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14 novembro 2014

Os dois caminhos


Durante o tempo que trabalhei entrevistando xamãs, bruxos e místicos muitas coisas aconteceram. A maioria dessas pessoas não dá entrevistas, mas nem sempre te dizem isso. Algumas vezes eu chegava no lugar e a pessoa me dizia que não ia dar entrevista, mas resolveu dizer isso pessoalmente porque eu tinha alguma coisa para aprender indo até lá. E tive muita sorte, a maioria foi legal, mas passei experiências bem estranhas.

Uma delas foi na casa de um filósofo muito conhecido que tinha largado tudo, se enfiou no deserto do México e voltou anos depois escrevendo livros místicos. Pessoas assim se tornam ''acessíveis'' quando querem promover seu livro, antes não.

Mas ele aceitou falar e fui a sua casa, em outra cidade. Chegando lá tínhamos que atravessar uma ponte, embaixo tinha um rio raso, mas a ponte parecia aquela do filme Indiana Jones, era feita de madeira e cordas, não parecia segura. Eu trabalhava sempre com a mesma equipe, os três mosqueteiros, uns rapazes ótimos, aventureiros, que foram muito legais comigo e me ensinaram muita coisa sobre televisão. Eles carregavam o equipamento, mesmo assim atravessaram a ponte sem olhar pra trás, quando chegou na minha vez eu titubeei um pouco. Como cresci em um ambiente que diminuía a mulher em tudo, sempre fingi saber me virar e nunca pedi ajuda, sou daquelas que se o carro quebrar desço e falo na maior tranquilidade  ''deixa que eu conserto''.

Diante daquela ponte sabia que estava com os sapatos errados, umas sapatilhas que escorregam e a água do rio tinha sua força, apesar de ser rasa. As pedras também me deixaram um pouco intimidada, tirei os sapatos e pensei um pouco em como resolver o assunto. Perguntei aos rapazes se achavam que poderia dar a volta, mas eles não sabiam, pensaram em atravessar a ponte e me dar a mão, mas duvidaram se aguentaria o peso de duas pessoas. A gente estava pensando em algum jeito, quando o filósofo apareceu no outro extremo da ponte, ao lado dos rapazes da produção e disse:

-Iara?

Confirmei que era eu e comentei que estava pensando duas vezes em atravessar a ponte, mas faria isso, estava só calculando o lugar.

E ele respondeu:

-Confie na sua sabedoria e atravesse.

Disse a ele que não era uma questão de sabedoria, mas de cálculo.
Me senti constrangida, esse papel de menina-moça frágil nunca deu certo para mim, então segurei a respiração e atravessei, sentindo aquela corda se mexer.

A maioria das pessoas que vai ser entrevistada em um programa de televisão sabe que muitas coisas ali dependem da edição e da boa vontade de quem entrevista, então é normal se aproximarem e perguntarem tudo o que podem, antes de dar a entrevista. Me acostumei a isso e a demora de alguns convidados em se arrumar. 

Porém esse filósofo fez o contrário, se aproximou e começou a me fazer perguntas pessoais, queria saber minha idade, cidade que tinha nascido e formação. Insistiu nessa parte, queria saber o que eu tinha estudado.

Nessa emissora que eu trabalhava tinha um grande jornalista, em algum momento me irritei com tanta pergunta, tive a impressão que ele não queria me dar a entrevista e estava procurando desculpas, então disse a ele que o jornalista da emissora não ia a casa de ninguém, mas eu poderia conseguir que esse filósofo fosse a emissora onde seria entrevistado por esse jornalista. Ele me olhou e disse:

-Não preciso ir lá, vou fazer a entrevista aqui com você.

O diretor que acompanhava a equipe me puxou a um canto e me disse para ficar fria e ser gentil, o convidado era o filósofo e eu tinha que aguentar qualquer coisa que ele me dissesse, mas respondi que me senti diminuída, como se não fosse capaz de fazer a entrevista.

O filósofo se aproximou e me perguntou se podia olhar o roteiro e eu entreguei. Assim que ele se afastou eu disse ao diretor  ''porra, qual o problema desse cara?''.

Voltei ao lugar e ia começar a entrevista quando o filósofo me perguntou:

-Você tem certeza das perguntas? Já decorou?

Escutei claramente quando os outros dois rapazes da produção que trabalhavam na luz e som, disseram  ''vixi, ele não gostou mesmo dela, acho que torceu para que caísse no rio''.

Começamos a gravar a entrevista e de repente o filósofo interrompeu e disse:

-Eu não confio em você.

Cancelar uma entrevista é um dos processos mais complicados do mundo, atrapalha a todos. Você usa o carro da emissora ou eles te pagam o táxi, te dão a equipe que vem com equipamentos que poderiam estar sendo usados em outra reportagem, tem dia marcado para ir ao ar e tem um custo alto, que começa desde que as ligações procurando o entrevistado são feitas. E se a gente  ''fura'' uma entrevista depois leva gelo da produção, eles não confiam que outra pode ser feita.

Pensei nisso durante segundos e vi o diretor me fazendo sinais para continuar a entrevista, mas eu sempre fui meio cabeça quente e de falar as coisas, não aguentei a ele e disse que tinha que fazer a entrevista, era um bom negócio para os dois, ele precisava da divulgação do livro e eu tinha que voltar com material para a emissora e disse também que era natural que duas pessoas não se gostassem, mas era uma questão profissional, ele não tinha gostado de mim nem eu dele, mas tínhamos um compromisso a cumprir.

E ele respondeu:

- Por que eu teria que confiar em uma pessoa que não confia nela? 
Você não confiou na sua sabedoria para atravessar uma ponte. Será que está capacitada para alguma coisa na vida?

O diretor sentiu que era uma ofensa e achou melhor fechar a entrevista, mas o filósofo ficava ali fazendo cara de inocente e resolvemos seguir o  ''roteiro'' e terminar rápido com a entrevista. 

Não dei a ele a folga que dava a muitos, fazia uma pergunta e deixava ele falar, pensando que o editor que se virasse com o material.  Não perguntei nada além do combinado e terminei logo. 

Ele se levantou e ofereceu um chá, que todos aceitaram. Quando ele foi à cozinha o diretor me disse:

-Não bebe nada Iara, acho que ele vai jogar veneno na tua xícara!

E volta o filófoso com aquela cara lavada, se senta e me pergunta:

-Você tem planos para continuar estudando?

Sim.

-Vai estudar o que ?

Não sei.

-Tenho certeza de que vai ser uma ótima coisa, vai te ajudar muito.

Nunca, nunca, me senti tão humilhada profissionalmente,  não era uma menina, tinha estudado e esse filósofo estava me tratando como se eu fosse uma big brother, sem noção de nada.

O diretor quis amenizar e se meteu na conversa falando sobre o lugar, como a casa era bonita. Então o filósofo respondeu que a casa era linda, tinha uma energia incrível, rodeada de arvores e ao lado de um rio, um lugar para qualquer um se sentir bem.
Podia ter ficado quieta, mas não aguentei e disse:

-É, a casa é incrível, pena o dono que faz questão de que ninguém se sinta bem aqui.

E veio ele:

-Te incomodei em alguma coisa querida?

Sim, ficou o tempo inteiro duvidando da minha capacidade de fazer a entrevista.

-Ah, não sou eu que faço isso, é você. Coloquei aquela ponte de propósito, assim sei logo com quem estou lidando. Existem dois tipos de pessoas no mundo, um tipo me parece agradável, o outro não.

E como seria isso?

-É simples, se a pessoa confia na sabedoria dela atravessa, percebe logo que não existe perigo, mas se a pessoa só confia no que aprendeu, vai resistir, porque ninguém aprende a atravessar pontes na vida. Você é o segundo tipo, tem a sabedoria do papel, confia no que aprendeu, no que te disseram, no que leu, mas não confia na tua sabedoria. Também já fui assim, tenho três doutorados, me escondia debaixo do papel porque não confiava em mim, me sentia mais confortável atrás da sabedoria dos outros. Por isso te disse, estude bastante, faça mestrados e doutorados, porque é tua escolha viver debaixo da asa do que te ensinam, em vez de descobrir quem é e confiar na sabedoria que adquiriu ao longo das vidas que já teve.

E  diretor quis me ajudar e disse:

-Na teoria é fácil falar, mas o mundo é duro, com diploma as portas se abrem, não adianta negar, o senhor é famoso, respeitado, rico, seus doutorados não foram à toa.

-É aí que você se engana. Eu vivia de bolsa, estudei muito e tinha salário de professor universitário, você acha que poderia comprar esta casa? Mas alguma coisa me sufocou e um aluno me sugeriu  ir ao deserto para pensar. O deserto somos nós, quando estamos ali não tem ninguém por perto e percebi rapidamente que meu ''conhecimento acadêmico'' não me servia de nada, eu precisava fazer  coisas para sobreviver  conforme minha intuição dizia, não tinha orientador ali. E sou a favor da carreira acadêmica, não me arrependo, mas cheguei a conclusão que existem duas sabedorias neste mundo, a nossa e a alheia e podemos escolher em qual confiar e seguir, mas é claro que confiar na nossa é mais arriscado porque não sabemos o resultado, já a dos outros pelo menos podemos saber o resultado de antemão. Não é sobre o dinheiro, fama, nem respeito, eu escolhi deixar minha sabedoria vir  à tona, não desprezo nada do que aprendi, pelo contrário, sou grato, mas eu precisava me conhecer e aprender a confiar em mim. Estamos vivendo em uma sociedade sufocante onde o diploma se tornou o único caminho para uma vida melhor, mas isso não funciona para  todos, algumas pessoas são mais inquietas e precisam de outros caminhos, temos que respeitar e apoiar essa decisão.
Você nunca escutou alguma história de alguém que se realizou na vida sem diploma?

O diretor vinha de uma família rica e começou a contar um milhão de histórias sobre o bisavô, que era miserável, mas abriu um pequeno comércio, depois comprou farmácia, enfim, o homem analfabeto, mas conseguiu se superar.

E o filósofo completou:

-É isso que digo, não é sobre o dinheiro, é sobre fazer as coisas seguindo sua intuição, imagine se ele tivesse ficado parado no tempo, esperando ter dinheiro para entrar em uma escola e estudar administração. Não temos esse tempo na vida, temos que decidir rápido se seguimos os outros ou  nos arriscamos no nossa sabedoria. Você viu a Iara, ela parou na ponte porque sua mente avisou que ela não tinha conhecimento registrado sobre a situação, então ela preferiu recuar.

Mas eu atravessei!

-Porque estávamos do outro lado te garantindo ajuda em caso de problemas. Teria atravessado sem ninguém?

Não sei, não pensei no caso.

-Não pensou porque não tem registro, nem confia na sua sabedoria, filha, todos nós temos nas costas dúzias de passagens pelo planeta, você tem informação acumulada como todo mundo, sabe as respostas, mas se está insegura continue estudando e siga os caminhos que já foram trilhados. A escolha é sua, a vida é sua e só existem dois caminhos no mundo, o teu e o do outro.  Faça sua escolha, mas posso dividir com você um pouco da minha experiência, caminhos alheios já trilhados em algum momento nos enchem de tédio, parece que a vida estaciona, o mundo deixa de girar. Caminhos nossos são excitantes porque são desconhecidos e nunca se repetem. Mas é como sempre digo, cada um sabe os motivos de sua escolha. Faça a sua.

Iara De Dupont

Um comentário:

Carolina disse...

Amei!!!
Beijos,
Carol

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