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01 fevereiro 2015

Não é fácil ser feminista (para ninguém é)


Me dizem com muita frequência  ''para você é fácil ser feminista porque não é casada'', ''é fácil ser feminista por isso ou aquilo''.
Não é fácil ser feminista, nem para mim nem para ninguém, em um mundo machista. Não faz diferença se sou casada ou não, feminismo é um posicionamento político e tudo que não foi estabelecido pelo patriarcado vai sofrer represálias.

Não nasci na Suécia nem fui educada por mãe feminista, pelo contrário, venho de um ambiente misógino, violento verbalmente, e tanto eu como minhas primas sempre fomos invisíveis para a família inteira. Minhas tias e minha mãe são machistas e apenas passaram a mesma educação que receberam.

Se eu corro e digo para minha mãe ''olha, que coisa boa, tive tantas visitas no blog!'', ela olha indiferente e vai me lembrar que centenas de pessoas têm blog, ou seja, o meu não faz nenhuma diferença. Mas se ela percebe algum Romeu dando voltas pela minha janela, seus olhos brilham, incentiva, aplaude e me lembra que não gostaria de morrer sem me ver casada, com pelo menos um filho.
Um dia disse a ela  ''vou te dar uma vida de rainha'', e ela respondeu ''ah, o que eu quero mesmo é ser avó''.

Não acordo feminista, nem sou, eu me faço, me construo todos os dias, por exigência da vida. Por mim preferiria acordar em um país que tudo isso já tivesse sido assimilado, mas não é assim, então me vejo obrigada a sair da cama e lutar pelos meus direitos.

Mas nos últimos tempos tenho me dedicado tanto ao estudo do feminismo que cheguei a umas conclusões. Começo a entender as mulheres que me dizem ''não sou feminista''. No começo achava que era ignorância delas ou medo, mas comecei a perceber que o feminismo é um movimento mais interno do que parece, precisa estar alinhado com uma verdade interna.

Comparo muito isso a ser vegetariano. Uma parte da família da minha avó ainda mora no campo e uma sobrinha um dia surpreendeu todo mundo. Desde pequena nunca gostou de comer carne, nem de frango nem de boi. Mas onde ela mora é comum matar o animal e comer, ela não conhece os campos de concentração das galinhas, nem os rastros dos bois, está acostumada a ver a pessoa pegar no animal e matar.

Uma dia minha avó foi visitar seus parentes e eles estavam revoltados, a menina ia fazer quinze anos, e pediu que não matassem um boi para fazer a comida. Isso era uma ofensa para todos e deu uma confusão enorme. Minha avó sempre tentou arrumar o problema, chamou a menina e perguntou o motivo dela não querer matar o boi e a menina respondeu:

-Porque é meu aniversário! Não quero comemorar nada que inclua a morte de alguém.

Minha avó insistiu que era apenas ''um boi'', nada além disso e se não matassem ele, o que iriam comer?

Mas a menina continuou dizendo que se matassem o animal ela não ia querer festa.

A mãe dela se meteu e perguntou porque tanto drama em matar um animal e a menina disse:

-Porque isso não está certo.

Escutei essa história anos depois, minha avó me contou rindo, achou engraçado, pensou que a menina fez de birra para chamar a atenção. Mas minha leitura foi diferente, a garota estava alinhada com sua alma e percebia que matar animais não era certo. Ela não tinha nenhum recurso externo para tomar essa decisão, morava no campo, sem televisão, computador, isolada, frequentava uma escola onde apenas ensinavam a ler e escrever e não conhecia a realidade dos animais fora do seu meio. Era a alma dela que tinha dado essa certeza de que matar não era correto, mesmo que ela tivesse crescido vendo que isso era um  fator de sobrevivência.

É nesse momento que uma pessoa se torna vegetariana, pelo menos acredito nisso. Não é um fator externo, nem físico, é a alma que decide e entende que matar não é necessário. Não é uma coisa que os outros têm que determinar se é certo ou errado, nós sabe a diferença, mesmo sem poder explicar da onde vem nossa certeza.
Quando a alma determina e a pessoa escuta, então as coisas mudam.

No caso do feminismo me parece a mesma coisa. Não é só uma questão de direitos, mas de se perceber como indivíduo, entender que o que nos dão todos os dias não é o certo.

O direitos da mulher são um fator social, mas seu posicionamento como ser humano é um fator interno, uma consciência de que seu papel no mundo vai além do genêro, não depende do sistema político para saber quem é.

Sempre digo que desde que a mulher nasce começa a ser enterrada pelos pais, sociedade, mídia, todos tentam castrar, amputar, a transformar em uma boneca e sair viva disso não é uma tarefa fácil.

Uma vez li sobre um estudo, sobre umas crianças que eram escravas e tinham sido resgatadas. Elas não conseguiam levantar a cabeça porque desde pequenas tinham sido ensinadas a andar olhando para o chão. No começo os médicos acreditavam que pela proibição não tinham desenvolvido os músculos do pescoço, mas com o tempo perceberam que com uns exercícios poderiam andar de cabeça erguida. Mas não avançavam, porque as crianças ainda não entendiam internamente que eram livres e não precisavam mais se submeter.

Me parece que é a mesma coisa que acontece com algumas mulheres, elas se tornam feministas porque acreditam na causa, mas internamente ainda se sentem inferiores.

Acredito que o primeiro passo para se tornar feminista é mergulhar em si, se ver como uma pessoa e não um sub-humano, não é mãe, não é mulher de fulano, não é boneca, é uma pessoa inteira, como vontades e desejos, que talvez seriam iguais independente do gênero. Em um contexto espiritual é uma alma igual a todas que existem no mundo, sem limites.

Depois que a mulher consegue se ver como um ser humano em todos os aspectos, então sim é hora de assimilar uma proposta política, seja ela qual for.
Eu não quero meus direitos  ''só porque sou mulher'', mas porque sou uma pessoa inteira, um ser humano e não tenho porque viver sendo subjugada. 

Nasci no mesmo planeta que todos, da mesma forma e quero as mesmas coisas, direitos e respeito. E peço isso não só como mulher, mas como ser humano.

Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Foi por esses mesmo motivos que me tornei feminista também. Aqueles comentários do tipo "mulher nunca fez nada na história", "coitado do seu pai com 4 mulheres em casa", sempre me irritaram. Mas eu não tinha argumentos e nem sabia exatamente porque aquilo me incomodava, eu só sabia que aqueles comentários eram mentirosos e me machucavam, pois eu não me via como uma pessoa inútil.
Eu comecei na faculdade aleatoriamente a ler livros sobre história das mulheres na ciência e várias artigos pesquisas sobre gênero e sociedade. Foi aí que eu comecei a entender realmente as coisas e ter vários argumentos para bater de frente com machistas. Agora eu sabia do que estava falando e de onde aquelas piadas otárias vinham e o significado ridículo que elas tinham.

Anônimo disse...

Odeio os comentarios machistas que ouço, de que mulher só é completa quando se casa e se torna mãe, de que mulher nao rende tanto quanto o homem no trabalho, de que mulher tem de estar linda 100% do dia...e o pior, a cultura brasileira é tão machista que quem fala contra, é louco, sem noção...e outros elogios mais.

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