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27 novembro 2015

O amor te acha (parte 2 do post ''A vergonha de ser gorda'')


É muito comum as pessoas entrarem no meu Facebook e falarem ''sabe aquele teu post, o que aconteceu depois?''. Algumas vezes eu sei, às vezes não.

Sempre me perguntam sobre o POST de ''A vergonha de ser gorda'', o que aconteceu com o Romeu daquela história?

Nem eu sabia, pelo menos até hoje. O post foi escrito em 2012, uma história que aconteceu em 1997, eu falei sobre um reencontro com um Romeu que gostei muito, mas eu não fui, fiquei com vergonha porque estava gorda.
Depois disso a vida foi para outros lados e nunca mais o vi. 

Em 2013 uma amiga do grupo de teatro, onde eu o conheci, estava juntando o pessoal no Facebook, mas ele nunca foi localizado e a história morreu ali, ou pensei isso. Para ajudar essa amiga e por curiosidade mandei recado a algumas pessoas com o mesmo nome, no Face, perguntando se eram ele. E não recebi nenhuma resposta. Em 2014 minha amiga desistiu do grupo porque não tinha achado muitos atores e esqueci dessa história.

E esses dias eu estava vendo meus recados quando encontrei um dele, me procurando e querendo falar comigo. Acabamos combinando de falar via skype, devido a distância no momento, estamos em países diferentes.

E posso dizer, nunca tive uma experiência como essa. Não pensei que o simples tom de voz pudesse me levar de volta a um tempo ou espaço diferente de onde estou. 

Nos últimos meses muitas coisas têm acontecido, mas ao mesmo tempo parecem imutáveis. Tenho lutado com uma depressão, que me deixa com a sensação de que não sou eu, é o mundo que está virado. Me perdi de tanto que me procurei e resolvi dar um foda-se em muitas coisas. Por sobrevivência fui largando algumas cordas e cheguei em um ponto que fiquei despersonalizada, como se tivesse sumido em um ponto escuro do mundo.

Uma vez me disseram que o problema não era ser engolido pela baleia, mas não perceber que tinha sido. Imagino que isso aconteceu comigo, durante meses algumas pessoas me diziam que minha tristeza e falta de pilha eram apenas um problema cósmico, as mudanças do planeta e de tudo o que está acontecendo. E eu acredito nisso, me parece impossível olhar as fotos dos desastres que acontecem e não se comover, sinto que é um momento de transição do mundo e acaba respingando no meu tão sensível modo de ver a vida.

E foi por já ter tido depressões antes que aprendi a não me mexer no barco, conselho dado há anos por um amigo, no meio da crise não adianta correr de um lado para o outro, é como passar por uma tempestade, se certifique que o barco está seguro, na medida do possível e fique em um canto, esperando passar.

Muita gente que me conhece sempre me dá parabéns, pelo meu recente amadurecimento, agora sou uma mulher séria e sem frescuras, antes era impulsiva e cheia de perguntas. Eu também tenho me surpreendido com minha maneira desapegada de ser, nem eu acreditei um dia que chegaria a esse ponto, de não dar bola para muitas coisas.

E parecia que tudo caminhava a um final feliz, eu tinha amadurecido e parecia mais centrada, até esse Romeu cruzar meu caminho, em uma ligação de skype, para que tudo viesse à tona.

Conversei com ele durante quatro horas, principalmente sobre aquela noite, que me recusei a entrar no teatro, com vergonha. Primeiro ele ficou em silêncio e depois disse ''mas você tinha consciência de que nossa vida poderia ter mudado aquela noite?''. Tinha. ''Era uma questão entre os dois que seria resolvida naquele dia''. É.

Sei de tudo isso. Tenho o espaço bem claro. Mas uma coisa percebi na conversa, não sei bem de quem ele estava falando. Tive tanta pressa em amadurecer, deixar de sofrer, me proteger dos golpes, me livrar das armadilhas, me cuidar das noites, que acabei cortando a ponte entre quem eu sou e quem eu era. Aquela garota que ele conheceu, nem eu lembro. Nem sei se me conheci. Tentamos organizar as datas, mas ele lembra de umas coisas e eu de outras.

Fiquei com saudades dele, muitas, mas pior ainda, senti uma enorme e horrorosa saudades de mim, de quem eu era, de quem eu costumava ser. Antes da dor, antes da ruptura com o mundo, antes do cinismo, eu era aquela garota, era fácil de amar, de ser amada. Não existia em mim nenhum sarcasmo, nem pessimismo, eu achava que tudo se resolveria e se não fosse com ele, seria com outro. Quinze anos de vácuo na minha vida me mostraram que errei, teria sido melhor com ele. 

Ah, mas estou jogando na possibilidade, poderia tudo ter dado errado, é, pode ser, mas ainda seria eu, não o que eu sou.

Depois de um tempo ele percebeu os barcos que tinham sido queimados e me perguntou o que estava acontecendo. Nada, não está acontecendo nada. Preciso de alguma coisa? Não. Quer falar sobre isso? Não.

Perceber que não queimei todas as cartas me fez mal. Quando a gente olha para trás e não se reconhece, quer dizer que erramos no meio do caminho. Quando alguém te pergunta ''poxa, Iara, mas você sempre disse tal coisa, por que mudou de ideia?'' e você não sabe responder, é porque errou nas decisões. 

É como se eu tivesse pego o mais importante para mim e neutralizado, esquecido, deixado em um canto, tudo isso para poder respirar, eu estava em um ponto que não podia mais carregar tantas coisas, poderia ter jogado bagagem fora, mas escolhi jogar fora quem eu era.

Ao mesmo tempo nem tudo se perdeu. A voz dele me guiou por uns minutos, eu podia me ver naqueles dias, eu podia entender quem eu era, mas não consegui entender quem eu sou. Não sei se gosto dele ainda porque gosto, ou porque representa um ponto da minha vida onde as coisas pareciam ter lógica.

Mas causa um impacto profundo conversar com alguém que você tanto gosta e te conheceu de outra maneira. A voz dele me deixou abalada, com vontade de chorar, de sair correndo, de cair no colo dele, como se ele fosse o único na terra em ter alguma referência minha, como se falando com ele eu estivesse resgatando quem eu fui.

Liguei para uma amiga e ela quis saber como eu vou resolver a situação. Não vou. Estamos em dois países diferentes, em situações distintas e não há condições de surtar com isso. Não sei se ele está com alguém, nem tive coragem de perguntar, meu assunto com ele era aquela fatídica noite, há mil anos. Qualquer coisa para ser dita era sobre aquele dia. Falamos sobre isso durante quatro horas. E não me iludo com nuvens, todos mudam, talvez a mudança dele não tenha sido tão perceptível para mim porque eu estava em estado de choque com a minha.

E ela ainda quis saber ''mas vocês falaram sobre teu peso, que  na época você ficou com vergonha?''.

Não. Era tanta coisa para falar que não perdemos tempo com essa insignificância. Ele sabe que foi isso porque eu disse, mas tudo se diluiu diante do que um dia sentimos um pelo outro.

Talvez a conversa tenho servido apenas para que eu batesse de frente com uma parede e começasse a pensar em outras coisas, em como religar minha vida passada a atual, colocando uma ponte entre quem fui e quem sou, sem esse abismo no meio que me impede de reconhecer ambos lados.

Mas sou boa em uma coisa, apesar de tudo que dizem. Fui ótima em escolher meus amores, pelo menos alguns deles. O suficiente para poder conversar com um anos depois e sentir a energia, como se o amor estivesse ali flutuando. 

Se em algum momento somos todos obrigados a olhar para trás e resgatar um pouco do que fomos para continuar a jornada, é um privilégio fazer isso com alguém que um dia amei tanto. De todas as pessoas as quais eu poderia escolher para ter a conversa que tive com ele, ninguém teria sido melhor, nem mais improvável. Nada teria sido mais adequado ou harmonioso.

Nesses quase vinte anos sem ele eu me perdi muitas vezes, cheguei a duvidar de mim, dele, do que eu sentia. Mantinha na minha mente a primeira vez que ele falou comigo, quando me ofereceu um sanduíche durante um ensaio. Lembro dele descendo a escada correndo, com um casaco vermelho. E lembro de minha tia dizendo que era bobagem de adolescente, quando eu chorei contando sobre ele.

Duvidei muito sobre o que sentia por ele, às vezes me sentia exagerada, até pelo pouco tempo que passei com ele, mas nunca consegui explicar como me perdi naqueles olhos castanhos, cheios de doçura e gentileza. Nunca entendi quem eu era perto dele e quem fui longe.

Mas uma vez minha avó me disse uma coisa engraçada, eu estava fugindo de um Romeu e ela disse ''não adianta nada, o amor sempre acha a pessoa''.

E nesses dias que têm sido tão complicados,arrastados, longos, pesados, tenebrosos, lembrei disso. Se eu pensasse na minha vida um mês atrás ou um mês na frente, não poderia ter sido mais exato o aparecimento desse Romeu. Me devolveu a certeza que minha avó tinha, o amor nos acha, quando você ama alguém e essa pessoa também te ama ou te amou, ela te acha, e isso talvez vá acontecer em um dia frio, de chuva e alma comprimida. E não importa saber se isso vai continuar ou foi apenas uma conversa de skype, nada faz diferença, o que sustenta a alma é a certeza da presença da corda no meio do mar, quando você achava que tudo já tinha acabado e de repente sente alguma coisa boa. Reagi a voz dele da mesma maneira que quando o conheci, abrindo um sorriso e dizendo ''oi'', parece então que nem tudo está perdido, talvez ele voltou para me mostrar que ainda existe um pedaço de quem eu fui, alguma coisa que eu possa resgatar para continuar meu caminho. Fiquei feliz de falar com ele, emocionada, com dor de barriga, nervosa, ansiosa. Fiquei ''eu'' novamente. Talvez eu ainda tenha tempo de reconstruir minha ponte entre quem eu fui e quem eu sou.



Iara De Dupont


Um comentário:

C.Belo disse...

Lembro bem desse post!

Conversaram durante 4 horas??? Menina, fazer isso em fase adulta, com trabalho e contas a pagar... SE ele tiver alguém, pode ter certeza, é apenas um engodo, nem empecilho significativo!

Não desperdice uma segunda chance, nem todos conseguem ter uma...

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