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18 fevereiro 2015

O Vale das bruxas (somos nove e de cabelo preto)


Quando comecei o blog uma das minhas primas me mandou um recado no twitter dizendo ''não se atreva a contar tal história''.
Ora, que não se atrevam elas a esquecer minha avó, desonrar seu nome e sujar sua memória.
Minha avó puxou cada neta a um canto e a preparou para o que ela achava importante, então ficamos assim, minhas primas não se metem com o que minha avó me disse e eu não me meto com o que foi dito a elas. Mas todas conhecemos a história.

Uma das grandes discussões que sempre tive com meu pai foi em relação ao meu interesse pelo mundo esotérico. Ele surtava quando eu começava a contar as histórias que tinham sido ditas pelas minhas tias e avó. Dizia que a família da minha mãe era mística demais, uma maneira de fugir da realidade, ficava preocupado, porque segundo ele, minhas tias enchiam minha cabeça de minhoca com histórias fantasiosas.

Na geração a qual pertenço poucas mostraram interesse em assuntos místicos. Mas acontecem coisas estranhas na família e sempre fiquei pensando nisso.

Hoje quando lembro de algumas dessas histórias sou obrigada a concordar com meu pai, talvez foram fruto da ignorância e não do misticismo.

Uma das histórias mais contadas e que todas as primas sabem de cor é sobre uma fofoca gerada no sitio do meu avô.

Minha avó nasceu no campo e nunca gostou de lá, tanto fez que aos onze anos conseguiu sair, foi trabalhar como empregada doméstica na cidade grande.

Depois conheceu meu avô e se casaram, mas meu avô era louco pela vida no campo e comprou um pequeno sítio. Acredito que ele pensava que minha avó o ajudaria, esqueceria seu trauma pelo campo e mudaria de ideia, mas isso parece que não aconteceu. Ela resistiu em ir ao sítio, dizia que não podia abandonar a cidade com seis crianças a tiracolo. Mesmo assim meu avô a atormentava e ela começou a ir aos fins de semana, tentando arrumar o lugar.

A personalidade do meu avô sempre foi um tormento para minha avó, ele era agitado, volúvel e não se concentrava em nada, acabou sobrando para ela resolver os assuntos do sítio. É nessa parte que a história começa.

Minha avó tinha o temperamento forte e a mão dura, conhecia o campo e começou a dar ordens aos homens contratados para trabalhar a terra. Isso deve ter acontecido nos anos quarenta e os homens não gostavam de receber ordens de uma mulher, minha avó batalhou muito para ser respeitada e obedecida, mas a coisa não andava no sítio. Ela estava como sempre esteve, sozinha no casamento, com um marido irresponsável e mulherengo, que se divertia na cidade enquanto ela ficava isolada, em um lugar distante, dormindo com uma arma debaixo do travesseiro.

Cada vez que ela precisava comprar mantimentos tinha que ir a uma cidade próxima, à cavalo.

Um dia chegou a mercearia do lugar e pegou uns pacotes de arroz. Na hora de pagar o dono do lugar disse:

-Me desculpe dona, mas só posso vender coisas para seu marido.

E ela perguntou qual era o problema, se ela tinha o dinheiro.
O dono enrolou, enrolou, mas não aguentou mais e disse:

-É que estão dizendo na cidade que a senhora é bruxa.

Minha avó ficou tão indignada que saiu de lá sem nada. Tinha sido criada como católica e era uma fervorosas, ficava horrorizada quando alguém dizia coisas assim.

Meu avô contratava os homens, mas hoje entendo que eles não queriam trabalhar debaixo das ordens da minha avó, então sumiam, mas começou a circular nas cidades próximas que a minha avó era bruxa e usava o sítio para fazer seus trabalhos. 

Pessoas começavam à trabalhar um dia e no outro iam embora, tudo isso ajudava a criar a fama.
Muita gente entrou e saiu daquele sítio, mas o fato de ter sido largado pelo meu avô também não ajudava.

Minha avó se cansou de tudo, do trabalho, da solidão e de ter que caminhar quilômetros para comprar comida, porque ninguém queria vender nada a ela. As pessoas se sentiam constrangidas, porque em época de colheita minha avó sempre distribuía comida, ela nunca negou alimento a ninguém. E a miséria por aquele lugar era tanta que todos aceitavam, mesmo com medo da comida estar ''trabalhada''.

O sítio ficou lá, abandonado, como está no meio de umas montanhas alguém o apelidou do ''Vale das bruxas'', a casa foi sendo roubada, levaram tudo, até as paredes. Mas uma energia estranha impede que qualquer pessoa da família se interesse pelo lugar. Já escutei muitas tias dizendo que vão se mudar para lá, arrumar as terras e começar a vida, mas ninguém teve coragem. 

Há pelo menos trinta anos meu avô contratou um caseiro, que mora em uma casa ali perto, ele prepara a terra, planta e colhe. Dizem que ele só ficou ali porque é o Don Diablo e não teve medo da bruxa da minha avó.

Meus primos não demonstram nenhum interesse em fazer alguma coisa, alegam e estão certos, que o lugar é remoto, longe de estradas e não dá para fazer nada.

Hoje cheguei a conclusão que minha avó recebeu o apelido de ''bruxa'' porque foi mão dura, foi vítima do machismo, a única maneira de ofender uma mulher é espalhando que é macumbeira ou prostituta. Como ela era casada e com filhos, sobrou o apelido de bruxa.

E anos depois essa história ainda me deixa chateada, porque imagino o tamanho do sofrimento dela e de sua dor, abandonada ali pelo imbecil do marido, tentando ajudar a família a se manter e sendo isolada e tratada como leprosa por todos. Porque diziam que era bruxa, mas cansaram de bater na sua porta pedindo comida e cobertor, e minha avó sempre ajudou.

O caseiro que trabalha há trinta anos conta muitas histórias, das quais a maioria me parece ofensiva, porque sempre coloca em dúvida a identidade de minha avó, como se ela realmente fosse uma bruxa.

Uma dessas histórias aconteceu com meu avô. Um dia entraram assaltantes no sítio, meu avô correu e tentou fugir com o cavalo, mas acertaram três tiros. O caseiro vinha atrás e tentou ajudar, viu quando meu avô caiu ao chão. Correu então para o sítio e ligou para minha avó, dizendo que seu marido estava no chão do pátio, morto. Minha avó escutou tudo com calma, mas naquele momento meu avô jantava na sua frente e ela disse isso ao caseiro, que saiu voando em direção ao pátio, mas não encontrou mais o corpo do meu avô, apenas o cavalo. Outra pessoa estava no sítio e disse ao caseiro que iria embora, porque ele tinha visto meu avô levar os tiros, mas se não estava ali é porque a mulher que era bruxa tinha feito alguma coisa.

Meu avô adorava essa história, contava para todos. Mas meu pai não gostava e dizia que eram só lendas de lugares remotos e que minha avó tinha sofrido essa perseguição porque ninguém queria receber ordens de mulher, então era um jeito rápido de afugentar ela de lá.

Mas sempre teve uma peça solta essa história, que ninguém conseguiu explicar.

Minha avó estava no sítio quando resolveu ir a uma feira de doces perto dali, com sua filha mais velha de sete anos. Minha tia conta até hoje, com lágrimas nos olhos, que todos viravam o rosto ao ver minha avó, como se ela fosse coisa de outro mundo. Mas crianças cismam e minha tinha cismou com um doce, queria de qualquer jeito, minha avó se aproximou para comprar e a vendedora se negou a dar o doce. Naquele dia minha avó explodiu, disse que aguentava todos os desaforos, menos que magoassem sua filha negando um doce que ela poderia comprar. Então a vendedora se aproximou de minha tia, deu o doce e disse:

-Vou colocar o doce nas tuas mãozinhas que são puras, você não é uma bruxa como tua mãe, que se converte em bola de fogo nas noites, queima as plantações e hipnotiza animais.

Minha tia encheu o peito, devolveu o doce e disse:

-Eu não sou uma bruxa, nem minha mãe é.

E a vendedora respondeu:

-Você não é, e não vai ter filhas, mas tuas irmãs e irmão terão seus filhos, e no total serão nove meninas de cabelo preto, todas elas serão bruxas.

Então minha tia começou a chorar e minha avó a tirou dali.

Essa história foi contada um milhão de vezes, minha tia jura que foi assim, até uma prima da minha avó garantiu que tinha acontecido desse jeito, porque ela estava no sítio quando minha tia chegou chorando e dizendo que suas irmãs teriam bebês-bruxas.

A vendedora acertou em algumas coisas, minha  avó teve nove netas e todas são de cabelo preto.
Cansei de perguntar a minha avó porque começaram essa fofoca sobre ela no sítio, mas nunca me respondeu claramente.

Há oito anos estive no sítio, é um lugar assustador até de dia, estranho, parece Marte e a noite os ventos são gelados e parecem gemer. Fiquei pensando no horrível que deve ter sido sua vida da minha avó ali, isolada, distante.

Nesse dia fomos ver rapidamente a colheita de milho, mas o caseiro pediu que minha avó não descesse do carro, porque dizia que se ela batia o olho, secava o milho.
Ela estava sentada no carro, olhava tudo de um jeito estranho, lembro até hoje, era um dia gelado, o sol aparecia e desaparecia, e minha avó estava no carro impaciente, querendo ir embora, parecia que o lugar só trazia más lembranças e perguntei se sentia incomodada com o que o caseiro tinha dito e me respondeu:

-Ai, Iarita, tive tanta raiva do teu avô e tanto medo, que talvez sequei sim alguma plantação, mas foi de raiva, não era bruxaria, era meu ódio de estar abandonada aqui.

Uma das minhas primas tinha levado sua filhinha, de cachinhos loiros, quando a menina passou perto do caseiro, ele gritou para minha avó:

-Essa menina não saiu bruxa né?

E minha avó respondeu:

-Não, deu azar.

Me meti na conversa e perguntei:

Abuelita, será que somos mesmo bruxas?

E ela me olhou com seus enormes olhos negros e me disse:

-Você está muito jovem ainda para a resposta. Mas não se preocupe, vai chegar, espere mais um pouco.

Ai, abuelita, estou esperando até hoje. E às vezes me pergunto se essa resposta está naquele sítio, se vou ter que voltar lá um dia para saber. Se é só aquele céu que pode me responder, quem realmente somos abuelita?

Iara De Dupont


5 comentários:

Patrícia disse...

Eu gostaria de conhecer este sítio e todas as histórias sobre sua avó e sua família. Bom, quem sou eu para dizer, mas não acho que sua avó fosse uma bruxa. Mas pessoas conectadas com a natureza, com as energias dela, são apenas julgadas como coisa ruim e pronto. O que as pessoas não conseguem compreender geralmente é mal julgado.

Anônimo disse...

Bruxa é qualquer mulher que não se conforme em ser limitada pelo que o machismo e os machistas esperam dela. E, sinceramente, quanto à vendedora mal educada, ninguém pensou em rebater dizendo que ela é que seria a bruxa, já que estava prevendo o futuro? Se bem que a previsão dela até eu posso fazer, conheço os princípios da genética... o fato é que se não aceitarmos o lugar em que querem nos colocar e insistirmos em ser mais, seremos bruxas. Ou p*tas.

Anônimo disse...

Olha, eu adoraria ser uma bruxa de verdade... o que eu ia fazer de lingua cair num é brincadeira kkkkk

Anônimo disse...

Bruxa era o nome dado a qualquer mulher que tinha algum poder que os homens nos tiravam ( ainda tiram).

Anônimo disse...

A bruxa de ontem é a "puta" de hoje.

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