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01 março 2015

Quando a gente se engana


No mundo higienizado e pasteurizado do Facebook, onde tudo é desfiado e misturado ao açúcar, todos os dias circulam as mesmas frases, já resumidas de grandes textos. A mais famosa é a de Sócrates ''conhece-te a ti mesmo'', usada até a exaustão, mas pelo menos sintetiza uma das grandes verdades da vida, ou talvez a grande verdade.

Me sinto obrigada a dizer, poucas frases são tão verdadeiras quanto essa, sempre que a leio me afundo na cadeira e percebo quanto falta ainda me conhecer. As maiores besteiras que fazemos é porque não nos conhecemos e as melhores coisas são fruto do nosso autoconhecimento.

Há um tempo deixei de lamentar os caminhos que não escolhi, quando alguém me disse que eu lamentava os caminhos rejeitados porque não os tinha atravessado e não conhecia a dor que estava em cada um deles. Só conhecemos as agruras dos caminhos que passamos, o resto é suposição.

Mas tenho uma sensação no fundo da minha alma, de um caminho que não fiz, não conheci e não poderia fazer agora.

Levei anos para entender que eu era uma mistura, mas nem por isso todos os elementos tinham a mesma intensidade e estrutura.

A minha vontade sempre foi de cair na vida, queria ver o que acontecia no mundo, dar umas voltas, passear pelo planeta. Todas essas vontades eram intensas e sinceras, e acabei achando que eu era assim em tudo, desconhecia uma parte de mim que era tranquila, estável e sem nenhuma ambição. Me atrapalhei pela falta de autoconhecimento e acabei tropeçando em coisas que não tinham nada a ver comigo.

O ponto é que sempre fui curiosa e com vontade de crescer, mas emocionalmente gostava de sentimentos seguros e namoros sossegados.

Quando tinha uns dezesseis anos conheci um Romeu. Eu gostava dele, mas não sabia o quanto e todos ao meu redor me diziam que não era para mim. Ele era o oposto, de um jeito calmo, sem grandes vontades, para ele tudo estava ''bem''. Uma amiga, tão sedenta de vida como eu, me disse uma vez ''teu namorado é medíocre, você merece um homem mais parecido ao teu jeito, esse aí é molenga, não vai sair do lugar nunca''.

Eu começava no teatro e ali parecia estar cheio de homens que tinham alguma coisa a ver comigo, eram curiosos, amavam arte, adoravam cinema, ao contrário do meu namorado quase adolescente, preguiçoso, que gostava de jogar videogame e empurrava com a barriga uma faculdade nutrição, que depois trocou por fisioterapia e acabou em pedagogia.

Lembro das conversas dele e entendo hoje os conflitos que apareciam. Naquela época ele achava incrível ficar na minha casa cozinhando, não fazia questão de sair, falava em filhos e uma vida mansa. Eu subia paredes quando escutava, mas me enganava, eu gostava das coisas que ele dizia e no fundo pensava que seria legal, mas estava totalmente dominada pela ideia de que a vida não era para ser morna. Eu não conseguia me ver e separar meus sonhos por departamento, não conseguia perceber que tinha vontades e curiosidades na parte profissional e espiritual, mas emocionalmente eu queria um namorado como ele. 

Eu me via como um bloco, tudo do mesmo jeito e com mesma intensidade. Pensava que essa unidade era a que mantinha tudo ligado, se eu era intensa no teatro, assim devia ser minha vida pessoal. Resisti a muitas coisas, porque iam contra minhas crenças, mas mantive a ideia de namorar Romeus intensos, longe do jeito do meu primeiro namorado.

Fiquei um bom tempo indo e vindo no namoro com ele, nunca deixamos de nos falar. Eu batia a cabeça na parede, negava ser assim, mas adorava os dois ambientes que navegavam em minha vida. Eu ficava agitada nas aulas de artes cênicas, babando na convivência de pessoas tão interessantes, mas gostava muito dos dias relaxados que passava com Romeu. Nós não brigávamos, apesar da distância intelectual entre os dois, eu gostava de livros e ele de esportes, mas nunca batemos de frente com isso, nem nos agredimos, cada um tinha seus gostos.

Depois que o namoro terminou resolvi assumir minha falsa vida, dizia as minhas amigas que jamais voltaria a namorar um homem estacionado, medíocre e de sonhos pequenos. Mergulhei no oposto disso, comecei a sair com os malucos, egocêntricos, desequilibrados, ambiciosos e pretensiosos. Aquilo parecia fechar com minha ideia de namorar pessoas intensas.

Passei anos entrando em relacionamentos malucos, abusivos, mas intensos e com homens fora do normal, sempre com uma inteligência acima da média. Descartava os acomodados, que não tinham vontade de fazer nada no mundo além do mínimo. Sempre que encontrava com um homem mais parado, pensava no Romeu que tive e mudava de ideia, eu sentia que precisava de homens mais interessantes.

E acho que foi no ano passado, não lembro a data, que encontrei esse Romeu novamente, depois de anos sem vê-lo. Foi aquele encontro estranho, ele estava com a esposa e os três filhos, vivendo o que sempre quis viver.

Se eu tivesse ficado com ele não teria feito muitas coisas, nessa parte não me arrependo, no meu caso e naquela época teria sido amarrar um cavalo selvagem, eu precisava cair no mundo, nunca teria dado certo ficar com ele naquele momento.

Mas se eu tivesse tido um pouco de autoconhecimento teria percebido o quanto gostei dele e o quanto ele tinha a ver comigo emocionalmente. Me enganei durante anos, menti para mim mesma, me convencia que eu não tinha nada a ver com esses Romeus parados, eu deveria namorar homens incríveis.
Hoje entendo a importância de um relacionamento saudável e eu tinha isso com ele, porque fez a coisa mais importante que um ser humano podia fazer pelo outro, ele me aceitava do meu jeito, o que eu pensava, dizia e fazia não o irritavam nem o desafiavam, ele podia ver quem eu era e aceitar isso sem conflitos nem ameaças.

Depois dele entrei em um espiral de Romeus que não me aceitavam e massacravam constantemente.

Fiz o que tive vontade, mas acabei voltando ao mesmo ponto, percebendo tarde demais a importância de estar com alguém que nos aceite e não se sinta agredido pelo nosso mundo.

Lembro desse Romeu jogado no chão do meu quarto, onde tinha umas almofadas e me escutando falar sobre tudo o que eu sonhava na vida. Nada daquilo era motivo de gozação ou humilhação, a gente conversava tranquilamente, dava muitas risadas, discutia sobre as melhores músicas do nosso grupo de rock favorito e algumas vezes minha mãe entrava no quarto, dizia que procurando alguma coisa, mas estava de olho e Romeu perguntava:

-Dona, a senhora vai cozinhar comida mexicana hoje?

Minha mãe o adorava, ele lavava a louça, fazia piadas, convivia da maneira mais amena possível. 

Me faltou autoconhecimento para perceber que minha mente é agitada, mas meu coração é manso, gosta do caseiro, do conhecido. Se eu tivesse tido essa consciência, talvez teria me casado com ele, estaríamos juntos até hoje, percebi tarde que sou um tipo de pessoa que poderia ficar casada durante décadas, porque além de ser tranquila nessa área, sou muito preguiçosa emocionalmente, nunca tive vontade de sair pulando de cama em cama, nem de namorar vários homens.

Confundi isso durante anos, achava que minha fome de viver era a mesma coisa que minha fome emocional, mas a diferença é enorme. De um lado tenho um apetite gigante, quero tudo, mas do outro me contento com um pouco de arroz e feijão caseiro, sem grandes emoções.

Gosto de sair para o mundo, mas na hora de voltar para a casa me contento com um Romeu jogado nas almofadas, conversando e me aceitando do jeito que sou. Quando tive isso não dei bola, hoje me parece a visão do paraíso. E quero voltar pra lá.


Iara De Dupont

2 comentários:

Iara De Dupont disse...

Tudo bem, anônimo, eu não publico o comentário, mas me sinto obrigada a responder.

O feminismo me libertou, não é uma questão de base intelectual, é uma base espiritual, que me fez perceber que sou um individuo, não um apêndice de homem.

Feminismo não é para mim um figurino, é uma tatuagem.

Suzana Neves disse...

Ai eu sonhei com essas coisas e as tive tbm sou preguiçosa emocionalmente .
Mas quero mais daqui pra frente estou louca para me provar como pessoa.

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