ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

07 fevereiro 2015

Não quero saber o que Romeu pensa da minha bunda

PAOLLA OLIVEIRA

Uma moça me disse:

-Não sou feminista, mas acho que é bom ser uma em algumas áreas da vida.

Perguntei que áreas seriam essas e me respondeu:

-Ah, não gosto do feminismo porque acho agressivo com os homens, não quero ser assim, ir pela vida discutindo com todos. Mas o lado bom é que vocês,feministas, se relacionam com o corpo de maneira diferente, como rejeitam a pressão da mídia e dos homens ficam mais à vontade com sua aparência.

Achei tudo muito confuso. Não entendo até hoje uma mulher que diga que não é feminista porque isso agride os homens. Não sei em que momento a igualdade pode agredir alguém, mas aprendi que cada uma reage a sua maneira à vida e muitas mulheres ainda acreditam que vivem debaixo da sombra do patriarcado, que se estão do lado dos homens serão protegidas por eles.

Mas esse ponto sobre se sentir melhor com o próprio corpo já escutei  várias vezes, quem não conhece o feminismo pensa que é uma solução mágica que arruma a vida da mulher na hora. Nenhum pensamento ou ideologia muda nossa vida em um minuto, pelo contrário, o primeiro passo é apenas o começo de uma longa jornada.

Entendo bem a divisão que existe em muitas mulheres que são feministas, eu sinto isso na pele. Uma ideia na cabeça, bem aceita na parte racional, nem sempre desce no coração, de vez em quando brigam e questionamos nossa força.

Desde que me tornei feminista minha vida melhorou, me livrei de bobagens e limitações, sou grata porque aprendi a ser uma pessoa melhor e me achei no mundo, mas nem sempre consigo respirar de acordo com o ar que existe ao meu redor.

O ano passado vivi uma situação que me colocou em um stress mental terrível, me custou dias e parecia não terminar.

Há alguns anos me envolvi com o um Romeu, acho que ele tinha outra namorada, não lembro bem da história, mas como eu não estava apaixonada pude negociar com ele e ficamos amigos.
Na época que saímos juntos descobri que não tínhamos nada em comum, mas a pele dava certo, grudava. Não tenho explicação, as coisas funcionavam de maneira perfeita.

Pensei que poderia ser um sinal, talvez funcionaríamos fora da cama, mas alguma coisa acontecia e a gente se irritava um com o outro fora dela, era uma energia estranha. Esse Romeu era memorável na intimidade, tinha uma gentileza na cama, uma doçura que nunca conheci em ninguém.

Um dia uma professora me chamou para ajudá-la em uma palestra sobre feminismo. É uma pessoa que respeito muito e me pediu para corrigir uma palestra sua e acrescentar algumas coisas. Me senti no céu, apesar de estudar muito sobre o feminismo, conheço milhões de mulheres mais bem preparadas sobre o assunto.

Eu não acreditava, fiquei parada escutando a palestra, e cada vez que dizia uma frase minha  sentia meu coração pulando de alegria. Saí do lugar caminhando nas nuvens, achando que eu era a mulher mais inteligente do planeta e que sabia muito sobre feminismo, já que minha professora não cortou nada do que escrevi. 
Enquanto caminhava pela rua, esse Romeu me ligou, perguntando se queria passar em sua casa, que estava no meu caminho. Eu estava sozinha, queria conversar com alguém e fui. Chegando lá gastei umas horas contando os detalhes do que tinha acontecido na palestra, ele nunca foi muito expressivo, mas enquanto cortava os tomates para fazer o jantar fingia escutar. Eu não parava de falar sobre o que tinha acabado de viver e fechava as frases dizendo  ''tem ideia do que isso significa para mim?''.

A noite acabou na cama.
No dia seguinte escutei meu celular, ia me levantar para pegar quando percebi que não estava na minha casa, nem na minha cama. E Romeu estava ao meu lado e disse:

-Olha teu celular, vai lá atender.

Para que eu fizesse isso teria que me levantar e ele estava segurando o lençol. A luz entrava pelo quarto, iluminando tudo. Calculei os passos que teria que dar e decidi não me mexer. O celular tocava e Romeu começou a rir, dizendo:

-Vai Iara, pode ser uma emergência.

Pedi a ele então que me desse o lençol, assim eu poderia me cobrir e levantar e ele respondeu:

-E perder a melhor parte? Te ver nua de costas? Nem morto te dou o lençol.

Me deitei de novo e acho que ele ficou com pena, se levantou e me trouxe o celular, que já parecia ter horas tocando.

Era uma amiga me perguntando da palestra da noite anterior, então caí em mim e tive vontade de chorar. Fui invadida por uma sensação de fracasso e derrota que não posso descrever.

Romeu teve que sair do apartamento e levar seu cachorro para passear, fiquei  sozinha um bom tempo e pude meditar sobre o que tinha acontecido e porque me sentia tão mal.

A sensação que eu tinha era de ter subido ao céu e despencado na mesma velocidade. Me senti como se fosse uma farsa, como se tudo na minha vida fosse vazio e  falso. E isso aconteceu porque  ajudei a elaborar uma palestra sobre feminisno, que abordava consciência corporal e o papel da mídia no massacre que as mulheres sofrem pela sua aparência, pude escrever sobre isso, mas de repente estava na cama de um Romeu e não quis levantar, e tive isso claro na minha mente, não levantei porque tive medo do seu julgamento em relação ao meu corpo. Eu não malho e tenho celulites no bumbum. Jamais escutei um comentário negativo dele sobre meu corpo, mas nem por isso me permiti levantar nua. Fiquei paralisada, com vergonha, com medo do que ele ia achar. Ah, mas se eu tivesse o bumbum da Paolla Oliveira, teria levantado? Com certeza e ainda levantava dançando.

Aprendi a me lixar para a opinião masculina sobre minha aparência, tenho um certo horror a isso, pelo assédio que todas nós, mulheres, sofremos todos os dias, mas não consigo me ''lixar'' ainda quando gosto de um Romeu e me envolvo com ele.

Percebi como ainda estava doutrinada no medo de não agradar um homem, como ainda era importante descer o feminismo da minha mente e colocar no coração. Entendo o que é aceitar seu corpo e sei o que os meios de comunicação jogam em cima de nós, mas nem por isso consegui levantar da cama.

Feminismo ajuda a mulher a aceitar seu corpo e perceber como tudo ligado a ele é manipulado pelos meios, igreja e Estado, mas não quer dizer que é fácil lidar com o que acontece ao nosso redor ou fugir de das pressões.

Depois desse dia muitas coisas mudaram em mim, percebi como meu trabalho no feminismo estava apenas começando e como ainda existiriam pedras no meio do caminho. Ter noção de liberdade não quer dizer que estou livre do medo do julgamento do outro. E tenho plena consciência que meu doutrinamento não é individual, os homens também recebem essas imagens de mulheres perfeitas e acabam de uma maneira ou outra procurando por isso e seria hipócrita da minha parte dizer que não faz diferença saber que os homens também estão debaixo dessa cultura machista.

Não represento ninguém,  falo apenas da minha vida e conheço centenas de feministas que têm uma aceitação maior com seu corpo do que eu, podem se levantar nuas da cama dos seus Romeus. Sei de muitas que já transcenderam com isso de julgamentos alheios, mas ainda não é meu caso.
Ou talvez me senti assim porque no fundo gostava desse Romeu e quando gostamos não queremos ser julgados pelo outro de maneira negativa. Mas isso é mentira, fosse o homem que fosse naquela cama, naquele dia, eu jamais teria me levantado com tanta luz e sem roupa. São anos escutando que nasci para agradar homens, pode ser muito fácil dizer que isso não me afeta mais, em uma palestra, mas me afeta na vida pessoal, ainda luto comigo mesmo para dizer que não me importo o que Romeu pense de minha bunda.

Para mim feminismo é uma luta diária, constante, visceral e talvez eterna. Cortar todas as cordas que me amarraram durante decádas é um processo mais lento do que parece, mas acredito nos resultados, sei que a mudança começa na mente e depois devagar ela vai invadindo nossa alma, até que um dia acordamos e já somos parte do nosso pensamento, aparece a comunhão entre mente e alma.

Por isso subo paredes quando algumas pessoas dizem que os meios de comunicação na sua distorção da imagem mulher não mudam nem afetam a vida de ninguém. Eu sou a prova do contrário.

Iara De Dupont

Um comentário:

Suzana Neves disse...

Eu depois de adulta mudei muito em relação as coisas por exemplo meu filho quer falar da minha barriga.
Mamãe tem um barrigão eu digo viu filho que barrigão lindo faço isso com todas crianças que conheço.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...