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20 dezembro 2015

Eu tenho medo, tu tens medo, ele tem medo, nós temos medo.........


Escrever é uma das coisas mais estranhas do mundo. Não sei porque o faço, mas me traz um alívio imediato, como se acalmasse minha alma.

Mas por fazer isso em um blog tenho aprendido a lidar com uma resposta imediata e a maioria das vezes surpreendente. Já trabalhei e estudei com pessoas que não eram minhas amigas, mesmo assim um dia se aproximaram e me disseram ''sabe tal post?''. Sei. Eu sempre sei. E sempre me surpreende quando falam de um ou de outro, quando a gente escreve parece que esquece que alguém pode ler e está na internet, acessível para todos.

Já tentei e quis ser menos pessoal. Até entrei em um curso, queria aprender a desenvolver personagens e tramas, mas nada disso move minha alma. Eu tentei, mas não deu. Escrever sobre o que me atormenta, meus fantasmas e meus dias de glória me traz o alívio imediato, inventar personagens me dá sono.

E existem posts que nem me atrevo a ler novamente, de tão pessoais, sei que se eu reler aquilo vai me machucar novamente, prefiro deixar ali em um canto.

Apenas ontem voltei a ler um post que circula aqui há uns três anos, o POST ''A vergonha de ser gorda''.
É um dos que mais me deu retorno, tenho centenas de emails contando histórias parecidas e até hoje me perguntam o que aconteceu depois daquela noite.

Resumindo o post: conheci um garoto, me apaixonei, ficamos juntos, nos separamos e nos perdemos na vida. Anos depois ele me ligou, me convidando para assistir sua peça de teatro, conseguiu meu telefone porque uma das atrizes era amiga da minha prima e falando sobre pessoas meu nome veio à tona, naquelas coincidências astrais. Eu fui assistir a peça, mas não tive coragem de entrar, já tinham se passado quase dez anos que não o via e eu estava vinte e cinco quilos mais gorda, me senti mal e não entrei, ele me conheceu gorda, mas eu fiquei com vergonha de que ele me visse tão gorda e fui embora.
Ele pegou aquilo como um ''fora'' e sumiu.

Agora, quase vinte anos depois, ele me achou no Facebook e falamos sobre essa noite. Ele passou rápido no assunto, deu risada, me chamou de ''boba'' e não fomos adiante nisso. Mas dois dias depois me mandou um email, que me deixou chocada, chateada, triste, enfim, todos os sentimentos se misturaram.
Depois de ler e ler o email mil vezes mandei um recado, perguntando se poderia escrever e dizendo que eu precisava escrever sobre isso, queria o alívio imediato, só entendo as coisas que escrevo. Falei que não iria postar nada, mas queria perguntar se ele estava de acordo e ele me respondeu: ''Iara, faça o que te parecer melhor e o que eu posso te dizer? Você ficou na porta e isso mudou tudo, poderíamos estar juntos até hoje. Escrever não vai trazer aquela noite de volta''.

Vai, sempre traz, escrever me traz aquela noite, me traz você e meu alívio imediato. 

Mostrei o email a  uma das pessoas que mais confio e ela me disse ''não publique isso''. Tenho lido o email durante dias e cheguei a uma conclusão, é peça fundamental da minha história e das coisas nas quais acredito, se Romeu não se incomoda com o fato de eu falar sobre isso, então não tem mais ninguém para se incomodar.

Me lembro de um livro da escritora Isabel Allende, que contou um fato que aconteceu aos seus quinze anos, quando assistiu um baile. Estava aterrorizada para ir, tinha medo e queria desistir, então seu avô se aproximou e disse ''quando sentir medo lembre-se de que os outros têm mais medo do que você''.

Esse é o ponto do email, a lembrança de algo tão importante que eu esqueci, todos nós temos medo, todos nós estamos aterrorizados, mas parece que o medo nos congela e pensamos que somos os únicos a sentir aquilo, que todo mundo parece capaz de lidar com sua vida, menos nós. O mundo inteiro parece preparado para tudo, menos eu. Tive essa sensação durante anos, quando sofria de síndrome do pânico sempre me perguntava como as pessoas conseguiam viver tão bem e tranquilas, enquanto eu me comia por dentro e sofria ataques constantes de angústia. Por que para mim era tão difícil viver e para o resto do mundo parece a coisa mais fácil a se fazer? 
E essa sensação ainda me persegue nos dias de frio e lua cheia.

Fui tão ingênua, tão boba, quantas situações poderia ter resolvido se apenas tivesse dito: estou com medo!
E quanta dor eu teria evitado, nem Romeu teria ido embora. 

Mas esqueci disso, pensei que era a única criatura que sofria no mundo de medo, pânico, angústia, ansiedade e vergonha do peso! E que caro me custou tudo isso, quantas coisas perdidas porque eu achava que era uma estranha em um mundo de pessoas normais.

Se eu apenas tivesse tido isso claro, todos temos medos, então vamos falar sobre eles para que desapareçam. Mas quem quer fazer isso? O mundo exige de todos que pareçam ser super heróis e dominem seus temores, vivemos em uma sociedade que qualquer reação de dúvida é vista como algo que precisa ser medicado, dizem que o mundo é dos fortes e medo é coisa de fracos.

Queria ter aprendido na escola naqueles intermináveis exercícios na aula de português! A professora deveria ter me mandando ao quadro negro para escrever:

Eu tenho medo
Tu tens medo
Ele tem medo
Nós temos medo
Vós tendes medo
Eles têm medo

E já li tantas vezes o email que decorei, prática dos anos de teatro, depois de ler algumas vezes parece que posso ver até as intenções jogadas ali. No email ele diz:

''Sobre o motivo, o cano que você me deu, sim, me disse que porque estava gorda. Estudamos juntos e não me lembro de ter feito nenhuma brincadeira em relação ao teu peso, nunca te disse nada, até porque para mim você sempre foi perfeita (.......) Não li o post, quer dizer, tentei, mas me deu vontade de chorar, pensei que aquela ali não era você. Falávamos de imagem (.....), pois é, eu lembro de você com aquele teu jeito de dizer o que pensava, lembro de ter te dito algumas vezes ''Iara, as coisas não são assim'' e sempre pensei como você era corajosa (......) naquele último ensaio o diretor te chamou de gorda e você respondeu na frente de todos ''tem quem goste seu filho da puta''. Caralho! Você mandava à merda. Pensei na hora, com essa eu caso! 
E você quer me convencer que essa Iara é a mesma que ficou parada na porta do teatro? 
Depois de uns anos a Marina me disse ''a Iara te amava''.
É? Que amor foi esse que te paralisou na entrada do teatro? 
E  agora você diz ''aquela foi a pior noite da minha vida''.
Não foi da minha, no começo, depois azedou. Eu estava feliz, era uma estréia importante, um dia bom e a garota dos meus sonhos iria me assistir. E sabe o melhor? Eu já tinha ganho uns quilos, tinha mais corpo de homem, já tinha deixado para trás aquele ar de moleque e queria que você me visse, queria que você gostasse. Eu passava perto do espelho, ficava me olhando e pensando ''a Iara vai adorar''.
Não te culpo por não ter confiado em mim, eu era um garoto inseguro, tímido e medroso (....) Você sempre foi o oposto, parecia cheia de força e não se intimidava com nada nem com ninguém, eu queria ser como você.
Faltou entre nós ''passado''. Éramos muito jovens e nunca tivemos uma conversa séria sobre os assuntos que nos incomodavam. Você tinha problemas com seu peso? Eu também tinha com o meu. Nasci pequeno, fraco e cercado de homens abusivos, apanhei de todo mundo, de tios, pai, irmãos, primos, moleques de rua. Minha mãe me dizia que eu era bonito, mas mulheres gostam de homens fortes, e eu era fracote. 
Na escola que estávamos os garotos comentavam sobre você, tuas coxas, teus seios, você era um mulherão, na língua das venenosas era gorda, mas para o resto de nós você era uma grandona linda.
Eu via os garotos mais fortes dando voltas ao teu redor, via o diretor te cercando. E eu lá, um idiota, com menos de vinte anos, magro, sem um músculo, sem nada. O que você poderia ver em mim? 
Pelo que conversamos percebi que não guardamos a mesma  memória sobre os fatos, mas talvez você se lembre disto: estávamos em duas peças diferentes e na peça que você estava faltou um ator, o diretor me chamou e mandou substituir o ator. Eu entrei no teatro, falei com você e começamos a ensaiar. De repente escutei quando o diretor e sua assistente disseram ''não, não, esse moleque não dá, tem que ser um homem, esse aí parece irmão menor da Iara, manda trazer fulano''. A assistente era gentil e me disse ''olha, não deu, a Iara é muito mulherão e a gente vai carregar no figurino dela, você parece frágil e pequeno ao lado dela.''
Você tentou me defender e disse ''mas temos a mesma altura" e o diretor disse ''sim, mas você é gorda, ocupa espaço e ele tem corpo de moleque de doze anos, vai trabalhar esse corpo rapaz''. 
Nunca senti tanta vergonha na vida, ser humilhado daquele jeito ao lado da minha namorada!
Fui resolver isso do meu jeito, mas já não estávamos mais juntos, por isso aquela noite era tão importante para mim, queria que você visse que eu não era mais o moleque frágil, com corpo de doze anos, nunca mais te diriam que eu parecia teu irmãozinho. Eu queria que você me visse, gostasse, percebesse que aquele menino não existia mais (.....)parece que você não resolveu ainda seu problema de peso, eu me pergunto: por quê porra estou aqui te dizendo tudo isso? Porque parece importante para você (....) resolva isso, o que estiver acontecendo seja firme, tenha coragem, aquela que sempre teve e finalize o que te incomoda, não importa o que é (...) vamos lidar com isso, perdemos vinte anos porque você não entrou naquele teatro, nunca tive dúvidas de que ficaríamos juntos, era só entrar, e o resto teria acontecido. E por quê você nunca me disse ''me sinto mal pelo meu peso?''. Sabe o que eu teria te respondido? Eu também, odeio ser magro, fraco e ter passado a vida inteira apanhando de todos. Você teria me dito que tinha medo da minha reação diante do teu peso, eu teria te respondido que sempre tive medo da tua reação diante da minha magreza.
Cada vez que assunto do teu peso volta, eu leio outra coisa, parece que as linhas dizem ''ela nunca confiou em você o suficiente para te contar o que tanto a atormentava''. 
Gostaria de te dizer que falhei como homem, que eu deveria ter te dado apoio, mas eu não poderia fazer isso, eu era um garoto, tão inseguro e perdido como você. 
E repito o que disse no skype, você pode contar comigo (.....), é estranho o reencontro agora e com essa noite ainda nos dividindo. E me desculpe se levei vinte anos para te dizer o que deveria ter tido desde o primeiro dia, mas te digo agora e repito até você cansar: você é linda.''



Iara De Dupont

9 comentários:

C.Belo disse...

Eita! Tô sem palavras...

Veronica. disse...

Que lindo Iara. Se alguém um dia me escrevesse um email desses eu não pensaria duas vezes: atravessaria o que tivesse que atavessar e me jogaria nos braços dele.
Nem que fosse só naquele momento.

Iara De Dupont disse...

Penso a mesma coisa Vero! Mas agora é deixar rolar e ver se o universo conspira.........

Cris disse...

É, às vezes a gente pensa que todo mundo está ok e só nós temos problemas, mas aí um dia as coisas mudam e você descobre que não está sozinho nos seus medos e inseguranças... e que se nós tivéssemos simplesmente admitido isso uns pros outros ao invés de tentar fingir que não tem nada errado tudo seria tão diferente. Que o universo conspire muito a favor, Iara. E tenho que te dizer que quando vi as suas fotos no blog também te achei linda. Apoio 100% a declaração do rapaz.

Suzana Neves disse...

Nossa nem estou chorando agora,parece eu e o meu marido toda vê que rola uma brincadeira ele fala em academia e aumentar de tamanho acho que.ele se sente assim.

Patricia Gabriel disse...

Puxa,Iara,sem palavras aqui,tomara que voces dois se reencontrem,tomara que se aplaquem,tomara que de certo,toh torcendo aqui!Não te conheço ainda pessoalmente,mas sempre simpatizei contigo,com teus escritos,sempre rolou identificação,e quer saber?Vendo fotos e videos teus,eu também te acho lindona!

Anônimo disse...

Economizou anos de terapia esse email, pra voce , pra mim e sabe la pra quanta gente mais. Nao podemos mudar o passado mas depois dessa da pra melhorar o presente.
Bjs

Anna

Alexandra disse...

Menina...Vive o que tens que viver...
Ruim de tudo , saber que viveu o qie precisava não te deixa com aquela indagação do "e se?"

Anônimo disse...

Migos todos emocionados aqui. :3

"Não podemos mudar o passado, mas, depois dessa, dá pra melhorar o presente."

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