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05 fevereiro 2015

Gorda? Um substantivo não me define


Nestes cinco anos de blog conheci muita gente, entre elas uma garota que usava um nick  ''eu, gorda''. Conversei com ela algumas vezes, me parecia inteligente, mas sempre era de tom um pouco duro. Um dia comentei que o seu nick me parecia estranho, gorda é um substantivo e não define uma pessoa, então ela surtou, falou que o nick era dela e passou dias me mandando emails ofensivos.

Talvez não me expliquei bem porque não tive o espaço necessário, mas parece que virou uma febre nas páginas virtuais dizer  ''eu, gorda''. Perguntei a uma das garotas que usam esse nick porque o tinha escolhido e ela me disse:

-Porque eu sou gorda e assumo isso! Não tenho medo de dizer que sou. Você não usaria?

Não.

-Então é porque você não se aceita, quem se assume usa esse nick à vontade.

Acho uma definição simplista dizer que um substantivo pode me definir, mas cada uma escolhe seu caminho.
Não nego que não gosto da palavra  ''gorda'' por um simples motivo, sempre foi usada na minha direção para me ofender e agredir, então não consigo escutar e achar normal. Não passei ainda pelo estágio de liberar a palavra da minha mágoa, então não gosto.

Mas comecei a pensar a respeito e cheguei a uma conclusão, vivemos em um constante perigo de cair em atitudes que tanto condenamos.

Se reduzir como mulher a um substantivo é terrível, eu nunca colocaria páginas me definindo com apenas um substantivo, por uma razão, não sou apenas isso, ninguém é. Ser gorda é a mesma coisa que ter cabelo preto, uma característica física e minha, então caso eu resolvesse dizer  ''eu, gorda'', também  teria que acrescentar ''eu, cabelo preto''.

Nem sempre dá para perceber, mas vivemos em um mundo que quer as mulheres dentro da caixinha, se mexendo ali como se fossem filhotes, sem sair dali. Para um sistema machista ter mulheres que se definem com apenas um substantivo é a glória, não existe muita diferença entre dizer ''eu, gorda'' e ''eu, gostosa'', já que as duas se definem pelo físico, exatamente o que os machistas dizem de nós, que não somos nada além do nosso físico, tanto assim que nem direitos temos.

E tenho outra bronca em relação a palavra ''gorda''. Foi tantas vezes dito isso durante a minha vida inteira, mencionado cada segundo, que as pessoas começaram me definir dessa maneira e eu acabei acreditando nisso, que eu era apenas  uma  ''gorda''. Eu não me via como uma mulher capaz, inteligente, nem com qualquer outra característica positiva ou negativa, era sempre a ''gorda''. Isso destruiu minha vida por anos, porque todos sabem o quanto gordos são odiados no mundo e quando assumimos essa característica e nos deixamos definir por ela parece que nos tornamos seres doentes que ninguém quer por perto. E ''gorda'' é um substativo que puxa na cabeça das pessoas outros mil adjetivos, as pessoas pensam gordos e pensam em preguiçosos, gulosos, folgados e mentirosos, porque comem e negam que comeram.

Vi centenas de vezes em agências de atores as produtoras escreverem  ao lado do meu nome, nas fichas de cadastro,  ''gorda''. Mas quando eram atrizes magras não precisava disso, apenas as gordas e negras éramos marcadas como se fôssemos animais diferentes dos outros.
Uma vez escutei um rapaz dizendo a outro  ''amanhã vou trazer minha namorada, ela é gorda, mas é legal''.
Ah, ainda bem que avisou né? Imaginou se chega no lugar com uma gorda sem avisar? Deus me livre, falta de educação!

Aceitar que é gorda, assumir seu corpo, é um movimento político, mas se reduzir a ele não faz sentido. Se eu assumo meu corpo é meu problema, não preciso sair dizendo a todos isso, posso me posicionar contra a gordofobia com meu nome, mas não preciso dizer  ''eu, gorda''.

Cada vez que vejo essas meninas batendo no peito e dizendo que são gordas, me pergunto se elas também assumem com a mesma intensidade sua inteligência e outras qualidades que devem ter.

Não sei no mundo dos outros, mas não meu não posso dizer  ''eu, gorda'', porque essa frase me anulou, massacrou, reduziu durante décadas, parecia que eu não podia fazer mais nada além disso, nem era capaz de ir mais longe.

Fiz faculdade de Rádio e Televisão e uma vez a professora me perguntou o que eu gostava de fazer, respondi que escrever e ela disse aliviada:

-Ai que bom, gordinhas são ótimas roteiristas, ainda bem que você não quer apresentar nem nada assim, porque com teu peso não ia dar.

E um professor ainda completou:

-É, sabia que as melhores escritoras do mundo são gordas?

Não, eu não sabia, nunca li nenhum livro que viesse escrito o peso da escritora, mas bom saber, quando lançar o meu vou colocar meu peso.

Se eu tiver que me definir como gorda também tenho que acrescentar a cor do meu cabelo, olhos e pele e todas as outras características que estão presentes em mim.

Tenho a impressão que essas meninas que tanto se definem como ''gordas'' estão apenas fazendo o caminho contrário, reforçando o preconceito que já existe. Ora, se alguém é gordo podemos ver isso na hora, não precisa avisar. É gordo é apenas uma característica física, nada a ver com a essência humana.

Não precisamos de meninas, de uma nova geração, se definindo assim, precisamos de meninas que assumam sua inteligência, seu carisma, humor, e outras coisas que podem acrescentar ao mundo, então sim sua gordura será vista apenas como característica, não como uma pessoa em si. Ser gordo ou magro não faz ninguém melhor, não muda o planeta.

O mundo não precisa de mulheres dizendo  ''eu, gorda'' , mas sim daquelas que vão além disso e mostram que o peso não faz diferença, e a atitude que muda tudo. Definir um ser humano por uma característica física limita todo o potencial que existe nele, mas se definir com por isso é como dizer ao mundo ''sou apenas isso, gorda''. E ninguém é apenas um substantivo. Quebrar esse esquema mental é o primeiro passo para dizer ''eu, ser humano, pessoa, individúo''. É aí que começa a história da pessoa.



 Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Olha, eu sou gorda, não tenho problema nenhum com isso, mas se eu fosse me definir assim, seria: "eu, inteligente".
Muita gente ia torcer o nariz, me achar arrogante, porque uma mulher pode se gabar de ser gostosa, mas nunca de ser intelignete e etc. Mas eu sou inteligente sim, desde criança. Sempre gostei de ler sobre tudo, aprender sobre tudo. E não venha me dizer que eu gosto de estudar porque sou gorda e foi isso que me restou. Porque eu fui magra mais da metade da minha vida. Era magra e inteligente, hoje sou gorda e inteligente, e, se a vida me permitir, amanhã serei velha e inteligente. rs.

Anônimo disse...

Pra quê se colocar um rótulo? Ninguém é só o que se pode ver. A pessoa mais fissurada com emagrecimento como sinônimo automático de beleza não se resume a isso. Por que procuramos tanto rotular os outros e a nós mesmo como se o ser humano fosse tão unidimensional assim? Depois de tantos anos era pra já termos aprendido que isso não adianta nada.

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