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11 novembro 2015

Sinônimo de feminismo: tamo junta!



Uma amiga se aproximou, pegou seu telefone e me disse- Olha isso aqui.

Vi que era um depoimento na campanha do #primeiroassedio e minha amiga me perguntou:

-Viu quem era?

Reparei e vi que era uma antiga conhecida nossa, falando sobre os abusos que sofreu do padrasto. Não li tudo, ainda tenho náuseas quando leio abusos que crianças sofrem, então devolvi o telefone e minha amiga disse:

-O que você achou?

-Nojento né, o que eu poderia achar?

-Eu não acredito até agora, nossa, ela?

-Mas o que tem de tão extraordinário? Eu ainda tenho a teoria de que todas as mulheres passam por isso.

-Ah, sei lá, ela sempre pareceu tão bem, tão perfeita.....lembro de todas com problemas, mil coisas, mas ela sempre parecia bem, a melhor de todas, perfeita....Você mesma dizia isso!

-Mas era assim mesmo. Eu nunca entendi como alguém podia ser assim, na aula de educação física era a melhor, na aula de artes, matemática, redação, em tudo tirava dez, era magra, loira e rica. E ainda por cima os meninos faziam fila para pedir ela em namoro. Lembra na Páscoa? Ela ia embora da escola com três, quatro, cinco ovos de Páscoa, nossa, eu morria de inveja.....

-Você tinha bronca dela?

-Não! Pelo contrário, ela sempre foi legal comigo, só tenho boas lembranças. Uma vez umas meninas me sacanearam e eu fiquei sozinha no meio do pátio, e ela veio e ficou comigo até minha mãe chegar. Não esqueço disso.

-Nunca gostei dela, sempre achei uma esnobe, mas sei lá, esse depoimento mexeu comigo, a gente nunca percebeu nada....

-Mas ia perceber como, se éramos iguais de criança que ela?

-Não sei, me senti mal com o que li. Você sabe pelo o que eu passei, por aquele monstro do filho do vizinho, mas poxa, ralei anos para me livrar disso, sofri, berrei, todo mundo sabe o que eu sofri e sofro por esse abuso. Mas ela sempre me pareceu perfeita, faz pouco tempo a vi em um shopping e continua linda, cheia de atitude.

-Mas o que te tira do sério, o abuso que ela sofreu ou o fato de você nunca ter percebido?

-Acho que tudo. Nunca fomos amigas e poderíamos ter sido, fomos abusadas na mesma idade, poderíamos ter nos ajudado tanto!

-O verbo ''poderia'' é uma merda porque nunca dá em nada né! O que você tem vontade de fazer?

-Pensei o seguinte, tenho vontade de ligar, de chamar para um café, conversar, se ela já abriu isso pro mundo não vai se incomodar com um café....quer dizer, acho que não....

-Você vai dizer o que?

-Vou dizer ''tamo junta''.

Três dias depois minha amiga me ligou e contou que mandou um recado pelo Facebook a essa nossa conhecida, a moça respondeu, elas combinaram de sair e retomaram o contato. Não sei se vão ser grandes amigas, mas não havia antes nenhuma possibilidade de se falarem, surgiu apenas porque uma se comoveu e identificou com o terror que a outra viveu, ao ser abusada pelo padrasto. Foi a dor que criou a ponte, que permitiu a duas mulheres adultas se comunicarem e se consolarem diante de tantas lembranças ruins.

Perguntei a minha amiga se ela disse a moça ''tamo junta'' e ela garantiu que sim.

Não consigo encontrar até hoje um melhor sinônimo para o feminismo do que esse ''tamo junta''. E minha amiga ainda me disse ''escreve um post sobre isso?''. Escrevo na maior alegria!

Ainda me impressiona ver como a solução estava tão perto e nunca percebemos isso. Todas nós calamos histórias, acreditamos ser as únicas que passaram por essas trevas e agora, graças a várias campanhas as histórias começam à vir a tona. E percebemos que não estamos falando de mulheres famosas, nem das nossas vizinhas, mas das mulheres próximas a nós, irmãs, amigas, primas, tias, sobrinhas.......

Diante do cansaço que a luta traz, sim, porque é extenuante lutar pelos seus direitos em um mundo misógino, de repente aparecem esses raios de luz, esses grandes momentos, onde duas mulheres percebem que sofreram a mesma tragédia e isso em vez de separar, hoje une, é usado como cola na construção de uma nova sociedade.

É um processo que cicatriza, cura, dá forças para continuar, olhar para o lado e escutar ''eu também passei por isso''. E não digo que o assédio ou abuso tenha algum lado positivo, porque isso não existe, mas poder finalmente falar disso e saber que tantas entendem, tantas passaram pelo menos e tantas podem se dar apoio, é uma coisa que não tem nome, de tão extraordinária.

Nós, mulheres, somos socialmente umas solitárias, sempre sozinhas na nossa escuridão. Iluminamos o caminho de todos, seguramos nas mãos dos pequenos, mas nossa trilha é vazia, sem ninguém por perto. Em caso de abusos e assédio, o sistema ignora, diz que foi nossa culpa e vida que segue. O namorado diz ''eu sinto muito pelo o que você passou'', mas isso não alivia, sabemos no fundo da nossa alma que ele nem sabe do que estamos falando. Para as amigas e família entregamos nosso silêncio, engolimos o choro e dizemos que está tudo bem. São séculos que estamos vivendo assim, longe de tudo e perto do nada, sempre com a boca seca, com o coração angustiado. O que passamos na intimidade ninguém sabe e quando alguém se atreve a quebrar esse silêncio não sabemos o que fazer. Eu tive uma amiga que me disse ter sido estuprada (post), o que eu fiz? Nada. Eu congelei no tempo, no espaço, não soube nem o que dizer, não dei um abraço porque achei que talvez ela não quisesse ser tocada, não falei nada e dei a ela o mesmo silêncio que tanto reclamo quando me dão.

É um privilégio estar viva em um momento onde todo esse silêncio começa a virar barulho, berros, gritos. É a primeira vez em meses, em anos, que sinto meu coração mais leve, com a plena certeza de que todas nós estamos no caminho certo. Pegar o telefone e ligar para alguém que fez parte da nossa infância para prestar apoio e conversar, me parece incrível, um dos gestos mais profundos que já vi.

Não é só uma questão de parar os abusos, mas também de acabar com o silêncio, esse que é tão doloroso para todas nós e beneficia tanto o mundo machista.
Temos vivido décadas caminhando nas pedras quentes e dando um sorriso para disfarçar, segurando a dor, aguentando os abusos, inventando o silêncio. Mas agora as pedras esfriaram e o mundo vai escutar nossa voz. É a nossa voz que muda a história e cura a ferida de todas nós. Que assim seja.




Iara De Dupont

Um comentário:

C.Belo disse...

Que sim seja mesmo!

Sinto um alívio em saber que minha filha está crescendo numa sociedade onde o silêncio não é mais absoluto!

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