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28 dezembro 2015

Feminismo branco e feminismo negro (não volto a esse assunto)


Hoje acordei cansada. Tão cansada que ao ler uma mensagem cheia de dedos no meu Facebook, meu primeiro pensamento foi ''foda-se''. Depois lembrei que ainda tenho um resto de mousse de chocolate na geladeira e esqueci do que foi escrito.

E para ser sincera nem tenho vontade de escrever sobre esse assunto, me parece que deve ser como mexer em vespeiro e estou exausta, não sei se é o fim do ano, do amor, ou o começo da vida, mas estou esgotada, viver entre tantas linhas e perigo de bala me deixou fatigada.

Uma parte de mim ficou magoada, mas é a sina do meu nome, Iara, uma sereia, um ser que não é totalmente da água, nem da terra, então aprendi a navegar entre essas duas forças. Quando estou na água sou sentimental, mudo de ideia, quero tudo agora, sofro, choro, começo de novo. Quando estou na terra sou tranquila, quero que o mundo exploda e nada faz diferença se consigo sentir o chão debaixo dos meus pés. O único problema é que nunca sei quando estou na água ou na terra, só depois de sentir é que consigo me localizar.

Mas hoje é meu dia de terra, por isso uma amiga cortando amizade não me doeu tanto e nem tenho vontade de entender seus motivos. Sorte minha que não foi em uma dia de água, porque teria sido muito doloroso para mim.

Comecei o blog há cinco anos e conheci algumas garotas que começaram na mesma época. Uma delas era uma estudante de Letras, do norte do Brasil. Começou um blog sobre mulheres e o racismo, depois abriu uma comunidade no Facebook para seguir conversando sobre o assunto.

Não conheço a moça pessoalmente, mas minha impressão dela sempre foi de uma mulher direta, inteligente e bem humorada. Me identifiquei muito com ela e passamos muitas noites conversando.

Algumas vezes comentei na sua comunidade, mas nem sempre aparecia por lá, apenas por falta de tempo e porque as atualizações ficam uma em cima da outra e acabo perdendo muita coisa. E hoje ela me mandou um email delicado, dizendo o quanto gosta de mim, mas vai ter que me tirar de sua comunidade no Facebook, a pedido de outras moças e dela mesma, já que a comunidade é para feministas negras e eu sou branca. 

Ah, mas esse assunto dá pano para a manga! É verdade, mas eu sinto uma preguiça quase infinita ao falar sobre isso porque no fundo quebra meu coração.

O feminismo me parece uma ideia simples, é a luta pela igualdade e isso inclui todo mundo. A base é a mesma e não mudam as prioridades, apenas se somam as reivindicações, cada mulher que se aproxima ao feminismo traz sua história e acaba somando a causa, traz suas ideias de melhora e acrescenta. Não tem nada que uma mulher possa trazer que reste ou diminua a causa, isso não existe.

Ao me aproximar do feminismo também tenho meu calcanhar de aquiles, a opressão com a aparência, já que a vida inteira fui gorda e não era aceita por isso, nunca vi garotas como eu na capa de uma revista, nunca pude comprar as roupas que minhas amigas usavam. Carrego isso e trago para a luta esse ponto de vista, a necessidade urgente de acabar com essa vigilância em cima do corpo da mulher e do seu peso. Então se aproxima uma mulher negra e traz as marcas do racismo e de todo o sofrimento que passou e passa, ela como eu soma, sua visão do que aconteceu na sua vida mostra outro lado da sociedade que temos que combater, porque onde existe machismo exista racismo, ignorância e ódio. É fundamental que todas as mulheres se aproximem ao feminismo e coloquem na mesa o seu sofrimento, que somem a causa, que denunciem, que se unam, façam grupos, conversem em comunidades, abram espaço. Essa é a parte mais importante do feminismo, a voz de cada uma. E todos esses grupos que estão surgindo são fantásticos, porque a sua maneira estão denunciando toda a opressão. Vejo meninas negras, bem jovens, lutando pelos seus direitos, sua liberdade. E alguns vão dizer ''mas o que te interessa se elas lutam pelo direito de usar o cabelo do jeito que quiserem e não alisar?''.

É a mesma luta! Eu não luto pelo direito de usar o cabelo de um jeito ou de outro, luto pela liberdade da mulher ser o que é e da aceitação. É claro que o significado do cabelo para as negras em uma sociedade onde se exige o cabelo liso é muito profundo e cheio de nervos expostos, elas passaram coisas que eu desconheço, mas não é por isso que devemos nos dividir e dizer ''cada uma a seus problemas''. Volto ao ponto, estamos lutando pela mesma coisa e não existe a possibilidade de acabar com o machismo sem passar pelo racismo, são palavras que estão unidas em um sistema patriarcal, não é viável construir uma sociedade melhor sem eliminar essas duas pedras no nosso caminho.

Grupos que lutam pelos direitos das negras estão no caminho certo, mas erram ao excluir as outras. Vivemos em um mundo que chegou ao abismo porque não conseguimos nos ver como um todo, mas como mecanismos separados que não dependem um do outro.

E uma feminista negra diante da discussão sobre a opressão na aparência me disse ''deixa de ser burra, se você quiser emagrece, mas quem nasce negra, morre negra, não se pode mudar isso''.

Esse é o ponto, eu não estou lutando por uma sociedade que me permita ser gorda, eu estou lutando por uma sociedade que pare de vigiar, agredir, controlar, julgar e condenar as mulheres, seja pelo seu peso, cor, idade ou condição sexual.
A causa é a mesma, apesar dessa intensa fragmentação que cada dia piora.

E de novo me dizem ''mas a mulher negra é a que mais morre, é a mais agredida pela polícia, morre na periferia e ninguém diz nada''.

Eu não estou lutando para mudar as mortes por questões geográficas, o que eu quero é que parem de matar mulheres, e não estou discutindo se a polícia para uma mulher negra e ignora a branca, o que eu discuto é que temos que mudar esse modelo de segurança publica.

Não está bom para nenhuma mulher! Esse argumento de que as negras morrem mais e são mais maltratadas nos hospitais é verdadeiro, é fato, mas temos que mudar todo o contexto, nenhuma mulher deveria ser agredida e ponto.

Também ir ao Facebook e me dizer ''não preciso de sua piedade branca nem do seu feminismo mainstream''.

Pena, porque eu preciso de todas, não vejo como mudar alguma coisa dividindo da mesma maneira que os homens nos dividem.

Escrever ''você é branca, por tanto faz parte dos que oprimem'', não resolve nada.

Eu sou uma mulher prática, se não me querem, tudo bem, deixa ir. Não precisam de mim? Tudo bem, eu procuro um lugar que precisem.

Mas me vejo obrigada a dizer uma coisa: assim não vamos a lugar nenhum. Combater o racismo cultivando a divisão me parece uma péssima ideia.
Não penso no feminismo como um ponto racial, onde vamos nos dividir na entrada da casa, as reuniões para feministas brancas em lugar e para as negras em outro. Isso me causa um horror tão grande que se um dia me vejo em diante de uma situação assim vou preferir ir embora.

Entendo a urgência dos grupos de feministas negras, entendo a invisibilidade na qual são jogadas pela mídia, acompanho tudo e me dá náuseas perceber que só feministas brancas são elevadas a categoria de super estrelas. Estou vendo tudo isso, percebo esse racismo em cada linha, em cada segundo. Todas nós, que somos feministas, estamos percebendo o que acontece. Mas não somos nós que estamos fazendo isso, é o mundo machista, a mídia misógina, jogar a artilharia em cima de outras mulheres não é a porta de saída, não é a solução.

Eu posso não saber o que é racismo, não moro na periferia, não apanhei da polícia, mas sou mulher e sei o que se sente diante de uma agressão sexual, ou é diferente? Não. Não separo a tragédia da mulher por cor, vamos ser realistas, a pior coisa neste mundo violento é nascer mulher, é com isso que me identifico, não pela cor. Se sei de uma mulher que foi estuprada não consigo pensar ''ah, é negra, mora na periferia e tal'', isso não cruza minha mente, o que acontece ao escutar algo assim é que minha espinha gela, porque sou mulher.

Mas mulheres negras são mais violentadas que brancas e abandonadas pelo sistema!
Eu jamais negaria isso e a necessidade imperativa de reverter esse quadro, mas não vai ser atirando na direção de outras que isso vai mudar. O sistema pode ser pior de um lado, mas é ruim para todas.

E dizer ''eu não preciso de você''.
Precisa sim, viu? Todas precisamos de todas, não tem como sair desse buraco machista sem o envolvimento de todas.

E ainda acrescentar ''teu feminismo branco é uma merda''.
Não é meu ''feminismo branco'' que é uma merda, é o machismo, caramba, não percam o foco, eu não sou o inimigo, não sou quem escraviza, estupra e mata!

E falar ''mas as mulheres negras têm uma história pior do que as brancas, apanharam mais e foram vendidas como escravas''.

É verdade! A parte mais vergonhosa da humanidade, foi e é a escravidão. Mas e agora? Como vão escrever a nova história? Dizendo que não aceitam brancas na sua comunidade e repetindo um horror histórico de segregar novamente?

E digo mais, eu não quero ser aceita por nenhuma comunidade que tenha que definir se sou branca ou negra, ou me aceitam porque sou mulher ou não quero estar ali. E não quero perder meu tempo me explicando, nem justificando minha cor, meu feminismo está ligado ao gênero, sou  feminista porque sou mulher e não quero ver outra mulher passando pelo que já passei e ponto. Não vou fazer nenhuma comunidade no Facebook dizendo que só aceito feministas gordas, porque não preciso das magras.

A única coisa que pode me unir a qualquer mulher em qualquer parte do planeta é a dor de ser mulher em um mundo que nos odeia, é meu único laço com todas, mas se for para dividir tem mais possibilidades, está o peso, a cor, a condição econômica, a condição sexual, a escolaridade, o idioma, a cultura.........

E a grande dificuldade que tenho em relação ao racismo é que estou convencida de que se aprende em casa. Eu cresci em um ambiente misógino e machista, mas por algum estranho motivo não era racista nem homofóbico. Durante minha infância eu morava fora do país e minha casa vivia cheia de jornalistas refugiados, de diferentes países. Nunca escutei um comentário ali dentro sobre os jornalistas cubanos, que eram negros, nem sobre uma fotógrafa africada. Meu pai era terrível nos comentários sobre as mulheres, mas nunca escutei da boca dele um comentário racista, pelo contrário, lembro de um episódio quando eu tinha oito anos e estava com ele em um shopping, um amigo dele apareceu e eles começaram a conversar. Meu pai o convidou para jantar em casa e o amigo disse ''ah, não, na tua casa não vou, está sempre cheia daqueles macacos jornalistas estrangeiros''.
E começou uma discussão horrorosa, eu me assustei muito, meu pai sempre foi barulhento e não deixou por menos, foi um daqueles momentos da minha infância que passei vergonha sem entender o que estava acontecendo. Hoje quando lembro tenho orgulho de todas as ofensas que meu pai dirigiu a seu amigo racista. Não sei se onde veio isso, mas meu avô, meu tio, ninguém nunca fez um comentário racista. E minha mãe estudava com muitos gays na escola de pintura, então sempre foram bem vindos na minha casa, como vejo isso desde pequena o racismo e a homofobia me parecem a coisa mais estúpida do mundo.

Entendo que as algumas feministas negras carreguem nos números e estão certas de fazer isso, não se pode negar que são as maiores vítimas da violência, mas o feminismo deixaria de ser feminismo se lutasse apenas por uma parcela das mulheres. Vejo muitas feministas negras dizendo que não precisam das feministas brancas, mas eu me pergunto, então pelo o que lutam? Porque as causas do feminismo não estão divididas por cor nem condição, é uma mudança para todas e não se pode confundir um movimento político como o feminismo com a ausência do Estado. Faltam hospitais, isso é uma questão do Estado. As mulheres são maltratadas e abusadas em todos os hospitais, desrespeitadas até na hora de parir, essa é uma questão do feminismo. Dizer que as negras são abandonadas e não são atendidas em hospitais é uma questão do feminismo, que diz respeito a todas nós. Mas começar a dividir dizendo ''feminista negra'' de um lado e ''feminista branca'' de outro não resolve o ponto, que pode parecer diferente, mas é o mesmo, o sistema de saúde está desenhando no mundo inteiro para ignorar a mulher e agredi-la, em qualquer esfera as mulheres são punidas. E sempre me dizem ''mais a mulher negra é mais punida'', é, eu sei disso, mas virar a artilharia na minha direção não vai mudar nada.

A um feminismo dividido por cores eu não posso agregar nada, me recuso a entrar nessa roda, não vou discutir se meu feminismo é de moça branca, que não conhece a periferia, não  tenho nada para dizer sobre o assunto, mas se precisarem se mim como mulher, como uma visão do assunto que abrange a todas, então podem me chamar, mas qualquer divisão entre feministas brancas, negras, ricas, pobres, gordas ou magras, me recuso a entrar, não vou jogar as etiquetas que tanto me jogaram e me fizeram mal.

E outro motivo da minha irritação em relação a esse assunto é referente a um episódio que me marcou profundamente, talvez seja a razão da minha pouca compreensão em relação a essa divisão racial no feminismo.

Em 2002 eu trabalhava em uma emissora de notícias e um dos repórteres tinha ido fazer uma matéria sobre as mulheres sequestradas, estupradas, escravizadas e mortas na fronteira do México, em Cidade Juarez. Eu não fui, mas acabei ajudando a selecionar o material, tinha entrevistas com algumas brasileiras, eu fazia a tradução e acabei me envolvendo com a matéria, passei dias lendo e escutando todos os tipos de depoimentos.

O programa que eu estava queria a matéria completa e a entrevista com alguém, então o repórter conseguiu três mães, que tiveram as filhas sequestradas, estupradas, torturadas, escravizadas, vendidas, vendidas de novo e finalmente mortas. 

No dia que a matéria iria ao ar o repórter foi chamado. No México as pessoas dizem que ''essas coisas acontecem'', mas não é bem assim. Desde que essa matéria foi encomendada sabíamos que dependíamos da sorte para colocar ao ar, porque até hoje é proibido em todos os meios de comunicação no México mencionar Ciudade Juaréz e suas três mil mortas e duas mil desaparecidas.

A matéria foi cancelada e eu estava em uma sala de edição quando o repórter entrou e me disse:

-A matéria caiu, não vai ao ar. Posso te pedir um favor? As mães que iriam dar entrevista estão no camarim 3, você pode ir lá e dizer que tudo foi cancelado?

Por que eu?

-Porque você é mulher e eu não tenho coragem de subir lá e dizer a essas mulheres novamente que o sistema quer que elas desapareçam.

Subi na maior tranquilidade e ao passar no corredor que dava aos camarins escutei uma amiga passando mal no banheiro, entrei e perguntei se estava tudo bem, e ela disse que sim, avisei que eu estaria no camarim 3 se ela precisasse e ela me respondeu:

-Acabei de vir de lá, estava avisando sobre os minutos que elas vão ter para a entrevista. 

Ah, mas foi cancelada.

-Eu não volto lá, vi as fotos e estou vomitando até agora.

Que fotos?

-Quando acharam as moças....se entrar lá não peça para ver.....

Fui ao camarim, bati na porta e estavam lá três mães, e uma irmã. Uma mãe cubana, duas eram mexicanas e a irmã era da Guatemala. 
Quando abri a porta percebi que estava diante de um tarefa horrorosa, dizer a elas que mais uma vez suas vozes seriam caladas. Então resolvi disfarçar e perguntei a elas o motivo de sua visita e elas começaram a me contar. Suas filhas foram sequestradas, com 14, 15, 18 e 21 anos. De tanto essas mães ''perturbarem'' a ordem, conseguiram pressionar a polícia e acharam os cadáveres, coisa rara. E me perguntaram se eu gostaria de ver o vídeo que elas fizeram no IML, mostrando o estado real dos cadáveres e as fotos. Me disseram que gravaram tudo porque sabiam que o governo e a polícia iriam negar a barbaridade que tinha sido cometida. Peguei uma pasta que uma delas tinha e abri a primeira foto. Não dava para ver nada, de tanto sangue, mas ao virar a página percebi que as fotos estavam bem detalhadas e resolvi deixar de lado, mas fui sincera, disse que não tinha condições de ver aquilo. Então me vi obrigada a dizer a verdade, falei que a emissora recebeu uma ordem de cima e não poderia colocar a matéria nem a entrevista ao ar, mas que se servia de consolo até o dono da emissora e isso era verdade, tinha lutado para colocar no ar. Os jornalistas mais importantes da emissora pressionaram para que a matéria fosse colocada, mas a ligação ''de cima'' impediu tudo.
Achei que elas fossem surtar, chorar, mas receberam a notícia com o maior silêncio que já escutei, com o ar pensando e o tempo parado.

Uma delas me respondeu:

-Tudo bem, sempre estamos preparadas para outra porta na cara e quem se importa com nós? São quatro moças, menores de idade, estupradas e mortas, quatro moças pobres, da periferia de Juarez, quem quer falar sobre isso?

De repente o repórter entrou e prometeu que assim que a poeira abaixasse ele tentaria colocar a matéria no ar e a direção da emissora foi legal e nos permitiu gravar a entrevista com elas, anexar ao arquivo, assim quando houvesse oportunidade colocariam tudo junto no ar.

Fui para o estúdio com elas, para que gravassem seus depoimentos e como era gravado não tivemos limites de tempo. Fiquei lá quase duas horas com elas, escutando todos os detalhes, como elas conseguiram juntar a história e graças a uma ONG pagaram um legista para fazer a autopsia de maneira imparcial, porque em Cidade Juarez todas as mulheres que morrem recebem um carimbo dizendo que ''bateram com a cabeça no armário''. O legista detalhou tudo, absolutamente nauseante e impossível de ser escrito, de tão horroroso que é.

E quando começamos a gravar já era tarde, o último programa já tinha ido ao ar e tinha muita gente circulando ali, terminando os trabalhos. E conforme as mães começaram a falar todo mundo foi se aproximando para escutar. É tão raro ouvir o que realmente acontece em Juarez que todos foram ficando ali. O estúdio estava cheio, enquanto a irmã de uma desaparecida contou que ao procurar a polícia para denunciar a desaparição da irma, foi empurrada para dentro de uma viatura e estuprada, disseram que se fizesse a denúncia iria morrer como sua irmã e só não era sequestrada e vendida porque não estava ''bonita''.

Os principais jornalistas da emissoras, ricos e brancos estavam ali, uma equipe técnica enorme, pessoas de produção, manutenção, a moça do café, figurinistas, todo mundo estava ali, paralisado com o que escutava.

Quando terminaram o estúdio quebrou de tanto barulho, todos aplaudiam e diziam ''arriba las madres de Juarez''. Todo mundo se aproximou para abraçar as mães, oferecer um pouco de consolo diante de uma tragédia dessas.

Subi ao camarim com uma das mães, que chorava muito, estava emocionada e me disse:

-Pelo menos alguém nos escutou né?

É, ali estava uma mãe que engravidou, segurou a barriga durante nove meses, pariu, amamentou, ensinou a filha a andar, falar, andar de bicicleta e quando a filha fez quinze anos sumiu. E a mãe se viu obrigada a frequentar delegacias, IML, tudo em busca de sua filha. E quando encontrou os restos de sua filha foi obrigada a lutar contra o sistema, que insistia em dizer que a moça tinha sido assaltada e morta. Essa mãe teve que contratar um legista e escutar calmamente o laudo, que especificava as torturas que a moça tinha sofrido. De tanto que ela procurou conseguiu encontrar um dos assassinos, foi denunciado e preso, mas depois de prestar depoimento foi liberado, por falta de provas. Na saída da delegacia ele se aproximou da mãe da moça e disse:

-Olha, me agradeça, sou uma pessoa legal. Eu podia ter mantido tua filha viva até hoje, mas fiquei com pena dela e a matei uma semana depois do sequestro. Não sou tão mau assim.

A mãe pulou nele e acabou presa, apanhou na delegacia, para deixar de ser ''barraqueira''. Como ela denunciou o rapaz teve sua casa queimada e foi obrigada a se mudar.

Procurou outras mães, se uniram para tentar colocar na cadeia os acusados e achar os outros cadáveres. Estão juntas até hoje e não procuram mais por uma ou duas moças, mas por duas mil mulheres desaparecidas e não conseguiram colocar nenhum culpado na cadeia.

A outra mãe que conversou comigo tinha a mesma história, a filha sequestrada com dezesseis anos, na porta de casa, os restos do cadáver que ela achou meses depois, o silêncio da polícia e as ameaças a quem tenta procurar os assassinos de sua filha.

Escutei as quatro histórias, todas iguais. Conversei com as três mães e a irmã de uma desaparecida. E uma das mães era negra, a mãe cubana. E não lembro disso, nem de quem era sua filha. Minha única lembrança é o olhar dessas mães, eu nunca tinha tido contato com a tragédia de Juarez, eu não sabia o que acontecia. O que dividiu minha alma naquela noite das entrevistas foi o olhar das mães, um olhar quebrado e cheio de esperança de conseguir punir os responsáveis, um olhar remendado, costurado, depois de escutar como as filhas sofreram antes de morrer, um olhar vazio, mas ao mesmo tempo cheio de amor por essas meninas que elas tanto amavam.

Não lembro quem era a mãe negra, nem quem era a mãe branca, nem a mãe indígena, só lembro dos olhares, da energia, da dor, da tensão. Lembro quando uma das mães se aproximou e encostou a mão no meu brinco de anjo e me disse:

-Minha filha adorava esse anjo, tinha um brinco igual.

Fiquei sem jeito e disse que ela poderia ficar com meus brincos, caso quisesse e ela respondeu:

-Você não se importa?

Não.

Eu ali, diante de uma mãe que perdeu tudo e vou reclamar de dar meus brincos a ela? Dei meus brincos.

A quem se diz feminista ''negra'' ou ''branca'', só posso dizer, cresçam, evoluam, percebam a realidade, que é bem mais ampla do que vocês veem. O feminismo não está na cor, está nos olhos de cada uma, está no reflexo de todas nós. Eu não sou mãe e fiquei profundamente comovida com essas mães que conheci, até hoje choro quando penso nelas. Eu não sou negra e me arrepiei quando escutei a mãe dizendo que só queria o corpo da filha para poder enterrar e chorar à vontade sobre sua tumba. Eu não sou indígena e fiquei paralisada quando a mãe perguntou ''por que fizeram isso com ela?''. Eu não sou nem mãe. E nem tenho irmã, mesmo assim chorei quando a moça contou ter sido estuprada ao ir denunciar o desaparecimento de sua irmã. Eu não sou negra, nem indígena, nem tenho irmã, mas sou mulher e pude ver meu reflexo em cada uma delas, pude como mulher imaginar, de longe, o calvário que estão passando. E não era uma questão de cor, idade, nem situação, era apenas pelo fato de ser mulher, os homens que estavam no estúdio ficaram comovidos com a histórias das mães, mas as mulheres entenderam no fundo de sua alma o tamanho da dor que aquelas mães carregam.

Na saída fui abraçar a irmã de uma desaparecida, a moça chorava muito e eu chorava com ela. A parabenizei por ter sido tão forte, não é para qualquer uma ser estuprada pela polícia e lutar para fazer a denúncia. E ela me disse:

-Sabe, eles iam me matar, mas eu falei ''pode matar, porque eu sou uma, mas para acabar com as denúncias vocês vão ter que matar todas''. 

É isso que eu gostaria que todas entendessem, nossa única proteção é a união, essa moça se salvou porque no último momento a polícia entendeu que não adiantava matá-la, existem centenas de mulheres lutando para denunciar o que está acontecendo. E dizer que não precisamos umas das outras é uma piada neste mundo machista. Precisamos sim, e já está na hora de acabar com essa divisão racial no feminismo e começar a nos reconhecermos no olhar, é nele que está o reflexo de todas nós, de cada pedaço dessa luta, de cada passo dado. Ou mudamos o mundo por todas ou o sistema machista acaba com todas. Não tem espaço para divisão, e é bom lembrar, não adianta a gente se separar por cores, estamos unidas pela dor. E negar isso é negar o martírio que é ser mulher neste mundo misógino, ou vamos juntas ou o planeta vai continuar nos tratando como carne moída.

E que fique a lembrança das mães de Juarez, diante da morte da filha não existem olhos brancos nem negros, existem mães e seus olhos perdidos, sem cor, sem futuro.



Iara De Dupont

9 comentários:

C.Belo disse...

Nossa... Me faltam palavras. Só consigo nesse momento sentir um sufocamento no peito.

Pq Deus permite esse tipo de coisa? Pq?

Essas mulheres são admiráveis pelo simples fato de continuarem vivas e lutando para fazer alguma diferença. Eu já conversei com Deus: "Senhor, não permita que eu dê um único suspiro neste mundo sem q minha filha esteja nele. O Senhor a deu para mim, tenha misericórdia e nunca tire, me leve antes"

Diante disso tudo, de fato essa segregação estúpida perde todo o sentido. A causa delas é muito importante e válida, concordo q essa vertente - feminismo negro - existe e deve ganhar cada vez mais visibilidade a questão da mulher negra na nossa sociedade, mas essas mulheres foram infelizes em seu radicalismo empáfio.

Assim como precisamos q os homens mudem seus pensamentos e enxerguem nossas questões, tb precisamos nós, mulheres brancas, enxergar as diferentes questões das mulheres negras e entender nossa posição privilegiada e desconstruir, senão o nosso preconceito, a nossa cegueira.

Mas isso aí q elas fizeram tá errado! Erraram feio, erraram rude! Quiseram fazer um recorte no feminismo com a questão racial excluindo parcerias de luta, hostilizando uma mulher sábia como vc que certamente soma MUITO à causa maior comum a todas. Precisamos de união, TODAS JUNTAS somos mais fortes!

Patricia Gabriel disse...

DEus......!

Patricia Gabriel disse...

que voce lute,que voce se emocione,mas não perca tempo nem a fé,Iara...eu também já fui expulsa sem motivo de uma comunidade de professores ,simplesmente porque resolvi jogar historias aos ventiladores,achando(naquela época)inocentemente,que ali eu acharia conforto entre colegas,que pudesse desabafar e ser ouvida,mas só que não,eles me expulsaram,e até a moderação achou estranho,tentou intervir,mas não teve jeito...e não,nunca falei palavrão,nunca destratei ninguém,mas falava com o sangue e a paixão subida e desenfreada verdade dos fatos,e não gostaram,essas coisas são fachada,amiga,nunca se iluda,infelizmente,é guerrinha de egos!e há pessoas de etnias fechadas que são racistas como os demais,não se engane...(acho que me entendeu!)

Anônimo disse...

Isso é exatamente o que o machismo quer, divisão. Algumas pessoas confundem protagonismo com participação. Assim como homens nunca vão entender (realmente entender) o que as mulheres passam, pessoas brancas nunca vão sentir o preconceito que negros sofrem, mas nem por isso eles não podem se solidarizar e participar da luta.

Cris disse...

Eu também já pensei nisso, do que adianta segregar? Claro que quando uma feminista negra fala de racismo as brancas devem se calar e ouvir, já que não sofremos racismo e não sabemos como é, mas separar feminismo por cor vai ajudar a causa? Não creio, afinal "dividir pra conquistar" é uma tática de guerra muito eficiente. E os machistas nem estão precisando fazer isso, as próprias feministas estão se dividindo...

Lara disse...

Sem palavras,nossa seu melhor texto.
Continue assim querida, uma hora vão perceber que divididas só perdemos nossas forças.

Alessandra T. disse...

A causa é de todas, enquanto houver divisão, segregação, grupinhos, panelinhas estarão sempre achando que nunca passaremos de modinha, de mulherzinhas mal amadas e todos os blá blá blás que estamos cansadas de ouvir.

Anônimo disse...

Acho que quando você fala isso eu penso feminismo lado A lado B, deve haver recortes, sim mas isso não é recorte, eu por exemplo me descobri feminista em 2012, de lá para ca descobri que nessa panela, não existe grupo pra mim, de um lado as feministas brancas, escolarizadas (que fazem questão de andar com uma faixa com suas graduações) e classe média, de outro lado a feminista negra periférica ou não contando sua história.
No meio disso tudo eu, branca, periférica, sem escolaridade que sustento uma mãe doente desde os 16 anos e que tranquei os estudos n vezes não me encaixo em nada disso, a feminista branca ta lá fazendo resenha de maio plus size importado, coletor menstrual e rolê em bistro caro.
Mundo distante... E a negra vai me expulsar alegando que eu tenho a vida branca mais feliz do mundo, só que elas esquecem que no Brasil existe pobre branco, é claro não somos a maioria das favelas e periferias mas existimos.
Ou seja tem mim blogs, revistas até falando de feminino mas nada disso é pra mim. Entendo a desistência e desencanto de muitas.

Sheila disse...

Muito triste a história das mães, você tinha falado a respeito antes, mas não lembro de tantos detalhes. Impossível não se emocionar e entristecer :(
Temos tanta coisa para mudar, vamos nos unir. Nossas diferenças podem ser nossa força.

Ótimo seu relato, fique com Deus!

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