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28 novembro 2015

Podemos falar sobre isso?






Os tibetanos usam a palavra ''bardo'' para definir um espaço dentro de outro espaço, o espaço entre as respirações, o espaço intermediário.

Em muitos momentos da minha vida, graças ao feminismo, me encontro em um ''bardo'', um espaço dentro de outro.
Sempre fui da teoria de ''já que é para falar, então fala tudo'', prefiro que toda a questão seja jogada em cima da mesa, tanto o bom quanto o ruim. E vejo muitas coisas acontecendo com as mulheres agora, diante de uma transformação social que estamos vivendo, mas não se fala disso, como se não fosse importante.
Já comentei o assunto com algumas mulheres e elas dizem que não tem importância diante do que está acontecendo agora, as mulheres brasileiras acordaram e estão se mexendo para conquistar seus direitos.
Mas para mim é importante o tema e já não fico chateada quando dizem que é ''irrelevante'', porque não me guio pelo o que os outros pensam ou dizem. E também tenho uma ótima caixa de emails, que de uma certa maneira me mostra outra realidade, durante alguns meses tentei separar os emails por assuntos e percebi que esse era mencionado em mais de cinquenta emails, de maneira discreta, mas aparecia ali.

A questão parece simples, mas é como um emaranhado de fios, onde podemos mexer sem colocar fogo na situação? O feminismo está mostrando as mulheres como elas são agredidas, usadas e manipuladas no seu dia-dia, como vivem debaixo de regime de escravidão e como o mundo é misógino e violento. Mas ninguém está falando sobre o que acontece dentro da nossa casa, não em relação aos maridos e namorados, mas em como estamos sendo transformadas e modificando nosso relacionamento com os homens.

Isso não tem nada a ver com a opção sexual da mulher, se é hétero ou não, podemos ser assexuadas, de qualquer maneira todas nós convivemos com homens, sejam amigos ou parentes, mas a figura masculina é presente na vida de todas. Mas diante de tantas mudanças muitas mulheres e me incluo nelas, ficamos perdidas nesses relacionamentos, os homens não estão percebendo a gravidade do que acontece, não tem dimensão de como tudo está mudando e nós, mulheres, ficamos em um ''bardo'', aquele espaço dentro do espaço.

Nos emails que recebo as mulheres me dizem que ficaram chatas depois do feminismo, mas não é isso que acontece, é um período de consciência que exige outra postura na vida, chato neste mundo é morrer em mãos de namorados, ser feminista não é ficar chata, é ter consciência de que é um ser humano.

Qualquer movimento político tem seus momentos desconfortáveis, onde nada parece definido, mas eu não vejo o feminismo como um movimento político, para mim é um despertar espiritual, por isso pode ser muito tenso, já que acordar e perceber a realidade é um choque enorme.
De uma hora para outra ter consciência de como fomos usadas e abusadas faz com que a realidade fique nauseante. E depois de lavar o rosto nos perguntamos como lidar com tudo que está acontecendo, como reagir diante de tantas informações e sim, como, como se relacionar com os homens ao redor?

Não é fácil, pelo menos não tem sido para mim, mas ainda assim eu não mudaria nada, pelo contrário, se pudesse voltar no tempo teria nascido feminista, tenho certeza de que a consciência de que o corpo é meu e a vida é minha, teria mudado os rumos da minha existência e teria me evitado muita dor.
Mas no momento estou em transição e aprendendo a lidar com os homens que me cercam.

Eu não sabia nada de feminismo e fui educada para confiar no ser humano, não me avisaram dos perigos que corria. E sou a prova concreta de que anjos da guarda existem, porque passei por situações e saí ilesa delas, nem sei como.
Durante minha adolescência, ou o final dela, voltei a conviver com minhas primas. Eu sempre fui mais reservada, já tinha alguns anos no teatro e nunca gostei de ''curtir a noite'', porque em geral eu trabalhava nos fins de semana nas peças.

Mas minhas primas viviam no limite, o fim de semana delas começava na quinta-feira. Eu queria desesperadamente ser aceita por elas, ser igual e comecei a fazer as mesmas coisas, comprei as mesmas roupas e entrei nessa pilha de sair à noite, sem eira nem beira. Fui a festas de estranhos, peguei carona, dormi em casa de desconhecidos, enfim, fiz coisas que hoje não faria e nem consigo acreditar que cheguei a fazer. Eu confiava nas pessoas e nunca pensei que estava cercada de tanto perigo.

Pelo teatro viajei com atores, morei com namorados, peguei ônibus, subi em aviões e nunca me dei conta de nada.
E de repente o feminismo me mostrou a realidade, a quantidade de mulheres abusadas em situações assim, simples, como pegar um ônibus para ir de uma cidade à outra.

E o que eu faço hoje? Se tenho que viajar olho para os lados, não sento mais perto de nenhum homem.
De tantas coisas que li não entro nem em elevador se vejo que tem apenas um homem ali.
Antes se alguém me parava na rua para pedir uma informação eu sorria e falava, hoje se vejo que é um homem não paro nem falo.

Também graças ao feminismo comecei a ficar constrangida com algumas amizades masculinas e suas piadas machistas, coisas que passavam batido antes.
Na família a corda apertou, de chata virei ''histérica'', aquela maluca que radicaliza tudo e quer explicar como o mundo funciona. Alguns familiares se limitam a dizer ''gente, deixa a Iara no mundo rosa dela, o dia que ela perceber que os homens continuam mandando no mundo, ela vai surtar mais ainda''.
Nos relacionamentos fiquei no ''bardo'' mesmo. Eu tento ignorar, mas a maioria dos homens é machista e nem percebeu isso, e meu radar está afiado, consigo ver o machismo até em uma vírgula e congelo, não me sinto mais à vontade, cortei da minha agenda alguns Romeus, que eu gostava, me pareceu um pouco difícil continuar lidando com seu machismo. E até minha vida sexual mudou, me peguei questionando alguns pedidos masculinos na cama e levantando outros pontos, que jamais teria pensado antes do feminismo.

Então fiquei assim, limitei os amigos, cortei algumas saídas para jogar conversa fora, porque cansei das piadas misóginas que apareciam de vez em quando, sumi da vida de alguns Romeus porque não aguento o machismo deles e reduzi as discussões como alguns familiares porque cansei de ser chamada de ''feminista radical''. Também acrescentei uma coisa a minha lista, nunca na vida, nunca, nunca, tive medo de homem, hoje eu ando grudada na parede, como aranha, porque aprendi a ter medo de homem. Cansei de ir a casa dos Romeus, hoje não iria nem por um milhão de dólares, depois de ler tantos relatos de estupros e abusos.

E olho para trás e não sei como agradecer aos anjos da guarda, porque fiz coisas que nem eu acredito, de tão irresponsáveis.

Uma vez estava com minhas primas em uma festa, elas mudaram de ideia e resolveram ir a outra, mas o carro quebrou e estávamos na rua, tentando arrumar, quando um carro com dois homens encostou e nos perguntou o que estava acontecendo. Minha prima contou que o carro tinha quebrado, eles não se ofereceram para ajudar a consertar, mas ofereceram uma carona até a festa que queríamos ir. E sim, nós entramos no carro. Até minha prima de treze anos entrou naquele carro. O mais inacreditável da história é que os rapazes nos deixaram na porta da festa, sem dizer nada, se despediram e foram embora.

Quando contei essa história, no dia seguinte, a uma das minhas tias, ela respondeu ''ah, tem pessoas gentis no mundo''.
Pessoas gentis? Mas que merda de resposta foi essa? Entram quatro garotas no carro de dois desconhecidos, inclusive uma de treze anos e minha tia diz que tem pessoas gentis no mundo? Pelo amor de Deus! O que poderia ter acontecido aquela noite?

E quantas vezes fiquei para dormir em casa de estranhos, depois da festa? Deus que me ampare! Na verdade amparou!

Estamos em um momento de transição, e eles nunca são fáceis. Uma moça me mandou um email, dizendo que não sabe o que fazer, porque desde que descobriu o feminismo percebeu como seu marido é machista, mas o considera bom pai e ainda o ama, me perguntava ''como posso continuar com ele, se algumas coisas que diz hoje me parecem agressivas?''.

É, essa é a resposta de um milhão, como podemos continuar convivendo com os homens depois de perceber a violência com a qual somos tratadas? E as solteiras, como se apaixonar por algum homem, depois de ter noção de como as coisas funcionam neste mundo misógino?

Ser feminista é muito mais difícil do que parece, exige mais do que pensamos e muitas ainda estamos perdidas no meio desses questionamentos.

Já fui excluída de um grupo no Facebook porque dizem que defendo homens, mas nunca defendi, apenas coloquei meu ponto de vista, eu gosto da presença masculina e quero continuar convivendo com eles, mas em outro patamar, o problema é que eles ainda não sabem que isso está acontecendo e ficaram parados no tempo.

E tem muitas mulheres casadas, namorando, que estão no mesmo dilema, amam seus homens, mas não estão sabendo como lidar com o machismo deles, nem como transformar essa convivência.
Despertar para uma realidade que ainda está sendo modificada é um momento delicado, é uma transição, que pede paciência e controle.

Não gosto de viver assim, com medo de homens, nem de me afastar de amigos, mas fui colocada em uma realidade onde as coisas são assim e precisam ser mudadas, não por mim, mas pelas próximas gerações. Às vezes precisamos colocar as coisas lá na frente para poder resistir a prova, quando me sinto perdida penso que é parte da construção de uma nova sociedade e de que isso vai mudar a vida de muitas mulheres, tenho sobrinhas e penso que o mundo precisa ser modificado para elas, que não passem pelo o que eu e muitas passamos.

Mas é necessário falar sobre isso, é injusto dizer que é irrelevante e sem importância como nos sentimos em relação aos homens que circulam em nossa vida.

O outro dia eu conversava com um ex-Romeu e ele me disse algo machista e aquilo me incomodou, fiquei na dúvida se deveria alertar o rapaz sobre a besteira dita ou era melhor ignorar e continuar a conversa? Eu sabia que se o alertasse iria disparar uma discussão, mas não tive saída, resolvi dizer que ele tinha sido inconveniente e ele respondeu ''ah, foi mal, esqueci que você é a rainha do feminismo''.
É, acho que sou. Mas eu não nasci em um ambiente feminista, nem tive educação feminista, para mim tudo é muito recente, ainda estou aprendendo e acordando para os horrores do mundo.

Feminismo não pode ser apenas uma ideia política, um movimento que lute pela igualdade, é uma transformação social sem precedentes, mas precisamos falar sobre tudo que envolve, não adianta apenas discutir um tópico e usar a capa de mulher maravilha, é necessário aceitar que muitas não estão sabendo lidar com os homens na sua vida e querem transformar essa situação.

Comentei com uma conhecida sobre minhas dúvidas e ela disse:

-Só você né Iara! Milhões de mulheres morrendo nas mãos dos homens, estupros, sequestros e você preocupada em saber como lidar com o machismo dos teus machos? Se liga! Acorda pra vida, vai ficar defendendo homem?

Mas o que eu posso fazer se conheço muitos homens legais? Poxa, me desculpem por isso, mas conheço! Já passei por mil situações que o homem poderia ter se aproveitado e não o fez, tenho amigos que tem sido anjos em minha vida e amo muitos homens da minha família, que sempre me respeitaram. Eu os amo e quero perto de mim, mas preciso de uma convivência pacifica, sem machismo.

Caramba, sei lá para as outras, mas para mim é ruim quando Romeu diz uma frase machista e eu penso ''merda, podia ter ficado sem essa''.

E não adianta argumentar muito, estamos em fase de transição, eu sei o que é o feminismo, eles não; não estamos na mesma página.

Diante disso, digo, não mudaria minha vida, sou grata ao feminismo porque acordei de um pesadelo, mas reconheço que para mim a mudança tem me causado alguns conflitos porque não sei como agir. Tenho noção de que só posso fazer minha parte, divulgar a causa e rezar para que os homens percebam e mudem.

E sim, mudanças sociais pedem que falemos sobre tudo o que envolve, paciência para quem não gosta. Ser feminista é lutar pela igualdade, mas também ter noção da transformação que vivemos e que muitas ainda estão tentando lidar com um ótimo namorado, mas que é machista.

Não admito mais patrulha de homem e não vou admitir de ninguém, dizer que não sei como lidar com o machismo dos homens que amo, não me diminui nem me transforma em uma ''feminista escrota''. Falo sem medo, para mim é importante estar perto dos homens que amo, eu quero isso, não poderia estar longe do meu sobrinho, nem viver sem meus amigos. Quero conviver com eles sem tanto receio, nem medo, mas sei que vai levar tempo. Até lá peço desculpas ao movimento feminista, eu não sei mesmo como lidar com o machismo deles e isso me preocupa e atormenta. Me sinto desconfortável quando pego um deles em comentários machistas, fico triste. Desculpem, não sei lidar com isso! Não aprendi ainda......

Ah, mas conversando dá certo!

Nem sempre, se leva tempo para apagar uma crença machista, alimentada durante trinta, quarenta anos....

Mas existem homens que são mais rápidos e entendem o que está acontecendo!

É verdade, já conheci alguns.

Quero e acredito em um mundo melhor, sem violência de gênero, sem machismo, sexismo, nem misoginia. Mas quero o mundo com os homens que eu amo, só que evoluídos, porque assim tá difícil.





Iara De Dupont 

4 comentários:

Suzana Neves disse...

Tem razão é difícil mesmo todos os homens da minha convivência são terríveis mas são obrigados a ouvir meu ponto de vista porque quieta eu não fico.
Mas sempre acho que meu marido vai cansar das mudanças e foram muitas e ir embora....

Cris disse...

Não percebi o quanto as pessoas eram machistas e como eu mesma era machista até conhecer o feminismo. A minha sorte é que estudo no centro de artes da faculdade, então convivo muito com gente cabeça aberta e disposta a se desapegar dos preconceitos. Os familiares mais machistas eu evito, se vier com besteira pro meu lado eu discuto, só tento ser gentil com avós e tios idosos. O resto dos machistas do mundo? Taco um um foda-se, mando voltar pro esgoto de onde saiu e chuto a bunda com o maior prazer.

Tadeu Diniz disse...

Imagina saber tudo isso e ser o lado "opressor"? Às vezes não dá pra distanciar de mim mesmo. Irei um pouco além, descobrir que também não fui educado para o mundo e suas mazelas é de enlouquecer, não só pelo machismo mas também pelas novas formas de escravidão e tortura.

Anônimo disse...

Eu costumo brincar dizendo que o feminismo estragou até as minhas leituras porque não consigo mais ler romances e não revirar os olhos com os personagens. E com as situações totalmente machistas.

Eu também queria ter descoberto o feminismo antes porque antes eu vivia num mundo rosa e hoje sei que ele é cinza. Eu recebia técnicos sozinha em casa, eu sentava do lado de homens em ônibus sem pensar duas vezes e não temia motoqueiros. Eu achava que se me "comportasse" coisas ruins não aconteceriam comigo. Doce ilusão.

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