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26 novembro 2014

Resgatar alguém parece fofo, mas nem sempre é....


Mendigato: o primeiro a ser resgatado
Modelo Loemy Marques: outra a ser resgatada

Todos os dias passo perto de uma rua onde ficam muitos moradores de rua. E sempre vejo um carro ou outro distribuindo comida, água e roupa. Também passam por lá pessoa de igrejas para conversar com os moradores. Isso reforça um pouco minha esperança em um mundo mais justo, sei que existem pessoas com coração nobre que sabem que o Estado é ausente e fazem o que podem dentro de suas possibilidades.

Trabalhei em uma peça de teatro que estava no mesmo espaço que uma ONG direcionada a moradores de rua e cansamos de interromper os ensaios porque chegavam pessoas com doações. O tempo que estive ali nunca vi caminhões carregados chegando, mas pessoas passavam e deixavam três, quatro sabonetes, pasta de dente, um quilo de arroz. No fim do dia tudo isso ajudava muitas pessoas.

Mas existem sombras no coração humano que ainda persistem, principalmente em um país como o Brasil, a alma de muitas pessoas aqui é arcaica e cheia de preconceitos.

Desde segunda-feira quando a revista Veja colocou na capa uma modelo, Loemy Marques, que hoje é viciada em crack, a imprensa passou a semana falando sobre o assunto. Os programas de televisão gastaram horas contando a história da menina linda, filha de doméstica, do interior, que chegou a São Paulo e acabou nas ruas sendo usuária de crack. E parece que os programas do fim de semana vão falar mais ainda sobre a moça.

Por princípios humanistas acredito que todos que estão nas ruas usando drogas precisam de ajuda, não acho correto ''escolher'' ninguém, ou vai todo mundo ou não vai ninguém, mas ''escolher'' quem recebe ajuda para sair do inferno me parece coisa de campo de concentração, onde se ''escolhiam'' os que ficariam vivos e os que morreriam.
Mas essa moça mereceu uma atenção especial pelo seu passado.

Jornalistas estão sempre à procura de uma boa história e essa parece uma, a moça teve todas as oportunidades de se tornar uma grande modelo, mas não resistiu emocionalmente e caiu nas drogas. As pessoas se sentem atraídas e curiosas em relação a outros que parecem ter melhores oportunidades e não aproveitam. Essas histórias sempre vendem.

Entendo toda a lógica dos jornalistas, dos apresentadores e de todo mundo que vai explorar horrores cada segundo dessa tragédia, que vai mudar, porque durante um programa a apresentadora recebeu mais de três propostas de ajuda a modelo, incluindo até a mãe da moça que não tem condições de vir resgatar a filha.

É a segunda vez que isso acontece, antes foi com o Mendigato, um rapaz também usuário de drogas que tinha sido modelo. Sua história serviu até de inspiração para a novela  ''Império'', porque um dos personagens, Leo, vai acabar nas ruas e depois será resgatado.

Eu moro em São Paulo e posso garantir, pelo o que vejo, aqui as pessoas que usam crack são invisíveis, o Estado não se aproxima e quem anda pelas calçadas acaba desviando com medo, cheios de razão, porque pelo vício da pedra muita gente acaba assaltando.

Acho bonito o gesto de querer resgatar a moça que está afundada nas drogas, talvez ela possa voltar com sua família, enfim, tirar ela de um caminho que sempre acaba em morte.

Mas já disse uma vez e repito, de vez em quando sou maldosa e me pergunto algumas coisas. Por que só uma modelo branca, de olhos verdes, merece ajuda? E as outras mulheres que estão nas ruas se drogando?

A história da linda modelo filha de doméstica, abusada pelo padrasto, que tentou a carreira de modelo em uma cidade grande é muito comovente, mas não deve ser a única e também conta com elementos comuns, tenho certeza que a Cracolândia que fica em São Paulo deve estar cheia de mulheres que também foram e são abusadas ali.

Me incomoda pensar que tanto o Mendigato como essa moça tiveram ajuda porque são brancos, esse pensamento me dá náuseas, porque então cairíamos na responsabilidade da imprensa ao divulgar uma posição racista, brancos merecem ajuda, negros e pardos não. Pessoas com passado e brancas se ajudadas podem ter futuro, mas outros não.

Estaríamos muito mais perto do que queremos admitir da corrente de pensamento nazista e sua loucura de  ''raça superior''. Pele e olhos claros merecem atenção, ajuda e resgate, mas as centenas de mulheres nas ruas não podem ter o mesmo destino porque não são brancas e nem foram modelos.

Todo mundo que explorou essa história e ainda vai explorar deveria analisar sua responsabilidade em um país racista e preconceituoso, porque é atitude de todos que constrói um pensamento, isso não acontece de maneira individual. Se somos um país tão atrasado em todos os sentimentos é mais do que hora de pensar nas responsabilidades individuais, até a imprensa deveria analisar com mais calma sua fatal atração por histórias que envolvam brancos e bonitos.

O resgate de um ser humano no Brasil não mostra o quanto somos bons ou preocupados com o futuro daqueles que tiveram um percalço na vida, mostra apenas as raízes mais profundas de uma sociedade elitista, racista e que acredita no lema do Titanic: o  importante é salvar a primeira classe, a terceira que afunde.

Toda essa ajuda que a moça está recebendo é um tapa na  cara de outras que vão morrer sem ter a mesma oportunidade.

O uso de crack é um problema de saúde que exige atenção imediata do Estado, não é um pedaço de alguma história biblíca sobre os ''escolhidos'' por Deus. 

Um país só avança quando trata todos seus cidadãos de maneira igual. Mas no momento que eles são separados por cor não existe mais futuro.


Iara De Dupont

5 comentários:

Anônimo disse...

Mas é claro que eles foram ajudados porque são brancos de olhos claros,quem ajuda,quem divulga tambem são brancos. A loucura da ideia nazista de uma raça superior existe sim no Brasil e é aceita pelos dois lados. Já te falei de um colega meu que trabalhava em uma grande emissora e que quando monitorava o ibope via os numerous aumentarem quando aparecia uma loira. Os dois lados aceitam essa mentalidade casa grande zenzala,com a diferença que quem ganha com isso é a casa grande. De todos os países que assisti programação até agora o Brasil é o unico em que as apresentadoras pesam no maximo 50 quilos,são brancas e loiras,até as morenas clareiam os cabelos na tv paga brasileira. Eu não tenho estomago pra esse tipo de sensacionalismo barato,por mais linda que a historia seja,nao leio,não assisto,e quanto ao Brasil ,não tenho a minima esperança que alguma coisa mude pelo menos nas proximas 3 gerações.

Anna

Fer disse...

Disse tudo Iara, é a história do "Mendigato" se repetindo, eu lembro na época, no facebook, tinha gente da minha lista compartilhando a foto e história, fazendo piadinhas, desde o primeiro momento que vi já pensei: só estão dando atenção porque é loiro e bonito, devem ter passado por uns quantos mendigos hoje e desviado com nojinho.Ai, que preguiça das pessoas.
Aliás, muito boa a comparação com o Titanic.

Anônimo disse...

Mendigos sempre existiram, porque nunca ajudaram os outros que já estão lá há bem mais tempo?
Ah é, não é todo dia que aparece alguém dentro dos padrões para ser ajudado...
Ainda bem que não vejo estes programas. E não sei como tem gente que tem estômago para assistir.
E nem todos são uns coitados, ela por exemplo já tinha um caminho bom para seguir. Alguém apontou uma arma na cabeça dela para que ela começasse a se drogar? Hoje é uma viciada, mas um dia entrou nessa porque quis. Mas já que ela deu esta sorte se ter uma segunda chance, tomara que aproveite.

Anônimo disse...

Acho que é por isso que sempre que dizem que o racismo já acabou no Brasil eu tenho vontade de sacudir ou socar a cabeça da criatura até enfiar um pouco de juízo nela. É tão, TÃO ÓBVIO que o racismo não acabou coisa nenhuma que eu não entendo como as pessoas simplesmente não veem.

Alejandra disse...

Já vi essa historia com o Renato, ex legião urbana, negro, filho de pai advogado, boa família de Brasilia. O caso não é ser branco e gato, é ter certa fama. Qualquer "famosinho" que caia na sargeta dá audiencia e o povo brasileiro alimenta a ganancia de programas de TV de péssima qualidade, que fatura com a desgraça alheia. Qualquer jogador de futebol, pagodeiro, ator, cantor, seja ele branco ou negro, ele ou ela, que se deixar levar pelas drogas, vai ser usado em programa de TV! Lembra do caso da Neuza Borges, atriz negra que disse estar numa situação financeira ruim? Exploraram o caso dela até ninguém aguentar mais ouvir o nome e ela nem morava na rua e nem usava drogas...

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