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04 março 2015

Perfume brasileiro tem cheiro de banho de descarrego!

O GIGANTE PERFUME IMPORTADO


E AS PEQUENAS, MISERÁVEIS, INEXPRESSIVAS E ÁGUAS DE DESCARREGO BRASILEIRAS



Já li  muito sobre países colonizados, sei de cor todas aquelas histórias sobre o complexo de vira latas que desenvolvem, a certeza de que são uns coitadinhos e inferiores, mas sempre me pergunto, não tem como evoluir? 

Essa é minha principal reclamação com o Brasil, a zero preocupação de ir para frente mentalmente, se livrando dos conceitos errados que amarram o país. Se sabemos que um pensamento nos faz mal, por que continuamos do mesmo modo?


Esses dias passei por uma discussão que me irritou muito. Fui com uma amiga a uma loja de perfumes que estavam em desconto, fui lá umas três vezes com diferentes pessoas para comprar.


Eu estava experimentando, quando achei uma água de cheiro de pitanga. A pitanga é fruto da pitangueira, uma árvore de origem brasileira. Me encantei com o cheiro e resolvi comprar, mas minha amiga me disse que não, perguntei o motivo e ela respondeu:


-Ah, é um cheiro...sei lá....Não me parece fino!


Mas tem cheiro de que?


-De pobre! Perfume de pitanga, parece perfume de pobre. Esses cheiros de pitanga, maracujá, sei lá, parece tudo perfume de empregada.


Deixa eu pensar, as francesas são apaixonadas por rosas, mas elas têm origem nobre, são asiáticas, e já eram conhecidas e usadas para perfumes antes de Cristo, então perfume de rosas é chique.


Já as americanas amam seus perfumes de jasmim, a flor apareceu na Europa. Perfumes de jasmim são caros, mas são os mais consumidos pelas americanas.


Brasileiras, francesas e americanas são as maiores consumidoras de perfumes do mundo, mas pelo jeito só as francesas e americanas são elegantes.


Pitanga é um fruto de uma árvore brasileira, por que não é tão nobre quanto a rosa ou jasmim?


Adoro perfume de rosas, até coleciono, mas me irritei com minha amiga, esse desprezo pela cultura brasileira me parece elitista e besta, porque o perfume de pitanga é bom, talvez seja um cheiro que nossos narizes ainda não estão acostumados, mas é representa o Brasil e sua riqueza de árvores.


Comentei com minha amiga que não consigo ainda fazer essa divisão de perfumes de sinhá e de escravas, porque no Brasil parece que essa linha existe. Me disseram que os perfumes da Avon passam por esse processo, não tem glamour porque são consumidos pela classe c, e os do ''O Boticário'' também acabaram com fama de ''perfume de pobre''.


E não discuto os cheiros e gostos, cada um tem o seu, o que me indigna é o desprezo ao que é nosso, a árvore de pitanga, a pitangueira, é nossa, é o que temos aqui, por que então ficar só babando no perfume de jasmim francês e rosas belgas? Poxa, será que somos tão merdas assim? Nossas árvores, flores e frutas não valem nada?


Minha amiga ainda tentou consertar dizendo:


-Tem muita marca usando a essência de pitanga, mas isso não significa nada! Quero ver alguém usar esse perfume em um lugar bom, de classe, não dá, vai chegar lá com cheiro de perfume de banho de descarrego?


Como assim descarrego?


-É, nunca viu esses banhos de descarrego? Todos têm um cheiro parecido a esse! Eu jogo uma mistura para limpar minha casa de energias ruins que cheira como esse de pitanga!


Mas é esse que vou levar!


-Aff, Iara, depois fica falando que adora perfume e sei lá mais o que....e vai comprar justo esse de pomba gira?


E aí começou outra discussão, o preconceito religioso, ou seja, perfumes de matéria prima brasileira são perfumes usados em misturas de banho de descarrego? Jesus, mas que tão longe podemos ir como nação se pensamos isso de um simples perfume de pitanga? Como é possível que a colonização tenha chegado a um ponto onde discriminamos um fruto de uma árvore e exaltamos a flor de outra, porque é estrangeira? E ainda associamos o cheiro a rituais religiosos! Que não seja por isso, todas as igrejas católicas fazem rituais com flores, rosas e árvores, desde o incenso até as missas, então qual o problema? Quem nunca entrou em um velório e sentiu cheiro de flores? Só por isso então a flor é ruim? 


É impossível não reconhecer a qualidade dos perfumes franceses, especialmente de jasmim e rosas, vão além do cheiro, são experiências de vida. A indústria brasileira não chega aos pés, não forma perfumista e ignora suas matérias primas, fica correndo atrás de copiar os lançamentos franceses. Mas não posso jogar a culpa na indústria daqui, diante desses consumidores capazes de dividir um aroma entre perfume de ''patroa'' e de ''empregada'', qualquer empresa desanimaria na hora de jogar dinheiro nas matérias primas brasileiras. Mesmo assim, o que minha amiga desconhece é que esses águas de cheiro, de pitanga, lavanda, e outras, são as campeãs de venda no Brasil, superando até os adorados importados.


Não se pode ignorar a qualidade dos perfumes importados, mas é necessário desconstruir nossas crenças e parar de associar cheiros de frutas e flores brasileiros a cheiros de banho de ''descarrego''. Desde que o mundo existe o ser humano usa flores em seus rituais de limpeza corporal e espiritual, nem é preciso religião, muitas crenças foram espalhadas e o ser humano sempre se sentiu atraído por plantas e frutos com cheiros fortes e considerados agradáveis, é parte de nossa natureza usar de todas as maneiras possíveis.


Essa mentalidade fez do Brasil um país sem nenhuma importância no mercado competitivo dos perfumes, mundialmente não temos nome nem fragrâncias copiadas, somos apenas um país de terceiro mundo copiando o que os franceses fazem. E sabe o que eles fazem? Eles vem ao Brasil atrás da matéria prima, desenvolvem o perfume com nossas flores, frutos e plantas, colocam etiquetas em francês e nos compramos, crentes que estamos recebendo um produto ''made in france''. O conceito é, a matéria prima não. Até nisso somos otários, deixamos os outros levarem a nossa matéria prima. Já fomos roubados uma vez e pelo jeito será sempre assim, porque o mundo reconhece a riqueza de essências que temos, mas nós não, ainda estamos preocupados em consumir tudo que marque a linha que nos separa, a sinhá da escrava. E perfume de sinhá jamais vai ser o mesmo da escrava, até nisso mantemos a distância. Enquanto isso o mundo leva embora toda a nossa biodiversidade. E a gente aqui, discutindo os limites da senzala e a casa grande.


Iara De Dupont

6 comentários:

Suzana Neves disse...

Adoro cheiro de pitanga e odeio perfume com cheiro de doce.

Anônimo disse...

Acabei de fazer um duplo facepalm aqui... só não comecei a bater a cabeça na mesa porque tô no trabalho e iam estranhar. Mas a verdade é essa mesmo, pra brasileiro só o que vem de fora presta. Se não fosse essa mentalidade estúpida, por que venderiam água francesa nos supermercados? Tem uma rede de restaurantes americanos especializados em grill, churrasco, muito famosa por aqui que todo mundo que eu conheço detesta. Minha irmã disse que a carne era dura. Uma amiga dela reclamou também. Um casal contou na internet que, além do chá gelado ter vindo sem gosto e a carne queimada, preta mesmo, ainda tentaram enganá-los virando o queimado pra baixo e tentando por tudo obrigar a moça a não mandar o prato de volta. Uma anônima que trabalhava lá contou que o regime é de quase escravidão. Nunca ouvi um elogio à comida de lá, e o desrespeito ao consumidor parece ser a regra, mas o povo vai em peso só porque é americano. Dá raiva, viu? Nem os próprios cães vira-latas são tão complexados quanto os brasileiros. Ao menos os cães sabem que merecem o melhor que puderem lhes dar, mesmo não tendo pedigree.

Patrícia disse...

Acho que cheiro é questão de gosto. Quando eu entro no ônibus e cada um usando um perfume, eu quase morro de agonia e aflição, não importa se a pessoa usa importado ou ou perfume barato, acho que tudo tem um momento.
Mas o que eu percebo é que o brasileiro se contenta com qualquer coisa. Acho as embalagens e as apresentações daqui muito meia boca.
Eu sou apaixonada por esmaltes, tenho mais de duzentos vidros. O que existe em matéria de importado não se iguala. Acabamentos que lá fora existem há séculos e só agora surge aqui, como novidade. Exemplo: quando a Giovana Antonelli apareceu na novela usando um esmalte azulão foi um escândalo, todo mundo quis, o esmalte esgotou, vendiam por preços inacreditáveis até quando se encontrava. Mas esta cor já é comercializada lá fora há anos, há muito tempo que eu uso exatamente esta cor, anos antes desta novela, e detalhe, de uma marca nacional, mas ninguém então dava bola. As pessoas não sabem dar valor ao que é nosso (que realmente merece ser apreciado porque nem tudo é bom só porque é daqui). Mas também algumas empresas deixam a desejar.

Patricia disse...

clap clap clap,Iara onde eu assino??

Musicista Feminista disse...

Não entendo essa mania besta de o brasileiro desvalorizar a esse ponto as coisas que são daqui. Nem sempre tudo que é europeu é melhor, eles só dão valor ao que é deles. E não ficam querendo fazer cópias ridículas.
Essa síndrome de lata de lixo me irrita.
Eu fiz um intercâmbio na Argentina e fiquei abismada como eles dão mais valor para as nossas coisas do que a gente. Eu levei uma caixa de sabonetes da natura, fizeram a festa! Lá não tem tanta fruta como aqui.
Uma inglesa que conheci na Argentina me falou que eu era a primeira brasileira que ela conhecia que não ficava falando mal do Brasil o tempo todo. Em Londres o povo daqui vai pra reclamar do Brasil e se achar que tá na Europa.
é claro que muita coisa é errada e não presta aqui. Mas ficar desvalorizando do jeito que fazemos, é burrice.

Anônimo disse...

Vai nessa...
Faz um tempo que comprei 2 perfumes Kenzo que estavam em promoção. Vi que era de uma coleção de cheiro de flores, flor de magnolia, de yuzu, flor de ameixa e tal. Eu tinha experimentado a amostra fleur de magnolia que ganhei numa compra online. O cheiro era suave, mas gostoso. Concluí erroneamente que os outros dois seriam bons. Procurei resenhas de pessoas que usaram e teceram elogios sobre eles. Decidi arriscar. Pra quê?
Quando chegaram os perfumes fiquei toda animada. Quando borrifei o de Yuzu, achei o cheiro meio sem graça, mas até que não era ruim, só muito cítrico. Quando experimentei o outro...
Sabe? Eu sempre gostei de perfumes. Minha mãe cresceu usando perfumes da Avon e também em meio aos importados. Me criou do mesmo jeito. Cresci entre vários perfumes nacionais e importados. Se o cheiro me agradava, eu usava. Teve uma época que usei muito aquele alfazema. Teve época que usei Nina Ricci e Moschino. Adorava aquele Pretty Blue da Avon.
Enfim, voltemos ao Kenzo.
Borrifei o bendito. Além de ser forte, enjoado, e com um fundo atalcado, parecia um desinfetante ruim.
É. Um desinfetante ruim. Já usei muito perfume barato que dava de dez a zero nesse Kenzo.
Me perguntei como as pessoas tinham elogiado tanto uma porcaria dessas. Simples. Pq é um Kenzo.
Lembro de um colega com quem estudei que me viu folhear o catálogo da Avon e ficou chocado.
Perguntei o pq, e ele disse que Avon era "coisa de baianinha".
Pois se eu pudesse pegar o dinheiro que investi nesse importado e colocar em algumas colônias da Avon, acredite, eu faria.
Sei que gosto é muito pessoal, e eu deveria ter levado em consideração, mas serviu de lição.

Obs.: até hoje ainda tenho o perfume. As vezes borrifo na varanda ou na sala pra tirar o cheiro de cigarro que o vento traz e só

Lina

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