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17 novembro 2014

Tirei meu ''não'' do armário (e tô levando por isso)


De vez em quando um amigo me pergunta:

-Você não acha que está exagerando quando fala da opressão que as mulheres sofrem?

Minha única resposta é que ele teria que nascer mulher para saber , não dá pra explicar.

Venho passando nos últimos tempos o que chamo de  ''opressão comportamental''. Isso quer dizer que também estou acordando para a vida em muitos aspectos e pessoas próximas não estão achando esse processo fofo.

Na minha cabeça eu não mudei tanto, mas para o meu entorno dei um giro de mil graus sem avisar.
Sempre fui ótima na cozinha e muito explorada por isso, me convenceram que uns quantos elogios eram o suficiente para que eu me desse por satisfeita.

Na semana passada uma pessoa da família me pediu para fazer um bolo e eu disse que não, a pessoa me disse que pagaria os ingredientes, continuei dizendo que não. Então a pessoa disse:

-Não lembrava de você tão grossa, sem educação!

Tenho certeza que minha resposta foi educada, mas o mundo é direto, se as mulheres não dizem  ''sim'' é porque são grossas.

Desde que comecei a dizer o que penso ou sinto vieram esses adjetivos na minha direção, sou displicente, mal educada e agora peguei a mania de dar ''respostas cortadas''.

Mas me conheço e sei que não dou respostas cortadas, o que acontece é que comecei a incluir o ''não'' no meu vocabulário e isso vem gerando um mal estar em todos.
Decidi internamente que se for  explorada novamente vai ser a hora que eu quiser e se quiser, caso contrário muitos  ''não'' ainda vão rolar debaixo da ponte.
Durante anos tive uma paciência infinita com todos, mas nunca tiveram comigo. Cumpri à regra o que se espera de uma mulher, sempre estive disponível para a dor dos outros e qualquer coisa que precisassem, mas comecei a me irritar profundamente no ano passado, quando meu pai ficou doente.

Meu irmão cruzava com as enfermeiras nos corredores e elas abriam o sorriso, mas quando me viam fechavam a cara e soltavam milhões de discursos, exigiam de mim a presença constante,  já que eu  ''era filha''. Nunca perguntaram se eu trabalhava ou tinha vida própria. Meu pai era esperto e machista, sabia que meu irmão era impaciente, então quando tinha que pedir por alguém era melhor se garantir na doce e tonta filha. Isso fez com que a equipe médica inteira pegasse no meu pé, me pressionavam como se ele fosse meu filho. Comecei a perguntar a todos que conhecia e cheguei à conclusão que estava diante de uma questão de gênero, mulheres cuidam dos idosos, pais, crianças, desde que o mundo é mundo, é o mínimo que essas coitadas que ocupam lugar no planeta, ou seja, nós, podemos fazer para amenizar nossa presença. Ainda está tatuado na mente das pessoas as doces mulheres da família que cuidam de todos e se elas não têm família que corram e cuidem dos vizinhos, mas que façam o que se espera delas.

Não me recuso a fazer a minha parte, ainda acredito no amor e na lógica cristã  devo aos meus pais pela vida que me deram, então cuido e não reclamo, mas me recuso a ser explorada e a que exigiam de mim um comportamento que eu não quero mais ter, o de otária.

Uma amiga me convidou para sair, mas recusei, porque não gosto do seu Romeu, é besta e petulante, cansei de aguentar a presença dele em nome da amizade. De repente acordei e pensei  ''não preciso disso''. Cada vez que eu saía com ela me sentia irritada pelo idiota do namorado. Mas estou exausta de panos quentes e disse a ela a verdade, contei que seu Romeu me tira do sério há séculos, não tolero ele nem seus estúpidos amigos e não quero mais estar perto de gente assim em nome da  ''amizade'', continuo gostando da minha amiga e disponível para ela, mas não vou mais perder tempo com seu grupo de amigos.

Minha amiga ficou pálida e disse:

-Nossa, que agressividade!  Podia ter dito de outra maneira!

Podia mesmo! Podia ter recorrido ao vocabulário feminino, aquele que a gente engole para não magoar os outros e jogar uma mentira rosa, inventando que naquele dia estava com alergia a lactose.

Não é questão de sair  ''dizendo verdades'', mas de exigir respeito ao meu espaça. Desde que comecei venho sentindo uma opressão que  em alguns momentos se manifestou fisicamente como falta de ar, de tão mal que eu me sentia.

É chato, não é grátis nem indolor se posicionar. Não quero quebrar o coração de ninguém, mas também não quero mais o meu quebrado, em um jogo de xadrez agora jogo pela minha rainha, não sou mais o peão do outro lado.
Já chorei muito por isso, mas pela minha atual consciência sei que choraria mais se voltasse a cair na rede de exploração emocional e familiar.

Há um bom tempo não passava por um rolo compressor de padrão comportamental. É cansativo e triste escutar que sou grossa, mal educada e agressiva sabendo que isso não é verdade, eu posso ser assim, dependendo das circunstâncias, mas não sou assim pela minha essência, sempre fui educada. Mas tirar o  ''não'' do armário e começar a usar é como iniciar uma revolução, o outro lado vai reagir.

Ontem mesmo, ainda em cima da história do bolo, uma pessoa disse a outra:

-Ah, tenho certeza que a Iara estava de pá virada, vai fazer o bolo sim e caprichado, espera pra ver!

E outra pessoa respondeu:

-Não sei, não senti firmeza. Sinceramente? Não acho que possamos confiar nela com essas mudanças de humor.

É, posso garantir isso e assinar em cartório, não confiem mais em mim, porque meu tempo de usar  ''sim'' , se esgotou. Sou uma mulher que está aprendendo a dizer ''não'' e como todos sabem, segundo o patriarcado, mulheres que agem assim não são confiáveis.

Não confiem mais mais em mim, porque não sou mais a mesma. Sorte a minha.



Iara De Dupont

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu tenho mudado,pouco e devagar,mas tenho mudado,e no meu caso acho que eu me sinto pior que os outros. Infelizmente aprendi que se boa e estar disponivel sempre,nao importa o humor,a saude,a vontade,a reciprocidade,nada importava,mas a maturidade e seu blog tem me aberto os olhos. Como é dificil encontrar ou demarcar nosso lugar no mundo que não seja imposto pela socidade,pela cultura ou pelos outros,ainda da tempo,temos que pagar o preço,mas a liberdade compensa.

Anna

Anônimo disse...

Junto com tirar o não do armário vc tem que apunhalar a culpa. As duas coisas tem que ir juntas. Chega de culpa! E bem vindos os Sims e Naos sinceros!

Patrícia disse...

Saber falar não, e ter coragem de fazer isso, sem culpa, como disse o anônimo aí, é uma dádiva!!! Este "não" te liberta de tanta coisa!
Quem não sabe vai pela vida afora se estrepando.
Conheço uma pessoa que é exatamente o contrário. É um amor de pessoa, mas não tem tempo para descansar um dia sequer porque carrega o mundo nas costas, e as pessoas sabem como aproveitar disso. Ela mesma diz que não sabe dizer não, que isso não está nela por mais que quisesse ser diferente, e tudo estoura na mão dela.
Infelizmente somos ensinados a dizer sempre sim e falar amém pra tudo. Eu estou neste processo de mudança, embora muitas vezes eu nem tenha precisado dizer o não, porque quem me conhece já sabe muitas vezes a resposta que vai levar, então nem tentam. Mas para algumas coisas é muito difícil meu caminho ainda é longo...

Anônimo disse...

No meu antigo trabalho o gerente tinha mania de mandar as mulheres (encarregadas,administração e outros setores)largarem o setor para ajudar na loja. Sò as mulheres os homens não precisavam fazer isso.
O meu trabalho ficava acumulado e eu tinha que fazer direto horas a mais.
Falei para o gerente que eu não mais para a loja.
As mulheres da empresa me viraram a cara mais valei a pena.
Fora que quando você faz hora a mais direto depois de um tempo os seus superintendentes acham que obrigação sua sempre ficar mais tarde.

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