vida me sinto capaz de perdoar qualquer coisa, menos essa, o fato dele não me perguntar como estou. Poderia relevar tudo o que vejo de errado, mas a ausência dessa frase me mostra todas as verdades que o sorriso dele insiste em me esconder.
O outro dia resolvi dizer isso, queria ver a reação dele e perguntei porque nunca me perguntava se eu estava bem e ele respondeu ''porque você é expressiva e fala muito, se não estiver bem vai me dizer e contar em detalhes o motivo''.

Né! Já escutei isso milhões de vezes, se eu não estiver bem eu conto!
Mas não é tão simples assim, isso também inclui perguntar pelo meu dia, ou só o dia do Romeu interessa? Nossa, só o meu dia tem chatices e o dele é sempre tão legal!

E nem sei quantos posts tenho sobre este assunto, mas são muitos. E tudo porque vejo minhas amigas sofrendo no que eu chamo de ''invisibilidade nos relacionamentos''. Estamos acostumadas a ficar invisíveis, somos treinadas para nos ''adaptar'' aos homens e seu mundo e entender que nós não temos nada de importante para dizer ao planeta, apenas eles e que honra poder escutá-los! Disso vem a nossa alegria como mulheres, poder escutar como foi o dia do nosso Romeu!

E até agora não conheci nenhuma coisa pior nos relacionamentos do que ser invisível, orelha gigante do ego masculino. Nada me machuca mais do que perceber que um Romeu não me vê, não me olha, que nada meu está ali, isso determina hoje o fim dos meus relacionamentos. 

Cheguei nesse ponto radical da minha existência, se Romeu não me pergunta como estou, não continuo ali. E aprendi a ficar em silêncio, assim espero para ver se Romeu me pergunta sobre meu dia, porque eu percebi que fazia aquele movimento que me parecia natural, eu chegava contando e sempre escutava ''dá pra resumir?'', ''vai direto no ponto'', ''concluímos que...''
Eu sempre era cortada, como se minha conversa fosse menos importante do que a dele.

O problema de ser educada para ser invisível é justamente quando você percebe que não é, que tudo foi uma mentira, você existe, tem opiniões, sentimentos e vontades e nada disso inclui viver em função de um homem. Quebrar essa parede de vidro machuca muito, mas é a única saída para uma vida melhor, onde possamos nos relacionar com pessoas que nos veem, percebem, escutam e perguntam sobre nossa vida. 

Eu entendo a frustração de muitas mulheres em relação a essa frase de ''como você esta?'', porque me sinto igual, mas ao mesmo tempo me parece genial ter chegado a um ponto onde a simples leitura de uma frase pode me mostrar com quem estou lidando e o lugar que a pessoa me dá na sua vida. E não digo apenas de Romeus, já passei isso com amigos e familiares, percebi que essa frase não era usada na minha direção e comecei a cortar as pessoas, porque não tenho mais motivos para viver como um ser invisível.

E disse a minha amiga, relacionamentos são complicados e cada um sabe se quer estar ali ou não, é uma decisão, mas como mulheres temos que estar conscientes e de olhos abertos, não podemos dar crédito aos homens porque não vamos receber isso de volta, é parte da nossa educação machista dar a eles tudo e parte da educação machista deles tirar tudo o que podem sem dar nada em troca.

É importante perceber que não é amor quando somos invisíveis para alguém, é apenas um jogo e pessoas escolhem entrar em jogos ou não, mas não é amor. É fundamental para não sofrer à toa saber a diferença entre amor e jogo. Amor é troca, é a frase que vem constantemente ''como você está?'', sem ela não existe amor, presença, carinho, nem respeito, sem essa frase só fica a certeza de que somos invisíveis e quem quer continuar sendo invisível?


Iara De Dupont

2 comentários:

C.Belo disse...

Perfeito! E isso vale tb para amizades!

Anônimo disse...

Nossa, Iarinha!! Você foi demais!!!! Concordo com comentário do C. Belo quando diz que isso vale também para amizades!!! Já tive vários "amigos" (da onça...rs) que me faziam de orelhão gigante, Aff, estou fora, hoje não dá mais...ninguém merece...

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