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03 novembro 2015

A herança e a cura


Nos últimos tempos tenho conversado muito com diferentes mulheres. E venho notando alguns fatores em comum, a maioria parece irritada, cansada e pouco satisfeita com sua vida.

Costumo dizer que chegamos a esse ponto porque somos fruto de uma história. Eu carrego meus problemas, mas também herdei coisas da minha mãe e da minha avó, talvez de tias e primas. Não é uma questão biológica, é de energias. Sou a soma dos esforços delas para que minha vida fosse melhor. Meu cansaço, minha irritação hoje tem muito a ver com isso, como se minha tolerância tivesse chegado ao fim, coisa que seria justa, já que são séculos carregando tantas injustiças. Às vezes que me irrito com alguma coisa penso em quantas vezes minha avó aguentou a mesma coisa em silêncio. 

Herdei da minha mãe e da minha avó a força, mas me atrevo a dizer que elas aguentaram mais, eu ainda resisto e berro, não navego em águas mornas. Não dou a volta, nem coloco panos quentes. E dizem que sou ''impulsiva'', ''cabeça quente''. Durante um tempo acreditei que era e me perguntava de onde vinha esse temperamento tão intenso que eu tinha, hoje sei que é o mesmo temperamento da minha avó e da minha mãe, que foram massacradas até engolir o choro, eu já tive o privilégio de ter mais espaço para me manifestar.

Quando grito sinto que não faço por mim, mas por elas, quando paro o tempo, faço para que a história delas não passe em vão.

E sinto que milhões de mulheres estão na mesma situação, se sentem inquietas, sabem no fundo da alma que carregam o cansaço herdado, depois de tantas lutas.

E parte disso é porque a maioria de nós, mulheres, não nos damos a nós mesmas o que tão generosamente distribuímos aos outros. Não fechamos as portas, não lacramos o coração e nos recusamos a aceitar que precisamos de um tempo para nos curar, que talvez tudo tenha sido demais.

Se fechar é uma ideia inconcebível para uma mulher, eu só fiz isso porque fui obrigada e fiz sem saber o que estava fazendo, mas cheguei a um ponto de tanta saturação que tive que me afastar de todos e de tudo, precisava me curar, entender meu caminho e respirar fundo. Sou espaçosa energeticamente, preciso de ar puro e distância algumas vezes.

Infelizmente descobri no meio do caminho que o processo de cura pode levar vidas inteiras, não apenas o tempo que eu tinha decidido.

Mas eu me sentia drenada, fui educada para amar, amar, amar e não conseguia mais respirar, eu amava e amava, mas não direcionava essa energia para mim. E me surpreende a capacidade feminina de amar, é uma coisa de outra planeta, vejo amigas e como amam os filhos, o marido, a família, e me pergunto se esse amor tão potente também é utilizado por elas.

Ah, mas é tão bom amar! É incrível, mas nas mãos certas, as minhas eram as erradas, eu amava Romeu para esquecer as dores que carregava, também amava o teatro para fugir de quem eu era e amava minha família para justificar minha existência. Usei o amor para fugir, esquecer e eliminar meus problemas, mas deu tudo errado, o amor acabou e eu terminei exausta sem saber o que fazer com minha vida, tudo perdeu sentido.

E o mundo lá fora não ajuda, os grandes líderes espirituais são homens, reforçando mais ainda a teoria de que as mulheres somos inferiores até na esfera espiritual.

Na hora que precisei da cura o planeta não veio na minha direção, pelo contrário, eu virei aquela péssima amiga que abandonou os amigos, a maluca que terminou com Romeu e a estúpida que brigou com as primas. Quando precisei de um tempo virei a esquisita, a doida, a estranha. Eu sou uma mulher, o mundo espera de mim uma eterna disposição em ser útil aos outros, não espera que eu diga ''não posso mais fazer isso''.

E as vezes que tive que dizer essa frase eu pensava na minha avó e a vida de exploração que teve, na minha mãe e nas chantagens que sofreu, minha boca dizia ''chega'', mas era apenas minha herança genética implorando por descanso.

Uma vez me disseram ''se você não se casar e não tiver filhos vai atrasar sua evolução espiritual''.

Misericórdia! Até nisso estou atrelada ao outro? Até para meu espírito crescer eu tenho que ''ser'' na vida de outra pessoa?

Alguém muito infeliz percebeu meu temperamento e avisou minha mãe que eu tinha mania de ''pular etapas'' e isso não era bom. Assim como eu tinha que estudar, também seria bom casar.

E não nego que pulei etapas, tudo me desesperava, e queria tudo pra ontem, mas pulava na agonia de fugir do que me esperava, eu quebrava espelhos para não ver minhas tias refletidas neles, eu corria para escapar de tudo o que me diziam. Não nego que minha vida foi como correr em uma estrada, sem direção, apenas seguindo as placas que apareciam no meio do caminho.

Mas eu fugi pensando nas vezes que minha avó quis fugir ou minha mãe pensou nisso, era meu sangue que me empurrava para fora do círculo.

Levei anos para perceber que minha única ânsia neste mundo era me curar de tudo que eu carregava, do rastro das mulheres da minha família, das expectativas e do lugar pré determinado que minha vida parecia seguir.

E me parece possível que algumas mulheres se sintam assim. 

Em algum momento escutei um guru dizer a uma amiga ''esqueça que você é mãe, esposa, irmã, filha, tia, sobrinha, amiga, tire tudo isso da mente e me diga quem é você, quem é teu espírito?''. E lembro de minha amiga respondendo ''mas sem nenhuma dessas coisas eu não sou ninguém''.

Exato, o mundo diz isso, nós, mulheres não somos ninguém, nosso espírito não existe, nem temos alma. A unica coisa que nos identifica no planeta é que somos mães, filhas, sobrinhas, esposas e amigas de alguém.

Tive que me fazer essa pergunta e garanto que é dolorosa, quem sou eu? Tirando meu carimbo de filha, neta, sobrinha, quem sou eu? E se meu espírito não tem sexo? Em outra esfera não sou mulher, sou uma alma que pode transcender a vida, mas sem condições nem sexo.

E quem somos nós, um exército de mulheres, que vagam pelo mundo se dizendo insatisfeitas, infelizes e sem entender o propósito de suas vidas? Do que realmente gostamos, sonhamos, longe do que a sociedade nos impõem? Como não vamos estar cansadas se somos um fluxo constante de amor e atenção a todos? Quem se permite perguntar o que realmente quer, quem realmente é? Que mulher pode dizer ''dá licença, vou ali saber quem eu sou e já volto?''. O tempo passou e não temos mais como evitar essa pergunta, procurar essa resposta.

Chegamos em um momento que isso começa a doer, porque são séculos de silêncio. Minha alma às vezes grita de dor e imagino que deve ser a dor de tantas gerações de mulheres, tantas que passaram pela minha família, que eu não conheço nem sei sobre sua existência. Devo ter centenas de nomes escritos circulando pelo meu corpo e não sei de quem são.
Foram mulheres tratadas como inferiores, anuladas como seres humanos, esquecidas como espíritos.

Tenho uma conhecida que fazia exercícios de desapego, queria saber quem era, meditava, se concentrava, mas sempre estava ligada na ''função de mãe''. Conforme o tempo avançou ela começou a ver e entender quem era, tinha medo de que a relação com seu filho fosse modificada, de acordo a sua nova percepção, mas ela insistiu, se mudou para um lugar mais isolada e dedicou sua vida a conhecer quem realmente era.

Muito tempo depois eu a encontrei e acabamos falando sobre isso, naquela época eu ainda carregava alguns conceitos, achava que não tinha nada no mundo mais importante ou maior do que amor de mãe, que esse era intocável, então perguntei a ela se tinha mudado alguma coisa no relacionamento com seu filho e ela me respondeu-

-Mudou tudo. Antes era limitado sabe? Eu era mulher, mãe, tudo em função dessa ideia pequena, mas quando comecei a tentar saber quem eu era percebi que meu filho é um guia espiritual, é um mestre, meu relacionamento como ele hoje é mais forte do que antes, é mais amor, respeito e compreensão dos nossos papéis, sei que ele pode ver nos meus olhos quem eu sou, sabe que sou mais do que a ''mãe'' dele. E com meu namorado aconteceu a mesma coisa, é um companheiro de jornada, não estamos mais presos a um papel.

A questão é, quantas de nós podem se isolar para tentar saber quem são? O mundo sabe disso e nos joga milhões de tarefas em cima, sabe que mulheres conscientes da sua força espiritual mudariam o planeta, quebrariam o sistema atual. Somos convencidas desde pequenas que não temos alma e caso exista alguma ela só vai se realizar na maternidade.

Mas muitas estamos sufocadas neste mundo, a água vem subindo cada vez mais e nossa resistência não parece a mesma de ontem. O corpo aguenta a surra, mas o espírito não, principalmente depois de séculos de tortura.

Sei que vou responder por isso em algum momento, quando me tirarem as etiquetas de moça de família, namorada, sobrinha e neta, vou ter que dizer quem eu realmente sou. E não tenho como chegar a essa resposta sem me curar antes, sem dar um sentido a minha alma e suas constantes perguntas.

Difícil saber quem somos, mas as consequências já estão aqui, o cansaço, a irritação, o vazio, a raiva, a falta de vontade para tantas coisas. Em algum momento o silêncio de tantas gerações iria cair em cima de uma, foi justo nessa. 

Mas acredito e alguém já me disse, que existe cor debaixo de tantas dúvidas, o cansaço que sinto vai ser pouco, perto da resposta que um dia sei que vou ter. Se consigo libertar minha alma de tantas pressões, meu espírito de tantas questões, vou libertar energeticamente as mulheres da minha família, de vida passadas e futuras. É como abrir uma gaiola de centenas de pássaros, que nasceram e cresceram em cativeiro, é como devolver a natureza a força que ela sempre teve.

Como mulher cheguei ao meu limite, tantas questões que envolvem direitos e violência me deixam exausta, parece que o mundo inteiro caminha para massacrar todas as mulheres. Às vezes coloco a cabeça no travesseiro e penso como seria bom ser apenas um espírito neste mundo, vagar pelas nuvens, escutar o som do mar. Mas então lembro que estou em um mundo que tenta drenar minha alma, que tenta neutralizar quem eu sou, que faz de tudo para que eu pense que sou apenas uma etiqueta ''mulher''.

Sei que o único caminho é a cura, são perguntas simples, quem eu sou, do que gosto, do que não, que sonhos tenho (que não incluam ninguém) e o que eu gostaria. A alma é cheia de sinais, mostra o caminho, liga as luzes. Mas tem que ser escutada, não dá pra sufocar.

Até agora pouco sei, apenas que sou centenas de mulheres, todas da minha família, o mesmo sangue, a mesma origem, são como células que correm meu corpo dizendo que tenho que me curar, só assim elas serão livres. 

E lembro da minha avó dizendo ''que nenhum sofrimento seja em vão''.

Promessa minha, não será. No que depender de mim eu acho a cura e liberto minha alma. Sei que ao fazer isso centenas de mulheres da minha família vão sentir a brisa do mar, o vento e a tão sonhada liberdade. Meu cansaço, minha irritação não é maior nem menor que a delas, a única diferença é que eu estou fora da prisão que tantas delas viveram, meus passos são mais rápidos. E estou consciente que tenho uma alma e não sou apenas uma ''mulher'' neste mundo gelado, nem filha, nem irmã. Sou apenas eu, assim, voando pelo mundo, procurando respostas sem carregar etiquetas, apenas tentando me libertar e curar todas as feridas, apenas querendo que todas as mulheres que tanto lutaram por mim durante gerações tenham seu descanso, que sua vitória se realize, que a liberdade que tanto desejaram a todas se faça presente. Sei do fundo do meu coração que as mulheres da minha família só queriam uma coisa neste mundo, viver sem dor. Só isso. E só uma alma livre pode viver desse jeito. Que minha cura seja por todas e que minha liberdade seja pelas que ainda vão chegar.



Iara De Dupont

2 comentários:

Cristina disse...

Infelizmente muitas vezes a dor tem que ser insuportável pra maioria das mulheres enfim mandar os outros se ferrarem e irem cuidar de si mesmas. Foi assim com a minha mãe, mais do que qualquer um, e em certa medida foi assim comigo também. Se encaixar nesses padrões machistas e ignorantes dá uma certa segurança, e somos treinadas viver com medo e buscar a segurança acima de tudo; só quando a dor da prisão-segurança é maior que o medo dos riscos que vem junto com a liberdade nós conseguimos forçar a saída, mas dói. Dói muito e é preciso muito tempo, paciência e carinho consigo mesma pra se recuperar. Que cada vez mais mulheres se libertem da dor pra que as que virão depois possam trilhar um caminho menos espinhoso. Que você se encontre, Iara, e que sua alma tenha o descanso de que precisa. Qus os dias que virão tragam consigo a paz.

Anônimo disse...

Nossa, acho que esse texto resume bem a minha vida atual. Mas eu não tenho tanta esperanças para o futuro.

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