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27 novembro 2015

Apenas para os homens (o duplo silêncio)


Sou contra essa visão de que mulheres somos frágeis e precisamos de proteção. Mas uma coisa eu sei, todos, isso inclui, todos, temos que estar atentos ao que acontece ao nosso redor.

A verdade é que começamos a perceber a realidade conforme vão nos dizendo e orientando, muitas coisas passam batido até alguém falar sobre isso.

Tenho percebido como ignoramos o que nos cerca até em um parque. De vez em quando vou caminhar a um e há pouco tempo comecei a ver como ficam homens ali, durante a tarde, em um fim de semana, próximos as crianças, só olhando. Uma visão geral poderia me dizer que são pais ou os frequentadores do lugar, finalmente parques são abertos a todos, mas um olhar mais detalhado me direciona a outra resposta, eu vejo eles atentos as meninas, aos seus movimentos e quando elas se afastam do grupo.

Nesse parque quebrou uma barreira de concreto e criou um túnel, que fica no fim do parque. As crianças gostam de ir se esconder ali, mas se eu cruzo com alguma delas indo para lá sempre digo que existem ratos ali e é perigoso, não deixo ir. Não faço isso porque sou boa pessoa, nem uma flor de gente, mas porque me parece perigoso e acredito que temos que estar atentos ao que acontece, não é possível que ninguém veja nada nem possa impedir.

E ainda sobre a conversa que tive com um ex-Romeu, surgiu um assunto que me levou a esse assunto.

Estávamos tentando entender o que tinha acontecido com nós, porque deixamos a vida separar e porque não reagíamos diante da separação. Nossas memórias são tão diferentes que nem parece que vivemos a mesma época. Tudo é misturado e pouca vezes encontramos pontos em comum no passado que temos certeza que vivemos.

Ele jogava a culpa a idade, a uma lista de situações que eu não sabia que aconteciam em sua casa, a maneira como ele encarava a vida naqueles dias.

E mudamos de assunto várias vezes, até que ele me comentou sobre um trabalho que está fazendo com um diretor, que eu conheço e perguntei por educação como estava o diretor e ele me respondeu:

-Por que você quer saber?

-É mesmo! Foi um impulso de educação, ele que se foda.

-Eu não estava a fim de falar disso, mas se você quiser, eu sei que devo uma desculpa.

E então se desenrolou uma das situações mais bizarras que já passei. Esse diretor tinha vinte e sete anos quando eu entrei na sua peça, eu era garota, tinha dezoito, então para mim ele parecia ''mais velho'', assim ''adulto''. Desde o começo ele cismou comigo, me perseguia, chamava de gorda, reclamava de tudo o que eu fazia. Encarei aquilo como uma perseguição de alguém que não gostava de mim, era boba e ingênua, nunca vi a tensão sexual que existia ali, nem que o cara era louco para me pegar. Na minha cabeça tudo aquilo ali era ódio, porque eu também não gostava dele e uma de suas assistentes tentou me avisar várias vezes que alguma coisa ali não estava indo bem, mas ela não foi clara e eu nunca entendi.

Uma vez estávamos em um ensaio, falando sobre o figurino, quando ele entrou e mandou todo mundo sair dali, menos eu. Me jogou um vestido e disse ''vista'', eu falei que ia ao banheiro me trocar e ele respondeu:

-Você acha que eu tenho teu tempo? E pensa que eu quero te ver quase pelada, uma gorda? Olha para mim, eu sou fulano, sou rico, minha família é tal no meio artístico, você acha que eu olharia para uma gorda ridícula como você? Se toca!

Coloquei o vestido na frente dele, enquanto ele me criticava e tentava arrumar o caimento, reclamando que  trabalhar com ''atrizes gordas'' sempre era uma dor de cabeça.

Hoje olho para trás e tudo isso me surpreende, ele ensaiava com todos, mas sempre mandava todo mundo sair e ficava ali comigo, trabalhando. Nunca aconteceu nada, ele nunca tentou, mas agora percebo que se aproximava demais de mim, fisicamente, muito além do necessário. 

E tudo isso acontecia enquanto eu namorava esse Romeu, que pensa me dever uma desculpa.

A situação com o diretor foi ficando insustentável, ele me agredia verbalmente todos os dias, me pressionava e chegou ao ponto de ter uma atriz de reserva, caso eu não conseguisse emagrecer até o dia da estréia. 

A primeira temporada deu certo, apesar de todo o sofrimento envolvido, mas um mês antes de começar a segunda temporada, o barco virou.

O que eu lembro é de ter ido a sala dele, discutimos porque ele comentou que iria manter a atriz de reserva, porque não estava convencido do meu trabalho e eu continuava gorda. Eu respondi chamando ele de frustrado e alguns palavrões, até que sai batendo a porta, quando ele escutei ele gritando:

-Você nunca mais volte aqui, sua gorda, vai tomar vergonha na cara e emagrecer, se considere desligada do grupo. 

Isso é o que eu lembro, da porta batendo e essa última ofensa, depois de meses de massacre. E na escada estava Romeu, esperando por mim. Não lembro nada depois disso, talvez ele me levou para casa.

Mas Romeu me contou sua versão, aquela que tanto o envergonha, tanto segurou para se desculpar, tanto disse que era um ''menino'' bobo que não sabia nem se defender.

A versão dele é que nós estávamos saindo do ensaio quando o diretor me puxou pelo braço e disse que tinha um assunto pendente comigo, Romeu disse que iria junto, mas o diretor disse que não era para ir. Eu entrei na sala do diretor, a porta se fechou e dez minutos depois eu sai chorando, então Romeu me perguntou no elevador o que tinha acontecido e eu disse que o diretor era ''um porco nojento e tarado''.

No carro chorei até minha casa, mas Romeu garante que me perguntou várias vezes o que tinha acontecido e eu não quis dizer nada, ele diz que me perguntou durante dias e eu continuei dizendo que não tinha acontecido nada. 

Desde que ele me contou sua versão voltei na memória mil vezes e não lembro de nada, além de uma discussão, mas lembro que joguei o texto da peça na cabeça dele, mas não consigo lembrar o momento nem o motivo pelo qual fiz isso.

E perguntei porque Romeu queria se desculpar e ele respondeu:

-A gente namorava né? Eu fui fraco. Devia ter te defendido, mas poxa, você nunca quis falar nada e eu nunca soube o que fazer. Eu escutava a discussão desde a escada, mas não fui homem para entrar ali e resolver o assunto, deveria ter pego ele na porrada. Eu vi desde o começo como ele te assediava e deveria ter te avisado.

E essa parte de ''deveria ter te avisado'' me doeu demais. Não acho que namorados sirvam para defender namoradas, mas para que ter alguém por perto se essa pessoa não vai te avisar quando você está em perigo?

Muito se fala em violência contra a mulher, mas não tocamos em um assunto relacionado a isso, e os homens ao nosso redor? Nem todos são malditos, existem muitos homens decentes que estão na vida de todas as mulheres, primos, irmãos, namorados, tios, pais......

É como um duplo silêncio, a da vítima e de um homem próximo a ela que percebeu a situação e que ''não soube o que fazer''.

Tenho certeza de que não sou a única mulher que um dia bateu a porta e chamou o chefe de ''tarado''. Mulheres são assediadas constantemente, não foi uma situação isolada.

E diante do meu silêncio, o que Romeu poderia ter feito? Não sei, mas o silêncio dele tampouco me ajudou.

Não é questão de ter um Romeu para te defender, mas sim de ter uma pessoa atenta, que caso perceba alguma coisa te avise.

Contei isso a uma amiga e ela me falou sobre uma colega do trabalho, uma história absurda, mas comum.

Um dia antes do Natal a moça saiu de compras. Voltou para casa sem ter comprado nada, disse que tinha sido assaltada, mas não queria ir na delegacia. Entrou no chuveiro e ficou lá por quatro horas. O marido surtou, se irritou com a demora, bateu na porta e pediu que ela saísse. Ela saiu, fez o jantar e foi dormir. 

A vida seguiu normal, até que umas semanas depois ela percebeu que estava grávida. Como o marido não podia ter filhos, ela se viu obrigada a contar para sua mãe o que tinha acontecido. Tinha ido ao shopping comprar os presentes de Natal, no estacionamento foi rendida por dois bandidos e estuprada. Em estado de choque não sabia como contar isso ao marido e ele nunca percebeu.

Não percebeu que nenhuma mulher fica quatro horas debaixo do chuveiro, não volta a fazer sexo e começa a ter depressão, assim do nada?

E por que não percebeu? Porque os homens são educados para ignorar a violência que os outros cometem contra suas mulheres. E falo dos homens decentes, não falo dos marginais machistas. Falo daqueles que são bons namorados, bons maridos, homens que realmente gostam e respeitam suas parceiras. Não falo daqueles idiotas que ao saber que a namorada foi estuprada perguntam que roupa ela usava ou se ''deu mole''.

E a frase de ''você poderia ter me contado'' não ajuda em nada, violência não é uma coisa fácil de verbalizar e muito menos quando vivemos isso todos os dias.

Mulheres não precisam de colo nem de proteção, mas não conseguimos estar atentas a tudo o tempo inteiro, é de ajuda alguém por perto que possa ser um apoio em caso de precisar.

Existem muitas coisas que os homens podem fazer por suas mulheres, conversar, oferecer apoio, procurar ajuda, denunciar. 

Dizer o que Romeu me disse ''preferi não insistir e te deixar no teu canto'', não resolve nada, nem elucida o que aconteceu naquela sala. Quase vinte anos Romeu carregou a sensação de que foi ''fraco'' e não me disse nada, não me avisou. E sem perceber ele foi cúmplice, porque os covardes que se aproveitam de mulheres sabem que podem contar com o silêncio de outros homens.

Aos homens que amam e respeitam suas mulheres, meu apelo, fiquem atentos, o mundo é cruel com as mulheres e precisamos todos estar atentos, só dizer que ama não resolve nada, nem evita nada. Quem ama uma mulher tem que ter consciência de que estamos em um planeta onde ela não passa de um brinquedo sexual de carne moída, só dizer ''qualquer coisa me avise'' não muda nada.

Não fiquem quietos nem ignorem o que as suas mulheres passam, não carreguem a falsa sensação de que ''é assim mesmo''. Sejam companheiros e ofereçam o apoio constante, mesmo quando não sabem bem o que aconteceu. Alguns vão dizer que não sabem como se aproximar e ajudar, mas ninguém sabe, por isso se procura por algum lado, existem psicólogos que podem orientar, pessoas da família, amigos, enfim, se procurar vai achar.

Qualquer violência tem seus desdobramentos, nenhuma vida volta ao normal depois de passar por ela. Entendam homens, que o mundo pode ser muito bom com vocês, mas muito maldito com nós, mulheres. Não sejam iguais aos agressores, nos condenando ao silêncio.

A última coisa que uma mulher quer ao voltar a casa e pensar que seu marido ou namorado é a mesma merda que os agressores que estão na rua.

Não sou romântica, nem defendo a teoria de que o amor cura, mas acredito que o mundo lá fora não pode ser igual ao mundo de dentro da minha casa. Quero mais do que o amor do Romeu, quero a certeza de que ele não é igual aos outros. E essa certeza vem no apoio, não no silêncio. Como mulher já recebo esse silêncio do mundo, não preciso dele na minha casa, na minha cama. Silêncio do homem que você ama diante de uma agressão que você sofreu é fim de linha. Não tem desculpa que conserte isso. E mulheres não são pequenas fadas que querem flores e declarações de amor, a única coisa que queremos é a certeza de que os homens não são todos iguais.



Iara De Dupont


Um comentário:

Nilda Costa disse...

Um dos melhores textos que li no seu blog. Continue escrevendo sempre!

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