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06 novembro 2015

Disso ninguém fala.....



Por sermos consideradas a grande tragédia no mundo, as bastardas, nós, mulheres, vistas como a maldição no planeta desde os tempos bíblicos, cheguei a uma conclusão, ninguém sabe nossa versão, nem nosso lado da história, por isso é tão fácil jogar a culpa na mulher, porque a sociedade nunca quis escutar uma palavra da nossa boca.

Tenho escutado centenas de pessoas falando sobre aborto, questionando o acesso a um hospital para interromper a gravidez ou uma ajuda de custo para criar a criança. Escuto todos dizerem sobre a responsabilidade da mulher, a mulher isso, a mulher aquilo.

Mas existe um ponto que ninguém toca, nem as blogueiras fazem questão de mencionar, ignoram como se não existisse.

Esse ponto marcou dois episódios da minha infância e adolescência, mas só hoje posso ver o tamanho da tragédia e entender o horror que aconteceu na minha família.

Quando eu tinha uns sete anos costumava passar os fins de semana com meus avós. Eles moravam sozinhos, mas de repente uma das minhas primas se mudou para lá. Ela tinha quinze anos, era ''mocinha'' e de temperamento forte, sem paciência para as primas menores (ou seja eu). Como ela nunca foi simpática comigo nunca me espelhei nela, nossos mundo não coincidiam, então também nunca existiu fricção.

Naquela época ela namorava um rapaz de vinte e quatro anos, que tinha conhecido em uma festa. Ele ia buscá-la na casa dos meus avós e eu era totalmente apaixonada por ele, não lembro ter visto um homem mais bonito na minha vida. Não existia o chocolate Crunch, era outro, pequeno, mas também azul e ele sempre levava uns no bolso, que distribuía ao chegar.

Umas semanas depois começou um drama. Eu lembro das portas batendo, dos gritos, do choro e da minha mãe evitando me levar a casa dos meus avós, porque minha prima ''causava muito''. Mesmo assim eu ia, meus pais não tinham babá e saiam muito, não tinha outra opção e me deixavam lá.

Minha prima se trancava no banheiro e minha avó ficava implorando para entrar. Mas o drama tinha hora certa para acontecer, depois que o namorado da prima ia embora.

Um dia escutei minha avó chorando, sendo consolada por uma vizinha, ela contou que minha prima estava grávida com dezesseis anos e tinha  decidido ter a criança, mas o namorado não queria nem saber.

Com os passar dos dias a história foi se desenrolando, naquele silêncio estranho misturado com os berros. Meus avós eram de uma época que era normal uma menina de dezesseis anos grávida, não pareciam chocados e estavam encantados com a ideia, apoiavam minha prima. Meu tio nunca disse nada e minha tia não quis se envolver com os problemas da filha, por isso despachou a menina para a casa dos meus avós.

E lembro da luz da sala ligada, foi depois da novela quando os pais do rapaz apareceram na casa dos meus avós. O pai alegava que tinha uma carreira política, eram religiosos e não queriam o filho com uma criança, era melhor fazer um aborto. Meu avô disse que eles não precisavam de nada e se minha prima queria ter o filho, ela iria ter.

O rapaz, que também estava com os pais, insistiu, eles eram uma família importante, até hoje são, tinham dinheiro e não dava para consertar a situação de outra maneira, até cogitaram o casamento, mas o rapaz no auge dos seus vinte e quatro anos não quis nem saber, não trabalhava, fingia estudar e passava o fim de semana na praia.

Não deu certo a reunião e ela foi encerrada, mas o rapaz continuou indo a casa dos meus avós, foi durante quatro semanas, todos os dias para massacrar minha prima e dizer a ela que terminaria o namoro se ela não abortasse. Jurava que ela nunca mais iria saber dele se não fizesse um aborto, mas caso ela cedesse as coisas seriam diferentes, ele se casaria com ela assim que chegasse a maioridade e seriam muito felizes.

Meu Deus! Minha prima tinha dezesseis anos! Quem nunca amou loucamente nessa idade, achando que era eterno? Não consigo imaginar o sofrimento dela, sendo torturada dessa maneira todos os dias.

Um mês depois ele passou por ela para dar uma volta. Lá pelas três da manhã ligaram pedindo ao meu avô que fosse buscar a neta na clínica de aborto clandestina, porque ela tinha tido uma hemorragia. Não tenho ideia até hoje, nem teoria, porque meu avô quis me levar junto. Eu escutei o telefone e corri para atender, mas ele atendeu antes, assim que desligou, me disse ''coloca o sapato que vamos sair''.

Fazia um frio intenso e os tempos eram outros, eu ia no banco da frente sem cinto, não era como agora. Meu avô não dizia nada e a clínica era bem perto, foram menos de cinco minutos. Chegando ele estacionou e me mandou ficar dentro do carro, lembro que ligou o rádio para me distrair. Voltou carregando minha prima, acompanhando de uma moça que teve a consideração de colocar um lençol no carro, para não manchar de sangue. Como eu era pequena e não entendia o que estava acontecendo pensei que minha prima estava dormindo. Escutei quando a moça disse ''a gente pede para a pessoa não usar nada antes, por causa da anestesia, mas ela já entrou aqui trocando as pernas, nem podia andar direito''.

Dito isso fomos ao hospital e minha prima foi internada, o médico disse a mesma coisa a meu avô, a prima tinha alguma substância no sangue além da anestesia.

Ficamos no hospital até o dia seguinte, quando ela foi liberada. Ainda estava meio inconsciente quando chegamos a casa da minha avó, onde parecia que um exército nos esperava. Meus tios, meus pais, todo mundo ali, meu avô me puxou em um canto e disse ''você não fala nada''. Então ele inventou que nós duas tínhamos comido alguma coisa e passamos mal, começamos a vomitar e ele teve que nos levar ao hospital.

Fiquei quieta, mas chegando em casa disse a minha mãe que quem passou mal foi minha prima, não eu. Não falei aborto, anestesia, nem hemorragia, porque nem sabia o que era isso.

Esqueci dessa história por uns meses, até que um dia escutei meu avô dizer ao meu tio que a minha prima tinha dito no hospital que saiu para dar uma ''volta'' com o namorado e ele foi direto para a clínica. Chegando lá começou a dizer a ela que se não fizesse o aborto, o namoro iria terminar, se não saísse do carro nunca mais iria vê-lo, ela disse que durou ''horas'' as ameaças e gritos. Mas não disse mais nada, nem explicou porque entrou na clínica caminhando de maneira estranha, como se estivesse drogada. Ninguém sabe até onde ele levou as ameaças, um rapaz que andava armado porque era filho de ''político'' e dizia que seu pai tinha inimigos. O que aconteceu naquele carro ninguém da família sabe dizer, mas quem estava lá dentro era uma menina de dezesseis anos, desamparada, sendo pressionada e ameaçada por um namorado mais velho. E minha prima não era como as meninas de hoje, que são mais espertas, minha prima era uma menina como todas naquela época, ingênua, sem a menor noção de seus direitos, nem ideia do que era um relacionamento abusivo. Era tão frágil e sozinha que nunca se recuperou desse trauma.

Depois de tudo o rapaz sumiu, minha prima surtou, ficou muito doente e se mudou para a casa de uma tia em outra cidade, ficou por lá. Eu nunca mais a vi, ela não apareceu nem no enterro do meu avô.

E quando eu tinha dezoito anos estava almoçando com meu avô, quando ele começou a falar sobre essa neta, a que ele tanto amava, era sua preferida, tinham os mesmos gostos e o mesmo gênio. Lembro de frases dele, contando que ela pegava seus óculos quando era pequena, o dia que a ensinou a dirigir, a primeira vez que levou ela à praia. Isso se repetiu durante um tempo, meu avô não parava de falar nela, sentia falta, mas não tinha como se comunicar com ela. Só muitos anos depois percebi como esse incidente fraturou a todos por dentro, meu avô não se perdoava, achava que deveria ter mandando a neta ao interior, para evitar que ela ficasse perto do ''maluco'' do namorado. Foi um sofrimento imenso para meu avô e isso que eu não sei o que foi dito no hospital, não sei o que ela contou a ele. Mas ter tido a neta drogada e obrigada a fazer um aborto arrebentou sua alma. Pouco tempo depois meu avô entrou em uma profunda depressão e morreu, mas até o último dia falava dela, sempre se perguntando como estaria.

Mas minha prima é uma mulher, por isso sua história foi para a gaveta, nada aconteceu com seu namorado, a família dele continua na política e vida que segue.

Questionei minha mãe sobre isso e ela disse que lembrava da história em pedaços, mas era tudo confuso e a família pensava que era apenas um drama de um amor adolescente, só anos depois ficaram sabendo do aborto clandestino.

E outro episódio perturbador aconteceu quando eu tinha uns doze anos. Eu estudava em um escola particular, cheia de crianças de ''bem''. Estava no ginásio (ensino fundamental) e claro que os meninos de doze anos não despertavam nada em nós. As meninas da minha sala gostavam dos rapazes do colegial (ensino médio), um deles era a estrela, lindo, maravilhoso e namorava uma garota da sua sala, também bonita, tanto que na época ela foi capa de uma revista adolescente, que era moda, a revista Capricho.

A escola era grande, mas as turmas de tarde eram poucas e de um jeito ou outro, todos se conheciam, nem que fosse de nome.

Um dia, essa moça linda, capa de revista, chegou à escola com três dedos da mão quebrados. E não escondeu de ninguém que tinha brigado com seu namorado, o lindo do colegial. Dias depois aconteceu uma festa, o rapaz ficou bêbado e acabou contando que a moça disse que estava grávida, então eles discutiram, ele bateu no rosto dela, que tentou se proteger e assim quebrou os dedos, a jogou no chão, encheu a moça de chutes no estômago para ''abortar essa merda''. Enquanto ele contava a história, os outros rapazes de quinze, dezesseis anos, urravam como animais, gritando ''é isso mesmo'', ''essa puta só queria teu dinheiro'', ''fez bem mostrando quem manda'', o rapaz entusiasmado disse que fez isso mesmo porque ''puta nenhuma vai foder minha vida''.

Depois que alguém contou o que tinha acontecido na festa, a moça saiu da escola. 
Durante uma aula de ciências eu conversava sobre esse assunto com umas amigas quando a professora se aproximou e perguntou do que estávamos falando e uma amiga foi logo contando e a professora respondeu-

-Ah, é aquele aluno do terceiro colegial né? Mas todo mundo sabe que ele é violento, briga sempre no futebol, ela devia saber com quem estava se metendo. E quem disse que o filho era dele?

A conversa acabou nisso. Eu não entendia bem, mas o machismo em uma mulher sempre me pareceu uma coisa natural, também fui educada para ser machista e para dizer que a culpa é sempre da mulher.

Mas esse episódio me marcou muito, eu tinha uma paixão platônica por esse lindo do colegial e no fundo fiquei chocada com a violência, mesmo que não entendesse o alcance dela.

E se fala muito em aborto, mas nessa parte ninguém encosta. Sobre os homens que espancam a mulher até abortar ninguém diz nada, sobre os homens que são capazes de drogar a mulher e levar a uma clínica, também ninguém diz nada, a sociedade assume que sempre é a mulher que quer abortar, a decisão de fazer isso sempre é da mulher e o homem é um pobre coitado, vítima da situação.

Só vejo silêncio na hora de falar sobre esses Romeus que perseguem a mulher até fazer ela abortar, usam todos os argumentos, que estão sem dinheiro para criar um filho, que podem ter a criança mais tarde, que é melhor economizar e comprar uma casa antes, enfim, que mulher nunca escutou isso durante horas?

Minha tia teve quatro abortos espontâneos, já falei em um post sobre isso, mas agora não lembro qual, meu tio a perseguia e pressionava, dizendo que não poderiam sustentar uma criança, que tudo daria errado, e era tanta a pressão que ela perdeu quatro bebês, só conseguiu ter um filho o dia que se isolou por uns meses, longe do marido.

No mundo que vivemos o aborto só tem uma explicação ''é culpa da vaca da mulher, que foi uma puta e não se cuidou, agora a vadia quer matar uma criança inocente e jogar a conta em cima do Estado, e depois que abortar vai engravidar de novo a vagabunda, e se liberarem o aborto essas prostitutas vão querer fazer um todas as semanas, vão ir a clínica como se fossem a manicure''.

Nunca se fala sobre aborto envolvendo o homem, o santo, o intocável. Sobre o massacre psicológico que eles são capazes de fazer ninguém diz nada, sobre a pressão, chantagem e ameaças ninguém abre a boca.

Tive um Romeu que em um momento de dúvida, eu não sabia se estava grávida ou não, ele me disse ''nem sonha com isso, a gente vai ter que resolver''.
Só hoje entendo a dimensão da besteira que ele disse, e eu era garota, tinha dezenove anos, louca por ele e sem coragem de dizer nada a ninguém. Me pergunto agora onde teria dado essa situação, se eu realmente estivesse grávida.

E Romeus pulam de alegria e beijam a barriga da mulher quando sabem que vão ser pais nos filmes, nas comédias românticas e novelas, na vida real a maioria se congela diante da responsabilidade e vão para cima da mulher, jogam nela toda a raiva da situação e muitos agridem.

O aborto tem mil lados e o homem colocando terror na mulher é um deles. Nem sempre é decisão da mulher, muitas podem ter passado pelo o que minha prima ou a moça da escola passaram.

Nenhuma mulher engravida sozinha e o assunto deve ser debatido, tem que vir à tona, principalmente agora que os nossos direitos estão sendo reduzidos a nada.

Mas não adianta vir para cima de mim com essa conversa de que ''aborto'' é sempre decisão da mulher, porque a maioria das vezes não é.

O mundo não conhece nossa versão, nossa história, então eu venho aqui contar um pouco dela, para que todos saibam que existem outro lado em tudo que nos envolve.

Minha prima não é a vadia que abortou, era a menina de dezesseis anos que foi drogada e obrigada a abortar. É hora de falar sobre isso, da quantidade enorme de mulheres sendo obrigadas a abortar pelos seus companheiros, levadas à loucura pelos seus Romeus e pressionadas pelos seus maridos.

O aborto tem mil motivos, mil razões para acontecer, mas em nenhuma delas os homens são os inocentes ou as vítimas. Chega dessa versão de que somos as únicas responsáveis e que só abortamos porque somos umas putas irresponsáveis, homens assumam a pressão que vocês fazem, assumam que vocês estão detrás de muitos abortos que acontecem. E essa história ''ela abortou sem eu saber'' não cola mais. Sejam homens, pelo menos uma vez na vida.



Iara De Dupont


3 comentários:

C.Belo disse...

Nossa Iara, tô chocada com ambas as histórias!

Tudo que consigo dizer agora é que no final das contas, tanto sua prima quanto a menina do colegial ficaram bem melhor sem terem filhos com esses homenzinhos de merda! Uma semente podre dessas não merece se perpetuar.

Cristina disse...

Homem não admite que a mulher escolha sobre seu próprio corpo. Imagino que se elas quisessem abortar, esses bandidos as obrigariam a manter a gravidez só pra depois dar no pé e deixar as "vagabundas exploradoras" passando fome com os filhos. O Prof. Dr. Ernesto Campos fez uma advertência aos homens depois de uma pesquisa sobre bissexualidade da população feminina brasileira: “Ou o homem brasileiro se reiventa ou será descartado do universo de desejos da mulher brasileira contemporânea”.

Tomara que cada vez mais mulheres bis e héteros pensem assim e joguem sem dó nem piedade esses dejetos humanos no lixo.

Anônimo disse...

O aborto é uma questão complicada, sempre fui contra, devido a religião, e por pensar na vida da criança somente. Mas infelizmente não posso fechar os olhos para a realidade do nosso país, antes de qq mulher abortar, o estado já abortou nossos filhos, os pais já abortaram nossos filhos. Governo que não me dá o mínimo de educação, saúde e segurança para criar esse filho sozinha, que não me arruma creche, que me deixa desempregada por ser mãe, que me paga menos, que não me dá moradia decente para criar meu filho. De outro lado os pais, que somem, que negligêncía, que as deixam sozinhas, sem contar os pais que abortam filhos vivos, que Depois da separação esquecem completamente que existe uma criança para dar amor, dedicação de tempo, educação, bons exemplos e acabam resumindo o filho numa quantia para manter a sua liberdade garantida. Então antes do governo ficar de mimimi com esse negócio de aborto, nos dê condições de bater no peito e assumir td sozinha, pq nenhuma mãe quer matar seu filho, mas diante da perspectiva de futuro se vê sem saída. Esse mundo tá cheio de hipocrisia, governo que se mete na decisão de uma pessoa, mas não move uma palha para ajudar, homens que abortam seus filhos, (tanto os vivos, qto os que não deixaram nascer) e ficam criticando quem aborta, só pq aconteceu no corpo da mulher não quer dizer que o filho era só dela, pq 50% era vc ali dentro....
E a sociedade que fica criticando, é a msm que sai com adolescentes e crianças, que trai o marido/esposa, que vai pregar na igreja pra sair com as irmãzinhas, que joga lixo no vizinho, fura fila, que é desonesto no trabalho, que reclama das crianças de rua, que não faz nada pra mudar a realidade delas, que não pensa duas vezes antes de fazer um aborto na filha ou na nora para esconder da sociedade, e continuar posando de família dó ré mi, e por aí vai a hipocrisia
Por isso não julgo, apenas acolho, cada um sabe o que faz da vida, qto ao espírito dela, que se entenda com Deus

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