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28 fevereiro 2015

Julieta, os demônios do Romeu não são teu problema!


Na lista de coisas erradas que aprendi, estava ter ''compaixão'' pelo outro. Minha mãe e avó são pessoas sensíveis e sempre conseguiram perceber a dor alheia e me ensinaram a ser igual.

O problema é que elas foram ingênuas, na sua compaixão foram exploradas, acabaram perdoando o imperdoável, principalmente nos relacionamentos.

Julguei as duas e fui muito dura, como era possivel que elas relevassem os abusos masculinos? Tinha certeza que era um problema que só acontecia na minha casa, pelo excesso de mulheres submissas.

Mas o tempo me fez perceber que não era apenas lá, o mundo inteiro está cheio de mulheres dispostas a entender seu Romeu, inclusive eu. Já caí nessa armadilha diversas vezes, alegando meu bom coração, quando na verdade é apenas burrice.

Entender a dor do outro, se compadecer, não é a mesma coisa que dizer ''eu te perdoo por qualquer coisa''.

Lembro de uma amiga da minha avó, uma vez escutei as duas conversando, minha avó se queixava dos ''demônios'' do meu avô, e sua amiga disse:

-Você está com um grande problema, porque demônios todos nós temos, e somos obrigados a aceitar os dos outros, mas jamais podemos permitir que esses demônios alheios venham na nossa direção.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo durante anos, eu escutava a história de Romeu, me comovia e perdoava quando seus demônios vinham na minha direção. Demorei a entender o abismo que existe entre ter um trauma e jogar ele em cima da namorada.

Tive um Romeu abusivo, violento verbalmente, o pior de todos. Mas durante anos expliquei e justifiquei sua história, ele é filho de militar, e o pai resolveu aplicar seus métodos do quartel em casa, com os quatro filhos.

Por uma dessas coincidências assustadoras da vida, um dia comentei com meu pai sobre o meu namorado e acabei falando sobre o trabalho do pai dele. Meu pai reconheceu o nome e fiquei sabendo que meu sogro, ou pelo menos seria na época, tinha sido um torturador. Ele trabalhava em um campo militar que recebia estudantes e torturava o pessoal por lá.

Diante dessa informação dei mais apoio a Romeu. Ele não sabia, ou fingia não saber sobre o passado do pai, mas lutava muito para ser diferente, o pai gritava e ele falava baixo, o pai fumava, bebia e Romeu só comia frutas. Tudo o que representasse o pai ele rejeitava e li isso como uma tentativa enorme de fugir do horror da figura paterna e fiquei quieta. Aguentei durante três anos abusos verbais, sem gritos, mas com ofensas terríveis e humilhações, perdoava tudo pensando no horrível que deveria ter sido crescer em uma casa com um pai que passava o dia torturando filhos dos outros. E quando chegava em casa, o pai dava surras terríveis nos filhos, Romeu tinha todas as costas marcadas, de tanto que apanhou. Como eu nunca apanhei, ficava mais sensibilizada com sua história. 

Mas nunca me vi como namorada trouxa, pelo contrário, me via como uma  mulher madura que sabia lidar e aceitava os demônios do Romeu, eu sabia (achava isso) levar um relacionamento e conseguia driblar a tensão que gerava. Porque depois que fiquei sabendo que meu sogro era torturador eu não consegui mais ir a sua casa. Nunca gostei dele, sempre achei o olhar tenso, mas depois ficou impossível.

Quando o namoro terminou comecei a conversar com outras mulheres que tinham passado por relacionamentos abusivos, percebi que aquilo era um padrão, todas entendiam, compreendiam a trágica história de Romeu e por isso davam desconto aos abusos.

E posso contar milhões de histórias, o desenho é o mesmo, nós, mulheres, somos educadas para entender o outro e aceitar, somos vistas como ''criaturas'' boas, carinhosas e prontas para servir de ''repouso do guerreiro'' e não tem nada no mundo mais bonito do que uma mulher que sabe respeitar e compreender os ataques de fúria do Romeu.

O que levei anos para entender é que não estou feita de papel, se Romeu tem seus traumas, também tenho os meus e nem por isso tenho direito de jogar meus demônios em cima dele. Ah, mas alguma vez Romeu aguentou as consequências dos meus traumas? Não! A parte compreensiva e amável sempre fui eu, Romeu ficava impaciente e me deixava falando sozinha, vamos ser sinceros, alguém conhece um Romeu que aguente os demônios de sua Julieta?Nunca vi. E a resposta é simples, eles não são educados para aguentar, nós sim. 

Quando era pequena ganhei uma boneca que chorava e eu tinha que cuidar dela, já estava sendo domesticada na dor alheia. Enquanto isso meu irmão ganhava uma bicicleta, para experimentar a liberdade. 
A propaganda, novelas, filmes, todos acentuam a importância da mulher ser compassiva e receptiva a dor dos outros, a entender seus traumas, mesmo que eles venham na nossa direção.

E já tive dois grandes exemplos de demônios que não vieram para cima de mim. Um deles aconteceu com um Romeu, com um relacionamento estranho com sua mãe, uma mistura de ódio com indiferença porque tinha sido abandonado por ela e criado por um pai irresponsável. Só fiquei sabendo dessa história anos depois, quando era apenas amiga dele. Jamais escutei sobre o assunto durante o namoro, nem sofri as consequências disso. Quando perguntei como ele porque ficado quieto em relação a isso, me respondeu:

-Eu faço terapia há anos. É um assunto meu, não de minha namorada.

Em outro momento meu irmão ficou irritado com um assunto pessoal, começamos a discutir e ele foi e quebrou a porta do banheiro. Eu estava na sua frente, podia ter me quebrado, porque estávamos falando de um demônio dele. Esse foi um dos momentos que me fizeram entender a realidade dos demônios, todos temos e eles aparecem o tempo inteiro, mas ninguém precisa pagar por isso, é melhor ir e arrebentar a porta do banheiro do que bater ou humilhar alguém.

Hoje escuto meus Romeus falando sobre seus traumas, não me incomoda, mas não dou mais desconto, entendi a importância de me manter fora do problema, os demônios podem aparecer, mas jamais ir na minha direção. E nem precisam ser demônios, podem ser demoniozinhos, aqueles que aparecem em qualquer momento para todos.

Ontem passei por uma situação que percebi como fica claro quando alguém quer jogar no outro seus traumas, demônios e erros.

Fui com um casal de conhecidos ver uns perfumes que estavam em oferta. Chegando lá, justo o que procurávamos, já tinha acabado. Escutei quando meu amigo disse a sua namorada:

-Não te disse para vir mais cedo? Tá vendo onde leva ser preguiçosa e deixar tudo para última hora?

Me meti na conversa e disse que tinha avisado minha sobre a oferta de tarde, não foi cedo e não era para tanto, era só um perfume e Romeu me respondeu:

-Sabe que nós estamos planejando ter um filho? Você acha que posso confiar em uma mulher que não acorda cedo? Vai deixar a criança berrando de fome!

Quando percebi que aquilo não iria acabar, saí da loja e fui embora. Tive a certeza na hora que era um demônio do rapaz e nada iria mudar aquilo, ele ia encher o saco da Julieta o dia inteiro. Não sei que botão disparou nele, nem o que o perfume tinha a ver com isso, também fiquei frustrada e com vontade de chorar, mas não me vi na necessidade de jogar isso em cima de ninguém.

E ver essa Julieta me fez lembrar de tudo que um dia aguentei! Quantas vezes fui humilhada em situações corriqueiras como uma simples compra? Quantas vezes aguentei insultos por motivos absurdos?

Eram só os demônios de Romeu vindo na minha direção e eu não percebia. E assim como lembro de demônios soltos, também lembro dos que se mantiveram presos.

Uma vez viajei com um Romeu, deu um problema, ele se irritou, saiu do carro e ficou uns minutos na estrada chutando tudo, mas não me disse nada, voltou quieto ao carro e fomos embora. 
Já em outra ocasião fui a uma festa com outro Romeu, ele se perdeu e passou a festa inteira me atormentando, dizendo que eu era uma tonta que tinha dado o endereço errado, que eu não sabia me localizar, que não sabia a diferença entre uma rua e uma avenida. Me torrou a noite inteira, estragou minha festa e me deixou deprimida.

Continuo achando importante ter compaixão pela dor dos outros, me parece fundamental para que o mundo melhore, mas agora entendo a divisão, compreender não quer dizer que somos saco de pancada dos Romeus e entender não significa que ele pode jogar todos seus demônios em cima de nós.

Traumas e vontade de explodir o mundo não são privilégio do gênero masculino, todos temos, todos passamos por abusos e todos tentamos levantar da maneira mais digna, sem sair ferindo e matando os outros. Raiva, ódio, impotência, vontade quebrar o pescoço da pessoa todos sentimos um dia.

Namorar alguém inclui entender sua sombra e relevar, mas nunca aceitar que venha na nossa direção. Demônios fazem parte do ser humano, mas nem por isso podemos permitir que eles nos atormentem, já temos os nossos para lidar, não dá para aguentar os alheios nos atacando.

Fui muito fofa e compreensiva com todos meus Romeus e paguei muito caro por isso, agora não quero nem saber, não dou desconto para nenhum demônio. E depois de tudo que passei não aconselho nenhum Romeu jogar seus demônios em cima de mim, porque os meus já foram bem treinados e também posso jogar eles. E vai virar briga de cachorro grande e isso não vale no amor, a melhor coisa é cada um manter seus demônios na gaveta e jamais jogar eles em cima de quem ama. Os demônios são nossos, não do outro, ninguém tem que pagar pelos nossos traumas. E também não temos que pagar pelos alheios. Me parece o princípio do amor, quem ama de maneira saudável sabe disso, o demônio se guarda a sete chaves.



Iara De Dupont

5 comentários:

Musicista Feminista disse...

Se fazemos metade do que eles fazem, somos tachadas de loucas de TPM.
Eles adoram dizer que somos seres inconstantes e emocionais, mas na verdade nós somente não escondemos isso.
Eles ficam a vida toda aguentando seus demônios e sendo obrigados a negar que não tem nada. Mas tem sim, e descontam na gente!
Pq demonstrar e admitir que tem problemas, é coisa de mulherzinha.
Infernizar a e torturar a vida das mulherzinhas, aí sim é coisa de macho!

Anônimo disse...

Diferença entre ser compreensivo e ser trouxa... por que ninguém nos ensina isso?

Anônimo disse...

Nossa, Iara! Como me identifico com você. Você é ótima na sua visão de vida! Eu já aturei muitos "demônios" alheios e demorei para entender que aquilo não era comigo, me feriram, machucaram (e se deixar ainda me ferem!), sou daquelas "boazinhas", mas estou mudando isso, porque o mundo não respeita e nem valoriza que é muito legal, estou meio de saco cheio de ser "lindinha" para o mundo cada vez mais egoísta e cruel...só seu legal agora com quem merecer e muito!! Nota 10 para seu post verdadeiro!!! Só fico triste porque ninguém fala isso pra gente. Poxa, iria evitar tanto sofrimento. Fazer o que, né? bola pra frente...rs.

Suzana Neves disse...

Uma coisa que aprendi foi nao ficar perguntando o que a pessoa tem.
Mas se vir pro meu lado ja explico na lata que o negocio não é comigo isso desarma qualquer um queria dizer que guardo meus demonios mas eles saem pra passear direto!

Anônimo disse...

lara! Encontei vc por um acaso hoje,fazendo uma simples pesquisa de começo achei que vc era apenas uma feminista dessas raivosa e coisa e tal e fiquei surpreso como sua forma de ver,viver e sentir o mundo ao seu redor, sobre esses demônios é verdade todos temos então hoje eu controlo melhor esses demônios e não fico enchendo o saco de ninguém,são demônios meus só meu .

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