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11 novembro 2014

A rede do silêncio e a história que nunca contei


Durante um tempo era parte do meu trabalho encontrar pessoas que trabalhassem com o lado místico da vida, como os xamãs. E aproveitava quando conhecia algum para perguntar sobre a síndrome do pânico, doença que me atormentou por anos.

Em uma visita a um xamã pedi a uma amiga que fosse comigo. Era muito longe, mais de uma hora de carro, saindo da cidade, em um lugar bem isolado. Essa amiga era como uma irmã, uma das pessoas mais doces que já conheci na vida.

Chegamos no lugar em um sábado à tarde. Eu entrei primeiro, conversei com ele e comentei sobre meu pânico. Ele me perguntou se alguma mulher sofria disso na minha família, e eu não soube dizer, então me disse:

-Você sabe o que são elos? É um elemento que une. Teu sofrimento não é teu, é um elo que te liga às mulheres de tua família. Você precisa saber quem delas sofreu de pânico e então posso te ajudar, antes disso não, porque você não é uma mulher, é parte de todas as mulheres de tua família.

A minha amiga escutou a mesma coisa e fomos embora.

O que ele tinha me pedido não parecia fazer sentido, mas hoje, quinze anos depois, sei que estava certo, a ciência já bateu o martelo e admite a possibilidade de um DNA emocional, herdamos a maneira de  ''sentir'' a vida da nossa  família, herdamos os sentimentos e a maneira de lidar com eles. Agora entendo claramente o que ele queria dizer, era como se fosse um médico me perguntando o meu histórico familiar para identificar melhor a doença.

No dia seguinte fui à casa da minha avó, perguntei a todas as mulheres da família se já tinham sofrido algum ataque de pânico, mas todas disseram que não. Com a minha insistência me contaram histórias fragmentadas, minha mãe disse que tinha ataques de pânico quando tinha que sair de casa e deixar meu irmão que era bebê. Uma tia lembrou que teve alguns ataques,  mas não lembrava os detalhes. Minhas primas me olharam com indiferença e negaram ter sentido pânico. E minha avó se surpreendeu com minha pergunta, mas negou ter sentido pânico. Outra tia ficou um pouco indignada e me disse:

-Iara, somos uma família de mulheres fortes, todas somos uma fortaleza, pânico não é uma coisa que possamos sentir.

É, eu também não podia sentir pânico e sentia, não foi minha escolha. Mas não pude fazer nada, se ninguém jamais teve pânico, não iria insistir.

Uns dias depois liguei para minha amiga e avisei que ia com o xamã, eu tinha prometido voltar com uma resposta. Achei que minha amiga não ia querer ir, porque a primeira vez foi cansativa, mas ela aceitou.

Saindo da cidade vimos alguma coisa, não lembro o que, mas no provocou muita risada e passamos todo o caminho rindo, mas o tempo ia mudando e quando chegamos no lugar fazia frio e começava a escurecer.

Novamente fui a primeira a entrar e expliquei minha situação ao xamã, não tinha as respostas que ele precisava para me ajudar no processo de cura do pânico. E ele respondeu:

-Gostaria de te dizer que você é a única mulher que voltou e me disse que não tem respostas. Mas não é, parece que todas as que atravessam essa porta dizem a mesma coisa. Não posso te curar, eu curo os elos, não o indivíduo. Já viu uma rede de peixes? Ficam todos lá dentro, sufocados, morrendo devagar. Exatamente como as mulheres morrem neste mundo agora. Vocês se condenaram no silêncio, não falam nada, engolem as coisas e não passam nenhum ensinamento as novas gerações. Sofrimento e amor são elos construídos ao longo de séculos. O silêncio das mulheres quebra esse elos e as deixam frágeis, perdidas no mundo. Nós índios temos a tradição oral, as avós sentam com as netas, filhas e passam seus conhecimentos. Vocês não têm tempo, ficam com vergonha, fingem que não sabem de nada e nada aconteceu. Sacrificam suas filhas e netas no silêncio. Se recusam a ensinar a viver, a lidar com a dor, não fazem dos seus erros um ensinamento a nova geração, nem dos seus medos a luz que ilumina o caminho de quem chega. Você tem pânico e eu não posso te ajudar, porque não tenho nenhum elo das mulheres da tua família. Você esta sozinha porque elas te deixaram sozinha. A única coisa que você pode fazer é tentar ser um elo para as próximas gerações, construa com tuas palavras uma ponte para que as mulheres que chegarem a família possam atravessar mais tranquilas. E se um dia elas vierem aqui, quem estiver no meu lugar talvez possa ajudar. E nunca esqueça, silêncio não ajuda ninguém, ele só serve para queimar pontes e quebrar elos.

Sai de lá sem saber o que dizer nem o que pensar. Me sentei em um banco de madeira no jardim enquanto esperava minha amiga. Senti o vento gelado, o tempo que tinha virado, a sensação da chuva se aproximando. Minutos depois minha amiga saiu, se sentou do meu lado e disse:

-Não deu certo para mim, não trouxe as respostas que ele me pediu.

Eu disse que também não tinha conseguido nada e ela continuou:

-Mas eu tentei Iara, juro que tentei. Mordi a língua, engoli a vergonha, falei com todas sabe? Pensei várias vezes se estava pronta para as respostas, mas respirei fundo. Foi a coisa mais difícil que já fiz na minha vida, chegar a cada uma delas e perguntar, ''olha, desculpa a indiscrição, mas você já foi estuprada?''.

Naquele momento meu coração parou. Sentia o vento gelado, minha respiração, mas não sabia o que dizer, nem conseguia organizar meus pensamentos. Minutos antes o xamã me explicava como todas as mulheres vivemos no silêncio e isso nos corrói, condena a vida. E eu estava lá, ao lado da minha melhor amiga, minha irmã, confidente, tão amada por mim e não conseguia dizer nada porque minha mente assimilava de maneira lenta o que ela tinha dito entrelinhas. Ela nunca falou nada sobre ter sofrido violência sexual. Eu a queria abraçar, dizer que íamos procurar um milhão de xamãs se precisasse, mas ela ia encontrar um jeito de se curar do que tinha acontecido, mas minha língua estava travada.

Lembro do barulho dela entrando no carro e me chamando, o caminho de volta a casa foi pesado, silencioso. Sempre que saíamos a qualquer lugar acabávamos em uma lanchonete comendo batata frita. Aquele dia não falamos mais nada no carro, foi uma longa viagem e ela me deixou na porta de casa e foi embora.

Quando entrei na sala era a festa de aniversário de uma das minha tias, todas faziam barulho e fiquei ali parada uns minutos olhando e pensando que não conhecia nenhuma delas, eram todas estranhas, eu não sabia das dores nem da vida de nenhuma, conhecia seus gostos, mas não seus traumas, suas conversas rasas, mas não seus sentimentos ocultos, seus conselhos superficiais, mas não seus avisos importantes. Eram todas estranhas, distantes de mim.

Passei dias pensando no que tinha acontecido e me sentindo cada vez mais sozinha. Minha avó, mãe, tias, primas, nunca me contaram nada sobre a vida e seus perigos, não sentaram comigo ao redor do fogo para contar histórias. O máximo que escutei foi sobre nunca beber nada que um homem me desse, era sempre para pedir bebida fechada. Escutei rumores sobre algumas primas, que passaram por algum episódio de violência sexual, mas tudo foi tão escondido que não posso contar a história porque não tenho suficientes elementos. Se alguma mulher  da minha família passou por isso eu não sei.  É como estar debaixo da rede de silêncio que sufoca os peixes, como o xamã falou.

Vi minha amiga muitas vezes depois desse episódio, até cheguei a ensaiar o que dizer, mas ela vinha na minha direção com aquele lindo sorriso e eu não sabia mais como tocar naquele  ''assunto''.  Ela nunca mencionou a visita ao xamã e eu respeitei isso. Quis dar meu apoio, oferecer meu amor incondicional, mas nunca consegui abrir a boca, fiquei presa à rede de silêncio que cobre todas as mulheres. Aprendi tanto com ela e nunca pude retribuir tudo o que me ensinou, nunca consegui verbalizar meu apoio.

Um péssimo casamento me afastou dela, seu marido não gosta de mim e com o tempo as coisas se dissolveram.

Queria dizer a ela que todos os dias tento romper a rede que me cobre, tento criar os elos que podem unir minha história e que nunca esqueci o que aconteceu naquela noite. Ainda sinto o vento gelado cortando minha respiração.  E quando penso que a única coisa que existe entre eu e uma grande amiga é o silêncio sinto o peso da rede e lembro do xamã dizendo ''o silêncio é a base da infelicidade de todas as mulheres''. E esse mundo pode ter nos levado a calar, mas meu amor é eterno, minha amizade sempre vai ser uma porta aberta, onde quer que ela esteja. E quero que ela saiba, um dia essa rede de silêncio que nos aprisiona a todas vai se romper e os elos vão se reconstruir novamente e sei, tenho certeza, que esse dia todas vamos nos curar da dor que carregamos, desse silêncio que já levou a tantas. Fê, pode acreditar, esse dia vai chegar.


Iara De Dupont


6 comentários:

Anônimo disse...

Esse é o post perfeito para te dizer uma coisa que penso em dizer ha alguns dias.O que voce fala aqui no blog Iara,vai se refletir para muitas gerações,mudou minha maneira de converser com minha filha de 18 anos,eu não via necessidade de contar a ela sobre minha mente hiperativa e a tendencia a depressão,mas é uma parte da história dela.Eu entendo as mulheres da sua familia,a gente quer preserver a fantasia do mundo cor de rosa para nossas meninas,a gente quer adiar,quer que elas só tomem conhecimento aos poucos,durante a vida,mas tem coisa que não pode esperar,tem coisas que não temos o direito de negar a elas a informação,o alerta,mas é dificil porque não é o mundo nem a vida que sonhamos pra elas,mas é o que tem la fora e todas as ferramentas que ela tiverem para lutar vai ajudar. Não sei se um dia voce terá uma filha,mas saiba que voce fez e faz muita diferença na vida das filhas de muitos.
Bjs
Anna Lara

Iara De Dupont disse...

Anna, muito obrigado pelo teu comentário,fiquei muito comovida, sempre te vejo por aqui e não tinha tido a oportunidade de te agradecer tanto carinho, muito obrigado de coração!Beijo

Poeta da Colina disse...

Chegamos ao mundo sem direção nem manuais, mas temos família, por menor que seja, alguém que possa ao menos dar uma ideia onde estamos chegando.

Linda história.

Carol disse...

Nossa, esse texto me pegou de jeito.
Fui abusada por um primo dos 6 aos 8 anos. Passei anos muito difíceis mesmo depois disso. Só aos 20 tive coragem de contar pra uma amiga o que aconteceu (isso porque ela tinha acabado de contar o que ela tinha passado). Me senti tão bem que resolvi que ia falar sobre o assunto quando tivesse oportunidade.
Falei pra mais algumas amigas, que fizeram de conta que nao ouviram, que diminuíram minha dor como se fosse algo normal (provavelmente pra não ter que continuar falando sobre o assunto).
Iara, se um dia você tiver oportunidade, converse com sua amiga. Sei que nunca foi seu objetivo, mas as vezes a gente tenta falar sobre o assunto, pedir ajuda e as pessoas não querem ouvir. Talvez sua amiga estivesse te pedindo essa ajuda.

C.Belo disse...

Iara, nunca tinha pensado sobre isso, mas agora lendo seu texto tanta coisa fez sentido!

Como a Anna acima disse, seus textos certamente vão mudar a maneira como muitas de nós pensamos, eu mesma farei minha parte...

Flávia Belo disse...

OBRIGADA por esse texto tão simples, mas de uma profundidade incrível!!! Após leitura, sinto-me orgulhosa de ser ESSA a orientação que sempre dei à minha filha, mesmo que sempre tenha sido abertamente CRITICADA, por vezes RIDICULARIZADA, por ser assim, ter essa característica de me abrir para meus familiares... penso que sempre SENTI (procurava nunca pensar muito, apenas SENTIR) esse como sendo o caminho da libertação e da cura...

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