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23 novembro 2015

Quando o desespero vira lenda


No Wikipédia está escrito que ''lenda é uma narrativa fantasiosa transmitida pela tradição oral através dos tempos.

Eu não saberia definir o que é uma ''lenda''. Cresci cercada delas, desde pequena. 
Quando nasci meus pais viviam naquele momento de repulsa pelos Estados Unidos, não gostavam dos símbolos nem das histórias e encheram meu quarto de livros sobre folclore e lendas, principalmente a da Iara.

Alguns anos depois e graças ao apelo de uns familiares, me levaram a Disney, mas eu não conhecia bem as princesas nem o Mickey Mouse, então não tenho nem a lembrança, sei dessa viagem apenas pelas fotos. Minha mãe também não gostou da viagem, reclama até hoje que eu cismei com um casaco, queria de qualquer jeito, mas sem o ''rato'' e ela teve que andar o parque inteiro procurando, e não achou, acabou comprando um parecido, mas com o ''ratinho'' bem pequeno.

E se de um lado meu pai me dava livros sobre lendas e folclores brasileiros, do outro lado a família da minha mãe me contava sobre as lendas no México. Minha avó parecia saber todas, porque conhecia os dois lados. Cresceu no campo, cercada de ignorância e misticismo, depois se mudou para a Cidade do México, um dos lugares com mais lendas do mundo. Tudo ali tem uma história e um motivo, nada fica em branco.

Minhas tias se interessaram por questões místicas muito cedo e acabaram conhecendo pessoas que também contavam outras lendas. Escutei tanta coisa que hoje tenho dificuldade em separar o que é real e o que foi fantasia.

Mas conheço um rapaz que estuda lendas mexicanas e de vez em quando pergunto a ele se tem alguma base as que eu escutei, a maioria têm. Às vezes ele me escreve e diz ''você precisa ler isso''.

E recentemente apareceu uma, ele me disse que estava impressionado com a quantidade de relatos, reforçando o caráter real da lenda.

Depois que li lembrei de um professor que ficava revoltado quando escutava alguém contar uma lenda. Nos intervalos de suas aulas tinha uma moça que adorava contar histórias e eu sempre perguntava a ela. Se ele escutava, ficava louco e dizia ''você duas têm que parar com isso, lendas são histórias que refletem os medos humanos, as pessoas não sabem como se expressar e criam seres imaginários para lidar com seus temores, mas é tudo bobagem, ou melhor, é apenas medo''.

Com o tempo peguei confiança com ele e de vez em quando para irritá-lo eu dizia ''professor, já escutou sobre tal lenda?'' . E ele surtava.
Um dia irritado me disse:

-Iara, repare nas lendas mexicanas que falam do diabo, elas começam a aparecer depois da chegada dos espanhóis ao México, no período da colonização e sabe por quê? Porque a Espanha é católica, ao colonizar o México queria transformá-lo em uma Nova Espanha e precisava enterrar tudo o que existia aqui e ninguém faz isso melhor do que a Igreja Católica. Essas lendas refletem a opressão que os mexicanos sofreram e os novos dogmas que estavam sendo obrigados a aceitar. Não existe um lenda mexicana que envolva o diabo sem envolver o ouro (dinheiro) e sabe o motivo? Os espanhóis vieram aqui pelo ouro, invadiram, torturaram e mataram, mesmo assim nenhum asteca entregou a localização as minas de ouro nem de pedras preciosas, os espanhóis fizeram de tudo e nunca conseguiram localizar os lugares onde estava o ouro. O que eles pegaram foi o que os astecas tinham a mão, depois com o tempo foram colonizando mais, procurando as minas e acharam algumas por esforço próprio. Mas a localização de tanta riqueza não podia se perder, então começaram as histórias, os espanhóis sabiam que muitas pessoas conheciam as minas, então começaram a espalhar lendas sobre o diabo e o ouro e todas as maldições que o dinheiro carrega. Caso as pessoas achassem moedas de ouro ou soubessem de alguma coisa eram orientadas a procurar a Igreja e doar tudo, para que o ouro fosse ''limpo'', caso contrário só iria atrair o diabo a vida da pessoa. Assim foram colonizando durante séculos, fazendo as pessoas temerem e até hoje você vai escutar lendas que te contam isso, a lenda mais comum é sobre pessoas que vendem a alma ao diabo em troca de ouro. Tem coisa mais católica do que isso?

Difícil dizer onde a realidade e a lenda se encontram, mas eu continuo pensando que são a mesma coisa e me parecem reais, não consigo pensar que são apenas ''manifestações de medo''.

Mas a recente lenda que me contaram me parece que é sim uma manifestação de medo e abandono. Encaixa perfeitamente na teoria de que os medos se concretizam e as pessoas saem falando sobre isso. Talvez não pareça uma lenda agora, mas em cem anos vai ser uma.

A Cidade de Juaréz fica na fronteira entre o México e Estados Unidos. É conhecia por ser a ''passagem do diabo'', tudo de ruim acontece ali. É um lugar de tráfico humano, de entorpecentes e sem nenhuma fiscalização. Por ser largado atrai todo o tipo de pessoas, desde traficantes de órgãos, até pessoas comprando pessoas para serem usadas em rituais satânicos. Muita gente pensa que é um lugar abandonado pelo governo mexicano, mas não é, pelo contrário, essa fronteira é a menina dos olhos do governo mexicano, pelos altos lucros. É por causa dessa fronteira que as relações entre Estados Unidos e México são sempre pacíficas. Os americanos usam a fronteira para levar a droga que consomem e aproveitam o local para todo tipo de atitude ilícita.

O que fortaleceu a relação entre os dois países foi um acordo o Tratado de livre comércio. Os americanos instalaram fábricas de produtos na fronteira, na Cidade de Juarez, em troca os mexicanos desceram os impostos. Os americanos se comprometeram a dar emprego as pessoas da cidade, o que pareceu ótimo, porque Cidade Juarez tem um milhão de pessoas abaixo do nível de pobreza.

Mas o acordo entre os dois países não incluiu respeito aos direitos do mexicanos, que hoje trabalham nas fábricas, mas ganham menos do que o salário mínimo e são obrigados a trabalhar longas jornadas em péssimas condições. Eles podem se demitir, mas não existe outro emprego na cidade, então ficam obrigados a estar ali, apesar do trabalho semi-escravo. E o governo mexicano diz que tudo isso é mentira, tão mentira que conseguiu arquivar as denúncias.

E as fábricas têm preferencia por contratar mulheres, são consideradas mais aplicadas, dóceis e bebem menos.

Desde que as fábricas chegaram a Juarez muitas coisas têm acontecido, o homicídios de mulheres duplicou. A explicação é simples, as fábricas estão em lugares desertos e isolados, e os ônibus que levam até lá não chegam as portas das fábricas, é preciso caminhar às vezes até 500 metros. E os turnos são longos, as mulheres saem as dez da noite e são obrigadas a caminhar em ruas sem iluminação nem asfalto, até chegarem aos pontos de ônibus.

Os homicídios levaram Juarez a ser conhecida no mundo inteiro, mais de duas mil mulheres já foram assassinadas com o que eles chamam de ''tortura selvagem'', ou seja, todas seguem o mesmo padrão, são estupradas, mutiladas, queimadas, torturadas e mortas. Isso sem contar nas mulheres desaparecidas, duas mil é o número dos corpos encontrados, desaparecidas já passam de três mil mulheres.

A polícia aproveita aquela brecha latina, diz que recebe pouca verba do governo e não tem pessoal suficiente para cobrir as áreas. O chefe da polícia é bem conhecido por suas rápidas respostas, costuma dizer que ''as mulheres dão confiança para os bandidos e depois dá nisso''. Também já disse que uma boa solução para acabar com os crimes seria que as ''moças de bem'' ficassem em casa. É, morrendo de fome, porque quem sai para trabalhar em regime escravo é porque não tem outra opção na vida. 
E ninguém leva a culpa, nem é preso pelos assassinatos, existem milhões de teorias que dizem que são os traficantes que matam, que é tráfico humano, que é coisa da polícia, que é pelos rituais, enfim, histórias tem mais de mil, mas ninguém foi acusado nem preso por nada, Juarez continua sendo o lugar onde mais se comete feminicídio no planeta.

E no meio de tanto desespero uma lenda parece ter sido ''readaptada'', já foi contada milhões de vezes, mas agora em uma nova versão.

A lenda original diz que lá pelo ano de 1704, uma moça, no que hoje é Cidade Juaréz, iria se casar. Mas no dia do casamento seu cunhado entrou no seu quarto e a estuprou. Ela enlouqueceu, colocou o vestido de noiva e saiu vagando, até que se enforcou com o véu na igreja onde iria se casar. A igreja ainda está lá e dizem que todos os meses, no dia doze, a moça aparece, um pouco antes do meio-dia, que seria o horário de seu casamento.

Agora apareceu outra noiva, não sabem se é a da lenda anterior ou é nova. Dizem que uma funcionária de uma fábrica iria se casar e estava costurando seu vestido no local de trabalho, escondida dos chefes. Mas ela foi pega e perdeu o emprego. Foi obrigada a deixar a fábrica, mas estava no período noturno, e por segurança as mulheres tentam sair juntas das fábricas, evitam caminhar sozinhas. Esse dia, antes de sair, ela pediu ao guarda da fábrica que a deixasse ficar ali na porta, queria esperar as amigas terminarem o turno e voltar para a casa acompanhada. Mas o guarda não deixou e mandou ela ''pegar seu caminho''.

Ela foi encontrada dois dias depois, morta, a cem metros da fábrica, perto de um ponto de ônibus. Aconteceu a mesma coisa que acontece com todas ali, foi estuprada, queimada, torturada, mutilada e morta. A única coisa diferente é que foi achada usando seu vestido de noiva, não sabem se foi uma brincadeira do assassino, mas ela foi encontrada assim.

Isso aconteceu em 1994, é recente demais para virar lenda, mas virou, porque agora dizem que ela aparece no ponto de ônibus quando alguma mulher está correndo perigo. A história se espalhou e ela começou a ser vista em outras cidades. Em Juarez dizem que ela fica no ponto de ônibus e faz o sinal da parada, é um aviso as mulheres que estão dentro. Ela só aparece quando alguma mulher está correndo perigo.

Imagino que é assim que se constrói uma lenda, usando elementos reais com um pouco do desespero humano. Há séculos os mexicanos aprenderem a temer o diabo e sua sede pelo ouro, lendas avisavam que com ele não se brinca. E agora, no século XXI, no auge científico da humanidade, as mulheres têm que ser avisadas por um fantasma de que correm perigo. Na ausência do Estado, no silêncio da sociedade, no auge da loucura humana, em um mundo de tráfico de pessoas e um comércio doentio de filmes, órgãos e vidas, as mulheres estão virando lenda.

Que avanço é esse, saímos de acreditar no demônio para acreditar em noivas fantasmas que avisam as mulheres que correm perigo de serem estupradas?

Se lendas são um reflexo de medos e desespero, então estamos sendo avisados de que as coisas já explodiram. A noiva fantasma não aparece mais apenas em Juarez, é vista em outros lugares do México, avisando as mulheres. Tem registros de histórias que garantem que quando ela não aparece no ponto, bate na janela do ônibus da mulher que corre perigo.

Quando a pessoa morre dizem que ela vai para um lugar melhor, então posso acreditar que a noiva fantasma quis renunciar a isso, preferiu ficar vagando pelo México, como alma penada, para avisar as mulheres, evitando assim que sejam covardemente estupradas como ela um dia foi. Ela preferiu ficar no limbo, neste planeta, para evitar a outra mulher a dor que ela passou.

Meu Deus do céu! A que ponto chegamos! Que tão abandonadas estamos pelo sistema que precisamos de fantasmas para nos avisar que corremos perigo? Que mundo é esse?

Na época da minha avó se precisava da ajuda dos fantasmas para ajudar a encontrar o ouro enterrado, mas agora é para evitar os estupros!
Isso só mostra como o mundo deu as costas a violência que a mulher sofre.

Uma médium já disse que são tantas mulheres que acreditam nessa lenda que acabam jogando energia e materializando a noiva, mas vamos ser honestos, se as mulheres sabem que o governo não faz sua parte no requisito segurança pública e a polícia está envolvida nessas mortes, para quem apelar? Para um fantasma! E já que ninguém faz nada neste mundo pela segurança das mulheres, o pessoal do além está se mexendo!

A parte da funcionária que foi pega costurando o vestido é real, corresponde a moça encontrada morta, mas ninguém sabe a identidade dela, a família se escondeu por medo dos assassinos, coisa lógica em Juarez. E sem nome é chamada de ''noiva fantasma'' ou ''Rosita'', porque algumas mulheres que dizem terem sido salvas por ela fazem questão de levar rosas ao lugar onde ela foi morta, então acabou ficando com o nome de ''Rosita''.

Então é assim, ninguém tem pena do que as mulheres estão passando, apenas um fantasma se compadece? É preciso que uma mulher assassinada volte a esta realidade para fazer um trabalho que as autoridades deveriam estar fazendo?

Fiquei profundamente deprimida com essa lenda, história, conto, narrativa, ou sei lá o que. Porque para mim só mostrou como a situação da mulher é desoladora e como estão todas abandonadas. 

Se uma lenda precisa de elementos reais para se construir, a lenda da Rosita mostra como chegamos ao fundo do poço em relação a violência com as mulheres.

Imagino que muitas mulheres em Juarez e de cidades próximas, devem dizer a suas filhas ''olha, fica atenta, se ver a Rosita, corre, porque se ela aparece é porque alguém vai tentar te estuprar e matar''.

E essa lenda corre agora no século XXI. Quanto mais escrevo, mais revolta sinto!

Que tristeza me dá Rosita! Em vida era uma mulher pobre, semi-escrava, em uma fábrica de produtos americanos, juntando seu dinheiro para se casar e costurando seu vestido e na morte vaga por aí tentando salvar outras mulheres! Quer dizer que as mulheres não têm paz nem mortas? Depois de tudo que Rosita sofreu, ainda precisa voltar e avisar as outras?

Imagine se a Rosita soubesse tudo o que acontece no mundo com as mulheres! Aí sim eu quero ver, ela ia aparecer até no café!

Mas em caso de dúvida, leia a bula. E a bula diz, se a Rosita aparecer, corre, porque ela está te salvando do que não conseguiu se salvar. 

Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa! Descobri hoje a sua volta,tenho muita coisa para ler,vou ali colocar tudo em dia e já volto,adoooooro!

C.Belo disse...

Nossa, história deprimente!

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