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22 novembro 2015

A farsa do privilégio


Nos últimos tempos venho acompanhando uma estranha batalha na internet. A minha sorte é que não sou adolescente, caso fosse estaria magoada por ter sido excluída de alguns grupos feministas no Facebook.

Sempre naveguei sozinha, não tenho problemas com isso, se tiver que ser assim, que seja, não fico na margem do rio chorando nem lamentando. Apenas me indigna a situação, porque de qualquer modo saímos todas nós, mulheres, prejudicadas.

O feminismo é um movimento político que luta pela igualdade e como movimento é orgânico e mutável, nada é definitivo. Conforme avança as pautas mudam e outras entram, todas nós temos nossas reivindicações a fazer e em alguns pontos não somos tão diferentes, nem geograficamente. Um exemplo é a Suécia, país que bate a mão no peito para dizer que é um ponto de igualdade no mundo, que todas as mulheres e homens têm os mesmos direitos. É verdade, mas eles ainda lutam contra um número alto de violência sexual, o que indica que não é um lugar perfeito.

Qualquer pessoa que se aproxime ao feminismo está ali para somar, com suas ideias e percepções. Infelizmente isso também gera polêmica, porque as pessoas dizem que o feminismo é a luta pela igualdade, mas qual seria o parâmetro dessa igualdade? Muitas e eu me incluo nelas, preferimos ver o feminismo como uma mudança social necessária para viver em um mundo mais justo e organizado, mas a base do movimento é uma, todas somam.

Não sei como começou na internet uma divisão discreta, hoje é feita aos berros. Grupos começaram a se dividir, primeiro diziam que existiam as feminista brancas e as negras, depois as da periferia e da zona nobre, zona urbana e zona rural, sudeste e nordeste, casadas e solteiras, héteros e lésbicas, assexuadas e as não-assexuadas. É tanta divisão que fica confuso e impossível de se estar em uma.

Neste post não entro em detalhes sobre essa recente divisão de feministas brancas e negras, porque isso vai exigir de mim outros posts, não é a primeira coisa que eu gostaria de escrever, o post de hoje é sobre ''privilégios''.

Como muitas se aproximaram de mim pelo blog acabei em muitos grupos, leio tudo o que postam e posso garantir, não entendo a divisão porque a base é a mesma. Me parecem subterfúgios dizer que o grupo é de uma coisa ou de outra. E além de tudo é perda de tempo, estamos lutando pela mesma coisa com bandeiras diferentes, mas a ideia é a mesma, o que faz algumas parecerem um pouco patéticas ao tentar excluir outras.

Eu estava em um grupo do Facebook e fui avisada pela moderadora que seria melhor sair, porque algumas ali tinha dito que eu não era uma ''delas''. Concordei, mas pedi para saber o que me fazia tão diferente das outras e fui informada que era um grupo direcionado a mulheres que apenas estavam conhecendo o feminismo, por algumas ativistas e e eu era considerada ''privilegiada'', ou seja, não pertenço ao grupo delas.

Conheço a moderadora e perguntei o que significava para ela ser uma ''privilegiada'' e ela me disse:

-Bom, você sabe muito sobre feminismo, estudou em boas escolas, pode comprar bons livros, você não ''luta'' para conhecer a causa, foi uma escolha tua que teu nível social pode bancar!

Ah! Como é bom a gente não saber da vida alheia e ficar imaginando! Também gosto de ficar fazendo isso, vendo os outros de longe e pensando que vivem de um jeito ou de outro.

Quer dizer que eu não ''luto'' para saber sobre feminismo?

Minha história tem vários lados, alguns agradáveis, outros ruins, mas finalmente é minha história. E prefiro vir aqui e contá-la, do que ver uma pessoa imaginando uma situação que não existe.

O primeiro ponto a dizer é o seguinte: NÃO EXISTEM MULHERES PRIVILEGIADAS EM UM MUNDO MISÓGINO E MACHISTA. TODAS SÃO CARNE MOÍDA.

Já dito isso posso voltar a fantástica história da minha vida.

Eu nasci em uma família classe média, meu pai era jornalista e isso me deu outra perspectiva de vida. Cresci em um apartamento cercado de quatro mil livros, meu pai recebia jornais, revistas, livros e discos de amigos e editoras, e eu tinha acesso à tudo. Quando tinha quatro anos minha mãe disse que eu fiquei assustada ao ver uma parede branca, nunca tinha visto, na minha casa onde não tinha livros, tinha quadros, até hoje me dá nervoso ver paredes brancas, parece que falta alguma coisa.

Meus pais não tinha babás nem ajuda, então me levavam para todos os lados. Não é crítica, mas eu fui tratada sempre como anã, falavam comigo como se fosse adulta e respeitavam minhas decisões, mesmo quando pareciam não ter pé nem cabeça,mas naquela época era um método novo de pedagogia, tratar crianças como seres independentes. Eles iam a jantares e me levavam junto, cresci conhecendo pessoas incríveis em circunstâncias fantásticas. Me acostumei com isso e posso dizer que passei minha infância dormindo no sofá dos outros, enquanto meus pais jantavam.

Eu circulava por todos os lugares e escutava tudo, o que hoje me parece péssimo para uma criança. No fim da ditadura os amigos de meu pai se reuniam em casa e falavam sobre as torturas sofridas, os quartéis, os militares e a práticas. Escutei tanto que sei de cor até hoje todos os lugares para onde eram levados as pessoas e os torturadores encarregados.

Como os amigos dos meus pais me viam andando de um lado a outro se acostumaram a me tratar como adulta e eu gostava disso. Conforme crescia percebi um mundo limitado na escola, as crianças não gostavam de mim nem eu delas, eu era diferente fisicamente e mentalmente, elas me pareciam maldosas e más, eu preferia conversar com adultos, esses sim me respeitavam e escutavam minhas opiniões.

Minha mãe sempre gostou de ballet, ópera, museu e e todo tipo de expressão, então me carregava onde quer que fosse, tive acesso desde criança a todos os tipos de arte, até porque minha mãe estudou Artes Plásticas e acabei conhecendo pintores, escultores, todos os tipos de artistas.

Meu pai conhecia todos os escritores infantis, eles mandavam os livros autografados para minha casa e mais de uma vez fiquei indignada com o fim de alguma história, então meu pai me incentivava a ligar para o autor e conversar a respeito. Sou muito grata a vários deles, sempre foram gentis e atenderam meus telefonemas com o maior carinho, tenho cartas guardadas de alguns, que responderam minhas observações.

A vida deu umas voltas e me permitiu estudar em um colégio na Europa, aprendi espanhol no México e estudei nos Estados Unidos. Eu não tive privilégios econômicos, mas a situação profissional do meu pai nos levava a viajar e mudar de lugar.

Entrei no teatro com dezesseis anos e repeti o mesmo padrão da infância, estava cercada por pessoas criativas, inteligentes e acordadas para a vida.

Quando fiz dezoito anos uma amiga do meu pai me deu uma coleção de livros de Simone Beauvoir e eu li. Mas não fazia parte do meu mundo, todos me diziam que o feminismo era ultrapassado, tinha outras coisas acontecendo e eu acreditei. No planeta que eu vivia as coisas pareciam normais, os homens eram dominantes e agressivos, mas a ciência dizia que era a testosterona. Alguma coisa me parecia fora do lugar, mas como essa foi uma sensação que sempre me perseguiu deixei de lado. E outra nuvem me seguia, se eu dissesse alguma coisa diferente as pessoas respondiam: ''você não é daqui né'', e como geralmente eu não era, ficava quieta, jogava a culpa na diferença cultural.

Quando tinha dezenove anos estava estudando nos Estados Unidos e na universidade fui informada que era obrigatório ir a um curso que se chamava ''say no'' (diga não). Fui lá com uma amiga mexicana, uma garota adorável que era tão ingênua como eu. Eram aulas de prevenção de estupro, aprendíamos técnicas de defesa e a dizer sempre ''não''.

Minha atitude e de minha amiga não podia ser mais estúpida, nos saímos rindo das aulas, nos perguntando porque os americanos complicavam tudo, gente, pra quê uma aula para aprender a dizer ''não''? Coisa mais sem sentido, é só dizer ''não''.

Hoje quando olho para trás fico sem acreditar na minha ingenuidade. Minha sorte e da minha amiga é que nunca bebemos, frequentamos milhões de festas e os americanos surtavam com nós, nosso cabelo era preto, éramos diferentes em tudo das americanas e eles ficavam como abelhas em cima de nós. Mas não bebíamos nem saímos com eles, minha amiga namorava um americano e eu estava apaixonada por outro. E ela morava na casa de uma tia, que era rígida com os horários, tinha que chegar cedo, eu também tinha que sair logo das festas porque era babá no período da manhã. 

Atravessei uma universidade à noite algumas vezes, caminhei pelo estacionamento sem medo nenhum, talvez naquela lógica insana de que nos Estados Unidos não acontecem crimes como no Brasil. Só fiquei sabendo dos estupros nas faculdades americanas anos depois, lendo o blog da Escreva Lola escreva. Antes disso nem imaginava que estava em um ninho de cobras.

Anos depois, em 2006, minha vida deu um giro. Eu já tinha anos no teatro, viajando, trabalhando com atores e não tinha acontecido nada ruim. Houve alguns incidentes chatos, de cunho sexual, atores que se aproveitavam de cenas de amor e se esfregavam, fazendo questão de mostrar como estavam excitados, alguma mão aqui ou ali durante testes, coisas assim. Nunca percebi a gravidade da situação porque ninguém me disse sobre isso, só agora entendo o que é assédio.

Em 2006 entrei em um grupo, aqui em São Paulo. Por milhões de motivos desci a guarda, coisa que não entendo até hoje. Como nunca bebi e a maioria das vezes tinha que chegar cedo em casa, fui uma atriz de horários rígidos, eu terminava o ensaio e corria para minha casa, não ia beber cerveja com diretor nem produtor. Também lidava com síndrome do pânico, isso me fazia mais reservada e distante do grupo, eu evitava festas e comemorações.

E pelo fato de sofrer de ataques de pânico mantinha minha vida pessoal fora da linha, nunca falava de mim. Fui assim durante anos e isso acabou me protegendo, ninguém sabia nada sobre mim.

Mas em 2006 nesse novo grupo eu respondi algumas perguntas, era nova ali e queriam saber se eu tinha namorado, disse que não. Com quem eu morava? Sozinha. Onde estão teus pais? Longe.
Durante uns meses tudo parecia tranquilo, mas os rapazes começaram a ficar inquietos, como assim eu não tinha namorado e não dava para ninguém ali?

Teatro é como qualquer outro ambiente, é tão promiscuo e asqueroso como qualquer lugar, cansei de escutar que atores são assim, mas é mentira, o ser humano é assim, libidinoso e não importa onde está nem sua profissão, quem não presta, não presta.

Conforme passava o tempo as perguntas aumentavam, até as atrizes pareciam intrigadas, ''nossa, um grupo com quase dez atores e você não transa com nenhum?'' Não. Ninguém te interessa? Não.

Na época eu era apaixonada por um Romeu, não era sua namorada, mas queria ser e me concentrava nele, além de que nenhum ator do grupo me parecia interessante.

Eu sentia os atores me rondando, o ambiente ficava tenso e o diretor cansava de dizer ''gente, deixem ela em paz''. Eu tinha acabado de chegar do México e eles atribuíam minha falta de interesse ao fato de que ainda não sabia como ''eram as coisas no Brasil''.

O louco da história é que eu comecei a fazer teatro no Brasil e não tive nenhum incidente durante meus cinco primeiros anos aqui.

Eu percebia que eles falavam sobre mim e quando entrava outro ator, por alguma mudança, eles acompanhavam, tentavam ver se eu demostrava interesse em alguém.

As perguntas sobre minha condição sexual eram constantes, se eu realmente era hétero e porque não dava festas na minha casa.

Fui ingênua e não soube lidar com a situação, até que um dia as coisas vieram à tona. Cheguei mais cedo ao ensaio, chovia muito e entrei correndo, na sala estavam três atores, justo os que me cercavam. Cumprimentei eles de longe e começaram a me dizer para me trocar, porque estava como casaco molhado.

Um deles me perguntou sobre outro ator, respondi que não sabia e ele me disse ''uia, nem esse fulano te interessou?'' e o outro ator disse ''é, parece que ninguém aqui é bom o suficiente para ela''.

Eu ainda estava de pé, quando um deles me empurrou em direção a parede e em seguida vieram os outros dois. Eles tentavam tirar minha roupa e enfiar as mãos em todos os lugares possíveis, me perguntando se aquilo ali não era divertido. Um deles fez tanta força para me beijar que quebrou meu dente. Não sei o tempo que se passou ali, pode ter sido um minuto, podem ter sido mil. É impossível descrever a sensação de tentar se defender de três homens, prensada na parede. De repente entrou a moça da limpeza, percebeu que tinha alguma coisa errada e me chamou, disse que alguém me esperava na porta. Sai correndo dali, deixei minha mochila, assim que senti o vento na rua vomitei ali mesmo. E de repente estava no meio da rua, debaixo de chuva e sem dinheiro para voltar para casa, com a boca sangrando. 

Eu estava sozinha em São Paulo, meus pais não moravam aqui, eu não tinha amigos nem familiares, ninguém para ligar. Resolvi voltar caminhando pra casa, mas no meio do caminho percebi que isso era loucura. Foi quando eu vi uma moça com um bebê, colocando uns pratos na mesa, de uma pizzaria, me aproximei dela, morrendo de vergonha e pedi dois reais emprestados, jurei que voltaria para pagar depois, mas eu precisava ir pra casa. Ela me olhou e na mesma hora me deu o dinheiro e perguntou ''você precisa de um médico?'', respondi que não, eu não tinha percebido, mas boca quando sangra é muito fluído que sai, e eu estava com toda a blusa suja, fiquei tão agradecida que tirei meus brincos e dei para ela, que não quis aceitar, mas acabou entendendo meu gesto.

No dia seguinte o diretor da peça veio a minha casa, contei para ele o que tinha acontecido e que eu não voltaria a peça. Ele me disse que estávamos a duas semanas da estréia e eu não poderia sair apenas por uma brincadeira de mau gosto. Fui pressionada, chantageada e empurrada, não tive saída apenas por um motivo: eu não conhecia meus direitos, nem entendia o que tinha acontecido.

Voltei para a peça e os atores foram avisados para não encostarem em mim, porque eu era ''chatinha'' com brincadeiras. Toda a temporada eles fizeram o que puderam para transformar minha vida em um inferno, me chamavam de ''vadia'' longe do diretor, faziam piadas com o decote do figurino, coisa que me obrigou até a mudar de figurino e se viam que não tinha ninguém por perto passavam a mão. Três vezes se aproximaram para tentar me beijar e as três vezes sai no tapa com eles, que pareciam se divertir muito.

Depois desse episódio muitas coisas mudaram, voltei a ter ataques de pânico, que não tinha há anos e fiquei muito descompensada na época, tomando decisões erradas o tempo inteiro, tive pesadelos e ainda ao escrever tenho ânsias de vômito.

Alguns anos depois entrei para estudar Sociologia e resolvi fazer meu trabalho de conclusão sobre Maquiavel, na escolha dos livros cheguei a um, de uma espanhola, que comparava o feminismo a guerra. Me interessei pelo assunto e comecei a ler sobre o feminismo, corri para a internet, cheguei a uns blogs, inclusive o da Lola, e resolvi me aprofundar no assunto. Entrei em grupos, conheci mulheres e comecei a perceber como eu era ignorante em relação ao tudo que me cercava, como tinha sido ingênua minha vida inteira.

Fui a uma roda sobre feminismo e uma professora perguntou as mulheres que estavam ali quantas tinham sido estupradas. Todas levantaram a mão, menos eu. No fim da palestra veio conversar comigo, me explicou que o estupro não era apenas aquilo que acontecia em uma rua escura com um desconhecido armado, mas o que também acontecia nas casas e escolas. Eu disse que entendia, mas não tinha nenhum episódio desses na minha vida, até que sem querer disse a ela ''ah, aconteceu uma coisa, mas olha, nem eram desconhecidos nem foi estupro e além disso eu vi eles na sala, assim, por que eu entrei ali?''. Ela se sentou comigo e conversou durante horas, me explicou o que tinha acontecido comigo e como eu não tinha culpa no assunto, eu não era obrigada a transar com ninguém no grupo nem eles tinham direito de me tocar. E me perguntou ''o que teria acontecido se a moça da faxina não tivesse entrado?''. Primeiro disse que não sabia, depois eu disse que tinha certeza que eles iriam até o fim, quem começa uma monstruosidade dessas não vai parar.

As vezes que falei sobre esse assunto com alguma amiga escutei ''mas graças a Deus não aconteceu nada''. Não é bem assim. Se alguma situação te perturba por anos é porque aconteceu alguma coisa.
Ou escutava ''mas pra quê você entra em uma sala com três homens?''.

Mas esse é o ponto! Se alguma vez me disseram para me cuidar, era de estranhos, de homens suspeitos na rua, ninguém me disse ''olha, fique atenta aos homens que trabalham com você, mesmo que você tenha convivido com eles por meses, podem ser perigosos, você não está segura em nenhum lugar''.

É irônico pensar que eu estaria mais segura no meio de uma rua deserta, como era aquela do ensaio, debaixo da chuva, do que em uma sala com três ''homens de bem''.
Ora, eu trabalhava com eles, antes disso já tinha passado mais de dez anos viajando com atores, dividindo cama de hotel, ônibus, banheiro, camarim, sala com eles e nunca tinha acontecido nada nem vi nada! Como você pode trabalhar em uma peça se não confia nos atores? Cansei de ensaiar com um ator, a noite inteira e nem por isso aconteceu alguma coisa. Trabalhei com um ator que morava longe, ensaiávamos na casa dele, um lugar remoto e ele jamais tentou qualquer coisa.

As pessoas imaginam que atores trabalham em teatros grandes e maravilhosos, não precisam olhar um na cara do outro, mas a realidade é outra. Nem sempre se apresentam em teatros, nem sempre viajam em boas condições. A maioria se vira e se apresenta em qualquer lugar, isso exige flexibilidade, não dá para ter frescuras e eu jamais tive nenhum problema com isso, cheguei a viajar doze horas com um ator ao meu lado e ele não encostou em mim. Tive muita sorte com os atores que trabalhei, a grande maioria sempre respeitava as atrizes, como eu poderia imaginar que depois de dez anos não era mais seguro estar em uma sala de ensaio com três atores?

E cheguei ao ponto que queria chegar, os privilégios. Não existem privilégios para mulheres. É verdade que a condição econômica ajuda, mas não blinda nenhuma mulher. Lembro o caso de uma Miss Estados Unidos, não lembro o nome dela, que escreveu um livro contando que foi estuprada pelo seu pai durante dez anos. Uma menina rica, loira e cheia de privilégios! Cresceu em uma mansão, cercada do melhor. E ninguém percebeu nada.

Eu cresci em uma casa cercada por quatro mil livros, vi todas as pessoas famosas da época, os intelectuais entrarem na minha casa e sabe quem me falou sobre feminismo? Ninguém. 
Passei por colégios na Europa, México, Brasil e Estados Unidos e sabe quando tive uma aula sobre violência sexual? Nunca. 

Ah, sim, nos Estados Unidos fui obrigada a frequentar um curso sobre o assunto, mas caramba, eu tinha quase vinte anos, não é melhor falar disso desde cedo? É só a partir dos vinte anos que uma mulher pode ser estuprada?

E os livros que li, as revistas, os jornais, quem escrevia sobre assédio? Nunca li.

Agora entendo que nunca li e nunca soube porque não é conveniente para o sistema que esse tipo de informação ''vaze''. Não é o que o patriarcado quer, mulheres conscientes. Se hoje o feminismo está se fortalecendo é porque existe internet e começou a ser levado para outras mídias.
A grande maioria das mulheres que conheço começou a ler sobre feminismo nos blogs, não aprendeu na escola, nem faculdade.

Nunca fui avisada, nem preparada, nem orientada para lidar com tanta violência. Se tivesse sido, aquela noite horrorosa teria tido outro fim, o correto teria sido sair do lugar e chamar a polícia, depois ir ao IML fazer corpo de delito. O dente quebrado e a quantidade enorme de arranhões e pele roxa em diversos lugares, teriam garantido um processo. E a estréia teria que ter sido cancelada. Tudo isso teria sido muito melhor do que ter sofrido durante anos em silêncio e de ter que escutar o dentista me perguntando várias vezes como eu tinha quebrado o dente, outro capítulo, sim, custou dois mil reais (que eu não tinha) arrumar o dente.

Cresci em um nível cultural difícil de ser superado, tive acesso a tudo e mesmo assim nunca me disseram o principal, isso mostra como não existem privilégios e como mulher posso dizer, não faz a menor diferença estudar em um colégio na Europa se ninguém vai te ensinar a se defender. Fica no mesmo nível o ensino de um colégio europeu com um colégio da periferia de São Paulo. O que se aprende em uma escola na periferia de São Paulo? Matemática e geografia. Também aprendi isso no colégio chique que frequentava. Agora sei que as coisas estão mudando, muitas escolas já estão falando sobre violência sexual, mas nos meus tempos ninguém falava nada.

Vivemos em um mundo onde o feminismo é um movimento que vai contra as regras, é considerado subversivo e perigoso. Não vemos em novelas, séries, filmes, a importância de lutar contra o machismo e se proteger, pelo contrário, até a música é misógina e por todos os lados aparecem incentivos a violência com a mulher. Vemos todos os dias cenas de estupro em novelas e séries e quantas personagens são levadas ao hospital e orientadas a denunciar? Não tem.

Ah, preciso dizer que nunca contei essa história aos meus pais? Que inventei ter tropeçado na rua para explicar um dente quebrado? 

É fácil olhar para mim e dizer que tive privilégios e o feminismo foi uma escolha, é melhor fazer isso do que reconhecer que sou uma mulher igual a todas, que passou por uma situação de violência e não soube se defender. É mais confortável separar as pessoas por nível cultural e dizer que coisas ruins só acontecem com pessoas ignorantes, quem tem a oportunidade de estudar não sofre, porque sabe o que fazer. Eu não soube e como muitas sou obrigada a dizer, se fosse hoje o mundo iria cair, eu acabaria com todos os que estavam envolvidos naquele grupo e não iria sossegar até colocá-los na cadeia.

Mas santa ignorância né! E nem sei se preciso dizer que os atores ali eram ''homens de bem'', tinham família, irmãs, comida na geladeira e uma vida agradável.

Volto ao mesmo, parem de sonhar com os privilégios, eles não existem. Hoje estamos todas nas mesmas, só tem acesso ao feminismo quem corre atrás dele, ninguém bate na porta e te fala sobre o assunto.

Quando comecei a frequentar palestras feministas contei o episódio a um Romeu, disse a ele que o feminismo tinha me ajudado a colocar a situação em outra perspectiva, diminuindo minha dor, aumentou minha raiva, mas a dor melhorou um pouco e Romeu me disse:

-Eu acho que você está confundindo as coisas. O que eles fizeram foi um gesto doentio, mas você não vai se curar em palestras feministas, é melhor procurar uma ajuda psicológica.

Ah, sim! Não nego a importância da psicologia nesse caso nem de sua ajuda, mas foi o feminismo que me mostrou o horror da situação.

Vivemos em um mundo que odeia as mulheres, as considera todas carne moída e não interessa o nível social, nenhuma delas é considerada ''gente'' pelo sistema, nenhuma delas vai ter alguém pegando na mão e dizendo ''vamos falar sobre assédio, violência, estupro, como se defender, denunciar e reagir''. Quem faz isso? Ninguém. 
Eu vejo algumas mães se mexendo, mas são jovens, entraram agora no feminismo e perceberam a loucura da situação, mas antes delas quem fez isso?

Tive e tenho privilégios na vida sim e sou grata, mas em relação ao meu gênero estou nas mesmas que todas, orando e vigiando.

Lamento que tenham me excluído do grupo porque eu não frequentei escola pública, mas fiz questão de vir aqui dizer que aprendi na prática o que era violência, como todas as que estudaram em colégios públicos e particulares, fui agredida como todas são e ler e escrever em três idiomas não me ajudou em nada.

No fim dessa história nauseante, que ainda me traz péssimas lembranças, só posso dizer uma coisa- privilégio na vida é conhecer o feminismo, talvez mais privilégio do que isso seria morar em um país onde ele nem seja necessário. Mas qualquer mulher que possa ter acesso ao feminismo pode se considerar uma privilegiada, mas é bom saber que o feminismo chegou as ruas agora, são anos navegando na escuridão e na opressão, o que vemos hoje, meninas nas ruas protestando, fazendo valer seus direitos, se deve a internet. É claro que já existiram grandes momentos onde as mulheres ocuparam as ruas em alguns países nos últimos cinquenta anos, mas é só agora que vemos meninas de doze anos segurando cartazes onde está escrito ''o corpo é meu'''. É recente essa consciência e empoderamento.

Nenhum círculo, por mais privilégios que tenha, se abriu para o feminismo. O movimento sempre correu por fora, na margem, nunca no centro. É um erro pensar que as mulheres que frequentam escolas particulares têm mais acesso a ele do que as que estudam em escola pública. O mundo não quer saber de feministas, não importa a origem delas. Por isso digo, o único privilégio que todas temos, e nisso é democrático, é conhecer o feminismo, é nossa única chance de mudar a história, pelo menos a nossa. É a única oportunidade de aliviar nossa dor e transformar o planeta. E quem tem grupos no Facebook, meu apelo, deixem de excluir outras mulheres, percebam a realidade, que é bem pior do que parece, todas nós, todas, somos excluídas pelo mundo, pra quê começar a fazer isso entre a gente? Não se ganha uma guerra com soldados lutando em diferentes frentes. Ou vamos juntas ou continuamos todas na mesma merda. Vocês que sabem.




Iara De Dupont

Um comentário:

Anônimo disse...

Pura verdade, Iara!

Temos que parar de brigar entre nós! Vamos nos unir, mulheres!

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