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07 novembro 2014

O buraco é mais embaixo ( literalmente)



Se existe um assunto que não domino e não tenho a remota ideia nem do básico é a sexualidade humana. E se ainda for dividir por gêneros piora, não posso nem dar palpite.
O que pouco que sei (ou nada) aprendi pela vida e escutando as pessoas, mesmo assim há pouco tempo percebi que toda a informação que chegava aos meus ouvidos já vinha distorcida e mastigada.

Quando escrevi o post ''Errou de buraco? foi porque me lembrei da situação e entrei em contato com a pessoa mencionada, mas não pensei nas conseqüências do post, nem no dia seguinte.

Nele contei a história de uma discussão sobre homens que  ''erram o buraco'' e acabam fazendo sexo anal com a parceira sem avisar. Na minha ingenuidade isso deveria acontecer com algumas mulheres, mas em poucas horas minha caixa de e-mails ficou lotada.

No post mencionei a desculpa dita por um homem ''errou no buraco'', mas nas centenas de e-mails que recebi vinham outras, como ''escorregou'', ''não prestou atenção'', ''tinha bebido'', ''a mulher se mexeu demais (?)'', até a terrível  ''fiz pra te mostrar como é bom''. Foram e-mails de mulheres casadas, namorando, não eram episódios de noites casuais, mas sim que tinham acontecido com o homem que elas confiavam.

Não preciso entrar em detalhes se falar ''estupro por um desconhecido'', mas é lamentável ver quando esse ocorre na esfera íntima, dentro de casa, e o homem acha que não fez nada de errado. Me pergunto até onde vai essa educação tenebrosa que nós mulheres recebemos em relação a vida sexual e ao nosso corpo.

Um homem que sai às ruas para estuprar sabe que está errado e cometendo um crime, nunca vi um deles dizer que não tinha ideia do que estava fazendo, mas quando acontece em casa parece normal, o homem não é um estuprador. Essa é a diferença que eu não entendo.

Na faculdade fiz um trabalho e mencionei alguma coisa sobre estupro conjugal, o professor corrigiu meu trabalho e colocou na prova que não existia  ''estupro conjugal''. Fiquei chocada, ele vinha de faculdade particular, a mais cara de São Paulo, tinha mestrado, doutorado e foi capaz de dizer isso. Esperei a aula acabar e fui conversar com ele, que me recebeu com tédio, expliquei que além de existir o estupro conjugal também é considerado crime. Ele riu e me disse:

-Iara, vamos usar a lógica? Se uma mulher se casa é porque está apaixonada ou seja, ama seu marido e vai querer ter relações, então não existe estupro conjugal.

Argumentei tanto que ele abriu seu tablet e jogou no Google, viu que existia e ficou quieto, mas no dia seguinte vi minha nota online e ela estava mais baixa. Fui  perguntar o que tinha acontecido e me disse que mesmo eu tendo razão e o estupro conjugal existindo, a frase estava mal feita, a construção do texto era péssima e nada ali fazia sentido. Fiquei com a impressão que ele fez por represália, mas não disse nada.

O que eu escuto desde criança é que homens têm que pressionar a mulher, caso queiram ter sexo. Mulheres são indecisas e adoram fazer jogo duro e manipular, por isso é importante insistir e empurrar para a parede. Já tive amigos que me confirmaram essa teoria e incluíram aquela mais assustadora ''mulheres quando dizem não estão querendo dizer sim'', não conheço nenhuma frase mais apavorante do que essa.

E homens crescem com essa ideia, no mundo deles mulheres não são capazes de saber o que querem ou não na cama, se o homem não pressionar e mostrar por onde a coisa vai,  a mulher não vai saber.
E de um lado a conversa é essa, pressionem e empurrem e do lado das mulheres, é fiquem quietas e aguentem.

Se penso no contexto de ser humano acredito que as duas experiências devem ser traumáticas, tanto aprender a  ''ser'' homem como a ''ser'' mulher, mas sou obrigada a dizer que o peso na vida das mulheres é maior.

Em uma ocasião estava com meus primos na casa de uma tia e eles começaram a falar besteiras. Um deles contou que a namorada não gostava de fazer sexo oral nele, então todos os primos começaram a dar sugestões para dobrar a moça. Falaram disso durante horas, mas ele teve todas as orientações boas e ruins para resolver a situação. Não escutei ninguém dizendo para respeitar a moça, ela estava no seu direito de não gostar de fazer.

Já eu estava com um namorado e as coisas não estavam dando certo na cama, então um dia sugeri a ele que pensássemos em alguma coisa diferente. Ele se aproximou de mim, segurou meu queixo com uma mão e me disse  ''desde quando você ficou tão ordinária?''. Tive vontade de vomitar naquele momento e recuei, não disse mais nada.

E não foi o único que disse uma coisa assim, levei anos para entender que os homens fazem uma separação muito simples, acham que as mulheres são umas santas e putas ao mesmo tempo, caso uma delas peça alguma coisa diferente na cama, então é o lado  ''vadia'' vindo à tona. Não conseguem olhar para a mulher e pensar que tudo ali é expressão da sua sexualidade, não existe nem a santa nem a puta.

E sou a favor de tudo na cama, desde que todos estejam de acordo. A maioria dos emails diziam que o homem forçou o sexo anal sem avisar porque queria provar que a mulher poderia ter prazer com essa nova modalidade, mas como a mulher se negava então ele resolveu mostrar do jeito dele.
Essa é a outra linha de pensamento masculino,  acham que são eles que têm que nos mostrar o caminho do prazer, são eles que sabem o que gostamos ou não, acreditam na loucura de que somos umas idiotas a disposição, umas bonecas infláveis a mercê de suas fantasias.

Uma menina de quinze anos leu o post e me perguntou  ''como  faço para saber se o homem vai respeitar minhas decisões na cama?''.

O que eu respondo? Também não sei. Nas histórias que recebi o rapaz era ótimo, só errou de buraco. E como confiar em um homem? Não sei. O que digo para a menina? Que jamais fique de costas na cama? Que tenha uma faca embaixo do travesseiro? E conto para ela sobre o email de uma moça falando sobre seu casamento? A moça namorou sete anos um rapaz maravilhoso, teve relações com ele e eram muitos felizes, mas no dia do casamento, na noite de núpcias ele  ''errou de buraco'' porque queria uma coisa diferente e que ela nunca se esquecesse dessa noite, mas alguma coisa deu errado e ela acabou no hospital.

Ah, mas existem homens legais!

Sinceramente, hoje não sei dizer. Diante de tantos e-mails até eu mudei de ideia em relação a algumas coisas. Até eu comecei a ver sombras nas paredes. Hoje entendo porque tantas mulheres têm medo dos homens, parece que eles não são confiáveis em nada mesmo.

É parte da educação que eles recebem, empurrar, forçar, pressionar, chantagear e é parte da nossa educação calar e fingir que não acontece nada. Socialmente é o casamento perfeito, tanto é assim que pouco se fala dos estupros que acontecem em casa, apenas mencionam os da rua, aqueles que estranhos malucos estupram as mulheres, mas os estupros cometidos pelo doce marido e generoso namorado ninguém sabe, ninguém viu.

E o pouco que sei da vida é o seguinte, o repressor não vai bater na porta e se desculpar, quem estupra a esposa não vai pedir perdão, são as mulheres que têm que começar a reagir e colocar um basta em tudo isso. Sexo é bom quando as pessoas estão de acordo no que vão fazer, sem o consentimento de uma das partes não é sexo, é estupro.  Os homens têm ao seu lado um mundo machista, uma sociedade misógina e ainda por cima contam com o silêncio das mulheres. Chega disso, eles podem ter o apoio do planeta, mas que não tenham mais o silêncio das mulheres.

Iara De Dupont

4 comentários:

Suzana Neves disse...

Clap clap clap fecho, mas em caso do cara escorregar escorregue a mão.na cara indivíduo .

Anônimo disse...

É só você dizer que qualquer coisa não consentida é estupro, mesmo que tenha sido o marido ou o namorado que fez, que o mundo cai na sua cabeça. É muito mais fácil pra esses machinhos fingir que só psicopata armado no beco escuro é estupro do que ouvir a mulher e respeitá-la. É mais cômodo tratar a mulher como brinquedinho sexual do que vê-la como um outro ser humano que tbm quer ter prazer e tem desejos próprios. Mas como vão se manter nessa agradável ilusão se lhes disserem que na verdade estão cometendo estupros? Que aquele brinquedo tem tanto direito e são tão humanos quanto eles? Ah, mas é difícil demais se relacionar com pessoas. Esses caras querem mesmo é os seus brinquedinhos de carne e osso.

Anônimo disse...

Eu não confio em homem nenhum mesmo. Sempre estou alerta. SÓ transo com camisinha, por mais que seja namorado, sabe-se lá se o cara não tem alguma doença e mesmo estando namorando, quem garante que ele não trai? Quanto a prática sexuais já deixo claro o que não gosto, se insistir em alguma coisa que eu não queira fazer, eu termino o relacionamento ou caio fora, não tenho muita paciência com homem, não. Infelizmente muitas mulheres não tem consciência de que são estupradas e muitas acham que devem fazer o que não gosta só para agradar o homem ou porque é o dever dela.

clarissa disse...

estupro é estupro e fim... se uma pessoa disse "não", ela quis dizer "não" e era isso... porém, eu sou de uma geração ensinada a dizer "não", querendo dizer "talvez"... inúmeras vezes provoquei para ver se o cara insistia... fui ensinada a seduzir negando e cedendo aos poucos...fui educada para casar virgem... depois de adulta, assumida minha sexualidade, que consegui entender que ninguém tem que me forçar a sexo, que sexo não é moeda de troca, que eu tenho que ter prazer...mas minha formação não foi essa... quando fui casar, o conselho de minha mãe foi "às vezes temos que fazer algumas coisas que não queremos -na cama- para agradar e manter o casamento" creia-me, com 26 anos ouvi isso!! agora pensa, se eu fui criada assim, imagina a geração do meu marido como foi educada? ensino minhas meninas que o corpo é delas e que elas mandam em seus corpos, mas quem está educando os meninos que vão ficar com elas? estão sendo ensinados a insistir quando a menina diz não? complicado, né, iara?

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