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23 março 2015

Romeu: o menino sempre contou com minha compaixão



Esta última semana foi pesada para mim por coisas escritas aqui noblog. Escrevo conforme épocas, que nem eu explico porque passo e nos últimos dias tenho me concentrado muito em escrever sobre os Romeus. Mas tenho dois princípios, um é que o blog é meu e falo do que quiser e outro que ninguém é obrigado a ler.

Mesmo assim agitei sem querer algumas águas, amigos que se sentiram um pouco ofendidos e um recente Romeu que parece que não gostou.
Escutei que ''generalizei'', ''falei mal de todos'', ''fui maldita e insensível''.

Não generalizo, sei que existem os Romeus decentes, mas minha teoria é simples, por acaso eles são educados para serem decentes? Não. Então como podemos esperar isso deles?

O outro dia no parque vi um menino de uns três anos escorregar e cair em cima de umas pedras, ele começou a chorar, o pai chegou e foi agressivo, levantou o menino do chão como se fosse de pano e disse ''deixa de frescura, quem chora é menina''.
Qualquer pessoa que tivesse caído naquelas pedras teria se machucado e sentido dor, mas esse menino não teve essa oportunidade, foi abusado emocionalmente, não recebeu apoio, nem consolo e ainda teve que engolir o choro, foi dito de maneira clara que ele não podia sentir o que estava sentindo.

Diante desse abuso posso imaginar que ele vai sofrer outros tantos. Vai ser incentivado a jogar e não perder, a brincar de luta com seus amigos e a bater nos seus inimigos. Talvez já tenha vários videogames violentos e seja aplaudido quando bate na irmã ou no cachorro.

Tudo o que fizer de errado vai ser visto como molecagem ou coisa de homem. E pode fazer tudo, menos brincar com os brinquedos da irmã ou demonstrar alguma empatia por alguém ou algo.

Um pouco antes da adolescência já terá sua sexualidade questionada, mesmo sem saber bem o que é isso. Talvez ele passe pelo o que meus primos passaram, todos com menos de quatorze anos foram levados a um bordel. E pode parecer uma coisa natural, mas é de uma enorme violência fazer isso com um jovem, no meu critério é um estupro colocar um garoto em um quarto e dizer ''vai lá e vira homem''. A cena me horroriza e nenhum dos meus primos contou isso rindo, o que me faz concluir que não foi uma experiência positiva.

E posso chegar aqui e dizer que meus primos são bons maridos? Não são. Mas como podem ser, se foram violentados dessa maneira? Desde pequenos também foram proibidos de chorar, todas a conexões emocionais foram blindadas e como vão ter compaixão ou empatia por suas mulheres, se ninguém teve por eles? Não é assim que se aprende? Nos conectamos com a dor do outro e podemos sentir compaixão, mas se eles são proibidos de sentir dor, como vão entender quando alguém sente isso?

Não critico os homens, critico a sociedade que os educa, pegando crianças inocentes e os tornando em adultos insensíveis e violentos.

Nesse panorama me atrevo a dizer que não confio em nenhum homem, mas é porque sei como foram educados, reconheço que não é sua culpa e depois de tantos abusos perdem qualquer emoção.

Entendo que sejam tão ruins na cama e tão desligados de seu erotismo, cresceram como animais, sendo submetidos a horas de imagens deturpadas do que é o sexo e obrigados a transar com qualquer mulher, para mostrar que são        ''machos''.

Quando digo que não confio em um Romeu, que eles são manipuladores e exploradores, estou dizendo ''sei de onde eles vem, sei o que a dor em silêncio é capaz de fazer em um ser humano''. Conheço o caminho, vi sobrinhos crescendo e também sendo impedidos de chorar. Um deles tinha uns quatro anos quando deixou o dedo preso em um armário, dor que faria qualquer ser humano se ajoelhar. Eu fui com os pais dele para o hospital e o tempo inteiro no carro diziam ao menino ''não chora, aguenta, homem que é homem não chora. Eu via as lágrimas dele caindo e ele aguentando a dor, mordia a boquinha para não demonstrar que era fraco. Posso esperar que cresça e entenda a dor de alguém? E como ele vai fazer isso se a dor dele ninguém entendeu?

Outro dia um vizinho estava se mudando e vi seu filho de seis anos carregando caixas pesadas, fui  lá dizer ao menino para não fazer isso, que era perigoso. O pai se aproximou e me disse ''se ele não fizer isso, como vai virar homem?''. Eu vi o menino me olhando, tentando ver em minha expressão se existia alguma alternativa menos dolorosa do que essa para ''virar homem''.

Jamais ignorei os abusos que os homens passam quando são crianças e adolescentes, eu sei de histórias na minha família que me envergonham, com essa dos tios levarem os primos ao bordel.
E lembro de um Natal, onde os tios juntaram os primos e resolveram fazer um campeonato para ver quem bebia mais. Meus primos tinham entre dez e quatorze anos e tiveram que entrar na brincadeira, caso contrário seriam perseguidos por anos, pela ''frouxice''.

Tenho um primo muito cuidadoso com sua roupa e sempre escutou que era ''meio gay'', mesmo não sendo.

Me compadeço deles, mas não lido com crianças, não sou pedagoga, eu lido com homens, ou seja, o resultado de uma educação abusiva.

Tenho plena consciência do mundo no qual vivo e que a educação machista não poupa ninguém. Sei que eles crescem debaixo de abusos e coisas terríveis, mas não posso mudar isso, não sou a responsável por esse padrão machista no mundo.

A única coisa que posso fazer é sentir compaixão e me cuidar, porque sei que é quase impossível encontrar um homem que não tenha resquícios de tanta violência sofrida.

E quando digo para as mulheres se cuidarem, não se deixarem envolver e pensarem bem onde estão se metendo, é porque sei como eles crescem e como é impossível pedir a um ser humano algo que ele não recebeu ou conhece. Não se pode pedir a um homem clemência, compaixão ou entendimento do sofrimento alheio se ninguém teve com ele isso quando precisou.

O cérebro humano é muito frágil, se alguem repete uma frase mil vezes durante dezoito anos, ela fica tatuada. Se um bebê  começa a andar e já escuta que ''homem não chora'', como pode crescer e ser emocionalmente saudável?

Até porque não se chora apenas de dor, mas de alegria, cansaço, irritação, todos os sentimentos podem levar ao choro.

Mas infelizmente não se pode navegar em duas canoas neste mundo. Sou humanista e gostaria de ver todas as causas ligadas aos direitos humanos resolvidas, mas não posso me dividir em mil. Escolhi meu lado, o lado que tanto conheço, da maneira como nós, mulheres, somos criadas. Falo disso, penso e debato sobre esse assunto. Não lido com assuntos ligados a infância, apenas com suas consequências. E temos elas diante de nós, meninos abusados socialmente, obrigados a brigar como se fossem cães, proibidos de chorar, resultam em adultos desequilibrados, chantagistas e infelizes.

É claro que me sinto mal por tudo isso, mas não posso deixar ser manipulada novamente pelo passado alheio. Tive um Romeu que tinha um pai violento, capaz de abusos que não posso nem escrever, aguentei muito dele  porque achava que não era sua culpa, mas fruto de uma educação. Éramos o desenho social perfeito, um homem desequilibrado, consequência da violência que viveu e uma mulher submissa, consequência da educação servil que recebeu.

Acredito que a infância tem que ser protegida a todo custo, abusos em crianças têm que ser punidos, mas como falar disso se as pessoas nem identificam o abuso social? É um crime proibir um menino de chorar e isso tem consequências terríveis, mas para mudar isso precisamos de uma nova sociedade, uma nova consciência.

Meu coração aperta quando vejo alguém dizendo a uma criança que não pode chorar, mas entrar na discussão é mais complexo do que parece. Uma vez em uma roda de amigos eu mantive meu ponto de vista, jogar um garoto de doze anos na frente de uma prostituta me parece um estupro e os homens da mesa quase me bateram, chamando de ''exagerada''. Fiquei chateada aquela noite, mas dois dias depois um deles, que nem era meu amigo, me mandou um email dizendo que eu tinha razão, que ele não me defendeu no dia da discussão porque não me conhecia, mas ficou pensando e teve vontade de me dizer que foi levado ao bordel aos onze anos e foi uma experiência traumática.
Mas entender e me compadecer não quer dizer que eu abra meus braços aos adultos e diga que são bem vindos. Também lido com os demônios da minha educação e não quero mais lidar com os alheios.

Sei que todos nós passamos por abusos na infância, o problema é que vivemos em uma sociedade que enxerga apenas o abuso fisíco e sexual, ignora o verbal, o social e o de genêro, que também tem suas consequências.

E não é só teoria, existem estudos sobre os soldados alemães durante a segunda guerra mundial, eram barbaramente treinados para não verem os prisioneiros como seres humanos, assim poderiam executar as ordens sem questionamentos ou culpas. Essa parte é fundamental na educação militar, ver o inimigo como um animal que deve ser abatido, sem criar conexões emocionais. É isso que acontece na educação de todos os homens ao redor do mundo, são treinados para ignorarem suas emoções e não desenvolvem compaixão por nada.

Mas apesar de tudo, tenho conhecido ótimos adultos, homens que conseguiram superar um pouco seu passado de criança abusada ou tiveram pais iluminados, que souberam respeitar suas emoções. Infelizmente a grande maioria não tem a mesma sorte e cresce como todos, aos trancos e barrancos.

Não gosto da divisão de genêro, nem do vitimismo ou coitadismo. Mas a realidade indica que as mulheres são as que pagam a conta, sofrem e morrem nas mãos dos violentos Romeus. Muitos vão dizer que as mulheres educam os homens, mas esse argumento me parece fraco, porque por melhor que seja a educação da mãe, o menino ainda vai ser influenciado pelas figuras masculinas e os amigos, em algum momento vai cair nesse círculo de abusos, onde homens não choram.

A quem me chamou de insensível e fria, só posso dizer uma coisa, foi injusto. Tive a mesma educação distorcida do que muitos, passei e passo por muitas dores, mas nem por isso saio torturando, estuprando e matando homens. É nesse ponto que a educação nos separa, mulheres são tão oprimidas que não reagem e homens são tão incentivados a reagir que surtam e ficam violentos. É nessa divisão que eu me separo da linha humanista que inclui a todos e fico apenas de um lado, sei que a maioria das vezes minha visão é unilateral, o que dá a impressão de que odeio os homens, mas não é verdade, é apenas uma questão de matemática. Por mais que eu me compadeça pelos homens sei que não estão morrendo na mesma  velocidade que as mulheres, pelo menos não nos relacionamentos.

Também sonho e gostaria de um mundo sem tantas divisões de genêro e mais diversão, mais encontros nas semelhanças do que guerras nas diferenças. Mas no momento as coisas são assim.

Os olhos de um menino sempre vão contar com meu esforço para que vejam um mundo melhor, mas não me sinto obrigada a dizer o mesmo de um adulto.

Posso ter sido dura e sei que sou, algumas vezes, com uns Romeus, mas é a maneira como o mundo foi desenhado, não vou recuar nem me desculpar por criticar os homens. Lamento pelo menino abusado, sei que ele existe dentro de cada homem, mas nem por isso posso fechar os olhos e dizer que está tudo bem.

E sei que se um dia alguém tivesse dado colo a esse menino, o mundo não estaria na situação que está.


Iara De Dupont


7 comentários:

Anônimo disse...

Depois de adulto sempre é possível se levantar e pedir ajuda. Mas parece que até isso o machismo tira até dos privilegiados por ele, os homens. É um dos motivos pelos quais tenho nojo e desprezo de quem se diz machista com orgulho e, pior ainda, machista "esclarecido". Ah, e esse negócio de ensinar a ser macho quem costuma fazer são os pais, não as mães. Suponho que as mães tenham (muito) mais o que fazer da vida do que ficar controlando se o filho "vira" gay.

Anônimo disse...

Eu sou homem e nunca sofri nenhum tipo de abuso; considero que recebi dos meus pais uma educação exemplar em termos de equidade e sensibilidade; nunca fui incentivado a ser agressivo; sempre respeitei as mulheres, não tenho traumas de infância e nem de relacionamentos passados, e acho que justamente por isso sinto uma repugnância profunda pelo modo como você fala dos homens.

Ao me incluir entre as supostas vítmas de abuso educacional que se tornaram monstros, você apenas reitera a sua limitação.

Você está apenas justificando o seu preconceito com esse papinho de meninos abusados. NÃO FUNCIONA. A CARAPUÇA NÃO VESTE.

E digo mais: os homens corretos e equilibrados - e não os meninos abusados - são os maiores injustiçados pelo seu discurso.

E antes de dizer que esses homens são uma minoria ínfima, pare para pensar se você mesma, POR MEIO DESSE DISCURSO DE VÍTIMA, não está se confinando a um espaço social definido pela presença de pessoas abusivas e problemáticas.

Enquanto você se aferrar com orgulho a essa unilateralidade feminista confessa, não conhecerá pessoas melhores.

Porque o mundo só faz sentido para você se você estiver na posição de vítima. Ou se todos, inclusive os homens, estiverem na posição de vítimas.

Fora dessa posição, você não consegue se relacionar com o outro. Por isso você sempre retorna ela.

O feminismo se tornou uma prisão mental.

Pior para você.

Iara De Dupont disse...

Anônimo 2 : Vou usar com você a mesma psicologia barata que usou comigo, assim tenho a certeza de que vai entender.

Eu não gosto, não curto e não me identifico com blogs sobre videogames e coisas assim. Se por acaso me mandam um link e eu abro, bom, vejo que não é minha praia e vou embora. Entendeu?

Você sente repulsa pelo o que escrevo sobre os homens e tal, mas se sente na necessidade de me ofender e mandar o comentário, o que me prova que você em algum estágio interno se sente identificado, caso contrário não teria reagido.

E veja bem, vamos ir mais longe, rezo para que você entenda. Se você é tão equilibrado como diz ser e tão correto não sentiria nenhuma atração pelo meu blog e menos ainda para mandar algum comentário. E eu ainda suponho que você foi responsável pelos emails ofensivos que chegaram hoje, vendo que não publiquei nenhum, mudou sua linguagem.

E quando você gasta seu português dizendo que sou isso ou aquilo, eu leio ''patriarcado injuriado reagindo''.

Todas as mulheres que reagem escutam o que eu venho escutando há anos, é verdade que cansa, mas a pior parte é descobrir que não existem homens equilibrados, no fundo todos vocês são uns loucos quando contrariados. Porque você se diz quase um exemplo de correto e está perdendo teu tempo aqui?

Mas adorei essa de conhecer pessoas melhores, meu bem, não existem homens melhores ok? Vamos acordar pra vida e assumir que nenhum de vocês presta.

Faz um favor? Me esquece, vai ver pornografia e não me encha mais o saco.

Anônimo disse...

Anônimo mascu, se você está carente e quer um pouco de apoio, veio pro lugar errado. Aqui até onde eu sei não sobra peninha pra quem diz que mulheres que tiram a máscara de homens violentos e desrespeitosos são vimitistas. Se quer um espacinho onde todos vão te parabenizar e mimar por ser um mascu chato, volta pro teu fórum e fica lá. Acho que ninguém vai sentir tua falta, ou vai? Bom, eu não. Se depender de mim pode fazer as malas e partir.

Patricia disse...

Iara,chorei por dentro,lavei a alma,e pensei nos meus filhos,porque me identifiquei demais om esse texto;em muitos momentos vi meu irmão ser proibido de brincar com bichinhos de plástico e casinha com minha irmã pequena"porque senão ia virar viado"(e ele,coitado,morrendo de vontade brincar,nunca mais se manifestou,e se fechou!),e nós,as mulheres da casa,também tivemos uma educação repressora,cheia de violencia(surras,gritos e abusos psicologicos)...

resultado:meu irmão se fechou para relacionamentos,eu e minha irmã precisamos de tratamento,por havermos desenvolvido Toc,borderline,e sindrome do panico...

...se possível,nunca pare teu blog,ele é um dos que representa a voz de milhares de mulheres que,como eu,sempre foram obrigadas a se calar e ter os pensamentos,idéias e reclamações tachados de "frescuras"...

...tive sorte com o romeu,mas,nem sempre tenho sorte com os meus demonios internos,resultado de vários traumas;traumas que vi nos outros,traumas que vivi em mim..

tenha uma ótima tarde amiga!Apesar de tudo,somos sobreviventes!

Patricia

Anônimo disse...

Não tive paciência para o "iuzomismo" do texto!

Tadeu Diniz disse...

Lendo seu texto, preciso ser grato à minha mãe, que sempre me deu colo e me permitiu chorar. Mas o mundo é mesmo cruel.

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