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31 março 2015

A história mais linda que já escutei!

                                
Hoje me contaram uma história incrível. Achei tão linda que pedi que me contassem de novo e eu não parava de dizer ''mas é sério isso?''. É. Depois de escutar a história fiquei com vontade de sair gritando pelas ruas, dizendo para todas as mulheres ''por favor, conversem com suas mães, avós, tias, primas, sobrinhas, filhas, perguntem quem elas são, o que querem, o que sonham, elas são um pedaço da tua história e sem isso você nunca vai saber quem você realmente é''.

Já falei muito sobre o mesmo assunto, as relações familiares e o quanto desconhecemos as pessoas que nos cercam. Já lamentei muito não saber nada sobre minhas tias e primas, apenas o superficial, como se a intimidade fosse uma coisa perigosa.

A gente olha para a mãe e vê a mãe, não consegue enxergar a criança, adolescente nem adulta que era antes de se tornar mãe. E o mesmo acontece com as avós, parece que a imagem de quem elas foram some diante de nós e ficam sendo apenas nossas avós.

Depois de muitos anos e julgamentos, percebi que eu era uma desconhecida para minha família. Meus amigos escutaram mais minha risada do que toda minha família junta e minhas amigas conhecem mais segredos meus do que minhas primas sonham em conhecer.

Sou sentimental em relação a família porque acredito no vínculo genético e o carma familiar, penso que todos chegamos a uma família por algum motivo e temos que transcender e melhorar o elo, por isso me enche de tristeza ver que tantas famílias são como a minha, cheias de desconhecidos.

Minha avó aos onze anos foi separada de sua família, mas me dizia que suas tias e primas se reuniam para conversar ao redor do fogo, faziam jogos de revelação, sobre sonhos, vontades e desejos. Chamavam esse ritual de ''juntar os pedaços do coração'', era uma teoria delas, que acreditavam que cada uma tinha um pedaço do coração da família, que só funcionaria quando todas estivessem unidas, então elas tentavam se conhecer e  manter a união, o que simbolizava a família sólida.

Os indígenas trabalham seus laços familiares, investem nisso, enquanto as outras culturas incentivam as relações vazias, fúteis e muita vezes a competividade.

É triste pensar que só vamos conhecer a pessoa ao nosso lado, da família, talvez em um momento crítico ou final.

Mas ao mesmo tempo estamos tão doutrinados para o isolamento familiar e a individualidade que a maioria de nós reage de maneira desconfiada ou violenta a qualquer pergunta mais pessoal.

Tenho uma prima que gosto muito e respeito, mas se ela entrasse na minha casa agora e me perguntasse qual é meu maior sonho, eu diria rapidamente:

-Por que você quer saber?

Digo sempre as minhas amigas para manter os laços com seus irmãos e irmãs o mais forte possível, já que na maioria dos casos, primos e primas acabam nem sempre sendo um fator de proximidade.

E então vieram me contar uma história. Uma moça estava conversando comigo sobre seu casamento, a festa, a cerimônia. Perguntei a ela qual foi a parte mais difícil de todas, já que teve que lidar com inúmeras questões, porque se casou com outra mulher. E me contou que foi com sua avó, uma senhora religiosa, conservadora e fechada. Essa moça adorava a avó e ficou tão intimidada em dizer que era gay, que resolveu inventar uma história, começou os preparativos da festa dizendo que ia se casar com seu namorado, que morava em outro país, por isso ela teria que planejar tudo sozinha.

A moça disse que a avó estava em uma época depressiva, mas de repente se animou com o casamento, começou a ajudar e a acompanhar tudo. 

Ela era a única neta e sua filha tinha sido mãe solteira, era a primeira vez que a avó iria ver uma mulher de sua família se casando e acabou tão empolgada que quis pagar uma parte da festa.

Então a moça se viu em problemas, o dia do casamento se aproximava, a avó delirava de alegria com a festa e a moça não sabia como dizer que iria se casar com outra mulher em um jardim, porque não poderia se casar na igreja.

Três dias antes do casamento a moça caiu doente, com uma virose, fruto da pressão que estava vivendo e da mentira. Foi convencida pela futura esposa de abrir o jogo com a avó e dizer a verdade, explicar que não tinha noivo nenhum, a festa seria em um jardim e que as coisas eram assim.

A moça tremeu nas bases, tinha medo de ver a avó passar mal ou dizer coisas terríveis, mas ela não tinha saída, a avó já tinha o vestido pronto, iria à festa e acabaria sabendo de tudo, achou melhor contar a verdade.

Ela me disse que entrou no quarto da avó à noite, sentou na cama e disse que precisava conversar. Mediu as palavras, começou com aquela frase:

-Sabe fulana que vem sempre aqui? Então, ela não é apenas minha amiga....

E assim foi dizendo e explicando tudo a avó. Quando terminou estava chorando, não conseguia mais dizer nada, mas sentia o alívio e a avó perguntou:

-Mas a festa é de mentira?

A moça explicou que não, que era uma festa de casamento mesmo, tudo certinho. Então a avó respirou aliviada e disse:

-Ainda bem! Fiquei pensando que se eu não usasse o vestido agora, quando iria usar?

Como a avó não disse mais nada, a moça saiu do quarto e foi para o seu.

No dia seguinte, durante o café da manhã, a avó se aproximou da neta e disse:

-Eu conheci teu avô em casa sabia? Meu pai tinha uma loja de material de construção e o contratou como ajudante. Ele era jovem, trabalhador, forte e acabou se apaixonando por mim. Ele vinha muito aqui em casa e ficava conversando. Um dia meu pai desceu a escada e disse ''chega de conversa, vocês vão se casar''. Mas eu não tinha dito nada nem ele. Eu não estava apaixonada, mas gostava dele. E ele era sozinho no mundo, vinha de outra cidade, era a coisa certa se casar comigo.
E pensei sempre ''que porcaria de vida a minha'', eu não fiz nada, apenas criei uma filha, nem prestei para dar mais filhos, quase morri no único parto que tive e tua mãe saiu meio doida, rebelde, cresceu e não quis casar, deu desgosto para o pai e eu ficava pensando ''eu sou uma merdinha, não prestei nem para criar uma filha''. Minha vida foi isso, casa, igreja e de vez em quando ajudava na loja do meu pai que ficou para meu marido. Nunca tive conta de banco, nem sei escrever direito. E você, minha única neta, veio ontem no meu quarto me dizer que vai se casar com outra mulher. Eu te criei, tua mãe era meio doida, tinha aquele emprego que a fazia viajar e você cresceu debaixo da minha asa. E agora veio me dizer que gosta de outra mulher.....

A moça constrangida, envergonhada, apenas conseguiu dizer:

-Vó, me desculpe, eu não pedi para ser assim....

E a avó respondeu:

-Você é melhor do que eu. Finalmente tenho orgulho e certeza de que fiz alguma coisa certa na vida. Vou te ver casar com a mulher que você ama. 
Sabe, a loja do meu pai ficava na frente da padaria do seu José, que tinha uma filha linda, a Aurora! Ah, como eu amei aquela menina! E ela me amava também, trocavámos cartas e presentes. Um dia se casou e a levaram para longe de mim. Pensei nela minha vida inteira. Nunca gostei de homem. Nunca amei teu avô, eu só queria a Aurora. Era tão bonita com seu cabelo castanho! E agora em uns dias você vai se casar! Ontem, depois de tudo o que você me disse, eu pensei, como Deus é bom, me permitiu viver o suficiente para que eu visse minha neta vivendo um amor que eu não pude viver. Talvez eu não prestei para muito, mas pelo menos você vai ser mais feliz do que eu.

Achei a história tão linda que chorei nas duas vezes que me contaram! Que pouco conhecemos nossa família, seu passado e seus amores! Pensei tanto na minha avó! Que saudades eu senti e que pena, pena, pena nunca ter tido essa conversa com ela, não sei quem ela realmente amou, quem foi o amor de sua vida. Pode ter sido meu avô, mas não acredito nisso, tudo indica que não. Ah, que vontade de entrar no quarto dela, sentar na cama e dizer:

-Abuelita, me conte sobre seu grande amor...

E como a avó dessa moça deve ter sofrido! O que deve ter sido sua vida! Fiquei pensando no horror que deve ter sido ter relações sexuais com um homem sem gostar! Eu que sou hetero e gosto de homem, confesso, tem dias que não dá mesmo para pensar em sexo com um deles, imagina sem gostar.
Deve ter sido um inferno de vida. Talvez eu poderia conviver com um homem, caso fosse gay, mas não imagino como tolerar o sexo não gostando de homem. E quantas devem ter passado pela mesma situação.

Todos os meus amigos gays eu incentivo a se casarem, não é apenas um gesto de amor, mas também um gesto político, um grito a liberdade, por aqueles que não puderam expressar seu amor. São milhares de vidas perdidas neste mundo, durante séculos, apenas porque as pessoas não conseguem aceitar o casamento gay e perceber que a única coisa que pode ligar um ser humano ao outro é o amor, não existe mais nenhum elo além desse e o amor merece todo o respeito, porque é a única coisa que justifica a existência do ser humano.

E a moça finalizou me contando que sua festa de casamento foi o evento mais lindo que já viveu, toda sua família foi, fizeram uma cerimônia no jardim e ela entrou no local de braços dados com sua avó, ela ia entrar sozinha, mas mudou de ideia e resolveu que era sua avó que a deveria conduzir até sua noiva. Fiquei pensando quantas décadas sua avó ficou esperando para viver um momento assim, quanto amor perdido, quanta dor em uma vida.

E no fim da festa a avó se aproximou e disse no ouvido da moça:

-A Aurora teria adorado a festa!

E a moça me disse:

-Pode uma coisa dessas? Uma simples festa de casamento dar tantas alegrias?

É, pode sim.  Nós não sabemos quem veio antes em nossas famílias, nem seus sacrifícios. E tantas dores nossas podem ter sido a mesmas delas, nós não sabemos se tias, primas, e avós passaram pelas mesmas dúvidas, incertezas e dores que passamos! E algumas vezes pensamos que estamos comemorando alguma coisa quando na verdade estamos celebrando uma conquista tão sonhada por alguns. Parece que estamos sozinhos ali, no  topo da montanta, comemorando nossa chegada e não vemos como tantas pessoas da nossa família morreram no meio do caminho e limparam a terra com as mãos para que nós pudéssemos passar. Achamos que somos o começo de uma história que conquistamos, não o resultado de gerações anteriores. Pensamos que somos únicos e especiais, não apenas outra parte da família. Mas tudo está ligado e nossos sonhos um dia foram os deles. Por isso a vitória pode ser tão comovente, porque mostra a muitos que as coisas acontecem na vida, nem que leve quatro, cinco, seis gerações.

Às vezes penso em desistir de algumas coisas, mas então lembro de minhas sobrinhas pequenas e penso que tenho que fazer por elas o mesmo que um dia fizeram por mim, abrir o caminho, cimentar a estrada. Elas dependem de mim como um dia eu dependi das ações de outras mulheres de minha família. Somos o mesmo elo e talvez o mesmo coração, separado em pedaços, que só um sonho em comum pode unir. 

Iara De Dupont

8 comentários:

Suzana Neves disse...

Conversei bastante com minhas avos enquanto vivas.
Tenho saudade delas..

Carolina disse...

Que história mais linda!!! Chorei!

Beijos,

Carol

Natalia M disse...

Oi Iara, tudo bem?
Eu leio todos os seus textos, mas acho que nunca comentei. Mas, hoje me senti na necessidade de deixar minha opinião por aqui. Me identifiquei com tudo o que você disse, pois meus amigos são tudo pra mim, e minha família muito pouco me conhece, parece as vezes que nutrimos um elo familiar, e todas as convenções que vem com ele, nada muito sincero sobre se conhecer realmente. Eu estou apaixonada pela história da moça, não sei nada sobre o passado da minha família, mas as vezes fico pensando que eles não me conhecem, e talvez eu mesma que penso isso, não conheço nada deles. Teu post me fez refletir, e essa história, antes de tudo, é uma inspiração. Parabéns pelo blog, e por tua personalidade forte. Beijos
Desfocando Ideias

Fátima disse...

Não sei nada sobre o passado das minhas avós, só sei de uma delas que se casou aos 16 anos, com um homem de 32, sem estar preparada para um casamento, sem saber como agir numa casa onde ela não era a filha, o que fazer da vida dali pra frente. Será que era amor? Nunca vou saber...

Anônimo disse...

Que história linda!! Chorei também... Obrigada por compartilhar histórias como esta que nos faz pensar o quanto as relações são tão importantes...Mônica

Anônimo disse...

Linda história, daquelas que mostra o quanto, no fundo, somos parecidos e temos mais em comum do que querem nos fazer acreidtar. Que a felicidade ilumine os dias dessa família que tanto amor tem pra dividir.

Amábille disse...

Independente de ser da família tem pessoas que não conseguem me deixar com vontade de estar perto delas, de saber mais delas. Já outras que nem sequer conheci me deixam sempre pensativas.
E se for pensar em família tem gente que não sabemos que existe né. Minha avó paterna morreu uns 30 anos antes de eu nascer, vieram da Itália. Fico pensando na tristeza de deixar toda uma vida para trás, nos parentes que ficaram lá e que nunca mais tiveram nem notícias, nos descendentes daqueles que ficaram lá e tem a mesma origem que eu mas nem sei quem são. Será que temos algo parecido? Fico sempre pensando, neste momento, quem são eles, onde estão...
Achei comovente esta história, faz a gente pensar em como perde tempo com a falta de comunicação, uma palavra muda tudo.

Nathália :) disse...

Que bela história! Às vezes fazemos uma tempestade em copo d'água por falta de comunicação com nossa família, tudo poderia ser tão mais simples! Muito bonito da parte da avó se abrir para a neta sobre suas histórias de vida, dando apoio a ela... só mostra o quão íntimas e unidas elas eram.

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