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03 dezembro 2014

Só a arte importa?



Talvez a única coisa boa da morte é que ela nos faz refletir sobre nossa vida.
No último sabádo morreu Roberto Bolaños, conhecido no mundo inteiro pelo seu personagem Chaves. Bolaños foi além de qualquer genialidade, conseguiu transcender a linguagem e tornar seu personagem pobre e sem glamour em um símbolo dos oprimidos.

Dizem que parte do sucesso de Chaves é o fato dele ter sido um reflexo real de tantas crianças inteligentes abandonadas pelos pais, crescendo na rua, se virando e tentando garantir todos os dias sua comida.

Tinha outro personagem, um super herói, e tenho certeza que não virou ícone porque não falava inglês, mas se tivesse nascido no berço do império talvez hoje seria tão famoso como os personagens da Marvel.

O México sempre se rendeu a Bolaños, considerado o maior roteirista de televisão e um criador gigante, que consegui materializar nos seus trabalhos a miséria e abandono que sofrem milhões de pessoas na América Latina.

De todos os personagens que ele criou, a Chiquinha me parece a mais incrível, a menina sem mãe que cresce com um pai desempregado. Tudo ali parece engraçado, mas é de uma tristeza imensa, de uma solidão sem tamanho e nenhum dos meninos da série Chaves tem um convívio saudável com adultos, todos ao seu redor parecem mais preocupados com sua  vida.
O sucesso da série décadas depois só confirma como a identificação aumenta, cada vez mais existem no planeta crianças abandonadas a própia sorte.

Mas se no México existe um grande orgulho pelo trabalho de Bolaños na televisão, o silêncio impera quando se entra na parte pessoal. É nesse momento que entro em conflito, pensando no que realmente um ser humano vem fazer ao mundo.

Desde que começou uma revolução na informação e a maioria começou a ter acesso, perdemos aquela linha que divide o artista da pessoa, de repente tudo ficou a mesma coisa e o mundo não parece muito tolerante quando essa linha é cruzada.

Achava tudo isso uma bobagem, até que em uma entrevista a escritora Lya Luft, disse que não entendia porque trezentas pessoas no Rio de Janeiro tentaram salvar uma baleia que estava encalhada. Fiquei horrorizada ao ler isso e esperei uns dias, a polêmica continuou e ela confirmou o que disse. Desde adolescente era fã de Lya, cheguei a mandar cartas a ela, que me respondeu gentilmente, comprei todos os livros, peguei fila para ter seu autógrafo e agora ela dizia isso?

Me chocou porque parte da minha paixão pela sua obra era a sensibilidade que ela demonstrava e de repente aquilo tinha sumido na minha frente.
Reconheço que é uma das maiores escritoras do planeta, mas hoje não consigo nem abrir um livro seu, fiquei com a impressão de que fui enganada, ora, se uma pessoa não tem sensibilidade para entender a dor de um animal, para uma baleia estar encalhada é como uma pessoa ficar presa em um lugar e alguém tentar ajudar, se ela não entendeu isso, o que poderia entender da alma humana?

Discuti isso com um professor durante dias, ele dizia que  ''a obra é a obra'' e ''a pessoa é a pessoa''. E argumentava que se eu soubesse o que meus escritores favoritos faziam no século passado também teria ficado com bronca deles.

Para mim a obra é a melhor parte do ser humano, é a arte que salva, o melhor de quem somos se reflete no que fazemos, nem que seja vendendo pão, mas ali a pessoa está dando o melhor de si.

E talvez sou carente de exemplos humanos, mas tenho uma dificuldade enorme em separar o artista da pessoa, não gosto quando fico sabendo de que é uma pessoa pequena perto de sua obra.

Assumo meu lado humana e que me incomodo com essa divisão, gostaria de pensar que os gênios são tão grandes como sua obra.

E agora que vejo sobre Bolaños em todas as emissoras fico pensando nisso, será que estamos aqui para cruzar essa linha e apenas apresentar um bom trabalho? Será que não importa quem somos como pessoas?

Penso nisso porque beijo os pés do artista Bolaños, foi o maior de todos, mas como ser humano me causa um profundo desgosto. Histórias sobre como tratava mal sua equipe e pessoas ao redor chovem há anos. Polêmicas com seus companheiros de trabalho são muito conhecidas, o papel de sua esposa na vida também é questionável,  assim como a ambição dos seus filhos. Morreu como dois bilhões de doláres na conta, mas antigos colegas de trabalho como Seu Madruga (Ramón Váldez) morreram passando dificuldade e jamais receberam um centavo de direitos autorais sobre seu personagem, porque Bolaños afirmava que tudo era de sua autoria. É verdade, ele escrevia, dirigia, produzia e interpretavas, mas ninguém se faz sozinho e ele precisou de todos seus colegas para construir seu império, que agora os herdeiros terão todo o direito, ao contrário das filhas do Seu Madruga que até hoje passam apertos econômicos.

Toda essa doçura e carência a que o personagem Chaves tinha, era o oposto do que dizem Bolaños era.

E não é o único, nos últimos tempos vazam por todos os lados histórias sobre o comportamento arrogante de Renato Aragão e Regina Casé. Até onde sei a imprensa funciona assim, escuta alguma coisa ou inventa e publica, mas não insiste se aquilo ali não tem raiz, mas quando a mesma história começa a se repetir em diferentes situações, a imprensa vaza sem erro.

Não gosto de Rafinha Bastos nem de Adriane Galisteu, mas jamais escutei uma história deles maltratando alguém, nem da Xuxa, nem de centenas de outros.

É um problema meu, não do mundo, não gosto dessa divisão, me sinto mal e fico pensando se vale a pena vir ao mundo fazer uma revolução, mostrar a melhor arte do planeta e sair daqui sendo odiado, mesmo que discretamente. 
Lembro de um amigo budista que me dizia que a única coisa que deixamos nos outros é a lembrança, seja boa ou ruim.

Pessoas que não conhecem Bolaños, apenas sua obra, estão chorando e chateadas com a morte, mas pessoas que trabalharam com ele, conviveram, tem outro sentimento. E qual deles vale mais? Ser adorado pela obra, mas odiado como pessoa? Ou ser odiado pela obra e adorado como pessoa? O que vale mais neste planeta e no outro mundo?
O que será mais considerado pelas autoridades divinas?

Me pergunto muito isso porque uma vez comentei com um diretor de teatro que estudava religião, disse a ele que estava ensaiando muito uma peça, queria que ficasse perfeito e ele me disse:

-Faça com prazer, porque essa não é a missão de ninguém no mundo, fazer as coisas com perfeição, a única coisa que viemos fazer aqui é aperfeiçoar a nossa alma, não os nossos prazeres. Um dia você vai responder pelo aperfeiçoamento de sua alma, mas não interessa se foi ou não uma atriz perfeita, isso não conta.

Fico pensando nisso cada vez que vejo as fotos do Bolaños por todas as partes, estamos aqui para dar ao mundo a nossa arte  ou nosso melhor lado como pessoa? Não sei. Mas minha lógica diz que a única coisa que interessa é a arte, porque o ser humano todos sabem que não vale nada.

Iara De Dupont 

9 comentários:

Alejandra disse...

Não sou do meio artístico, não frequento os camarins, porem tenho minha opinião sobre o caso. Vejo o meio artistico como uma industria: Voce acorda cedo, bate seu ponto, trabalha 8, 12 horas por dia, bate seu ponto e vai embora no final do dia. Esse dia pode ter sido bom ou ruim, pode ter sido lucrativo ou não, mas se deu prejuizo, ele não é seu, quem vai ter prejuizo é a empresa. Se deu lucro também é da empresa, não é seu, mesmo que voce tenha se matado para isso. Se ele escrevia, dirigia, produzia, essa era a industria dele. Se ele contratou pessoas para trabalharem para ele, pagou os salarios que estavam num contrato assinado pelos atores funcionarios, pagou os impostos devidos, a obrigação dele acabou ali. O seu madruga, o Quico, Chiquinha e outros mais eram funcionários, empregados, não amigos e não aceitam essa realidade. Qualquer atriz poderia fazer aquele papel, se uma fez, foi porque assinou um contrato para isso e se ele cumpriu esse contrato, pagou tudo o que foi devido, a industria não deve nem obrigado! É triste? É frio? Porem é verdade! Se voce trabalha para alguem e esse alguem paga todos os seus salarios, impostos e rescisão contratual, o empregador esta correto e o vinculo acabou!!!

Suzana Neves disse...

Como passava o tempo todo no sbt eu assitia muito o Chaves nunca gostei muito do Chapolin gosto do chavão mas não das historias, Chaves eu fiquei vendo a comoção no Facebook e não via tanto porque, também já tinha lido que ele não era lá muito generoso, generosidade eu vejo como um das facetas mais importante e difíceis de ser, sabe como se um personagem tivesse salvado o mundo, Chaves era uma comédia para toda a família que mostrava um menino sem pais todo dia sonhando com comida o que tem de engraçado nisso.

O ator que fazia o seu Madruga e o Kiko e a Chiquinha são a alma do programa.

Iara De Dupont disse...

Alejandra, a coisa é bem mais complexa do que parece, até pela época, hoje isso não seria mais possível e vou te explicar o motivo.
Se você entrasse em uma emissora americana nos anos sessenta tudo era organizado, você seria contratada e teria seu vínculo como funcionária. Receberia o roteiro e poderia conversar com o diretor a respeito, mas tudo ligado a figurino e penteados e coisas assim seriam responsabilidade do departamento de figurinos.

Mas estamos falando do México nos anos sessenta, a Televisa estava começando, assim como a Globo, seus departamentos de figurinos e acessórios não eram tão desenvolvidos como são hojes, então naquela época os atores eram chamados na base da amizade, não existiam agências, um amigo chamava outro e acabava acontecendo o que se chama ''criação coletiva''.

No caso do Bolaños tenho certeza que a ideia do programa foi dele, mas deve ter aceito muitas sugestões dos atores, eles trabalhavam em um estúdio sem frescuras e com uma ehuipe minima. Nessa''criação coletiva'' a atriz que faz a Chiquinha alega que ela levou o figurino, coisa normal até hoje em alguns casos de figurantes, mas naqueles tempos os atores levavam tudo. O ator que faz Quico também disse a mesma coisa, foi dele a ideia do figurino de marinheiro, que mandou uma costureira fazer e colocar algodão na boca para encher as bochechas.

A briga começa então na imagem dos personagens, de quem eram os direitos? De quem escreveu ou de quem ajudou a montar o personagem, incluindo figurino?

Se os atores pudessem ser facilmente susbtituidos tenho certeza de que Bolaños teria feito isso.

Mas por ter visto e participado muito de criações coletivas posso te garantir que tanto Chiquinha como Quico mereciam ter uma porcentagem da imagem do personagem, nem que fosse 1%, porque Bolaños ganhou milhões em cima da roupa dos personagens, até hoje são as roupas infantis mais vendidas no México. Mas Bolaños nunca cedeu um centavo, nem para o seu Madruga, que também alegava ter levado o figurino da roupa e ter incluido o boné.

Um caso diferente pode ser o das Paquitas, elas entravam em um figurino previamente desenhado, não podem ter direitos de criação em cima dele, mas no caso dos personagens do Bolaños não foi isso que aconteceu.

Tadeu Diniz disse...

Iara, obrigado. Era exatamente o que queria ler! Você é um amor!

Jéssica disse...

É Iara, interessante seu ponto de vista. Sou fã sim da obra de Bolaños e tenho essas "tristezas" em relação às histórias sobre sua vida pessoal. Soube que Carlos Világran, o quico se pronunciou sobre a morte dele lamentando e falando muito bem. Realmente essas histórias, como processar Villágran por fazer shows com a imagem do Quico que realmente foi criação dele, foi ridículo. há histórias e mais histórias sobre tudo isso, mas nunca saberemos a verdade. Os artistas que admiro, hoje em dia presto atenção mais na obra mesmo, claro que um ídolo que mostra ser um exemplo de pessoa é muito admirável, mas a realidade é que o que vou tirar proveito é a obra, pois os autores não estarão na minha vida. E ainda bem que a maioria dos artistas são conhecidos pelo que falam com as câmeras, com as músicas e com os livros, pois se fossem conhecidos pelo que realmente falam com a boca seriam odiados.

Nas lamentações sobre a morte de Bolaños não vejo as pessoas o "santificando", mas realmente o vêem como gênio. Depende do que se entende por gênio, mas independente disso, Bolaños foi uma pessoa que realmente fez a diferença no mundo.

Sobre a missão no mundo. Iara, acredito que a produção artistica, profissional não é tudo o que importa, eu pelo menos quero terminar a minha vida tendo alcançado o entendimento de algumas coisas e alcançado o sentido da minha vida e objetivos com felicidade e consciência limpa.
Não sei o que Bolaños pensava, se era feliz por completo pela sua obra e por tudo, ou se era uma pessoa amarga por ser uma "pessoa terrível", e nunca vou saber.
O que me resta é apreciar sua obra, pois os estragos que ele causou na vida de outros e consequentemente na própria alma, foram carregados só com ele.

Vanessa disse...

Tambem tenho uma visão mais empresarial-juridica dessa relação, como vi em comentário anterior. O Bolaños tinha uma visao empresarial, era como o dono da empresa, não trabalha no porão, faz sua parte da cobertura, mas é ele que estava na frente, para receber criticas e elogios. Pagou os salarios, pagou os direitos trabalhistas, o vinculo acabou, por mais frio que pareça ser. Não era amizade, nunca foi, era apenas relação trabalhista, que muitos artistas não concordam que seja apenas isso.

Anônimo disse...

É triste tudo que Bolaños fez com os amigos, uma trairagem desgraçada, mas ele era humano como todos e sujeito às falhas de caráter que todo mundo tem. É por isso que não tenho ídolos, tenho apenas artistas fazendo obras que admiro e de que gosto, pois ninguém é perfeito e esperar isso só vai causar frustração.

Anônimo disse...

Em um mundo perfeito seria ideal mesmo que o talent viesse junto com as virtudes,mas não é assim,eu tambem sinto,é muito chato,mas eu ainda tento consumir a arte,e reconhecer o talento,caso contrario não teriamos saída,afinal não conhecemos o carater da maioria e o pouco que conhecemos tem varios lados. Eu acho sim que uma pessoa pode ser muito sensivel em umas areas e insensivel em outra,é do ser humano e não adianta esperarmos muito porque não existe ser humano perfeito.

Anna Lara

Anônimo disse...

Sabe Iara, gosto muito do Chaves, mas me decepcionei com o Bolaños, por causa das injustiças dele contra sua equipe... Eu admirava tanto o Renato Aragão, depois de ler tanto sobre a chatice dele e de ouvir uma história que eu sei que é verdadeira, perdi o encanto e toda a admiração que nutria por ele. Mas afinal todos somos imperfeitos e passíveis de sentimentos contrários às expectativas alheias, por isso cabe a cada um ter o equilíbrio necessário para admirar sem idolatrar. Sinto até pena quando vejo um monte de jovens aos berros porque está diante de um cantor/artista, fazendo deste o centro de suas vidas!

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