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01 dezembro 2015

Os três minutos mais longos da história


Não lembro de muitos assuntos proibidos na família da minha mãe, mas sei de um que causa um silêncio longo, depois quebrado com a frase ''pra quê falar disso?''.

Em 1985, três dias antes do meu aniversário, no dia 19 de setembro, as 7:19 da manhã um terremoto de três longos minutos devastou a Cidade do México. Meus avós moravam no centro, logo a parte mais afetada, mas graças a Deus ninguém da minha família morreu. Mesmo assim carregam o trauma até hoje e as histórias são fragmentadas.

Minha avó morreu sem dizer nada a respeito, minha tia lembra apenas de estar no quarto quando as prateleiras começaram a voar, ela saiu correndo, carregando sua filha e desceu cinco andares com o prédio tremendo, nos três minutos mais longos de sua vida. Disse que quando chegou a rua não conseguia ver nada, era apenas uma neblina, que conforme abaixava mostrava a rua destruída, a maioria dos prédios caiu. Foram quarenta mil pessoas mortas e minha tia morava com meus avós na região mais afetada.

Meu tio disse que o grande erro foi correr para a rua, isso acabou com minha tia, que depois do que viu entrou em depressão profunda. Ele conta que a rua cheirava a gás e sangue e eles ficaram parados uns minutos escutando os gritos das pessoas, que estavam debaixo dos escombros. Ficaram paralisados, sem saber o que fazer. Minha avó já tinha mais experiência com tragédias e começou a tentar ajudar as pessoas que estavam enterradas e pediam socorro. Meu avô entrou em estado de choque, disse que não podia caminhar pela poeira e pelos restos de pessoas espalhadas no chão, disse que desviaram de pernas, braços, cabeças, e que nem durante a revolução mexicana tinha visto tantos cadáveres e tanta gente pedindo ajuda.

Meus avós sabiam que era área de terremoto e em geral depois de um terremoto vem outros menores, de menor intensidade, as réplicas, então eles resolveram caminhar até sair de lá, o que só piorou as coisas, quanto mais caminhavam mais pessoas mortas viam nas ruas e mais gritos escutavam.

Não é um assunto falado abertamente, mas minha tia sempre sofreu de depressão e depois do terremoto só piorou. Ela se assustou muito e ter tido menos de cinco minutos para salvar a filha e a mãe jogou nela uma depressão que nunca foi tratada, nem conversada. A minha família nunca levou a sério traumas, nem percebeu a importância de resolver as coisas.

As coisas levaram anos para voltar ao normal, a cidade ficou destruída, na rua da minha avó só ficaram dois prédios em pé, inclusive o dela, o resto foi ao chão.

Mas a maioria dos mexicanos que conheci encarou a tragédia de maneira mais leve, como é da natureza deles, que tem uma relação distinta com a morte. Foram organizados, rápidos e solidários, essa parte funcionou, pessoas se ajudaram, mesmo assim o cheiro de mortos e de gás ficou no ar durante meses.

E o prédio da minha avó foi interditado, não puderam voltar, anos depois voltaram alguns moradores, mas ficou muito tempo fechado. Lá morava uma moça, que era muito ligada a minha tia, são grandes amigas, a moça era do interior, estava casada e no dia do terremoto correu para a rua junto com seu marido. Se salvou, mas também ficou profundamente traumatizada.

Alguns meses depois do terremoto o governo lançou um programa para facilitar o acesso a moradia, para que as pessoas pudessem ter onde morar. Foram construídos prédios em tempo recorde e com pagamento acessível.

Essa amiga da minha tia foi atrás, insistiu com minha tia que elas procurassem um lugar juntas, mas minha tia estava deprimida, na casa de uma irmã e parecia não ter  vontade de resolver as coisas. Ela levou meses para conseguir entrar no seu apartamento, com a defesa civil e pegar o que pudesse carregar, o resto foi abandonado, porque o prédio não tinha elevador e ninguém queria carregar mesas, camas, descendo escadas em um lugar que poderia desabar.

Entendo minha tia, de uma hora para outra a pessoa tem que sair de sua casa com a roupa do corpo, imagino que deve ter sido uma experiência muito ruim.

Depois de uns anos sua amiga encontrou um apartamento, era novo, acabava de ser construído, o preço era muito baixo e o governo facilitou o empréstimo. Ela levou minha tia e minha avó para verem o prédio, era bonito, com jardim e grandes janelas. Também era de poucos andares e mais reforçado para resistir a um terremoto.

De cara minha avó não quis nem saber do prédio, não queria mais morar no centro nem estar em área de risco, mas minha tia se encantou com o prédio, depois de anos procurando onde morar, mas minha tia enrolou e enrolou, porque sempre foi assim, meio lenta para decisões.

Sua amiga comprou um apartamento e se mudou. Ficou fascinada e feliz, era tudo novo em folha. Ela insistiu que minha tia comprasse um, mas de tanto demorar, não deu mais tempo, todas as unidades foram vendidas.

Um dia essa moça apareceu na casa da minha tia, procurando por minha avó, precisava de ajuda com uma coisa que tinha acontecido e não sabia o que fazer.

Ao comprar o apartamento jogou ali o pouco que tinha, fez empréstimo e não poderia se mudar, além disso decorou tudo ao seu gosto, aproveitando o fato de ser seu primeiro apartamento.

E estava feliz, seu marido também gostava do lugar. Mas um dia ele se sentiu mal durante o seu expediente e resolveu voltar a casa. Eles tinham aquela rotina de milhões de casais, de sair cedo para trabalhar e só voltar à noite. Esse dia ele voltou logo, não eram nem as dez da manhã e aproveitou para dormir um pouco.

Lá pelas dez e meia da manhã começou a escutar barulhos de crianças correndo, gritando, jogando bola. Se irritou e foi a janela, pedir silêncio, mas as crianças não paravam. Meia hora depois elas ficaram quietas.

O mal estar que ele sentiu era uma gripe, acabou faltando ao trabalho no dia seguinte e a mesma coisa se repetiu, as dez e meia da manhã as crianças enlouquecidas faziam barulho. Ele resolveu ir até o corredor e ao ver uma vizinha perguntou onde ficava a escola, já que não aguentava tanto escândalo. A vizinha disse que não sabia, mas deveria ser por perto e foi embora.

Ele voltou a sua casa, foi a janela e gritou ''dá pra parar com tudo isso?''. E as crianças não pararam, então ele voltou e gritou novamente. Um vizinho escutou e respondeu ''deixa eles, em meia hora vão parar''. Começou uma conversa entre os dois sobre as crianças, então o vizinho disse:

-Rapaz, essas crianças são as crianças do terremoto. O nosso prédio foi construído em cima da escola que caiu, morreram mais de trezentas crianças. Elas não fazem mal a ninguém, mas todos os dias a gente escuta elas brincando no horário do recreio.

-Tipo fantasma?

-Não, elas são as crianças do terremoto, não são fantasmas, acho que o som da voz delas ficou preso no tempo, por isso escutamos.

O marido da moça alucinou com isso, enfiou na cabeça que queria se mudar, não iria ficar ali, em um prédio construído em cima da maior escola da cidade.

A moça quis confirmar a história e ficou ali, grudada ao marido no dia seguinte, as dez e meia da manhã. E como não aconteceu nada foram conversar com o vizinho, que avisou sobre o barulho, ele só acontecia de segunda a sexta-feira, dias normais de aula, no sábado e domingo os gritos não se escutavam.

O marido foi conversar com todos os vizinhos, todos confirmaram que escutavam os barulhos, mas o que se podia fazer? As crianças não machucavam ninguém, não circulavam pelo prédio, alguém disse ter visto uma delas no jardim, mas nunca confirmaram isso e além de tudo, como resolveriam a questão do empréstimo? A maioria tinha perdido suas casas no terremoto e tinha feito um empréstimo para comprar esse apartamento. Não dava para sair no ''pau'' e para onde iriam? Era uma cidade ainda em construção, se reerguendo.

Mesmo assim o marido não desistiu, foi a construtora conversar e lá ficou sabendo que todos esse prédios novos tinham sido construídos em cima dos que caíram e na grande maioria não puderam remover os cadáveres, ficaram todos ali, presos ao concreto, que depois foi tirado, mas a grande maioria não foi enterrada nem encontrada. E não foi má vontade dos bombeiros e voluntários, pelo contrário, graças a uma ajuda internacional e a uma equipe mexicana excelente se recuperaram muitos corpos, mas meu tio disse que naquela época não existia exame de DNA e os corpos não eram encontrados inteiros, achavam a cabeça de um lado, de outro as pernas e assim por diante, ficou impossível juntar os pedaços e entregar a algum familiar. E no caso dessa escola, pelo tamanho dela, não conseguiram remover nenhum corpo, a escola desabou as 7:21 da manhã, vinte minutos depois da chegada das crianças, que nesse horário ainda estava dando voltas pelo pátio, já que as aulas começavam as 7:30.

O casal acabou procurando minha avó, queriam saber se conhecia alguém que pudesse ajudar. Minha avó sempre teve algumas amizades estranhas, pessoas que trabalhavam com o além e outros mundos. Ela indicou uma conhecida, muito famosa por ser direta, só aceitava o pagamento se resolvesse o caso e não tinha nenhum problema em dizer o que pensava, se achasse que era frescura ou coisa assim, despachava na hora a pessoa que a procurasse.

Ela foi com minha avó (que contou o que aconteceu a minha tia, que me contou) visitar o casal no apartamento, chegou antes do barulho do recreio e escutou tudo, depois perguntou ao casal qual era o problema e o marido respondeu:

-Qual é o problema? Eu moro aqui e como você acha que me sinto sabendo que essas crianças mortas estão todos os dias gritando no pátio?

-Mas é barulho de bola, de brincadeira, não estão pedindo ajuda.

-Ah, então tudo bem? Não tem problema! Quem nunca morou ao lado de um monte de fantasmas não é?

-Vocês podem se mudar.....

-Claro! Não temos um puto, gastamos tudo aqui, mas a gente pode se mudar sim......

Minha avó disse que a bruxa, ou sei lá o que ela era, foi ficando irritada com o marido que não parava de argumentar e disse:

-Eu não posso fazer nada e nem recomendo que vocês façam...o barulho que essas crianças fazem todos os dias indicam que elas não perceberam o que aconteceu, tiveram uma morte rápida. Se vocês começarem a mexer pode ser que uma delas perceba e se desespere por não saber onde estão os pais, então acho melhor deixar elas no seu canto, se o barulho atrapalha tanto, fechem as janelas. 

-E as vibrações?

-Que vibração? Não tem nada, elas estão em outro plano, sem consciência do que aconteceu, não as puxem para a dor. 

-Você só pode estar brincando, nos pedindo para ignorar esse monte de crianças mortas gritando todos os dias.

-Se mude.

-Não posso.

-Não pode mesmo, cinquenta mil pessoas morreram no terremoto e só dois mil cadáveres foram recuperados, não existe um canto nesta cidade que alguém não tenha ficado soterrado. É melhor mudar de país.

-É isso que a senhora tem para dizer?

-É, e também te digo, aprenda a lidar com seus fantasmas, ou eles não estão na tua mente? Você não escuta eles? Não tem nada na vida que te atormente todos os dias? E você faz o que com isso, muda de planeta? Não, você aprende a lidar com as centenas de vozes na tua cabeça, tenta contornar, é a mesma coisa aqui, as crianças fazem barulho e você ignora, deixa elas lá, são apenas barulho como milhões de coisas na tua mente. Elas não vão fazer nada, estão no pátio, brincando, se encontrando antes da aula. E paciência, a vida é assim, as vezes os mundos dos vivos se cruzam com o mundo dos mortos. Os fantasmas circulam entre nós, não adianta correr deles, é só deixar eles seguirem com suas coisas e nós com as nossas.

-Mas elas morreram....

-Sim, mas não sabem e o que você tem a ver com isso? Foi o responsável? E onde você estava quando aconteceu o terremoto?

-No meu apartamento....

-E fez o quê?

-Corri para a rua.

-E o que aconteceu lá?

-Todo mundo desesperado, os gritos, o cheiro, a correria, os prédios ainda caindo, a poeira.

-Você pode apagar da tua mente os gritos que escutou aquele dia?

-Não, nem que eu viva mil anos, ainda tenho pesadelos, escuto as pessoas gritando debaixo dos pedaços de concreto.

-É isso, você pode se mudar daqui, mas a tua mente vai te acompanhar, nós temos que nos adaptar aos fantasmas que carregamos e os que nos perseguem, não adianta correr dessas crianças, mesmo que você se mude daqui ainda vai lembrar do dia que escutou eles gritando.

-Mas não dá para fazer uma limpa?

-Limpa de quê? O que se pode limpar na mente? Nada, você aprende a lidar com isso, você vai carregar sempre o trauma do terremoto, com ou sem crianças, elas não fazem nenhuma diferença e assim como você quer viver em paz, elas também. Você é muito jovem, mas um dia vai perceber que não podemos ir ''limpando'' nossa vida de tudo, vamos ter que carregar algumas coisas, não importa o lugar, a mente nos acompanha. Meu filho, o pior barulho está sempre dentro de nossa mente, não fora.

Talvez ele estava muito impressionado na época, não sei, mas acabou se mudando, não quis ficar no apartamento. Mas o prédio existe até hoje e já são tantas pessoas que falam sobre o barulho que essas crianças fazem que até os taxistas da área chamam o prédio de ''los niños'', uma referência as crianças.

Mas a bruxa tinha razão, se os fantasmas não nos incomodam não temos porque encher o saco deles, e o pior barulho sempre é o dos nossos traumas, não o dos outros.


Iara De Dupont

4 comentários:

Anah Vizoto disse...

Texto maravilhoso, como sempre, Iara! Acho incrível como você sempre consegue transcrever os diálogos fielmente.
Adorei a amiga da sua avó... ela é sábia e com suas palavras, nos faz refletir tantas coisas na vida.

Sobre a tragédia... coitadas dessas pessoas e especialmente essas crianças. Felizmente nem perceberam o que houve e continuam presas nesse lapso temporal, se é que posso chamar assim.

Anônimo disse...

Entro no teu blog todo dia faz anos,já li todos os posts mesmo nunca comentando,entrava quase todo dia
E fico feliz que tenha voltado.Tu é uma escritora incrivel e sinto muita verdade nas tuas palavras

Claudia disse...

Será que é bom ficar pra sempre neste limbo? tem coisas que nunca saberemos a resposta, mas imagino que as almas devem ser encaminhadas pra algum lugar, ficar pra sempre assim acho estranho....

aquarela surrealista disse...

Iara,saí do face,mas continuo por aqui te lendo...incrivel,as pessoas ouvirem mesmo os gritos presos,impressionante!mas,fico também pensando,se não éra melhor essas crianças estarem em algum plano,descansando...

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