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26 dezembro 2015

O desejo secreto e a promessa das bruxas


Quando era pequena minha avó deu para minha prima uma boneca que se chamava ''Lagrimitas''. Fiquei encantada com a boneca, era de pano, feita à mão e vinha em uma cesta rodeada de chocolates e balas. 
De tanto que eu pedi uma igual minha avó resolveu comprar, mas tinha um problema, ela comprou a boneca na rua, de umas pessoas que estavam vendendo em uma feira. Ela voltou centenas de vezes ao mesmo lugar, mas nunca achou o casal que a vendeu. Minhas tias e minha mãe procuraram a boneca por todos os cantos, mas ninguém achou. Foi a época que mais ganhei bonecas, todos queriam me consolar e se viam alguma boneca com uma lágrima no rosto, me compravam. Eu achava lindo o rosto da boneca chorando.

E eu ficava triste de ver a indiferença da minha prima, uma das que tinha melhor situação econômica e nunca deu bola para a boneca de pano que minha avó comprou, minha prima tinha um quarto gigante com coleções de bonecas que seu pai trazia dos Estados Unidos e a Lagrimitas foi jogada ali, no meio, sozinha. Sempre achei que eu teria amado aquela boneca mais do que ela foi amada pela minha prima, mas paciência, não era minha.

Durou um bom tempo a procura por essa boneca, até que um dia minha mãe se irritou com isso e mandou minha avó parar de procurar e de me dizer que iria achar a boneca, mas minha avó respondeu que continuaria de olho, até achar a boneca. E minha mãe disse:

-Pra quê tudo isso? A Iara tem um monte de bonecas, já virou cisma dela, cansou todo todo mundo.

E minha avó respondeu:

-É um desejo da menina e não tem nada de errado nisso. E todos esses desejos rápidos, fáceis e simples devem ser realizados, deixa para depois os outros.

Vinte anos se passaram e minha avó nunca esqueceu essa história da boneca. Um dia me deu de presente um broche que vinha com o desenho de uma boneca chorando, eu agradeci e disse a ela que nunca entendi porque fiquei com tanta vontade daquela boneca, não sei se amei a boneca ou estava de coração partido ao ver que o destino da boneca eram os braços gelados e mimados da minha prima.

E minha avó disse:

-Você nunca pedia nada, mas quis tanto aquela boneca! Eu tentei convencer tua prima a te dar a boneca e eu compraria outra para ela, porque ela não gostou, mas ela tinha seis anos, quem abre mão de uma boneca com seis anos? E eu queria que você tivesse essa boneca, esses desejos nunca podem ficar parados no tempo, eles têm que acontecer.

Por quê eles têm que acontecer?

-Porque eles são os únicos desejos que você vai saber que se realizaram na tua vida, os outros, os desejos secretos, aqueles que a gente pensa em silêncio, esses só vamos saber se foram realizados no último minuto da nossa vida, não vamos ter mais tempo de aproveitá-los. É só no último segundo que a cortina vai se abrir e vamos ver se eles aconteceram. E desejo secreto a gente não conta para ninguém, é uma coisa que fica no canto da alma, ali, esperando para acontecer e você sabe que ninguém vai entender tuas razões para desejar aquilo, mas nós sabemos porque pedimos que ele se realize. Desejos secretos são os que nos movem na vida, o resto a gente consegue, mas o desejo secreto é o único que depende de todas as forças do universo.

Você tem um desejo secreto?

-Sempre tive um e pedi as bruxas que realizassem esse desejo, mas só depois de morta vou saber.

As bruxas são um capítulo misterioso na vida da minha abuelita. Ela cresceu no campo, cercada de lendas e histórias, mas ao mudar para a cidade, órfã, acabou sendo obrigada a se adaptar, largou suas crenças e virou católica, adotou outros paradigmas na sua vida e tentou esquecer quem era, mas ainda carregava seu passado na alma e tinha uma dívida com essas bruxas, que ela tanto amava.

Elas eram mulheres que ninguém sabia onde viviam nem de onde vinham, tinham o cabelo preto, usavam vestidos e andavam pelos bosques, principalmente à noite e quando alguém tentava se aproximar elas viraram bolas de fogo. Todo mundo tinha medo delas e o mais interessante dessa história é que até hoje existem relatos sobre elas na região onde minha abuelita nasceu.

Minha abuelita tinha cinco ou seis anos quando se perdeu e uma moça alta, de vestido, a levou de volta a casa. Naquela época ninguém prestava muita atenção em crianças, elas corriam soltas pelo campo, eram tratadas como adultas e aprendiam desde pequenas a trabalhar para comer, sem tempo para mais nada. Minha abuelita adorava as bruxas porque a levavam para brincar, faziam bonecas de pano e madeira e ensinavam canções. 
No começo da revolução minha abuelita disse que estava em casa, com sua mãe, quando tocaram na porta e era uma dessas moças, dizendo para correr, porque os militares estavam passando ali perto. E na frente da minha abuelita e de sua mãe ela disse para que a seguissem e virou uma bola de fogo. Minha abuelita corria atrás dela, puxando sua mãe e a bola de fogo as guiou até uma gruta, atrás de uma cachoeira, onde puderam se esconder.

Plantações inteiras pegavam fogo e todos jogavam a culpa nas bruxas, minha abuelita dizia que elas podiam ser ''más'', nunca sem propósito, apenas reagiam a alguma coisa que tivesse acontecido.

Um pouco antes dos treze anos minha abuelita foi embora do campo e uma das moças foi se despedir, dizendo que poderia cumprir um ''desejo secreto''. Então minha abuelita se debruçou sobre ela e disse ''se um dia eu tiver filhos não quero enterrar nenhum, porque sei que não vou aguentar a dor''.

Era um pedido estranho para uma menina de doze anos, mas minha abuelita viu muitas mortes durante a revolução mexicana e toda a dor que envolviam. 

A bruxa disse que o desejo seria realizado e que elas sempre seguiriam seus descendentes, caso eles precisassem um dia e tanta lealdade aconteceu porque elas pediram para minha avó guardar um segredo e ela assim o fez a vida inteira, eu nunca soube qual era, mas isso a fez ganhar o aprecio das bruxas.

Um ano antes da morte da minha abuelita eu estava no quarto conversando com ela, quando meu dois primos chegaram transparentes, tremendo, e dizendo que tinham ido a uma cidade próxima, mas resolveram pegar um atalho, quando perceberam estavam em uma estrada clandestina usada pelos traficantes e se deram conta de que não sairiam vivos dali. Aceleraram o carro, começaram a procurar a saída mais próxima, mas viram que já estava sendo seguidos. Um deles se desesperou e começou a rezar, pedindo ajuda. De repente apareceram duas bolas de fogo no céu, que eles acharam no começo que eram óvnis, porque estavam em um lugar isolado, mas as bolas de fogo ficaram dando voltas no carro, meu primo acelerou quando começaram a escutar barulho de tiros, as bolas começaram a descer e subir e de repente iluminaram o acesso a uma estrada, eles entraram lá e conseguiram voltar à casa.

Todo mundo na família sabe da promessa que essas bruxas fizeram a minha abuelita, por isso pareceu natural concluir que as bruxas tinham se transformado em bolas de fogo para proteger o carro dos meus primos.

Quando eles foram embora minha abuelita me disse:

-Só falta elas realizarem meu desejo secreto.

E qual é?

-Eu não quero enterrar nenhum filho.

Não sei bem como lidar com algumas frases e essa com certeza foi uma delas, fiquei quieta. Minha tia me contou que durante a revolução era comum perder os filhos pela fome ou pela guerra, então enterrar um filho era a coisa mais normal do mundo e não tinha espaço para o luto, as mães arregaçavam as mangas e abriam o buraco na terra, sem ajuda de ninguém. Minha abuelita era muito pequena quando foi chamada para ajudar a abrir uma sepultura para o filho de sua prima. Ela amava muito sua prima, que cuidava dela desde que nasceu, era como sua segunda mãe e ficou muito traumatizada como o que tinha acontecido. A mistura da dor, fome, desespero e medo pela revolução, levou sua prima à loucura, mas na cabeça da minha abuelita tudo tinha acontecido devido a morte do filho.

Nada impressionou mais minha abuelita do que a perda do filho da prima, nada a afetou de maneira mais profunda.  Ela viu como a prima foi se desmontado, até ficar totalmente fora de si e se perder no mundo, nunca mais souberam dela.

Alguns anos depois quando a bruxa disse a minha abuelita que poderia realizar qualquer desejo, imagino que a dor da minha abuelita era tão grande em relação a prima que pediu para não passar pela mesma coisa.

Minha abuelita teve seis filhos, eles cresceram e uns anos depois um deles se casou, sua mulher engravidou, tiveram uma menina, mas ela morreu meses depois, por uma problema respiratório. Minhas tias me contaram que meu tio e sua esposa ficaram devastados, mas minha abuelita foi a que ficou mais perto de surtar, a única vez que lembram dela fora de si foram nesses dias sombrios. Ela acabou aceitando um convite e viajando, coisa que não fazia nunca, mas estava tão fora de si que foi a única maneira de não enlouquecer.

Cada vez que meus primos contavam a história das bolas de fogo na estrada, minha abuelita sorria. E um dia me disse:

-Acho que vou ter meu desejo secreto realizado.

Naquele dia reclamei com ela, poxa, por que não pediu além disso para a família achar ouro?

E ela me respondeu:

-Mas eu sei onde tem ouro! Só não vou te dizer agora. E nem todos os desejos se realizam, mas o importante é o desejo secreto se realizar, porque ele é a prova de que Deus nos escutou e nos concedeu essa alegria. E todos os desejos que podemos realizar são tão pequenos, perto daqueles que realmente queremos e dependem da força do universo. Você quer ter ouro? Vai ter, mas o ouro você aproveita por um longo tempo, teu desejo secreto você só vai saber se aconteceu depois que for embora deste mundo. Mas pense no seu desejo secreto, aquele que você não conta a ninguém, aquele que está no fundo do seu coração, dizendo ''tomara que Deus me dê essa graça''. 

Eu não entendo porque o desejo secreto só se realiza no último momento....

-Porque antes nada vai fazer sentido, o desejo secreto é aquele sonho que sabemos que se não se realizar, nós não vamos aguentar mais um minuto neste mundo, não temos como lidar com a perda do desejo secreto, por isso ele só vai se realizar no último segundo, porque caso ele não aconteça, Deus vai nos amparar e explicar porque não aconteceu, caso contrário nós surtamos na dor.

Meses depois minha abuelita morreu. Eu não estava lá e não fui no velório, nem no enterro. 
Meu pai não sabia dessa história das bruxas, nem do desejo secreto e um dia conversando sobre o velório me contou:

-Já fui a todos os tipos de velório, mas esse foi o mais estranho de todos, tinha uma alegria no ar, uma plenitude. Até aquelas amigas das tuas primas entrarem.

Que amigas?

-Umas moças de preto, vestidas como tuas primas, meio góticas, todo mundo pensou que eram amigas. Elas se aproximaram do caixão, ficaram ali uns minutos e pediram aos filhos que se aproximassem, fizessem uma roda. E ninguém entendeu nada, mas fizeram. De repente elas saíram de lá e ficaram os filhos ao redor do caixão. Todo os sobrinhos, netos, parentes, todos ficaram paralisados olhando, ninguém sabia o que dizer, foi a cena mais comovente que já vi na vida, os filhos ao redor do caixão, com as mãos dadas, se despedindo da mãe. Quando eles se afastaram eu me aproximei para amparar tua mãe e vi o rosto da abuelita, parece que ela estava sorrindo, parecia feliz, todo mundo começou a comentar sobre a expressão dela. E de repente Chucho (bisneto) começou a correr e dizer, olha o céu, olha o céu, e todos correram para a janela e viram umas bolas de fogo, que pensaram que eram balões ou fogos de artifício. E tua tia disse ''são as bruxas e elas vieram para realizar o desejo da abuelita''.

Minha abuelita era assim, poderia ter pedido o mundo as bruxas e talvez elas o tivessem dado, mas na sua simplicidade só quis viver e morrer sem jamais enterrar um filho.

Um tempo depois a família passou por uma tragédia e um primo perdeu seu filho. Vendo tudo o que aconteceu ali e todo o desdobramento de dor, percebi como minha abuelita tinha sido inteligente, sábia e entendia o que era importante. Ela passou pela vida sem conhecer a beleza do ouro, o conforto do dinheiro, nem a paz das riquezas. Teve uma vida cheia de apertos, dor física, marido infiel, problemas de saúde, e muita, muita fome. Mas entendeu que tudo isso é melhor do que enterrar um filho.

Ela era uma criança com fome e medo pedindo a uma bruxa para não sofrer o que a prima tinha sofrido, não teve maldade nem consciência do seu pedido.

Tenho uma vontade enorme e nem é desejo secreto, de ir ao lugar onde minha abuelita dizia que as bruxas viviam e agradecer a elas por terem concedido esse desejo a ela. Minha abuelita teve uma vida muito difícil e pelo menos alguém escutou suas preces, saber que elas cumpriram a vontade de uma criança me faz ter vontade de sair correndo para agradecê-las.

E tem sido um longo ano para mim, mas a quem me acompanhou aqui fica meu agradecimento, quem veio a escutar histórias sobre minha abuelita, minha infinita gratidão. A todos que sempre me dizem que aprendem muito com a minha abuelita só posso desejar que tenham seus desejos e seus desejos secretos realizados. Que as bruxas que um dia a protegeram, protejam a todas nós, cumpram nossos desejos secretos, nos amparem na dor, iluminem nosso caminho e mantenham a promessa feita a minha abuelita: todos os desejos se realizam. 


Iara De Dupont 

3 comentários:

C.Belo disse...

Já sei qual é meu desejo secreto!

Mais uma magnífica história! Continue, por favor!

Patricia Gabriel disse...

Sempre amo quando voce escreve sobre tua abuelita,amo as historias,e sempre torço para virem mais...nossa,que história linda de vida,que riqueza você tem na sua família...achei lindo..!

Anônimo disse...

Olá, Iara. Você sempre surpreendendo com estas histórias lindas!!!! Que 2016 seja simplesmente maravilhoso para você!!! Mônica

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