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13 novembro 2014

Não estou defendendo os homens, apenas contando uma história....



Me formei em um grupo de teatro onde tudo era diferente. Não sei se era o método aplicado, mas as pessoas viviam em carne viva e qualquer coisa gerava um atrito.
Já se passaram anos e ainda carrego a sensação de que não entendi tudo o que aconteceu ao meu redor. Tive sorte de ter uma grande amiga ali e isso amenizou o tempo, não sei dela hoje, mas sempre que nos encontrávamos voltávamos ao assunto e aos dias sem explicação que vivemos lá dentro.

O diretor era um homem bastante rígido e distante, rara vez se aproximava e quando o fazia a pessoa estava em problemas, com sua voz mansa ele dizia horrores.

Nunca soube o que ele pensava de mim, mas me tratava com indiferença ao mesmo tempo em que parecia entender minha dificuldade de adaptação.
O grupo era fechado, grande parte dos alunos era esnobe, se achavam os melhores atores da cidade e tinham um pouco de razão. A soma do método de interpretação com a direção exata e os cansativos ensaios sempre rendia trabalhos de atores acima da média e todos que estávamos ali sabíamos disso.

Muitas festas aconteciam, mas só o pessoal do grupo ia, não deixavam mais ninguém entrar. Em uma delas, no meio da madrugada, uma moça subiu na mesa da sala, ficou nua e berrou:

-Fui me esfregar com fulano e ele não me quis! Olha tudo o que perdeu aquele otário, eu aqui querendo dar e o idiota nem quis tirar a roupa e me mandou sair do quarto!

Os homens começaram a urrar como animais, até que outra atriz percebeu o constrangimento da cena, pegou uma toalha, cobriu a moça e a tirou dali.

A moça que ficou nua era lenda na escola, boa atriz, de família de atores famosos,  também trabalhava em novelas e dirigia um carro importado. Mas tinha um péssimo caráter, metida à diva e por ser uma das veteranas se achava no direito de humilhar a todos, inclusive os novatos. Era conhecida por sua crueldade e prepotência.

E ela começou a namorar esse ator, o que não quis ter relações com ela, também de  família de famosos,  mas um raro caso de talento que eu nunca vi antes. Ele era absolutamente perfeito, um dos maiores atores que já conheci. Tinha uma beleza de anjo, os cabelos pretos, encaracolados em um rosto lindo com dois enormes olhos verdes. Tinha convites de todos os lados para novela e cinema, mas nunca aceitava nenhum. Fez apenas uma série na televisão e nunca mais voltou.

Como ele era veterano só o víamos nos ensaios e não falava com ninguém, por isso a fofoca sobre ele sempre corria solta. Teve gente que dizia que o moço sofria de depressão, pânico ou ansiedade, porque só saia de casa para os ensaios e apresentação, não trabalhava em mais nada e como a família era rica não precisava se mexer.
Alguma vez escutei que ele era assim porque queria se dedicar apenas ao teatro, não gostava nem de cinema e televisão.

Ele começou a namorar essa moça, todos os viam juntos e pareciam um casal normal, até o dia que ela subiu na mesa aos gritos.

Dias depois um grupo de atrizes estava em uma sala, o ensaio tinha terminado e alguém puxou o assunto da moça e do rapaz,  todo mundo tinha uma teoria de porque  o rapaz se negou a ter relações sexuais com aquela fulana. Fiquei escutando e no fim disse  ''gente, ele deve ser gay''.

Eu era muito garota e não minha cabeça não existia uma segunda possibilidade, se o rapaz se negou é porque era gay.

Justo nessa hora o diretor entrou e deve ter achado que fui a única a comentar sobre o assunto porque mandou todo mundo sair da sala, menos eu, puxou uma cadeira e se sentou perto de mim.
Percebi na hora que ia levar uma daquelas broncas malditas, que duravam horas. E ele começou:

-Você estava falando de fulano?

Sim.

-E afirmou que ele é gay porque se negou a ter 
relações com a namorada?

Sim.

-O teu ponto de vista sobre essa história é esse, ele é gay. A história não tem interessa, você não é nem a moça, nem o rapaz, mas garante que ele é gay.

É que...

-Nada, não é nada. Já tentou dar aos outros os mesmos direitos que você tem?

Professor, eles não eram namorados? Não era sexo casual.

-Então é gay?

Não sei.

-Se você começa a namorar não tem nada que te deixe constrangida, ou algum complexo? Consegue pular direto na cama do seu namorado?

Eu tenho complexos, mas eu sou mulher né? Todos os dias sou massacrada pela ditadura da beleza.

-E os homens não?

Não sei, não sou homem.

-E não pode tentar pensar com um durante um segundo? É tão difícil assim se colocar no lugar do outro? Que tipo de atriz você quer ser se não entende a dor do outro, apenas porque não é do mesmo gênero? Você acha que ele não pode ter complexos? Vergonha do próprio corpo? Talvez do tamanho do pênis? No teu mundo todos os homens se jogam nas camas e ficam nus sem constrangimentos?

Não sei......

-Então comece a tentar   ''saber'' antes de sair dizendo que o rapaz é gay. Queria ver se fosse você, que decide não ter relações um dia porque está cheia de complexos e começa a escutar pelos corredores que é lésbica.

Dito isso se levantou e foi embora. Mas eu não entendi nada, ainda estava babando de ódio porque me senti traída, eram cinco atrizes na sala falando mal do rapaz e só eu levei bronca.

Alguns anos depois desse incidente fui a uma palestra sobre síndrome de pânico, mas cheguei cedo e estava terminando uma sobre Viagra, um medicamento usado para melhorar a potência sexual nos homens. Como estava com preguiça me sentei e fiquei escutando. Tudo que é dito pelos laboratórios eu duvido, mas essa palestra era interessante e uma médica disse que hoje no mundo inteiro, 47% dos homens com menos de quarenta anos sofrem de disfunção eréctil. E os motivos de tantos casos são o fumo, drogas, bebida, stress, poucas horas de sono, má alimentação e o excesso de filmes pornográficos, os rapazes ficam vendo aquilo ali, esquecem que existe maquiagem e edição, começam a se sentir desanimados, a autoestima começa a descer, achando que nunca vão ter aquele ''desempenho’’ do filme e acabam tendo sérios problemas de ereção.

Fiquei escutando e lembrei da história do rapaz, na minha visão simplista era gay, mas tantas coisas poderiam ter acontecido naquela noite! De repente ele tinha algum problema ou complexo de tamanho ou do corpo.

Mas como ninguém fala disso eu não podia adivinhar!

Só lembro de um primo que tinha vergonha de tirar a camisa porque emagreceu e ficou com um pouco de gordura nas mamas, mas não lembro de mais nada, todos os homens que conheci, inclusive da minha família tiravam a roupa sem problemas.

Hoje sei que complexos, traumas e vergonhas fazem parte do ser humano, sem importar o  gênero. É claro que os homens contam com a margem de tolerância da sociedade, ninguém exige nada deles em questão de aparência, nem os massacra diariamente, mas isso não impede que o rapaz se sinta mal por algum motivo que só ele conhece. 

E algumas mulheres, como esse moça da mesa, não sabem lidar com traumas alheios, eu também não saberia porque nem pensei que existissem, mas a maioria das mulheres somos assim, porque ninguém nos disse nada sobre complexos masculinos.

Dizem que eu só alerto as mulheres em relação aos homens, pois é, mas neste caso vale para os dois lados. O coração humano é uma rede de fios, qualquer mexida errada ali faz as mágoas explodirem.

Iara De Dupont

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