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02 novembro 2015

Costurando por dentro




Nos últimos tempos tenho lembrado de uma história que aconteceu com um Romeu, que tem merecido da minha parte longos posts, foi o namorado mais violento (verbalmente) que tive e por isso o mais difícil de passar borracha em tantas coisas que passei.

Minha aparência sempre mereceu os piores comentários dele, nunca houve trégua. Mas uma dia nós estávamos conversando sobre alguma coisa, que não consigo lembrar, apenas tenho a memória de que não estávamos brigando nem discutindo, mas de repente ele disse ''ah, sim, você é muita engraçada, mas tinha que compensar né, porque é barriguda''. Perguntei o que ele tinha dito e repetiu ''você é barrigona''.

Foi tudo dito de maneira tão suave que fiquei sem entender o motivo e me senti agredida. Minha barriga nunca tinha sido objeto de conversação, mas por alguma razão ele falou dela.

Naquela época eu não tinha a menor consciência dos meus direitos, do que era abuso verbal, nem de relações doentias, recuei e não disse nada, mas a ofensa, ou a sensação de ter sido ofendida ficou na minha pele.

Semanas depois comentei isso a uns amigos, algum assunto relacionado a aparência veio à tona e eu me perguntava porque meu namorado tinha dito aquilo, eu nem tinha coragem de perguntar a ele se estava incomodado com a minha barriga ou porque usou o tom de desprezo quando falou dela. Mas eu disse aos meus amigos que estava chateada e eles me aconselharam a esquecer, quando viram que esse conselho não daria em nada me disseram para malhar e parar de comer besteiras, se eu estava incomodada com o comentário a única solução para superar o assunto era malhando e ficando com uma barriga tanquinho.

Eu não consegui naquele momento organizar a situação porque não tinha a informação necessária para isso, hoje teria sido simples, o corpo é meu, ninguém tem direito de dizer nada e um simples comentário desses agora dispararia a terceira guerra mundial, tenho isso claro, prefiro começar uma guerra do que permitir que um homem faça comentários inapropriados sobre meu corpo, mas naqueles dias tudo era confuso e nublado.

Lembro que um dos meus amigos tinha levado uma namorada, que ninguém conhecia e ela me perguntou se eu sabia costurar, eu disse que sim, mas não muito bem. Ela queria saber se eu entendia que a roupa deve ser costurada por dentro, depois a gente vira ela, quando a costura ficou finalizada, porque assim não fica a marca, isso eu sabia e ela comentou-

-Eu aprendi a costurar, quero ter uma confecção.

Fiquei me perguntando porque ela estava entrando nesse assunto, não estávamos falando sobre costuras nem remendos, mas ela insistia e diante da dúvida de umas pessoas ela virou os bolsos e mostrou como as costuras tem que ser por dentro, para o acabamento ficar bem feito.

Uma horas depois me levantei para ir ao banheiro e a moça foi comigo, quando estávamos entrando ela me disse-

-Você entendeu o que eu disse sobre costurar por dentro?

Naquele ponto da noite eu já queria pular no pescoço dela, não aguentava mais escutar nada relacionado a ''costurar'', então gentilmente disse a ela que eu não costuro, sei costurar, mas não é meu passatempo. Ela então me disse-

-Eu só queria te mostrar que tecido é igual a pele, tem gente que nem diz pele, diz tecido, entendeu?

Não.

-Acho que você está muito chateada com o que teu namorado te disse e não vai adiantar nada malhar e ter barriga tanquinho, porque feridas são como costurar uma roupa, a gente tem que costurar por dentro, por fora fica a cicatriz. Não adianta perder a barriga, você iria continuar magoada com ele, porque na verdade ele nem encostou na tua barriga, não bateu nela, foi por dentro a surra que ele te deu.

Disse a ela que esperava que costurar por dentro não implicasse ''perdão'', porque o caso era mais complicado. Quando alguém nos ofende ou magoa, a maioria das vezes doí mais não reagir a tempo do que o que foi dito, nesse caso se aplicava, eu tinha raiva do comentário, mas tinha mais raiva de mim por não ter reagido.

Ela me respondeu-

-Não sei se é perdão, cada um que sabe, digo sobre remendar as feridas, não dá pra sofrer tanto, a gente tem que encontrar um jeito de de auto-curar, ir se costurando por dentro, caso contrário vai arder sempre. É uma questão de tempo, costuramos por dentro ou tudo vai rasgar por fora. Não importa o que ele disse ou deixou de dizer, o que interessa é o estrago feito, e não vai ser ele que vai consertar, você que vai ter que se virar com isso. Você tem que pegar uma linha, colocar na agulha e ir costurando ferida por ferida, até parar de sangrar. E quando você perceber já acabou de costurar e não vai dar para ver nada por fora, todas as cicatrizes ficam dentro. Mas se costure, porque ferida é como tecido rasgando, aos poucos ele rasga por inteiro.

Não sei há quantos anos aconteceu esse diálogo na porta do banheiro, mas faz tempo. Lamento que não tenha continuado, pelo menos para ter um pouco mais de luz e tentar saber como se ''costura por dentro uma alma''.

Mas como naquelas grandes ironias da vida é um assunto que sempre retorna a mim, estou o tempo inteiro pensando em como costurar minha alma por dentro, já tentei algumas técnicas, do perdão, do desapego e a famosa ''deixa pra lá'', essa me vem parecendo a mais efetiva, deixar o tempo borrar algumas coisas, o vento leva embora, apesar da nossa resistência em querer segurar algumas memórias. Conforme avançamos na vida o que carregamos muda e se perde, nem tudo fica, o tamanho diminui e a importância desaparece. Deve ser algum truque da natureza, uma maneira de nos preservar e ir nos costurando por dentro, cicatrizando, sem que isso dependa dos nossos esforços. Tenho feridas que não costurei e estão fechadas, foi como um passe de mágica e tenho outras que ainda estão abertas.

E minha agulha para costurar tem sido o feminismo, foi por ele que comecei a ter consciência de que meu corpo não é propriedade de homem, nem tenho porque aguentar os comentários. Entendi que vivemos em uma cultura masculina, onde eles pensam que as mulheres têm donos e esses estão no direito de dizer o que quiserem sobre suas aparências. O que aconteceu comigo acontece com milhões de mulheres todos os dias, quando são criticadas pelos seus Romeus e quando elas reagem vem outra técnica de abuso, a gaslighting (link) e a famosa frase ''você é tão sensível''.

A situação que as mulheres vivem no mundo é tão crítica que não deve existir nenhuma sobre a terra que não tenha se sentido ferida, devem ser bilhões de mulheres caminhando com a alma descosturada, não apenas pelo Romeu, mas por tanta violência que encontram no meio do caminho.

Queria ter uma técnica, um truque eu pudesse ensinar a outras mulheres, mas eu não sei. Ainda estou na primeira fase, aprendendo.

Quando eu era pequena minha mãe me comprou uma máquina de costura pequena, que vinha com manual, tecidos, eu tentei várias vezes, mas as roupinhas das minhas bonecas ficam tortas, mal feitas. Eu tentava costurar a mão, mas não ficavam perfeita. Uma vez acertei e fiquei feliz quando terminei uma saia vermelha para minha Barbie, fiquei tão deslumbrada que mostrei para todo mundo a saia que eu tinha costurado e como ficou bem feita. Tento fazer isso agora, costurar minhas feridas por dentro, para voltar a sentir o orgulho que um dia senti e poder dizer a todos, sim, dá pra costurar e ser feliz de novo.



Iara De Dupont

2 comentários:

C.Belo disse...

Engraçado é que, com "barrigona" ou não, ele tava lá, feliz da vida como seu namorado, provavelmente comendo feliz (corrija-me se eu estiver enganada).

Me lembrei da piada do cara q vive comparando o corpo da mulher a uma máquina de lavar, em contraponto aos corpos esculturais das modelos, ao que a mulher, qd o marido a procura para sexo, diz que não vale a pena ligar a máquina de lavar por causa de um pedaço pequeno e frouxo de pano. Mas olha, mesmo q vc tivesse reagido com uma resposta à altura, o melhor ainda teria sido mandar o cara pro quintos dos infernos. Que foi o q acabou acontecendo de uma forma ou de outra. Graças a Deus!

Vagner Maciel disse...

Obrigado por voltar a escrever. Seus textos são ótimos.

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