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22 novembro 2014

Reciclando o amor


Me parece absolutamente normal tanta confusão diante da crise que se vive no planeta, a mudança de paradigmas e a quebra de valores.
Seria a última pessoa a dizer alguma coisa ruim, eu mesma não entendo nada destes tempos modernos, mas ainda me aferro a uma ideia, mesmo que do tempo do romantismo, parece que parte de mim ficou no século XVIII e não consegue entender tudo o que está acontecendo no planeta.

Conversando com umas conhecidas mais jovens escutei elas dizerem várias vezes  ''ah, fulano não é amor sustentável''. Perguntei o que era ''amor sustentável'' e uma me disse:

-É quando uma pessoa é legal, você gosta dele, mas não quer namorar, então você ''recicla'' e passa para uma amiga. 

Entendi.

E a moça continuou:

-Homens recicláveis são ótimos, ficam na mesma turma, namoram várias, mas eu ainda estou na idade de outro ciclo, o de consumo e descarte!

Mas esse seria o ciclo de vida de um produto, o conceito, a manufatura, consumo, descarte, reciclagem e reuso.

-É isso mesmo! Homem é produto não é?

Não, fazendo isso vocês estão apenas repetindo a ideia equivocada do machismo que mulheres são propriedades e tem dono. Seres humanos não são coisas, nem brinquedos, não são produtos descartáveis.

-Mas pelo menos reciclamos o discurso! Não são mais usados, são consumidos e não levam pé na bunda, são descartados. E não vai dizer que nunca se sentiu usada por nenhum homem....

Sim, mas não a ponto de nortear minha vida emocional pensando em homem como se fosse um produto e seu ciclo de vida.

-Eles gostam! Tenta tratar bem pra ver o que te acontece!

É, já passei mais de trinta anos escutando essa lenda urbana, homens que são bem tratados jogam fora a mulher, mas se ela for uma maldita o amor dele será eterno.

-Não é lenda, mas agora o discurso é mais  ''green'', todos nos consumimos e nos descartamos.

E vocês conseguem fazer isso emocionalmente?

-Dá sim! A gente faz todos os meses com algum objeto, não dá para ter apego a nada, vamos ter apego a homem?

É, acho que não dá, ainda não sei. Quando era adolescente eu tinha uma maletinha para meus cosméticos, grudei adesivos, coloquei meu nome. Carreguei por anos, se estivesse em algum ensaio mesmo sem ver meu nome todos sabiam que era minha. Hoje vejo pessoas mudando de celulares em menos de três meses, não se apegam, não deixam seu registro ali, nada, é como se o objeto tivesse sido um copo de água.

-Ninguém morre por isso! É melhor trocar mesmo. Tenta reciclar homem que dá certo!

O problema não é reciclar homem, mas como reciclo o que sinto? Se eu gosto de um não consigo ir para outro assim tão rápido, não é como comprar um celular novo.

-Ah, mas apegando não dá mesmo.

É, se apegando. Mas tem outro jeito de gostar?

-Tem, você gosta ali na hora, um dia ou outro, mas não tem essa de  ''amanhã''.
Você parece aquelas românticas do século passado, sofrendo à toa!

Voltei caminhando, sentindo o vento na minha cara, vendo as pessoas nos bares e pensando como vou aprender essa nova forma de amar? Consumindo e descartando?

De repente me senti velha, ainda lembrando do jeito de amar do século passado, sem celular, sem recados sem páginas virtuais.

Fui muito feliz quando chegava em casa e tinha algum recado do Romeu, meu sorriso aparecia até no céu. Naqueles tempos a gente marcava um encontro e ia lá, esperando Romeu chegar. Hoje as pessoas controlam seus passos pelo celular e vão avisando onde estão cada segundo. O telefone da minha casa era mais cheio, eu tinha que brigar para que o deixassem livre, caso Romeu fosse ligar. E ainda no meio da conversa minha mae mandava desligar porque tinha que fazer uma ligação. Hoje vejo meu celular solitário, silencioso, como se fosse uma pedra de gelo.

Não me admira estar sozinha, ainda nem me desapeguei dos meus ódios, não reciclei minhas amizades, imagina então consumir e descartar Romeu.

Um amigo contava uma piada que não lembro, mas era sobre o dia que os homens  foram avisados que dali para frente os relacionamentos seriam monogâmicos e escolhendo uma mulher não poderiam ter outra. A piada era sobre a reação deles, mas em algum momento deve ter acontecido isso, mudanças sociais chegaram e pessoas tiveram que se adaptar as novas regras.

Assim estou, pensando em como me adaptar e muitas pessoas podem dizer que essas meninas estavam brincando, mas sinto essa mudança e leveza nos relacionamentos, é esse ritmo de consumo e descarte. 
Parece que insistir em outra maneira é como defender um objeto velho que a tecnologia já superou. E dizem que somos o reflexo do nosso consumo e na velocidade que estamos parece natural pensar que os relacionamentos são a mesma coisa que comprar um objeto novo, talvez por isso eles fiquem tão chatos e tediosos, como se fossem um aplicativo antigo tentando se adaptar a um objeto mais moderno.

Não critico quem pensa e ama assim, eu ainda nem tentei aprender, o ser humano, apesar de tudo, me parece um pouco mais do que um celular, ainda acredito mais na alma humana do que na velocidade da internet. Assumo meu lado tonta e romântica, sou boba ao achar que um ser humano vale mais do que mil aplicativos e merece mais respeito do que um carregador de celular.

Já me perguntaram mil vezes porque estou sozinha e talvez essa seja a resposta, porque vou aos lugares e vejo pessoas ao meu redor, seres humanos, não vejo produtos nem objetos. E talvez esse seja o motivo da minha solidão, estou enxergando o que não está mais lá, me esforço para mudar, mas nas ruas que ando ainda vejo pessoas, mesmo sabendo que não existem mais, ainda me recuso a tratar seres humanos como objetos e pensar que são para meu consumo e descarte.


Iara De Dupont



3 comentários:

mariana disse...

Putz, acho que o desapego na verdade tem outro significado. Significa vc viver o presente, estar com a alguém que vc gosta e que gosta de você, mas sabendo que um dia pode acabar e que você não vai morrer por isso. A vida segue e o mais importante é você se amar em primeiro lugar e esse amor próprio ser a fonte principal do seu amor e felicidade e não o amor do outro. É saber que sua felicidade não depende de ninguém. Daí não existe solidão, vc pode passar a vida sozinha sem solidão. Vc tem você lá pra se apoiar e se você conhece alguém pra construir algo, ótimo, mas se por algum motivo não der certo, vc segue seu caminho. Não tem nada a ver com consumo e descarte, tem a ver com amor proprio e a consciência que a sua felicidade depende de vc e nao de outro.

Anônimo disse...

A moça acima disse tudo.

Poeta da Colina disse...

Iara vou te dizer com toda sinceridade. Há muitas novas ondas pelo mundo, ideias, e teorias sobre o amor por aí. A maioria delas pessoas fazem algo para se proteger da dor e das consequências de amar, as vezes se iludem, outras até mesmo acreditam.

Mas no final, essa coisa do século passado é o que todo mundo quer de uma forma ou de outra, eventualmente queremos alguém para compartilhar não um dia, mas uma vida, alguém com quem poderemos ter todo romantismo que sempre sonhamos.

Para suas companhias ambientalistas, temos que lembrar que consumo sem critério é desperdício.

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