ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

09 novembro 2015

O preço da medalha e do sabonete


Uma amiga suspirou e me disse:

-Fiz as contas e a coisa parece mais difícil do que dizem. O Brasil tem duzentos milhões de habitantes, 85 milhões são homens. Pensando em uma perspectiva otimista te digo que 800 mil homens devem ser conscientes dos direitos das mulheres, mas o restante, não. Isso quer dizer que vamos ter que explicar o feminismo para quase 84 milhões de homens? Você acha que dá?

Não. Até porque você esqueceu que eles não são nosso único problema, se somos 115 milhões de mulheres, quantas estamos conscientes dos nossos direitos? Talvez 15 milhões. E te digo mais, dessas 100 milhões de mulheres, pelo menos a metade, 50 milhões, joga contra, são as que mais complicam nossa vida.

Não sou ingênua, não vou dizer que nosso único problema como feministas são os machistas. Sei que para o feminismo andar não é apenas uma questão dos homens entenderem a transformação da sociedade, mas é um processo de consciência das mulheres e milhões delas estão do outro lado.

O que tem feito o feminismo andar pra trás no Brasil, aperta a corda e sobe a água, é a classe política, um congresso dominado pela bancada católica e evangélica.

Quando comecei a comprar produtos que não testassem em animais tive isso claro, uma vez me disseram ''escolha bem para que empresa quer dar o seu dinheiro, porque você não sabe para que vai ser usado''.
Hoje é um pensamento tão forte que as empresas estão se reconstruindo, pensando nesse consumidor que está atento a quem dá seu dinheiro.

Se temos bancada evangélica e católica, é porque chegaram lá e para isso precisaram de dinheiro para seus partidos e campanhas. Não se chega ao poder político sem um reforço econômico enorme.

E quem dá o dinheiro para manter essas bancadas? Em grande parte e me doí dizer isso, vem das mulheres. São elas que lotam os cultos e as missas, compram medalhas de santos e sabonetes de descarrego.

Passo muitas vezes na frente do Templo do Salomão, no Brás, em São Paulo, uma prova concreta da ausência do Estado e da presença da igreja, e vejo centenas de mulheres nas filas, esperando para entrar. Também são centenas que são voluntárias lá dentro, assim como nas igrejas católicas.

Quando eu era pequena minha avó sempre me levava a missa e gostava de comprar velas e medalhinhas. Eu acabei ficando apaixonada por arte sacra, gosto de tudo e sempre que vou a uma igreja dou uma olhada na loja, mas não compro nada. O feminismo me ensinou que se eu entrar em uma loja e comprar qualquer coisa, estou sustentando um sistema opressivo que vem na minha direção. Parece uma miséria pensar que uma medalhinha sustente um império, mas são milhões vendidas por ano no mundo inteiro, são elas e os quadros, figuras e estátuas que pagam as contas do Vaticano, sustentam os Padres pedófilos e garantem a distribuição política do dinheiro para que os católicos tenham representação politica no Congresso.

É a mesma coisa em cultos, a venda de livros, cds, sabonetes e carnês pode não parecer grande coisa, mas é o que mantém o dinheiro entrando e garantindo o lugar no Congresso.

Por uma grande ironia da vida, o machismo convenceu todas as mulheres de que são responsáveis por tudo que acontece na casa, então quando aparece alguma coisa errada, é a mulher que puxa a família para a igreja. Somos nós que seguramos a família espiritualmente e muitas vezes na nossa ignorância caímos nas conversas de pastores e padres. É a mãe desesperada que carrega o filho doente para procurar um milagre, é a mãe que faz promessa, é a mãe que doa o dinheiro a igreja. Fazemos isso ignorando que estamos sendo usadas e dando dinheiro para que seja usado contra nós.

O recente poder da bancada evangélica é uma mostra disso. Eles não vão parar, é uma bancada composta por homens que sonham em queimar a Constituição e governar um país pelo livro sagrado, alguma versão conveniente da Bíblia. Estão indo em cima de tudo que represente os direitos da mulher (link), querem limitar o acesso e apertar mais ainda os direitos dos gays. Não vão parar até transformar o Brasil em um país intolerante, violento e onde as mulheres saiam às ruas de burca e se casem com dez anos de idade. E podem fazer o que quiserem, tem os cofres cheios, graças as mulheres que ignoram o que realmente acontece e frequentam seus cultos.

Já fui muito criticada por algumas feministas, que pensam que não é coerente ser feminista acreditando em algumas coisas como eu acredito. Nunca escondi que sou devota da Virgem de Guadalupe, jamais colocaria os pés na Cidade do México sem ir a Basílica levar umas rosas para ela. Tudo isso surpreende algumas feministas, mas eu acredito na Virgem, no Chico Xavier e em uma centena de coisas, para mim o planeta é maior do que parece e tudo o que envolve outros mundos sempre me pareceu confortável.

Entendo a dor de muitas que as leva a igreja, entendo o consolo que encontram ali. Quando meu pai morreu eu estava afastada da Igreja Católica, na verdade nunca fui próxima, nem frequentei, até porque meus pais são ateus, mas acabei me aproximando depois da morte do meu pai, fui a  missa de sétimo dia, de mês, de aniversário e em todas me senti muito confortada, tive espaço para chorar minha perda e me fez bem ir as missas e conversar com o padre. E quando me sinto triste vou a uma missa, também quando sinto saudades da minha avó vou a missa que ela gostava, não sei porque, mas acho que se eu entrar lá ela fica sabendo que estou com saudades.

Tenho uma vizinha evangélica que teve câncer e começou a ir aos cultos com os filhos, me disse que encontrou a força ali, rezando com eles.

Pela minha maneira de ver a vida sempre tendo a acreditar mais no invisível do que no visível, me parece mais normal a cura pelo milagre do que pela ciência, mas são todas crenças minhas e à mercê de mudanças.

Quando uma mulher tem seu filho desenganado pelos médicos, pra onde ela vai correr? Para a igreja. Mas é nessa boa fé que o sistema as explora e usa o dinheiro para se manter no poder. É esse dinheiro que está sendo usado em uma guerra sem trégua contra as mulheres. É esse dinheiro que mantém a bancada evangélica e católica, apertando nossos direitos.

Não sei se é ignorância ou não, mas muitas mulheres veem o feminismo como uma coisa distante, pensam que é ''coisa'' das estudantes de Ciências Políticas da USP, que não gostam de homens. 

Existe uma armadilha que eu também já caí, você pensa que se fizer tudo certo e for uma ''moça de bem'' você estará protegida dos horrores e debaixo da sombra do patriarcado. Mas levei tempo para entender que o patriarcado não tem sombra e nenhuma de nós está protegida.

Vejo que algumas pensam a mesma coisa e além disso são casadas com ''homens de Deus'', então jamais passarão por qualquer tragédia ligada ao mundo feminino.

Apesar de muitas falarem o contrário e viva a liberdade de cada uma, para mim não existe essa separação entre feminismo e espiritualidade, o que existe é a separação entre feminismo e religião. O feminismo é ateu, mas espiritualidade e religião não são a mesma coisa, apesar de muitos confundirem (link). O problema no mundo são as religiões, que  têm sido responsáveis pelo massacre das mulheres e as forçam a total submissão. Das religiões que eu conheço, todas, consideram a mulher inferior. Já espiritualidade não está ligada a nenhuma religião, nem exige contribuições econômicas.

E se pode acreditar em tudo, sem precisar pagar por isso! Minha mãe reclama quando falo o que penso, diz que as missas custam dinheiro e a igreja precisa de nós para se manter, mas eu digo que há séculos ela não precisa mais, tem dinheiro suficiente para ficar em pé mais algumas décadas. O dinheiro que entra agora é apenas para reforçar seu poder e se manter na esfera política. E a escolha me parece tão clara! Ou eu entro na missa e compro minhas velas, coloco o dinheiro na cestinha, ou eu luto para manter meus direitos. O que Deus diria? Não preciso de um pastor nem de um padre para falar com Deus.

E muitas se afastam do feminismo porque parece melhor do que se afastar de Deus, mas eu não vejo onde uma coisa tem a ver com a outra. Qualquer crença ligada a espiritualidade não tem porque estar ligada aos direitos de milhões. Em quem eu acredito na minha vida espiritual é meu problema, não tem nada a ver com minhas ideologias.

Não sou contra frequentar missas e templos, sou contra financiar o terror que eles tocam em cima de nós.

Durante um bom tempo eu não conseguia dormir, logo após a morte do meu pai, e ficava assistindo televisão e todos os dias via um programa com o Padre Reginaldo Manzotti e gostava muito, é um padre sóbrio. Comentei isso com uma amiga e ela me recomendou os livros dele, mas eu não comprei, como padre imagino que o lucro dos livros vai direto a igreja e seu sustento, não posso dar dinheiro para eles, porque sei que vai ser usado contra. Mas nada disso muda o fato de ter simpatia pelo Padre e seu discurso.

E alguém nesse mundo pode pedir a uma mãe que ao ver seu filho sair de casa, não o encarregue a Deus? Que mãe nunca pediu a Deus que protegesse seus filhos?

Ser feminista é lutar pelos direitos das mulheres e de suas filhas e netas. O que algumas mulheres ignoram é que ao dar dinheiro para cultos e missas, estão financiando a guerra que eles abriram contra nós, e isso inclui as filhas dessas mulheres. Derrubar leis que impeçam que a mulher estuprada receba o atendimento médico adequado é um golpe em todas, ou só as mulheres sem religião é que são estupradas? Nenhuma católica nem evangélica passara por isso? Quando derrubam uma lei assim não é contra um grupo, é contra todas.

É preciso entender que estamos financiando esse terror comprando medalhinhas, velas, livros, cds, sabonetes e carnês. Não temos mais espaço nem tempo para ser ingênuas.

Quem quiser frequentar cultos e missas está no seu direito, mas que tenha consciência que ao dar um centavo para eles está colocando as armas na direção de todas, inclusive de suas filhas. Colocar dinheiro em igrejas e templos é bancar a guerra sangrenta que eles estão levando a cabo. E com o dinheiro que já tem e ainda ganham, não vai sobrar nenhuma de nós.

Deus não tem nada a ver com isso, nem é uma questão de fé, é apenas um ponto técnico, o dinheiro que sustenta as bancadas que estão nos destruindo. A mulher que quiser bancar que banque, mas que saiba que não vai sair viva.



Iara De Dupont

2 comentários:

Cristina disse...

Foi por isso que eu fugi da igreja. Vi que na religião não tinha nada de bom pra mim e sai correndo antes que a lavagem cerebral fosse irreversível. Vejo tanta coisa errada que ficoàs vezes penso que essas mulheres burras patrocinando essas barbaridades precisam mesmo se ferrar muito na mão desses canalhas pra entender o quanto isso é ruim pra elas e pra todas as outras mulheres. Do jeito que as pessoas são no Brasil só assim algo vai mudar, e espero que não seja necessário tantas mulheres serem violentadas e mortas pra que as sobreviventes enfim acordem e mandem essa corja embora do governo e das suas vidas, mas tô achando tão difícil... espero que eu esteja enganada.

C.Belo disse...

Triste, mas acho que é assim mesmo.....

Eu tb venho me desanimando de frequentar igreja, devido a isso e a diversos outros aspectos dogmáticos que me fazem questionar mais do que crer.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...