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30 outubro 2014

Parece pessoal, mas não é


Me perguntam com frequência como é minha relação com primas e tias, já que são tão mencionadas no meu blog. Tenho a impressão às vezes que algumas pessoas fazem uma leitura rápida e pensam que eu ''detono'' minha família, jogo minhas culpas e as tento arrastar ao abismo das minhas dúvidas.

Mas não é nada disso. Minha relação com elas é a mesma de sempre, com quem me dou bem, continuo me dando, com quem nunca me dei, vou morrer assim.

O blog não mudou em nada a relação com elas, continua no mesmo patamar, mas eu mudei. Hoje sou capaz de ver com mais compaixão coisas que não via antes e perceber como o erro de uma foi o erro de todas. Falar das minhas primas nunca foi uma questão pessoal, eu só estava intrigada tentando entender porque todas nós cometíamos os mesmos erros.

Escrever sobre minha família me ajudou a entender o que eu pensava e sentia. Todas fomos vítimas da mesma educação, perdemos tempo precioso cometendo erros grotescos por ignorância, crescemos em ambientes parecidos onde a voz da mulher não valia nada nem se esperava muito de nós. Tenho primas muito inteligentes, mas não lembro de nenhum comentário na família reforçando isso, já os primos eram cobertos de elogios sobre suas habilidades em tudo.

E talvez foi coincidência, não sei, mas não planejei escrever sobre minha família, pensava manter a promessa que  minha avó fez, ser discreta até o fim e não sair  ''por aí dizendo as coisas''. Mas o problema foi que esse silêncio me sufocou e era questão de tempo resistir a isso, não tive escolha. 

E ao começar a escrever sobre as mulheres da minha família recebi emails de outras tantas que passaram pelas mesmas coisas. Deixaram de ser as mulheres da minha família para serem as mulheres da cidade, do país e talvez do mundo. Todas sufocadas por uma educação ignorante, agressiva, machista e misógina que exigiu de todas que prestássemos atenção a todos, menos a nós mesmas.

Na família do meu pai houve uma farta distribuição genética de maldade, não posso jogar a culpa apenas na educação, a maioria das mulheres ali têm o coração podre, são golpistas profissionais e ladras. Mas na família da minha mãe, com algumas exceções, as mulheres fizeram muitas bobagens guiadas pela má educação, não pela maldade, foram massacradas como eu pelas ideias sem sentido e os falsos conceitos do que é ser uma  ''mulher '' no mundo.

Só quem recebe essa educação que anula entende o que falo. Lembram de nós mulheres quando precisam, se a família falha, então é necessário procurar a mulher para a culpar pela situação, se alguma coisa dá errado é porque a mulher não  ''fez direito''.

Minhas primas assim como eu passamos anos tentando equilibrar um temperamento forte com a educação de  ''seja invisível e caso aparecer, se comporte''.  Foi uma luta interna, sem nenhum exemplo para olhar. Todas minhas tias fizeram péssimos casamentos e entraram naquele círculo suicida de casa-trabalho-marido-filhos.

Os erros cometidos por todas nós foram toscos e poderiam ter sido evitados, além do tempo perdido, mas nenhuma sabia ou tinha consciência da educação que recebeu. Não houve exceções, nem dias de folga, todas fomos vítimas de um massacre social que ''procurava'' nos preparar para o mundo e nosso invisível lugar na sociedade.

E não é só na família, fora dela também recebemos as mesmas doses de ignorância. Tenho amigas e mesmo elas não querendo de vez em quando são machistas. Se eu ligo para uma e digo  ''preciso te contar uma novidade, você não imagina!'', a resposta sempre é a mesma  ''qual o nome, onde você conheceu ele?''.
Ah, não existe  ''ele'', mas para o mundo ''novidade'' de mulher é namoro ou ofertas.

Tenho uma amiga que mostra bem essa situação, saiu de uma cidade do interior, se formou, rodou o mundo inteiro, foi reconhecida na profissão, fez coisas que ninguém tinha feito e nunca disseram nada. Mas no dia que comunicou a sua família que ia se casar fizeram uma festa gigantesca, todos vieram cumprimentar. Ignoraram que vivem em uma cidade perdida e se um dia essa cidade ficar conhecida e entrar no mapa será pelo trabalho da minha amiga, não pelo seu casamento.

Há um bom tempo meu blog deixou de ser sobre as mulheres da minha família, é infelizmente sobre todas as mulheres que foram educadas da mesma maneira, para ser um reflexo do  ''outro'', vivendo como se não existissem, apenas no reflexo do marido, dos filhos e do trabalho, aquele onde faz mais do que os homens ganhando menos.

Todos os dias limpo meu espelho desesperadamente, passo o pano e tento aniquilar a educação que recebi, procuro ver ali apenas meu reflexo, aquele que todos me pedem para esconder.

E sempre senti, não sei o motivo, que minha avó me tratava de maneira diferente, amenizava comigo algumas questões. Acho que via em mim a pouca resistência, sabia no fundo de sua alma que eu não aguentaria um dia da vida que ela levou, nem um mês da vida que minhas tias levaram, nem uma semana da vida que minhas primas levam. Talvez foi isso ou ela viu na minha mão as pedras escondidas, disposta a quebrar todos os espelhos do mundo que não mostrassem meu reflexo. Nunca quis outra coisa na vida além de ser eu mesma e levar as coisas do meu jeito, mas não sabia da quantidade de espelhos que teria que quebrar, que insistiam em me mostrar como um reflexo dos outros, levei anos e ainda faltam alguns, tentando ver apenas meu reflexo.


Iara De Dupont

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