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26 janeiro 2016

É, eu sou humana, me desculpem......


Há um bom tempo me acostumei a encerrar as discussões e conversas longas com meu melhor argumento: me desculpe, eu sou humana, ou meio humana, não sei.

Não sei o que aconteceu no mundo, mas as pessoas mudaram. Meu amigo nerd diz que houve uma invasão de alienígenas e eles se misturaram com os seres humanos, gerando assim uma nova geração, com uma nova frequência emocional. Cada dia me convenço mais disso, dizem que os seres humanos que são frutos de uma mistura com os alienígenas ruins têm uma temperatura corporal diferente, são mais frios, resistentes a dor física e não demonstram empatia por nada nem ninguém. Já os seres humanos que são resultado de um mistura com alienígenas bons mostram uma temperatura corporal elevada e uma empatia por todas as dores do planeta, são pessoas voltadas a ajudar o pouco que resta do mundo.

Eu adoro essas teorias e não escondo o grande consolo que me trouxeram, tiraram das minhas costas a pressão por ser o que eu nunca fui, normal.

Quando dizem que sofro muito ou sinto as coisas além do normal, prefiro dizer que talvez sou uma mistura de alguma raça alienígena com um ser humano, ou talvez, não sei, sou a última humana na face da terra.
Não consigo entender a dificuldade que as pessoas têm em deixar as outras em paz, que cada um viva do seu jeito.

E me surpreende ainda ver como tantos conseguem lidar com a dor, eu parabenizo a todos eles, mas não é meu caso.

Minha amiga me disse ''eu acho que você está sofrendo demais por esse Romeu''.

É fato, estou sofrendo além do que pensava que iria sofrer ou talvez nem pensei que sofreria assim de novo por alguém. Sim, é verdade e daí?
Em que momento eu perdi meu direito ao luto?
Ah, mas ninguém mais precisa sofrer hoje em dia, como diz um amigo ''sofrimento é falta de diagnóstico e tratamento''.
Pode ser, mas cada um sabe de si e dos tratamentos que escolhe.

Quando meu pai morreu fiquei duas semanas chorando sem parar, então uma amiga psicóloga me disse para procurar um psiquiatra e tentar um remédio, para não sofrer tanto.

Meu Deus! Eu conheço meu pai desde que nasci, há mais de trinta e cinco anos e não posso chorar por ele duas semanas? 
Qual é o limite de sofrimento humano? Me disseram que uma semana, passando disso já precisamos de ajuda médica.

Ah, paciência, eu venho de outros tempos, meu sofrimento é lento e tem ainda as características humanas, aquelas que todos fazem o que podem para esconder. Não consigo usar um remédio e seguir minha vida normal, preciso do meu tempo de luto, preciso espaço e uma cama para chorar.

E nada disso veio fácil, foram anos de síndrome do pânico e ataques de ansiedade, aprendi na marra a lidar com o fluxo de emoções que sentia. E não condeno quem usa remédios para se sentir melhor, mas eu peço o mesmo respeito, conheço amigas que usam seus remédios e não digo nada, então também não quero que me digam que não preciso de tempo de luto, que estou sofrendo porque não uso remédios.

Eu preciso passar pelo meu tempo, meu caminho, mesmo que isso derrame lágrimas o dia inteiro, sou humana, por mais estranho que isso possa parecer. Preciso ver fotografias e chorar, preciso falar sobre o que sinto. Não consigo esquecer meus ''mortos'' e seguir normalmente, pelo menos não no começo.

Mas meu tempo de ''luto'' alucina a quem está por perto, acham um absurdo, me dizem ''nossa, você é tão inteligente e está sofrendo por homem?''.
É, bom, eu não amo com a inteligência, amo com a alma, e sim, estou sofrendo e gostaria de saber no que isso afeta o ritmo da humanidade.

Hoje só sofre quem quer!

É, pode ser, aceito todas as teorias, mas no meu caso não é escolha, é parte de quem eu sou.

Fiquei chateada com o fora do Romeu e tenho meu tempo de luto, paciência, minha vida é assim, arrastada emocionalmente, demoro para gostar e quando gosto sofro demais com o fim.

Já discuti e argumentei demais, hoje prefiro a divisão, cada um que fique do seu lado, eu não tenho pressa em finalizar meu luto e se outras pessoas têm, eu respeito a decisão dela.

Pelas contas de quem entende do assunto não sou fruto de uma relação entre humanos e alienígenas, peguei a geração dos anos setenta e são pessoas com diferentes conexões, mas ainda são totalmente humanas.

É, deve ser meu caso. Eu tenho costumes estranhos, choro se sinto falta, fico revoltada, magoada, quero uma coisa, depois outra. Não tenho remédios controlados no meu banheiro, tenho apenas uma pomada de arnica, para os tombos que levo na vida.

Não consigo levar um fora de alguém que amo, tomar um remédio e dizer ''tudo bem, acabou''. Eu me afundo em perguntas, volto a situação, tento entender tudo o que foi dito e o significado dos silêncios.

Mas entendo que as pessoas fiquem perturbadas com minhas atitudes, o mundo é feliz, as pessoas são felizes e realizadas, para tudo existe uma saída e um medicamento, e às vezes nem isso, é a atitude mesmo, a pessoa já entendeu o ritmo do mundo e vive no desapego, não sofre.

Que bom para quem é assim, acho ótimo e sou obrigada a dizer, não sinto inveja. Depois de anos vivendo na minha pele já me acostumei, não reclamo mais, é assim, eu sinto e vivo, adoraria dizer foda-se para tudo, mas não é assim que funciona dentro de mim.

E me cansa escutar algumas frases, no auge do meu pânico sempre tinha alguém para me dizer ''ah, tenta fazer alguma coisa para se distrair''.

É? Ataques de pânico são descargas químicas do cérebro, não é tão simples superar isso ''se distraindo''.

E em momentos de depressão me diziam ''você tem que ter força de vontade''.

Ah, sim, o lema dos atletas e de quem sobe o monte Everest! Tão fácil ter força de vontade diante de uma doença tão avassaladora como a depressão! 

E quando me pai morreu me disseram ''você vai se acostumar''.

Acostumar com o quê? Com a ausência?

E digo, não critico a humanidade, nem sua maneira feliz e completa de viver, tudo bem por eles, mas não sou assim.

E caramba, todos parecem tão tolerantes com os outros misturados, por que encher meu saco? Os misturados, esses que dizem ser filhos de alienígenas com humanos, que não têm empatia por ninguém, esses circulam na paz do mundo, ninguém diz nada, aprontam horrores, estão mudando os valores do planeta e as pessoas dizem ''nossa, que exemplo de foco e frieza''.

Mas gente que assume seu lado humano, nossa, essa precisa de conselhos e consultas no médico.
Pelo andar da carruagem tenho a impressão que emoções humanas vão ser enquadradas, vai virar crime chorar por parentes mortos ou Romeus, é possível que se montem campos de concentração para sumir com todas as pessoas que ''sentem''.
E quantas vezes o mundo já fez isso, com suas clínicas psiquiátricas, seus manicômios? 
Sei disso, aqui neste mundo, ninguém que ''sente'' é bem vindo, eu nunca fui, por que os outros seriam?

Minha amiga quis ajudar e me disse ''olha, não é normal sofrer tanto por um Romeu, procura uma ajuda psicológica porque de repente você o está usando para disfarçar alguma outra coisa que sente''.

Né! Não é normal sofrer de amor, nem por ninguém! Eu devo estar sofrendo por outras coisas e uso o Romeu para mascarar meus sentimentos!

Me dizer ''supere, esqueça'' não me ajuda em nada, porque ao contrário do resto do mundo eu preciso de tempo para viver meu luto. E ele é como muitos lutos, já passei por isso, não existe sentimento no mundo que se fortaleça na ausência, com o tempo ele vai sendo diluído e a vida vai amenizando, desde que não seja nada ligado a morte de pessoas próximas, mas sendo amores ou situações mais corriqueiras o tempo se encarrega de levar embora, por isso eu prefiro viver e passar por isso, do que guardar e lá na frente ver explodir.

É verdade que já estamos em 2016, século XXI, eu já deveria ter aprendido a viver de uma maneira diferente, mais alienígena e menos humana, mais foco e menos empatia. Tenho plena consciência de como sou limitada nessa área, de como fiquei pequena em um mundo gigante, onde todos gostam, mas ninguém se apega, todos sentem, mas ninguém sofre.

Eu destoo do resto do planeta, tão voltado para seu umbigo e suas curas rápidas e analgésicos.

E talvez sou teimosa, mas não penso em mudar, agora já pra quê? Já foi tanta dor pelo ralo que não faz mais diferença.

E a quem me diz ''esquece Romeu, deixa de falar sobre ele, deixa de escrever sobre ele, deixa de pensar nele....''
Só digo uma coisa: a minha dor não consome o imposto de ninguém, então cada um que faça o que quiser, eu não vou pela vida dizendo aos outros o que penso sobre seu estilo ''feliz'' de viver, nem onde colocar suas energias, então também não me digam onde colocar as minhas.

E uma amiga me disse ''duvido que você não tenha alguns números no celular, de alguns possíveis candidatos a Romeu! Liga para todos, agita essa vida e assim você esquece o anterior".

Não é? O que não temos no celular? Tudo está ali, eu tenho até receitas de bolos que não penso fazer. A vida inteira está dentro daquele aparelho, quem sofre por qualquer coisa se existem tantos números para ligar? 

E tem coisa mais fácil do que substituir uma pessoa? Não conheço! E estou esperando minha mãe se casar de novo, porque assim com um padrasto eu esqueço meu pai e sua ausência.

Tanto substituímos os objetos que transferimos nosso pouco amor as pessoas, saiu da minha vida? Foda-se, tem fila de substitutos.

E me dizem que sofrer é opcional. É, não somos iguais, segundo as contas astrais são quarenta e oito tipos de ''raças'' vivendo neste mundo e apenas uma é humana, as outras ninguém sabe de onde vieram. E muitas já foram misturadas, assim as características  humanas foram se perdendo.

Sei que as coisas mudaram, as pessoas não querem mais comer pão e evitam o açúcar, saem de relacionamentos sem sofrer e têm centenas de canais de televisão, se envolvem com séries e comem orgânicos congelados, enquanto bebem  um vinho sozinhos. Me parece bom, se é o que eles querem. Mas eu não venho desse tempo nem espaço, sou humana, talvez, meio humana, ainda adoro pão e gosto de dividir o vinho com Romeu, não sei para que servem os aplicativos do meu celular e ainda fico mais emocionada com uma mensagem de Romeu do que com o começo de uma série. Também consumo açúcar e pessoas para mim não são números, nem substituem ninguém.

É o fator humano, dói ser assim, é verdade. Ontem minha mãe me disse ''é, não é tão ruim te ver chorando por Romeu, faz anos que não te via assim, você estava muito apagada para meu gosto, acho que pelo menos foi bom dar uma mexida e lavar a alma''

É, eu quase mudei, quase fui para o outro lado da força, eu cheguei a pensar que tinha ido, há anos que não sofro tanto por uma situação emocional e pensei que já estava madura e esse assunto tinha sido superado.

Mas então Romeu apareceu, bagunçou a minha vida e me mostrou que ainda sou humana, que não me adaptei ao mundo, que continuo desafinando no planeta, que apesar do meu celular caro não sei usar aplicativos nem substituir pessoas. Foi uma fracção de segundo que pensei que eu finalmente já tinha aprendido a viver aqui, sem pão, açúcar, nem apegos. Mas pelo que percebi errei na minha percepção, continuo a mesma, o tempo passa e eu ainda sou humana. Vamos ver por quanto tempo.


Iara De Dupont

6 comentários:

Anônimo disse...

Esse fator da superioridade emocional me detona.
Eu tenho um relacionamento longo e é complexo, batalhamos para fazer dar certo, muita gente diz aos dois: vocês são diferentes terminem. Como se o elo fosse algo descartável.
Também perdi um pai e nova tinha 19 anos fora que ele era divorciado de minha Mãe e eu acabara de voltar a ter contato com ele. Quando o perdi ouvi de pessoas da religião que eu seguia: Largue o luto e trabalhe para Deus, as vidas não esperam. Aquilo era minha dor, minha vida, do que são feitas essas pessoas?
Recentemente uma amiga me avisou por whats que havia se separado. Fui a seu encontro mesmo achando estranha a sua frieza mesmo pelo aplicativo dava para sentir sua voz fria.
O cara é pai da sua filha, tiveram uma cerimônia de casamento emocionante, fizeram votos religiosos dentro dos preceitos que seguiam.
Quando a vi pasmem ela falou de tudo numa naturalidade, se fosse eu estaria morrendo, dali me vi numa crise de identidade, pq todos que eu conheço tem essa super facilidade de seguir em frente e eu fico no luto, sofrendo a dor, avaliando o que houve.
Não acredito em alienígenas mas creio no trecho bíblico que diz que o amor se esfriaria, esfriou, as pessoas não sentem mais nada, só seguem em frente como se fossem robôs alienados pelo sistema.

Anônimo disse...

Oi, Iara! Não acredito nesta felicidade "fake" das pessoas, sinceramente, todos sofrem igual ou pior que você, mas estamos vivendo no momento "facebook", onde tudo é "lindo", "feliz" e "perfeito"...entramos na era da hipocrisia coletiva... eu sou que nem você, sofro mesmo, choro mesmo,sinto mesmo... mas e daí? Viver é sentir e eu não abro mão disso... Mônica

Patricia Gabriel disse...

Bem vinda ao time.Venha para o lado qualquer coisa boa da força.e estamos aí,também sou humana,também estou enlutada,também já me toquei que ninguém gosta que eu fale nem dez segundos sobre o meu filho,também já me enchi de ouvir conselho evasivo de gente impaciente,que,enquanto eu falava da morte do meu bebe,olhava para o celular,ou começava a falar sobre os gastos de sua construção...arre,chega!"

Cristina disse...

As pessoas já tiveram direito a até anos de luto. Mas hoje, né, nós não somos pessoas, somos números, números que dão prejuízo ou lucro. Números que dão prejuízo, tipo pessoas que precisam de um tempo pra se recuperar, repousar, chorar, desabafar, tem que ser acochados pra dar lucro o mais rápido possível. Luto? Não, não, nem pensar, luto só dá prejuízo! Se entope aí de remédios e volta a dar lucro o mais rápido possível. A lei áurea foi assinada, verdade, mas a compra e venda de seres humanos apenas ganhou ainda mais facetas e nichos... e os alienígenas são os maiores consumidores da vez ao que parece.

Anônimo disse...

Também sou humana e adoro ser!
Affffeee, não sei qual a dificuldade em nos deixar em paz com as nossas dores!!
Só porque os relacionamentos (de todos os tipos) hoje em dia estão 'descartáveis' não sou obrigada a ser uma babaca insensível.
SY

C.Belo disse...

As pessoas têm tido uma ideia equivocada e confundem inteligência emocional com frieza. Logo, quem é mais "passional" e emotivo é considerado louco, exagerado. Eu já desisti de bancar esse papel de "doida" e tô "dançando conforme a música": sumiu, não tá fazendo questão da minha presença, posso sofrer, mas ignoro tb.

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