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26 fevereiro 2015

Quando as amizades, amores, e objetos racham (joga fora!)

Não sei de onde minha mãe tirou a ideia de que os objetos têm vida. Minha tia diz que desde pequena minha mãe afirma que os objetos parecem ''gente'' e precisam saber que estamos agradecidos pela sua existência, ela sempre fala ''amo essa mesa'', ''obrigado cama pela noite'', ''essa geladeira é linda'', ''o chuveiro é maravilhoso'', ''sou apaixonada pelo meu computador''.
Quando era criança caí da cadeira e em ataque de raiva comecei a chutá-la, minha mãe se aproximou e disse:

-Não faça isso! Ela tem sentimentos e você a está machucando!

Um dia fiz um jantar e convidei uns amigos, entre eles um estudante de xamanismo. A noite foi longa e eles acabaram dormindo na sala. De manhã vi esse amigo dobrando o cobertor e quando de repente abraçou o sofá. Comecei a rir e perguntei se a bebida ainda estava fazendo efeito e ele me respondeu:

-Eu só estava agradecendo pela noite, dormi muito bem, não senti frio e consegui descansar.

Respondi que era um sofá, servia para isso e ele me disse:

-Não, as coisas nem sempre servem as pessoas. Tem sofás que não gostam de você e não dá nem para sentar, tudo te incomoda, parece que o lugar é  gelado, você sente a estrutura do sofá, ele te coloca para fora. Temos que agradecer quando um objeto, qualquer um, nos recebe bem e serve com amor. Este sofá é teu, a energia que deu vida a ele é tua, se ele me deixou descansar aqui é porque teu coração gosta de mim e ele apenas respondeu aos teus sentimentos. 
Tenta dormir no sofá da casa de uma pessoa que não gosta de você, não dá! Você acaba preferindo dormir no chão.

Na hora lembrei de alguns lugares e casa de namorado! Namorei um Romeu que tinha uma cama maravilhosa, mesmo assim eu não conseguia dormir ali, por mais que tentasse, acredito que a ''cama'' não gostava de mim! E tantos lugares que fiquei confortável, nem entendia a razão de tanto conforto e outros tantos que não conseguia nem me sentar em uma cadeira.

Aprendi com minha mãe, tenho certeza que os objetos sabem quem somos nós. Passei por uma experiência que me comprovou essa teoria. 
Quando era pequena meu pai ganhou um rádio-relógio digital e me deu de presente. Fiquei encantada, passava horas escutando rádio e só dormia vendo aqueles números vermelhos da tela. Me acompanhou durante anos, mas um dia me mudei e o deixei na casa da minha mãe. Meu tio gostava de rádios e sem a minha autorização o levou embora. Voltou uns dias depois e devolveu a minha mãe, dizendo que não funcionava. Minha mãe sabia que eu iria parir quando soubesse que tinham pego meu rádio sem autorização, então ela pediu ao meu tio que consertasse. Ele não conseguiu e levou para três assistências técnicas, todas alegaram que o aparelho era velho e já não tinha conserto. Sem arrumar minha mãe o colocou em cima do meu armário e ficou por lá. 

Uns anos depois voltei a morar com minha mãe por um período, peguei o rádio do armário e liguei. Fiquei ali ouvindo música quando minha mãe entrou e me contou a história, que ele estava quebrado. Mas comigo funcionou! E funciona até hoje, mas na mão de outra pessoa não liga, tentei emprestar para meu irmão, mas não funcionou também, o que me levou a concluir que o caso de amor é comigo, ele sabe o que representa para mim, por isso não me abandona.

Contei ao meu amigo a história da minha mãe, que até em mudança ficava pedindo cuidado com os móveis e dizendo que eles sentem dor e meu amigo contou:

-Sentem sim, é outro nível de consciência, mas é, e se alimenta de nós. Quando você compra uma coisa que gosta muito e chega a sua casa, você recebe com amor, alegria, essa vibração vai direto ao objeto e você começa a construí-lo energeticamente, ele faz parte da vida material, te acompanha nesta dimensão e a maioria dos objetos nos protegem e cuidam, devolvendo o amor e cuidado que temos por eles. Por isso quebram, furam, racham, porque recebem a energia ruim destinado a nós e seguram para evitar que nos atinjam. E vira caso de amor viu, tem gente que não consegue se desfazer das coisas, pode parecer doença, mas na maioria das vezes a pessoa fica com dó, sente o elo energético que vai ser perdido. Mas é importante entender o ciclo deles e não segurar o tempo, se eles estão exaustos e acabam quebrando, temos que deixá-los ir.

Depois de um tempo essa história fechava com um dos princípios do Feng-Shui, sobre objetos quebrados, que são energia saturada e por isso temos que nos livrar deles, não podemos ter nada em casa rachado nem quebrado, porque os objetos já cumpriram sua função e mantê-los assim estanca a energia do lugar.

E um dia um anjo de cerâmica quebrou. Minha mãe também é da teoria de objetos saturados, por isso achou melhor jogar fora, mas eu não quis, o anjo era meu, me acompanhava há anos e não tinha coragem de jogar no lixo. Foi tanto conflito com a história desse anjo que resolvi ligar para meu amigo, pedindo um conselho e ele me disse:

-Tadinho do anjo! Joga fora sim, ele fez o que deu para fazer, acabou seu tempo de vida útil.

Mesmo assim insisti, poxa, esse anjo tinha anos comigo, não podia jogar fora e meu amigo respondeu:

-Iara,  energia é uma situação determinante, quantas vezes você fez besteira com alguém, rachou o relacionamento e nunca mais foi o mesmo? Não existe segunda chance para ninguém, é como um raio que cai, não tem volta. Palavras erradas, relações estremecidas e objetos quebrados não têm conserto. Você sempre vai olhar o anjo com as asas quebradas e ver o remendo, isso faz mal, puxa a energia de tristeza, frustração e chama o passado de volta. Sabe aquela sensação de olhar um objeto que amamos quebrado e ficar pensando ''caramba, como deixei quebrar, tivesse cuidado melhor, colocado em outro lugar, protegido disso ou daquilo''. Isso é energia contrária e faz mal, por isso não podemos ter nada rachado ao nosso redor, porque nos lembra que nada permanece igual e os ciclos se fecham, o ser humano não sabe lidar com essa frustração da impermanência.
E deixa teu anjo descansar, já te protegeu o que deu pra proteger.

Fiquei olhando para o anjo e pensando, é mesmo, quando vezes fiz besteira e não teve conserto? Quantas coisas disse, depois me arrependi, e ainda assim não teve perdãoAmores rachados, amizades quebradas e família estragada? Quantos amores perdi porque disse a coisa errada e não teve volta? E quantos amores me perderam pelo mesmo motivo? Quantas vezes usei uma palavra como faca cortando os elos que me ligavam a outra pessoa? E não teve jeito, corda rasgada não segura nada.

Energia é a espada que corta o ar, divide as pessoas, mostra a realidade, ensina a viver. Rachaduras, emoções que vazam, quebram, tudo isso é sinal de um ciclo que terminou, de um tempo que acabou. E não importa se é um anjo de cerâmica ou um amor, os tempos acabam para todos, a porta se fecha em determinados momentos para que a gente possa procurar outra saída. Não existe eternidade para nada material, nem que pertença a esta dimensão, tudo que é matéria vai virar pó, por isso mesmo que vibrem em diferentes escalas tudo desaparece, até nosso corpo.

E a vida é tão irônica que esse meu amigo xamã, tão amado por mim, se afastou por uma rachadura, uma ligação feita a um celular errado, na hora errada, no dia errado. Houve uma confusão e a amizade quebrou, nunca mais foi a mesma. É parte da vida, essas coisas acontecem, a única coisa a se fazer é agradecer pelo tempo que a amizade nos orientou, o amor nos quis e os objetos nos serviram, nos despedimos e continuamos o caminho, sabendo que tudo que nos rodeia neste mundo um dia vai sumir, inclusive nós.


Iara De Dupont

2 comentários:

Fátima disse...

Aquilo que se quebra é melhor não colar. Me lembrei de uma musica do Guilherme Arantes, que dizia " pra que ficar juntando os pedacinhos do amor que se acabou...". Com o tempo aprendi a não remendar amores, amizades e nem objetos. Tenho um sofá em casa que gosto muito, confortavel, grande, que está precisando ser reformado e fico pensando se vale mesmo a pena fazer isso. Não será hora de abrir espaço para o novo??

Vagner Maciel disse...

Ótimo texto. Tenho muita dificuldade de largar aquilo que foi de difícil conquista. Junto um monte de bobagens por muito tempo, e quando me livro, me sinto bem mais leve. A sensação é ótima.

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