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22 fevereiro 2015

Você é uma mulher invisível? Não se preocupe, todas já fomos.....


Minha amiga se aproximou e perguntou:

-Você acha que ele gosta de mim?

Não sei.

-Mas você é tão sensível, poderia perceber!

É, poderia mesmo, talvez, não sei. Não sou vidente, nem trabalho na NASA, nem carrego verdades, nem construo certezas. Mas existe um ponto na história da minha amiga que eu conheço, já estive lá, se chama ''a mulher invisível''.

Hoje sei que começou na minha infância essa invisibilidade. Eu queria falar, contar, mas ninguém me escutava, preferiam as histórias do meu irmão e dos meus primos, coisas interessantes, não ''bobagens de menina''. Eu corria atrás deles, mendigava atenção, queria ser igual, queria ser escutada, mas além da minha mãe e avó, ninguém se interessava por mim.

Na escola acontecia a mesma coisa, as professoras nos davam um livro para ler e queriam saber nossa opinião. Eu levantava a mão, queria falar, discutir o final, mas elas me ignoravam e pediam aos alunos para responderem suas questões.

Cresci em um ambiente onde apenas os homens falavam coisas importantes, quando as mulheres abriam a boca era ''chateação, cobrança, ciúmes, bobagens e mais bobagens''.

Eu tentava ser diferente, falar de assuntos masculinos, mas ninguém queria ouvir.

Quando entrei no teatro parecia o mesmo ambiente, opinião de atores têm mais peso do que das atrizes. Os atores determinavam a cena, o tom, a situação. Se uma mulher dizia alguma coisa contrária, logo escutava ''você não entendeu a intenção do autor''. Mulheres nunca entendiam a intenção do autor, o pedido do diretor e acabavam mudas.

Essa invisibilidade levei para os meus relacionamentos, eu que falo tanto, que gosto de conversar, de discutir, argumentar, de repente virei uma Julieta silenciosa. Ficava ao lado do Romeu, deixando ele falar à vontade, porque os assuntos dele sempre eram de muita relevância, não eram as besteiras e abobrinhas que eu falava (segundo ele).

Passei três anos em um relacionamento abusivo, todos viam, todos sabiam, menos eu. Mas ninguém comentou que eu estava ''quieta'', pelo contrário, me parabenizaram porque amadureci e deixei de lado minha mania de falar o tempo inteiro. Uma pessoa até me disse:

-Eu sabia que um relacionamento sério faria maravilhas com você.

É, acho que fez, eu fiquei muda, porque tinha medo de Romeu e suas duras críticas.

Já no final do relacionamento, talvez quatro dias antes de acabar, fui a sua casa por umas coisas. Quando ele abriu a porta me perguntou:

-Como você está?

Aquilo me deu uma tristeza impossível de descrever, tive vontade de chorar, mas pensei que estava em um dia sensível e não respondi.

Percebi tempo depois que essa frase ''como você está'' mostrava meu grau de invisibilidade, durante três anos ele nunca tinha me perguntado isso, foi a primeira vez. Entendi como é fácil saber se estamos em um relacionamento ou não, basta seguir a pergunta, na falta dela vem a certeza, somos invisíveis.

Passei anos, anos, décadas, sendo um pilar invisível nos relacionamentos, eu tinha paciência para escutar sobre todos os assuntos, ficava horas ali com Romeu, mas ele não estava interessado na minha opinião, na verdade, nem em mim.

Depois que cheguei a essa conclusão comecei a procurar respostas e encontrei as mais confusas do mundo. Um amigo me disse que homens são egoístas e educados para se impor, a opinião alheia não é importante para eles, são os que mandam e falam. Outro amigo me contou que mulheres são dispersas para falar e isso irrita o cartesiano cérebro masculino. E meu professor me garantiu que é uma questão social, mulheres são educadas para não terem opinião, nem abrirem a boca, por tanto os homens não perguntam nada, mas não é por mal, é porque não sabem como lidar com a situação onde um ser humano além deles vai abrir a boca.

Minha mãe garante que os homens são egocêntricos, egoístas e mimados, só querem escutar elogios.

E volto a minha amiga que me perguntou se seu namorado gostava dela.

Durante um jantar pensei que não, mas é apenas minha impressão. Hoje entendo que gostar de uma pessoa é escutar o que ela tem a dizer, respeitar suas opiniões e não a tratar como um ser invisível.

Na mesa seu Romeu não parou de falar, não perguntou nada a ela, pegou o cardápio e pediu o que queria, como se ela não existisse.

Entendo a situação da minha amiga, somos educadas desde pequenas para não incomodar ninguém, muito menos um homem. Levamos esse critério para o amor, pensamos que devemos apoiar, escutar e incentivar um Romeu, mesmo que ele nem nos pergunte qual nossa cor favorita.

E eu já fiz isso uma vez, pensei como homem. Fui escolher um tecido para uns figurinos com uma atriz, chegando na loja peguei um e disse '' vai esse''. E ela respondeu ''não'' e começou uma discussão, que ela encerrou dizendo:

-Poxa, Iara, pelo menos se dê o trabalho de me perguntar o que eu quero, procuro e gosto.

É mesmo! Não perguntei, fiquei tão focada no que queria, que nem prestei atenção a ela.

Mas me vejo cercada de mulheres invisíveis, que não percebem o silêncio no qual foram condenadas, vivem com um Romeu que pensam não ser amoroso, mas na verdade nem ele sabe que ela está ali. São milhões de mulheres que escutam todos os dias Romeu falando sem parar, mas na hora que elas abrem a boca, eles dão as costas e ligam a televisão ou abrem o sorriso e dizem '' meu bem, isso não tem importância'', ou ''ah, é conversa de mulher, liga para tua irmã'', ''eu tenho coisas mais importantes para fazer do que escutar tuas bobagens''.

Ser invisível, não querer incomodar, tudo isso anula a autoestima e fortalece o patriarcado, que nos vendeu a ideia de que mulheres quietas serão amadas, as barulhentas são problemáticas e perigosas.

E todas queremos ser amadas, então costuramos a boca e amarramos o coração. Pensamos que quietas seremos amadas a vida inteira, mas nada disso acontece, o efeito é contrário, quanto mais quietas mais abusos acontecem.

Depois que saí desse relacionamento abusivo levei anos para me recuperar, reconstruir e começar a me ver como uma pessoa. E lembro da fragilidade do começo, das incertezas. 
Aceitei um convite de um Romeu para jantar, ele sugeriu um prato e eu disse que não gostava, então ele me perguntou o motivo disso. Fiquei congelada, nossa, ele percebeu que eu existo!

Hoje coloco como regra em qualquer relacionamento, se a pessoa não quer saber o que penso, sinto ou procuro, então a porta é serventia da casa. Não tolero mais ser invisível, me pintei com todas as cores possíveis, falo o tempo inteiro, escrevo, berro, grito, fui ao extremo. Cheguei ao meu limite com Romeus egocêntricos, que nem sabem que eu existo.

Perdi o medo de não ser amada, já que abri a boca. Minha autoestima e minha construção como ser humano são mais importante do que qualquer amor que um Romeu possa me dar. 

E digo sem medo a minha amiga, ele não gosta de você. Ninguém que trate o outro como invisível gosta.

Ah, mas é uma praga social, quantas mulheres ficam quietas porque os homens preferem assim?. 


Pois é. Há tempos que deixei de ser quieta. E grátis não ficou, até aqui no blog escuto de desconhecidos que sou uma ''maluca''.

Mas para mim valeu a troca, deixei de ser invisível e larguei mão do frágil e volúvel amor dos Romeus pela minha voz, me recuperei, voltei a ser eu, comecei a falar novamente. E ainda prefiro isso, ser eu na multidão, falando, vivendo, sendo, do que uma Julieta dominada pela ideia do silêncio. Ainda prefiro o grito da liberdade.


Iara De Dupontê

2 comentários:

Anônimo disse...

Tenho uns primos, mais ou menos da minha idade, que tinham uma "babá", dessas garotas mais novas, e me lembro de uma vez que eles vieram aqui e eu ficava atrás deles porque queria me enturmar. Essa babá fez uma "brincadeira" comigo de "quanto tempo você consegue ficar sem falar nada?". Lembro que eu passei a tarde toda muda, achando que estava ganhando. Só tempos depois entendi o que aconteceu. :(

Anônimo disse...

Presente! Mulher invisível e muda aqui, desde criança. Do tipo que não tinha vontade própria, não tinha nada a dizer, não tinha motivo pra reclamar e não tinha opinião, vontades ou sentimentos. Do tipo que precisava gritar pra se fazer ouvir só pra ser chamada de mal educada. Que era culpada até por não ter saído com a mãe um dia, já que ela podia morrer amanhã. E aí eu olho pra trás e penso "Quem disse que família é a melhor coisa do mundo não deve ter tido uma". Ou, pelo menos, não deve ter sido a criança, ou pior, a mulher que foi criança nela. Ser papai, amo e senhor, legal, todos querem. Ser a filha "bonequinha", a bonitinha, muda e sem direito à vontade própria que só serve pra enfeitar ninguém quer ser, né?

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