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25 fevereiro 2015

Cinquenta tons de ignorância


Há alguns anos começou uma febre com anjos da guarda. Eram livros, filmes, músicas, todos falavam deles.

Assisti umas palestras e me encantei, tive um momento de ''anjo total'', usava até nos brincos. Era tão fanática que cheguei a ganhar de um amigo uma caixão de sabonetes em formato de anjos.

Do que lembro algumas coisas deram certo para mim, quando eu pedia ao meu anjo da guarda.

Também ganhei um jogo de cartas de anjos e de tanto treinar comecei a ficar boa nele, era fácil decifrar as previsões.

Mas tempos depois uma pessoa errada entrou na minha vida e virou tudo. Nesse momento perdi a fé nos anjos, me perguntei porque não me avisaram, já que eu sempre tinha sido avisada, parece que eles afastavam as pessoas ruins de mim, menos esse que veio me causar tantos problemas.

Fiquei chateada, magoada e acabei deixando de lado o assunto, não fui mais a palestras nem comprei nada ligado aos anjos, deixei pra lá.

E como sempre dizem, a ignorância é uma bênção, eu não sabia de nada, nem como era a vida, e nunca parei para pensar em muitas coisas. Hoje depois de ler tanto sobre feminismo e o mundo que a mulher vive, me surpreende perceber como os anjos trabalharam duro para me proteger. Eu tive uma grande sorte na vida, talvez a maior de todas em um mundo misógino, eu não gosto de beber e descobri ser intolerante a bebida, isso me ajudou a manter a cabeça sóbria e a evitar muitas situações terríveis que as mulheres passam.

Podem dizer que a mulher é livre para beber e ninguém tem nada com isso, mas na prática todas sabemos que não é assim, sempre vai ter um homem por perto disposto a abusar. Moro perto de umas baladas que atraem menores de idade, se passo por lá de manhã, vejo a quantidade enorme de meninas sentadas, ou deitadas no chão, totalmente embrigadas e ao seu redor sempre tem alguém ''diz que tentando ajudar''.

Minha avó e minha mãe sempre me disseram que eu poderia beber todas, mas dentro de casa, nunca na rua e jamais aceitar bebida aberta de ninguém.
Também o fato de não usar drogas me ajudou a salvar a pele algumas vezes, porque essa é uma realidade para todas as mulheres, os tubarões sempre estão dando voltas e procurando outra presa.

E não bebi nem me droguei, mas foi porque não quis, eu não tinha a remota ideia do horror que é o mundo, nem da quantidade de abusos que acontecem quando rolam esses elementos. Só depois de ler a respeito comecei a lembrar de alguns episódios. 
Uma vez fui à uma festa com uns amigos do meu primo, todos eram uns nojentos e de repente um disse:

-A mulherada já está bebendo, agora é só esperar um pouco e pegar as mais ''molinhas''.

Tenho um amigo que é gerente de um bar e me contou que no fim da noite sempre tem algum cliente transando com uma mulher, quando eles vão chamar percebem que a mulher está desacordada.

No começo não bebia porque não gostava, hoje não bebo porque isso coloca em risco minha segurança. E também comecei a desconfiar de todos, antes eu era desencanada e comia o que me ofereciam, achava que se podia confiar se a festa era na casa de alguém conhecido. 

Mas tive dois incidentes que me fizeram mudar de ideia. Uma amiga foi convidada para uma festa, na casa de um ator, ela me ligou, mas meu anjo da guarda estava trabalhando naquele dia e eu não consegui chegar, me perdi e acabei voltando para minha casa. Nessa festa serviram um bolo de chocolate, que eu teria detonado, minha amiga comeu, um pouco demais, e acabou no hospital, o bolo tinha maconha e ecstasy, mas isso ninguém avisou.

O outro incidente foi pior, me convidaram a um jantar na casa de um diretor, fui e tinham umas gelatinas pequenas, de um sabor estranho, eu comi duas e achei melhor parar. Depois disso apaguei e acordei na minha casa, na minha cama. A amiga que estava comigo me contou que abriu a porta de um quarto e eu estava lá com o diretor, ela me achou estranha, chamou seu namorado e juntos me tiraram dali. Não lembro de absolutamente nada, nada, sei apenas que acordei sem o sutiã, o que indica que o diretor estava fazendo alguma coisa errada. O namorado da minha amiga disse que desconfiou das gelatinas, porque tinham um sabor diferente, pareciam remédios.

A maneira como levei a vida me protegeu um pouco, eu não tinha a remota ideia de como as coisas eram e jamais imaginei que tanta violência envolvesse a mulher, nunca pensei que o mundo era tão hostil com as mulheres, nem que de a cada dez, sete vão sofrer violência sexual. Tive tanta sorte! Minha avó dizia que Deus protege os ignorantes e acho que foi alguma coisa assim, porque eu fui ignorante, confia em todo mundo, incluindo homens e não via a maldade em nada e no auge da minha ignorância acreditei que grande parte do mundo era feminista e respeitavam os direitos da mulher. Pensava assim porque podia estudar, ao contrário das meninas de partes do Oriente, que não têm acesso aos estudos. 

Ao saber de tantas coisas, tanta informação e tragédias, mesmo sem querer mudei minha perspectiva, hoje penso que se precisa de anjos da guarda em período integral, aliados a um bom senso extraordinário da mulher.

Não sei e não tenho a menor vergonha de dizer isso, se voltaria a confiar em um homem depois de tudo que já li. Algumas coisas que um dia fiz, hoje me parecem impossíveis.

E fico acompanhando essa discussão sobre o filme ''Cinquenta tons de cinza'', que envolve a prática sadomasoquista, me pergunto se eu teria coragem de ir para a cama com um homem e ser algemada?

Hoje sei que não. Só de pensar nas possibilidades de erro e lembrar onde leva o excesso de confiança minha espinha gela.


Já fui com namorado a lugares desertos, isolados. Hoje não iria nem que tivesse a segurança do presidente Obama.

Ah, mas que chato não poder confiar em um homem nem na cama! Também acho. Mas estou cercada de histórias de abusos e poucas envolvem desconhecidos, na maioria os carrascos foram os Romeus. 

O que fiz antes foi na ignorância e no silêncio, minha mãe nunca me puxou em um canto e disse ''não beba porque a maioria dos homens vai as baladas procurando quem estuprar e preferem as que beberam'', nunca me disse isso, ninguém me avisou, nem alertou, fui como muitas, na ingenuidade e sem informações.

E lendo uma história sobre um estudante que estuprou uma colega (link), segundo ele inspirado no filme, fiquei pensando no perigo que isso representa, quantas mulheres no mundo vão confiar no Romeu, topar brincar de sadomasoquismo e de repente vão se ver em uma situação de perigo?

É deprimente, assustador, e nauseante não poder confiar no Romeu, mas é o desenho atual do mundo, onde segundo uma pesquisa 1-3 dos homens já estuprou, 1-3 estupraria se não houvesse consequências e o que resta são homens normais. Mas como saber qual é qual? Vai arriscar ser algemada na cama para saber

Já tive receio de dizer isso porque ''fica chato'', mas não confio em nenhum homem e jamais faria de novo coisas que fiz no passado, quando viajava com amigos, deixava eles dormirem na minha casa e aceitava sugestões na cama de Romeu.

No papel podemos garantir as mulheres que elas podem beber o que quiserem, até porque pagam suas bebidas. Na vida real não podemos garantir a integridade física delas em um planeta violento e doente.
No filme podemos confirmar que é divertido brincar com o Romeu, na vida real nada garante que esse Romeu não é um monstro.

Essa é a diferença que aprendi nos últimos tempos, o espaço vazio entre o direito conquistado e o direito vigiado. Como mulher posso beber e praticar sadomasoquismo, mas como mulher nada pode me garantir a segurança. Nesse caso estou sozinha, dependendo dos meus anjos da guarda e das minhas decisões, como todas as mulheres.


Iara De Dupont


6 comentários:

Anônimo disse...

E o povo antigamente me criticava por ler Sabrina e Bianca...

clarissa disse...

É pura verdade a sua opinião, Iara... Eu fui uma adolescente que ia às festas e, algumas vezes, perdi o pé... Felizmente nunca me aconteceu nada mais sério... mas podia...hoje eu vejo que me expus diversas vezes. Agora tenho 2 meninas e me pego tendo que ensiná-las a se protegerem, e ao mesmo tempo, dizer que elas podem tudo... tarefa inglória ter que mostrar o lado feio e sujo do mundo para 2 inocentes...mas cabe à nós, mães fazê-lo... você me reforçou que eu, como tua mãe, também estou no caminho certo... Obrigada. Beijo

Anônimo disse...

EXATAMENTE isso. Sinto essa falta de confiança extrema e já pensei se não sou muito neurótica, mas será que isso é neurose mesmo?! Meus pais sempre me alertaram pra não aceitar bebida de estranhos e vigiar o copo. Foi no banheiro e deixou a bebida na mesa? Peça outra e mais, peça pra abrirem na sua presença.

Suzana Neves disse...

Meu pai sempre me avisou sobre bebidas.
Ja chegou a me dizer como me portar se um estuprador me atacasse.
Ensinou ataque simples essas coisas.
Um dos detalhes da historia de 50 tons é que ele da bebida pra ela o tempo todo.

Anônimo disse...

É Iara...foi muito bom ler isso hoje. Não assisti o filme, mas lí os livros. Há coisas no livro que nunca fiz no sexo, não sei porque, talvez falta de interesse de ambas as partes. Ouvi até mesmo antes dos livros, amigas contando que tinham feito sexo amarradas por meias, lenços, gravatas, algemas e etc e eu pensava que um dia experimentaria, mas nunca passou de momento, nunca experimentei. Agora lendo isso, fico pensando, até onde eu poderia mesmo confiar? Será que seria mesmo seguro e excitante? Valeu para pensar e não me arrepender do que não fiz. Um abraço.

Anônimo disse...

Complementando meu comentário (o terceiro): depois de ler Jogo Perigoso, do Stephen King, pode saber que ser amarrada/algemada seria a última coisa a se passar na minha mente.

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