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29 outubro 2015

Mexeu com as estrias, mexeu comigo! Não te mete Romeu!




Durante anos no ativismo contra os animais em laboratórios bati de frente com uma questão, uma especie de divisão mental ética, onde um ser humano pode separar o que parece conveniente ou não. As pessoas me diziam- Não estou de acordo com o uso de animais em testes, mas se não for isso como vão descobrir os remédios?

Na mesa acontecia a mesma coisa, as pessoas dizem- Acho um horror ter um animal preso a uma coleira, mas eu não posso viver sem comer meus bifes.

Como humanidade batemos de frente com a questão do jardim, aquela que limita nosso espaço, crenças e gostos. Se a tragédia não acontece no meu jardim, então que se dane, eu continuo levando minha vida do meu jeito. 

Todos fazemos isso, somos fofos até a segunda página, mas depois escrevemos a história a nossa conveniência.

O problema é que viver com um pé em cada canoa leva todos a se afundarem, estar em um planeta onde todos temos apenas ''meia-crença'' em qualquer coisa, impede que muitas coisas possam ser soldadas.

Não dá pra ser ''meia'' disso ou daquilo, muitos dizem que é apenas adaptação, nós adaptamos as ideologias a nossa vida, assumimos um processo orgânico, onde aquilo se ajusta a nós sem causar nenhum mal, nem pede por grandes mudanças.

Li muito sobre os animais em laboratórios, os argumentos das farmacêuticas, as razões dos governos e cheguei a uma conclusão, pelo menos para mim, isso não é o certo e não discuto mais o assunto, fechei o capítulo, hoje tenho certeza de que não se chega ao bem pelo caminho do mal.

E para minha surpresa comecei a ver esse mesmo comportamento em relação ao feminismo, principalmente nas mulheres latinas, que entendem o que é o abuso na rua, mas toleram em casa. Já falei muito sobre isso, essa dualidade que muitas mulheres vivem.

Parece que as mulheres dão uma margem de tolerância enorme aos seus Romeus, a mesma que entendem ser uma violência nas ruas, aceitam em casa.

Eu tive durante anos um ponto fraco, minhas estrias. Já mereceram posts e muitas sessões de análise. Talvez por isso o assunto ainda seja para mim um nervo exposto, me irrito profundamente quando alguém menciona qualquer coisa, mesmo que não seja dirigida a mim.

Há pouco tempo resolvi comprar uma base para o rosto. Na maioria das lojas de cosméticos em São Paulo, as vendedoras não sabem explicar nada sobre os produtos, coisa que até entendo, com os baixos salários e as longas jornadas de trabalho, não tem mesmo como se interessar pelo que vendem. 
Eu estava lá procurando a maquiagem, quando uma moça ao meu lado começou a conversar sobre os produtos, procurávamos a mesma coisa, mas ela queria também uma base para o corpo, uma maquiagem que não manchasse a roupa. Perguntei onde queria usar a maquiagem e me disse que na área do pescoço, no colo, porque iria usar um vestido de noiva decotado e queria uma maquiagem que uniformizasse a pele. Fiz isso muitas vezes, por questões de trabalho, passava maquiagem comum e depois colocava o fixador. A moça parecia preocupada em não manchar o vestido, tanto disse sobre esse ponto, que a aconselhei a esquecer a maquiagem. E ela me respondeu que se fosse sua escolha não estaria procurando, mas o noivo tinha comentado que era ''feio'' usar um vestido com um pouco de decote se tinha estrias e elas eram visíveis, então a sogra sugeriu a maquiagem. A mãe dela pensou em uma decisão mais radical, era melhor trocar o vestido por um mais fechado e assim todo mundo ficaria feliz.

Escutar na mesma frase ''estrias e meu namorado'' me fez pular ao teto. Perguntei se ela se sentia constrangida pelas estrias, ela garantiu que não, que não estava nem ''aí'', mas o namorado vinha fazendo pressão, dizendo que ''coisa feia a gente não mostra''.

Me pergunto como é possível identificar isso na rua e ignorar em casa? Qual a diferença entre uma pessoa que olha as tuas estrias na rua e diz ''nossa, que feio'' e uma pessoa que te ama, mora na mesma casa e diz a mesma coisa? Por que entendemos a violência na rua, mas quando sofremos ela em casa fazemos a leitura de ''ele só quer meu bem''?

A falta de consciência de que o corpo é nosso e ninguém tem nada a dizer sobre ele me preocupa mais dentro de casa do que fora dela. Nas ruas qualquer mulher sabe o que é agressão, mas e em casa? Que mágica é essa que o Romeu usa que deixamos de lado a agressão e a transformamos em um conselho de quem supostamente nos ama?

A minha trajetória em relação ao meu corpo e o domínio dele tem sido fragmentada, mas ficou claro para mim que a porrada dentro de casa me causou mais problemas do que fora dela.

Passei dezoito anos da minha vida fazendo teatro, tive, mesmo sem querer, que dividir espaços, ônibus apertados e me troquei perto de homens diversas vezes e claro que escutei comentários sobre estrias. Fiz testes e passei um sem fim de humilhações pelo mesmo motivo. As estrias exercem um fascínio e as pessoas não conseguem tirar os olhos de cima delas, acho que é uma coisa assim.

Uma vez em um teste me deram um vestido muito curto e decotado, eu avisei que não ia ficar bom, mas tive que usar. E escutei quando o diretor disse ao assistente ''olha, se dia precisar de uma atriz para fazer o papel de alguém que se queimou ou passou por um acidente, chama essa''.

Mas não foram dias apenas de tragédias, teve muita gente que me ajudou, figurinistas que corriam por blusas com mangas, pessoal da maquiagem que me ensinou truques e muitos atores que sempre foram educados e gentis. Talvez por isso não guardo mágoas nem ressentimentos, lamento algumas vezes a falta de respeito, mas nada além disso me tira o sono. Ninguém na rua me magoou o suficiente para que eu venha aqui chorar pitangas. O que me destruiu durante anos, me rasgou a alma e ainda me causa problemas, foram os Romeus e seus comentários. Foram os homens que coloquei na minha cama que me magoaram e me deixaram ressentida com muitas coisas.
As frases ditas por estranhos sobre minhas estrias nem lembro de todas e nem pararam minha vida, mas as vezes que Romeu mencionou o assunto, me congelei no tempo.

É apenas isso que digo com insistência, a violência velada que sofremos dentro de casa tem consequências, algumas vezes, piores do que as que sofremos nas ruas. E muitas mulheres, eu me incluo nelas, levamos tempo para enfrentar os homens que amamos, não somos tão rápidas no gatilho, depois da agressão recuamos e ficamos ali, paradas no espaço. Se fosse um estranho poderíamos ofender, gritar e sair correndo, mas fomos educadas para entender que Romeu só fala as coisas para nosso ''bem'' e se enfrentamos ele estamos destruindo quem tanto nos ama.

Isso me atormentou durante anos, minha capacidade de reação no mundo, mas minha lerdeza e paralisia diante do Romeu.

Nós temos que aprender a reagir aos Romeus, temos que ver que eles podem ser tão abusadores quanto os homens que estão nas ruas, não há diferença nenhuma quando se trata de ofender. O corpo da mulher não é da conta deles e se querem cuidar de um corpo que cuidem do seu.

Estamos sendo massacradas pelos dois lados, de um lado temos anúncios, comerciais, filmes e novelas o dia inteiro, mostrando um padrão de beleza que não existe, do outro lado Romeu recebe a mesma informação e vem pra cima de mim cobrar essa perfeição! Eu não aguento mais!

Não tenho ódio do mundo pelos comerciais de mulheres perfeitas, mas tenho ódio dos Romeus que me detonaram, até porque durante anos carreguei a sensação de que era minha culpa, que eu tinha ficado sensível demais a um simples comentário e que se o homem era cafajeste a culpa era minha por ter o escolhido.

Levei séculos para entender que os homens são assim porque a cultura permite, não é questão de ser cafajestes, eles acreditam que são donos do corpo da mulher e podem dizer o que quiserem, é parte da educação machista ficar em cima e dizer a mulher onde ela tem que melhorar.

Falei para a moça da loja que ''feio'' não era ter estrias, ''feio'' era se casar com um homem tão limitado e se começa assim, ela que se prepare, porque as agressões vão aumentar. 

E isso causa prejuízos, pelo amor de Deus, o que me foi dito pelos Romeus acabou com minha vida sexual durante anos, não sai barato ser agredida pelo namorado, a gente carrega essa agressão durante vidas inteiras. Não podemos ser tão frouxas e permitir que agressões aconteçam, homem nenhum, em posição nenhuma, tem o direito de falar sobre o corpo da mulher.

Quando eu escrevi o post sobre estrias ( LINK) recebi centenas de emails, com histórias iguais. Mas uma delas me pareceu a mais genial de todas, alguém leu essa história em uma revista alemã e me contou. 
Um casal foi passar a lua de mel em Las Vegas, a moça disse que já eram namorados e o rapaz nunca tinha dito nada sobre as estrias. Um dia caminhando por Las Vegas, uma senhora parou eles e falou sobre uns descontos em uma clínica de beleza, com diversos tratamentos. O casal resolveu ir lá e estavam vendo os procedimentos quando apareceu um vídeo sobre uma técnica com laser para eliminar as estrias. De repente o rapaz ficou emocionado, perguntou o preço e quase caiu de costas quando foi informado, mesmo assim disse a mulher ''amor, faz isso, você tem muitas estrias, eu não me importo em parcelar em mil vezes, mas arruma tua pele''.
A moça disse que ficou congelada e perguntou ao Romeu se as estrias o incomodavam e ele respondeu- Não me incomodam, mas são feias de olhar.
Ela saiu do estabelecimento e diz que ficou um dia inteiro, andando pelas ruas, se perguntando o que tinha acontecido, porque ficou muito chateada.
Depois ela acabou voltando ao hotel para conversar com o Romeu, sentou na mesa com ele e disse tudo o que sentia, que estava magoada, que nunca pensou em suas estrias, lamentava o que ele tinha dito e a moça da clínica tinha sido clara, o tratamento amenizava, mas não fazia estria sumir e poderia não dar certo. Romeu tentou se defender, disse que falou por ''amor'' e não custava nada tentar o tratamento. Então a moça disse, 

-Bom, estamos em um ponto fundamental do nosso casamento, o começo dele, é hora de dizer tudo e ver se podemos lidar com o que pensamos um do outro, você não gosta das minhas estrias e eu acho teu pênis pequeno e fino, vi na internet algumas possibilidades de tratamento, ou um implante, enfim, não sei, você poderia procurar por isso? Não estou satisfeita com o tamanho.

Lógico que o rapaz gelou, o sangue parou de correr. Respondeu com aquelas baixarias que os homens usam quando se sentem ofendidos, falou, falou, usou todos aqueles clichês de que quem gosta de pênis assim ou assado são as vadias e tal.

Mas ela gostava dele e resolveu relevar o que foi dito, fechou a conversa dizendo,

-Te dou escolha, se minhas estrias te afetam tanto, então o casamento acaba aqui, mas se você puder superar isso, eu também posso me esforçar e superar teu pênis pequeno e podemos continuar tendo o melhor sexo do mundo, como já tivemos até hoje. Se você não pode esquecer minhas estrias, então a gente se separa e eu vou procurar um homem que não repare nisso e ainda por cima tenha um pênis maior. Você que sabe.

O rapaz escolheu continuar tendo o melhor sexo do mundo e nunca mais mencionou as estrias da mulher, pelo menos até agora e já são dez anos de casamento.

A mulher que disse isso só posso dizer-Se eu cair na mesma situação de novo, vou repetir exatamente o que você disse! Lacrou fiá!


Iara De Dupont

6 comentários:

Anônimo disse...

A-M-E-I a resposta da moça em lua de mel!!!! Também vou usar!

Suzana Neves disse...

Eu sou toda marcada por manchas de nascença parece que morri queimada que são brancas os poros do braço tbm.
Estrias na barriga braços e seios e o de costume flácida isso e aquilo.
Nunca ouvi nada negativo de um homem que estivesse me relacionando,mas sim de outras pessoas isso me fez bem até hoje mas se o jogo mudar também sei os pontos fracos dos outros.

C.Belo disse...

Meu Deus, a primeira coisa q eu penso qd leio uma história dessa é q eu acabaria o relacionamento na hora, mas a verdade é q não deve ser tão fácil assim.

Imagina só, se vc chegou até o ponto de se casar com alguém logicamente q não deve ser nada fácil simplesmente virar as costas e não olhar mais pra trás!

Ela teve uma ótima reação, sim, não se deixou ficar por baixo e tal, mas mesmo assim não consigo entender o relacionamento com homem assim.

Os homens são de maneira geral machistas e asquerosos, mas tal como a Suzana mencionou, eu tb nunca fui ofendida por um com quem eu me relacionei intimamente. Lembro bem da história q vc contou sobre o idiota mimimizento que se incomodou com suas estrias e foi mega escroto. Sinceramente? Acho q um homem desse vai além do machismo e entra mesmo no campo da misoginia. O não gostar de mulher no sentido amplo, q vai além do clichê "boiola".

É um homem q já está com a sua humanidade comprometida ao ponto de não tolerar características humanas de um corpo q engorda, emagrece, incha, desincha, se rasga em algumas partes possui células q inflamam gerando pequenos sulcos na superfície da pele, enfim, um corpo VIVO.

Na minha concepção, trata-se de um quase psicopata. Imagino um homem desse feliz da vida sec relacionando com uma daquelas bonecas robô realistas. E ainda achando q está em um relacionamento normal, lindo e sadio.

Carolina disse...

Iara,
que felicidade ver seu blog de volta!!! Amei o texto e a resposta da moça!!!
Beijos,
Carol

Anônimo disse...

E quando as pessoas que te magoam são pessoas da família? Aquelas que só falam essas coisas "porque te amam e querem seu bem"? :(

Anônimo disse...

Sou homem e tenho muitas estrias. Tenho muita vergonha delas. Tive poucas relações com mulheres nesses meus 30 anos. Algumas relações não levei a frente por causa das estrias. A última mulher com que eu sai ficou meio surpresa e não quis mais sair comigo. Sabe não é machismo ou padrões da sociedade. O ser humano tem gosto pelo o que é belo. E sempre correu atrás desse ideal. Desde de as esculturas gregas sempre se viu corpos sem defeitos com a musculatura definida e tal. E praticamente não existia mídia naquela época. Vem da natureza da espécie humana, é um extinto. Tanto para o homem e para mulher.

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