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07 novembro 2014

''Você persegue os homens!''. Me desculpem por isso! Foi mal!


Tenho um amigo que de vez em quando passa aqui e fica meio nervoso, diz que eu  ''persigo os homens''.   Não faço isso, mas caso aconteça não sinto remorso nem culpa, tenho tantos anos sendo perseguida que não vou me sentir mal se devolver a gentileza.

Sou humanista, fofa e doce até a página dois. Não acredito em chumbo trocado nem em uma guerra de gêneros, mas me acho no direito de não ficar calada, não quero mais viver em silêncio e se isso significa ''perseguir os homens'', então que seja.

Gostava demais do meu amigo até seu casamento. Não lembro o trabalho da esposa, mas ela largou tudo para se casar porque meu amigo pediu, disse que sua mãe trabalhou por gosto, não por necessidade, ele cresceu se sentindo abandonado e jurou que nunca se casaria com uma mulher que trabalhasse, então sua esposa largou tudo para que o neném nunca mais se sentisse sozinho.

O chamei de machista e ela de burra, uma mulher tem o direito de ser dona de casa, se quiser, mas fazer isso por um homem é um suicídio lento e vou ser sincera, minha mente só entende quem larga tudo para cuidar dos filhos ou quem vai ser dondoca e se dedicar a curtir a vida, mas largar tudo por um homem para que ele se sinta amado e acalentado ainda me parece coisa de outro mundo.

Meu amigo me deu a pior resposta que um homem poderia me dar:

-Iara, eu não obriguei ela a nada, não coloquei uma arma em sua cabeça.

Esse é o ponto que faz os homens acreditarem que eu os ''persigo'', mas a ala masculina se recusa a entender uma coisa, não se precisa de arma para obrigar ninguém a fazer nada, existem outros meios e os homens sabem bem quais são.

Mulheres são educadas para serem compreensivas, ignorarem  sua dor e se concentrarem na dor dos outros, somos moldadas para sermos uma espécie de esponja do planeta, limpando tudo e absorvendo as desgraças alheias. Desde criança nos incentivam a dividir brinquedos e cuidar das bonecas, dar comidinha e colo, sempre sorrindo.

Quando minha avó ficou doente foi internada em um hospital de freiras e eu ficava com ela. Nunca tinha convivido com freiras, até aquele momento era personagens de filmes para mim. E todos os dias via a Madre Superiora aos gritos, berros, trazia todo mundo na palma da mão. Comentei com uma freira que isso me parecia assustador, eu achei que freiras e Madres eram aqueles seres cheios de compreensão, mas essa Madre era tão rígida que sobrava até pra mim. Um dia ela passou perto e sentiu meu perfume de lavanda, bem fraco, mas me mandou ir ao banheiro e limpar, dizendo que ''hospital não é ambiente para usar essa porcaria''.

A freira deve ter dito a ela minha opinião, porque no dia seguinte a Madre entrou no quarto para levar os remédios e começou a falar sozinha, eu estava ali, mas ela não me dirigiu a palavra nem olhou nos meu olhos, mas escutei claramente quando disse:

-O mundo quer das mulheres meiguice, braços abertos e dos homens querem competência. Eu escolhi ser competente, por isso dirijo todas as enfermeiras deste hospital. E do que adianta ser competente se as pessoas não querem isso de mim? Elogiar minha eficiência ou reconhecer meu trabalho ninguém quer, mas sair pelos corredores dizendo que eu não pareço ''Madre'' todos fazem isso.

Terminou e saiu. E só hoje entendo a resposta que ela me deu, vejo a dimensão e percebo toda a dor que estava ali, na época achei que foi mal educada porque nem olhou na minha cara, falou enquanto arrumava os remédios.

É nessa ''brecha cultural'' que os homens vão, eles sabem a educação que recebemos e a pressão que temos em cima para estar sempre de braços abertos à humanidade. Sabem que ainda somos burras emocionalmente, primárias e cedemos facilmente à chantagem emocional e que não contamos com apoio quando queremos mudar.

Namorei um Romeu que não era dos piores em termos de educação, mas dava suas respostas cortadas e grosseiras de vez em quando, mas ele é homem e se espera isso dele, está no seu direito.

Um dia estávamos colocando umas bolsas no carro, saindo da casa de sua mãe, quando ele percebeu que faltava uma bolsa e me disse que ia subir para pegar. Não lembro o motivo e me atrevo a dizer que talvez nem existiu um motivo, era apenas eu no meu momento humano, igual aos homens, e respondi:

-Que se dane a bolsa!

Na hora ele reagiu e me disse:

-O que foi que eu te fiz?

Em seguida minha sogra se aproximou e falou:

-Iara, se você se irritou com alguma coisa pode dizer, mas não precisa responder assim.

Misericórdia divina! Eu só disse  ''que se dane a bolsa'', não chamei o mundo para a terceira guerra mundial!

Mas esqueci que sou mulher e não tenho direito a dar respostas cortadas, sou mulher e tenho que ser meiga o tempo inteiro.

Homens conhecem mais a maneira que fomos educadas do que nós mesmas. Eles dominam com perfeição as vias da chantagem, sabem que nos sentimos mal quando não agradamos e não queremos ser vistas como ''mal educadas e grosseiras''. Contam com nossa maneira precária de amar, achando que ''largar tudo'' vai provar nosso amor e fazer Romeu se sentir quentinho no seu ninho de amor. Mulheres se sentem atraídas a esse abismo porque foram educadas para isso, para achar que seu lugar no mundo é protegendo o neném que existe dentro de cada guerreiro. Nossa, que vontade de vomitar.

Não trabalho com estatísticas, não sou delegada nem especialista em violência e não sei tudo o que acontece nas ruas. Apenas me concentro no lugar que mais sofri e me senti abusada, em casa com Romeu. Por isso falo tanto, grito, berro, tento avisar a todas as mulheres do planeta, não se precisa de uma arma para chantagear e manipular uma mulher, homens sabem os caminhos mais curtos para conseguir o que querem e abusam disso, sabem manipular tão bem que convenceram ao mundo que as manipuladoras e loucas somos nós.

A única coisa que quero é ter  garantido meu direito de agir e falar como eu quiser, sem esse massacre da ''meiguice e compreensão ambulante''. Não quero abrir meus braços para todas as tragédias do mundo nem largar tudo para que Romeu se sinta amado. Só quero viver do mesmo jeito que eles têm direito, falando o que querem e mostrando competência, sem ter que derramar quilos de açúcar no caminho. E já me falaram que sou uma frustrada por não ter nascido homem, mas isso não é verdade, eu não queria ter nascido homem, mas quero os direitos que eles têm, inclusive esse de dar uma resposta cortada sem que isso signifique o fim do mundo.


 Iara De Dupont


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