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14 março 2015

A mulher Transformer e o perfume de minha avó



Quando a gente cresce rodeada de algumas coisas não se pergunta a origem delas. Tudo parece à disposição.
Cresci com àgua encanada e luz, nunca pensei se era uma das poucas pessoas a ter acesso a esse luxo, nem como funcionava, nem quantas gerações minha família levou para ter isso.
E fiz a mesma coisa na minha vida pessoal, jamais pensei nos sacrifícios de minha avó e mãe para que eu fosse um pouco mais livre do que elas. A vida me parecia natural, como se eu tivesse conquistado todos meus direitos sozinha.

Só depois de mergulhar no feminismo comecei a ter ideia da dimensão do sacrifício de tantas gerações para que eu pudesse ter um pouco mais de espaço no mundo. Esse é um dos motivos pelos quais tomei decisões bastante criticadas por familiares.

Não tenho vontade de me casar nem de dividir uma casa com um homem. E ponto. Quer dizer, vírgula, porque esse assunto sempre irrita a todos. Mas para mim é uma questão de matemática.

Sou a primeira geração de mulheres da minha família que mora sozinha. Minha avó não passou por essa experiência, nem minha mãe. Sou a primeira que pode comprar o que tiver vontade sem mendigar nada a um homem, nem se justificar. Qualquer decisão, por mais corriqueira que seja, se vou jantar Doritos ou vou viajar, sou eu que decido e gosto disso, talvez porque sei que sou a primeira da família, tento estender o máximo que posso essa experiência.

Por ter nascido sensível observei demais na vida e não tenho o espírito romântico que o casamento exige, todo aquele pensamento de ''quero morar com o homem da minha vida'', ''quero acordar todos os dias com o homem que escolhi''. Nunca fui tão longe no amor e nem penso ir, para mim dividir a vida é o máximo que posso fazer, mas minha casa não dá.

E sei que nos relacionamentos poucas coisas mudaram. Posso morar sozinha, mas se me casar vou estar bem perto da escravidão que minha avó sofria.

Homens são conservadores e hoje me parecem que estão românticos, mas não há flores no caminho, apenas pedras. Para eles o casamento continua sendo um dos melhores negócios do mundo, o maior de todos. O homem se casa com uma mulher que vai dividir as contas, tirando dele o peso de sustentar uma família e ainda leva de brinde uma escrava, que se transforma conforme suas necessidades, pode ser empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira, motorista, o que ele quiser, é o ser humano ''Transformer'' e tudo isso de graça!

E por que eu teria vontade de passar por algo assim depois de ver tanto sofrimento em minha família? Não estou inspirada para fazer uma loucura dessas. Minha vida é o marco zero do que quero daqui para frente, para as mulheres da minha família. Quero que façam suas escolhas e sejam livres. Que conheçam os prazeres do mundo e da vida, sem amarras.

Sempre penso que sou a primeira, até em coisas simples, eu tenho tênis, minha avó não podia usar, porque na sua época não existiam e quando apareceram eram coisa de ''homem''. Eu decido se uso maquiagem ou não, saia ou não e não tenho que escutar besteira de marido. Minha avó tinha e minha mãe também passou por isso.

Não tive bons amantes no começo de minha vida sexual, mas por ser quase livre, pude remediar experimentando outros. Sei que a vida sexual das mulheres da família foi bem limitada. E não sou a favor da promiscuidade, mas do direito de experimentar e não se ver obrigada a ter relações sexuais com o mesmo homem, apenas porque se ''casou''. Isso deve ser um inferno, principalmente em casais de outras gerações, que não tinham a oportunidade de se conhecer na cama antes do casamento.

Talvez parte da minha resistência ao casamento é que o  vejo como uma masmorra medieval que ainda não mudou, a mulher acaba presa ali e morrendo lentamente. Vejo minhas amigas correndo e me dizem que são livres, mesmo assim a vida delas não me parece um canto a liberdade.

Homens são fofos no começo quando querem se casar, mas depois assumem o papel do pai, do avô e ficam chatos, querem controlar e cantar de galo em suas casas. No fim se convertem em outros filhos, é a mulher que cuida deles. 

E não sei o que estão jogando na água que eles bebem, mas de repente centenas deles resolveram que querem isso para suas vidas, se casar. Uma mulher sem experiência acha esses Romeus românticos e incríveis, diferentes todos, porque querem chegar ao altar, mas vejo com malícia, para mim eles são rápidos, espertos e querem se casar porque sabem que é a melhor coisa que pode acontecer em suas vidas, ter uma escrava de graça que ainda por cima vai bancar a vida de rei dele.

E também não me caso porque não quero assumir uma responsabilidade que não me interessa e já estou escaldada, sei que a juventude esconde muitos comportamentos, mas eles estão ali. Romeu pode parecer companheiro, amigo, mas a sua essência ainda é machista e vai aparecer.
Tudo o que querem me vender, uma vida de companheirismo, um amigo eterno, um amor infinito, nada me parece tão grandioso como minha liberdade. E penso que disfruto e gosto tanto, porque sou a primeira da minha família em conhecer outras sensações que vão além dos muros da prisão.

Não nego que é bom estar em um relacionamento, gosto muito e adoro meus Romeus quando namoro com eles, mas desde que fiquem em suas casas e não se metam na minha. Para mim a convivência com um homem é um círculo de exploração e não me sinto atraída por isso. Tive a sorte de gostar de dormir sozinha, prefiro dormir no chão se tiver que dividir a cama com alguém, então não sofro da carência de muitos, que adoram dividir suas camas.

Minha liberdade não é em vão, não danço nos túmulos das mulheres da minha família que foram escravas para que eu fosse livre. Tenho consciência de todas que sofreram e as que nem cheguei a conhecer sua história e a grande maioria sofreu pelo casamento, não foi por guerras nem revoluções.

Sempre lembro de uma história que minha avó contava. Não sei quem viajou e trouxe a ela um perfume espanhol, ''Maja'', que na época não existia onde ela morava. Ela ficou apaixonada pelo cheiro, começou a comprar, usava até sabonetes. Um dia meu avô se cansou de tudo aquilo e a mandou sumir com os perfumes, talco e sabonete. Ela não tinha escolha, mesmo sendo dura na queda e dizendo um monte, meu avô era ''macho'' e ela foi obrigada a parar de usar, ele fez de maldade, sabia que ela iria sofrer sem seu perfume favorito. Mas ela guardou o perfume durante anos e depois que morreu minha mãe achou e me deu, pensou que eu iria gostar do frasco, porque é antigo. Tem pouco perfume, quase não se sente o cheiro, mas coloquei ele ao lado de todos meus perfumes, está sempre lá para me lembrar de que minha liberdade foi conquistada por outras mulheres e que  jamais devo aceitar um homem que me diga como viver. Não era um simples perfume, foi um direito negado a minha avó de usar o que quisesse. Talvez por isso sou tão apaixonada e maluca por perfumes, devo sentir neles o cheiro de liberdade que minha avó não sentiu. Porque perfumes e liberdade têm o mesmo cheiro, quem conhece não esquece.

Iara De Dupont 



4 comentários:

Musicista Feminista disse...

Eles querem uma mãe que transa!

Patrícia disse...

Arrepiei com o final do seu texto"...devo sentir neles o cheiro de liberdade que minha avó não sentiu..."
Eu também penso assim quanto ao fato de não ter vontade de casar, moram com homem, dividir cama então bem pensar. Posso gostar de alguém mas não consigo me ver fazendo isso. Realmente a gente acaba virando escrava, parece lavagem cerebral que fazem nas mulheres porque elas ainda pensam que tiraram a sorte grande. Sem contar o sacrilégio que é jogar anos de lutas e conquistas, de sofrimentos, de tantas mulheres, no lixo.

Anônimo disse...

Complexo de Édipo mal resolvido pra K7 aí... bom, eu não tô aqui pra ser a mãe que trepa de ninguém. Também acho esse casamento tradicional um péssimo negócio, tô fora. Mas fazer o quê, né? Relacionamento é coisa pra adultos, e o homem brasileiro geralmente é muito infantilizado. Não ia dar mesmo futuro.

Anônimo disse...

Meu avÔ usa há anos mesmo perfume catinguento e sabonete phoebo. Minha avó vive dizendo que vai botar ele pra dormir cm o cachorro, de tão ruim que é o cheiro.
Acha que ele algum dia parou de usar algum dos dois? Claro que não! Mas se fosse a contrário...

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