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16 fevereiro 2015

Parece um Romeu, mas é só um duende brincando


Muitas coisas que minha avó dizia eu não entendia. Ela cortava frases, falava as ideias pela metade e engolia o resto, como se tivesse receio de dizer o que pensava. E falava baixo, quase sussurrando. Mesmo assim consegui guardar muito do que ela me disse e agora as coisas começam a fazer sentido.

Um dia eu estava me arrumando em sua casa, esperando minhas primas, tínhamos combinado de ir a uma festa e minha avó me perguntou:

-Você quer ir?

Confirmei e disse ''vou achar um namorado''.

E ela respondeu:

-De noite nada presta, se quer um namorado procure e ache de dia. Conheci teu avô de manhã, todos os dias eu ia correr em um determinado lugar e ele passava por lá, para ir ao trabalho, até que um dia veio falar comigo.

Não lembro o que aconteceu naquela festa, mas voltei aborrecida e minha avó estava sentada na sala. Fiquei ali com ela conversando e ela me contou:

-Te avisei que a noite é traiçoeira, ela esconde as pessoas detrás de uma máscara, ninguém sabe quem é o outro. Quando eu morava no campo a gente tinha respeito pela noite, não abria a porta, porque de dia você sabe quem está batendo, mas de noite não. Os olhos à noite não são iguais aos olhos de dia. E além disso minha mãe dizia que os duendes gostam de brincar à noite e saem enfeitiçando as pessoas. Tenta! A pessoa que você conhece à noite não é a mesma do dia! É o feitiço das nuvens escuras, que nunca deixa a pessoa mostrar quem é, ficam escondendo ela entre nuvens que os duendes empurram, enquanto dão risada e se eles percebem que você se encantou com a pessoa que não existe, eles continuam a brincadeira!

Pensei que era outra das crenças de minha avó, dividida entre duas culturas, a branca e a indígena. De um lado escutava as lendas espanholas, do outro aprendia os rituais indígenas.

Levei um bom tempo para conhecer e entender o efeito do feitiço e dos duendes. Minha avó tinha razão, cansei de conhecer pessoas durante a noite e no dia seguinte pareciam outras, inclusive na aparência.

Aconteceu muito com os meus Romeus, ou pelo menos candidatos a Romeus.

O ano passado, um pouco antes do Natal, passei por isso. Fui à uma festa e conheci o primo de uma amiga, fiquei encantada com ele, passei a noite inteira conversando, me pareceu inteligente, doce, engraçado, parecíamos na mesma sintonia. Dias depois me ligou dizendo que estava perto da minha casa e queria saber se eu gostaria de sair com ele. Não gosto de compromissos improvisados, mas estava tão animada com esse Romeu que aceitei na hora.

Nos encontramos e não sei o que aconteceu, parecia outra pessoa, suas brincadeiras eram estúpidas, a sua presença pesada, até a voz era diferente. Eu tentei, ainda tinha na memoria a conversa que tínhamos tido, mas ele ignorava tudo como se eu tivesse conhecido outra pessoa. 
Na hora lembrei da minha avó e pensei  ''que duendes filhos-da-puta'', empurraram as nuvens e não vi que esse cara era um chato.

E isso não aconteceu apenas uma vez na minha vida, talvez mais de dez vezes. Duendes gostam da noite e de pessoas dispostas a se apaixonar, se divertem com isso e uma das melhores histórias sobre esse assunto foi escrita por William Shakespeare, ''Sonhos de uma noite de verão'' (link) onde duendes, elfos, fadas e seres mágicos se divertem às custas dos seres humanos.

Minha avó também dizia para reparar na lua, porque segundo ela, duendes gostam de lua cheia com nuvens, são essas noites suas preferidas para brincar com as pessoas, principalmente as dispostas a conhecer alguém. 

Gostaria de dizer que tudo isso é lenda, fruto da educação da minha avó em um lugar distante e simples, mas já vivi o suficiente para saber que não é bem assim. Como pessoa que cresceu no campo ela sabia ler o sol, a lua, as nuvens, o vento. Conhecia a natureza e sabia que não estamos sozinhos neste planeta. 

E eu já experimentei o amargo sabor da brincadeira dos duentes, já me encantei à noite e me decepcionei de dia, a sensação é péssima, parece que erramos na nossa percepção, mas não foi isso, foram os duendes brincando, passeando e se vestindo de Romeus. Parecem humanos, falam, se comportam e encantam como um, mas são apenas duendes brincando.


Iara De Dupont

3 comentários:

Musicista Feminista disse...

A noite em uma clima que não sei explicar, eu mesmo não sou a mesma pessoa, sei lá porquê...
Mas não a ponto de o cara pensar que eu sou uma coisa e depois ver que sou outra. Às vezes saio de noite para um show, bebo um monte, para extravasar saber, e acabo me comportando diferente do dia a dia. Bom, se me portasse sempre desse jeito não tinha emprego ahaha

Paula Santos disse...

Adoro as histórias da sua avó! E acredito nelas também!

Eu AMO a noite, mas tb acho que as pessoas ficam diferentes. Talvez não todas, mas fico aqui observando as pessoas que vem "curtir" os fins de semana aqui no meu bairro e me pergunto se é possível q eles sejam assim no dia a dia. E não é só no final da noite que a coisa "esquenta". Eles já chegam aqui assim. Agora vou ficar pensando nisso! rs

Que bom q vc voltou! Já tinha lido um pouquinho, agora vou colocar os posts em dia! :)

Suzana Neves disse...

Álcool também é transformador.

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